segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Arriverderci.

Eu andava despreocupada pela calçada da larga avenida, sibilando a música que ouvia.
Tinha os óculos de sol me protegendo os olhos da claridade infinita e os cachos me caindo em cascata sobre os ombros.
Uns dez metros à frente, uma velhinha entrava em meu caminho, vindo em minha direção, vagarosa, com uma bengala, óculos grossos e cabelos adocicadamente avermelhados.
- Vamos trocar? - ela me dirigiu a palavra quando passei por ela.
Eu a olhei, mais baixa que eu, diminuí o volume, e fiz uma cara interrogativa. Ela prosseguiu:
- Eu fico com a sua idade e você, com a minha.
Abri um largo e sincero sorriso, olhando-a aos olhos e pondo os óculos no topo da cabeça.
- Vamos fazer assim: nós dividimos e ficamos as duas com a mesma idade, que acha?
Ela abriu um lindo sorriso de volta, feliz com a sugestão.
- Quantos anos você acha que eu tenho? - ela me perguntou.
Eu sabia que ela tinha mais de oitenta, mas não era isso que ela queria ouvir, então me curvei à sua expectativa:
- Setenta e cinco?
Ela sorriu, plenamente satisfeita, e respondeu:
- Tenho oitenta e oito anos.
Me surpreendi e deixei minhas feições mostrarem isso, o que a alegrou ainda mais. Disse:
- Nossa, mas a senhora está muito bem mesmo! Jamais chutaria essa idade!
- Pois é - seu sorriso não desgrudava-se de seus lábios finos e corados com um batom rosado - eu vim da Itália,
- Não me diga! - eu, sinceramente interessada na história de vida daqueles fios avermelhados e daquela pele docemente enrugada.
- Sim, vim, sim! Já quando era mocinha...
- Parla italiano? - brinquei.
- Si, parlo! E acho tão mais bonito que português, não é?
- Ah, talvez...
- E você? Parla italiano, bambina?
- Não, falar eu não falo. Ma io capito!
Ela riu, alegre.
Um momento de silêncio, nós duas nos encarando.
Completas estranhas admiradas com a plenitude uma da outra.
Começamos a nos afastar, num gesto espelhado.
- Arriverderci! - ela acenou
- Arriverderci! - retribuí e voltei à minha caminhada, assim como ela, à dela.
Antes de eu aumentar o volume de novo, a ouvi falando comigo e me virei, escutando melhor o que ela tinha pra me dizer. E era:
- Você é linda!
Minhas sobrancelhas subiram juntas em afeto e gratidão. Fiz uma reverência, como uma nobre, com um dos pés atrás, e retribuí:
- A senhora também!
Nos sorrimos por mais alguns segundos e então, simultaneamente, nos viramos e voltamos a nossas rotinas.
Mudadas, contudo.
Novas.
E velhas.

Natália Albertini.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sangue ao canto dos lábios.

Três.
Ela estava sentada no muro, com as pernas bem abertas, completamente à mostra nos shorts curtos e listrados, e o torso coberto, exceto pelos ombros, com uma camiseta de alguma banda de heavy metal.
Seu cabelo estava revirado, abrangente e volumoso. Os lábios, molhados de cerveja, avantajavam-se num vermelho profundo, enquanto que os olhos se acinzentavam.
Um de seus braços enlaçava o pescoço de um deles, cuja mão segurava firme e possessivamente sua cintura, com os dedos adentrando a peça listrada.
Ele, à direita, tinha um dos joelhos dobrados, mais próximos ao corpo.
O cabelo enegrecido contrastava com sua camisa branca. Seu cenho era carregado, seus olhos, avermelhados. Na mão livre, um cigarro fumegante. A fumaça saindo de sua boca.
Do outro lado, com uma cerveja na mão, ela tinha o outro apoiado sobre uma de suas coxas.
As pernas dos dois perpassavam-se.
A mão dele aproximava-se muito da virilha dela, quase ao término dos shorts.
Ele tinha os olhos injetados, arroxeados, e os lábios arreganhados num sorriso de escárnio. Os ombros iam largos, e a cerveja na mão escorria, suada.
Três demônios.
Eles três.
Nós três.

