domingo, 25 de março de 2012

Amarelo.

Tinha o pé no pedal do meio, o carro desengatado.
Passavam das dez da noite e a chuva persistia, dando finas agulhadas no capô e nos vidros. Só o barulho dela como trilha sonora.
O sinal ainda vermelho.
Um mar indecifrável e agitado ondulava dentro de mim.
Saudades.
"De quê?" aquelas ondas sussurravam.
Não sei. Mesmo.
Saudades da 336.
Saudades dos óculos grossos dele.
Saudadas da gente unido.
Saudades até mesmo do que eu tinha com aquele Peter Pan.
Respirei fundo.
O sinal para os carros que cruzavam amarelou.
Engatei a primeira.
A chuva ainda caindo.
Eu ainda pensando, o mar noturno ainda me umedecendo por dentro.
Os carros a meu lado partiram.
Eu fiquei. Sem entender.
Pra mim, o sinal voltara ao amarelo, e não ao verde.
Por que eles seguem?
E eu continuo aqui, engatada na primeira, mas sem conseguir tirar o pé do freio?
E as ondas me sobem à superfície azul outra vez.

Natália Albertini.