Ps.: for you, guys. (: Thanks for all the nights!
Natália Albertini.

sábado, 17 de setembro de 2011

Camisa azul.

Levantei do sofá de cores pastéis e comecei a andar pelo corredor, com os pés descalços no chão gelado e claro, devagar.
Passei pelo quarto, à esquerda, com a cama de casal e a penteadeira, tão familiares.
Passei pelo segundo quarto, também à esquerda, com suas duas camas de solteiro, suas colchas coloridas, a escrivaninha e seu computador e a janela aberta, deixando entrar o sol da tarde.
Passei pelo banheiro, à direita, esplendorosamente grande e claro, com um espelho a me refletir a imagem desgrenhada e trêmula.
Cheguei à cozinha, onde passamos tantos natais e dias comemorativos, comendo e falando alto, rindo e nos censurando, com sua mesa de madeira e seu respectivo furinho, lascado, à ponta, o qual meu polegar já está cansado de saber how it feels to touch it.
A cortina levantou-se um pouquinho com a movimentação do ar, revelando a tesoura escondida no parapeito da janela, e voltou a abaixar-se.
Pisei, por fim, na varanda. Naquele granito verde escuro gélido e acolhedor.
A churrasqueira, a máquina de lavar e os dois tanques me cumprimentaram em silêncio.
Me aproximei da borda do degrau da varanda para o quintal, perto dele.
Ele vestia uma calça social preta, sapatos pretos, e uma camisa azul bem abotoada.
Tinha os olhos de menino por detrás do óculos grossos e o cabelo grisalho, mas cheio, acariciado pela brisa vespertina.
O sol tocava de leve sua pele enrugada e seus cílios, suas mãos italianas manchadas e também as plantas do jardim que eu tanto amava.
Me postei atrás dele e o abracei, envolvendo seus ombros com meus braços e pousando meu queixo em seu ombro.
Ele respirava fundo, com dificuldade, forçando o ar a preencher seus pulmões.
- Por quê? - me ouvi dizer.
- Porque, menina - um golpe em meu estômago ao ouvi-lo me chamar assim - era hora.
Meneei a cabeça.
- Não, ... Por quê?
Ele não respondeu, continuou fitando o vazio, mas então levou uma das mãos a meu braço e me tocou, presente.
Lágrimas frias me escorreram pela face, rolando, desobedientes, enquanto sentia um novo bolo delas me escalar a garganta.
- Menina... - de novo ele me chamando assim, cada vez mais distante.
O chão verde e gelado começou a ceder sob meus pés.
Me agarrei a ele, a aquele homem que era tanto pra mim. Que fora.
Apertei-o com força entre meus braços, mas ele parecia esvair-se.
O bolo de lágrimas subindo e subindo.
Forcei as pálpebras umas contra as outras, senti meus cílios encharcados e abri meus olhos, não só marejados, mas oceânicos.
Meus braços entrelaçavam-se um no outro, minhas pernas esticavam-se, buscando o chão verde, e meu rosto descansava numa fronha molhada, bem como meu corpo, num lençol amarrotado.
De volta pra essa casa, mas sem aquela.
Sem o que um dia foi parte de mim.
Sem ele.
Sem vontade alguma de levantar e continuar.
Contudo, levantei.
A ânsia que tive foi maior, me revirou o estômago.
Despejei no chão o vômito quente e sanguinolento.
Tudo o que dentro de mim se abriga há mais de um ano: falta de você.
E de nós todos.

Natália Albertini.

domingo, 11 de setembro de 2011

Rock. And. Roll.

O barulho da multidão era espalhafatoso, ouriçado.
Ele pulou com um pé de cada vez e olhou para o palco, ali detrás dos panos, pronto, esperando para sua entrada triunfal.
O instrumento vibrou, tão ansioso quanto o público.
Chacoalhou a cabeça com os olhos apertados.
Virou pra trás e viu os colegas relaxando o corpo, se alongando e respirando mais fundo, o de sempre.
Voltou a olhar a iluminação do palco, sentiu na pele a ansiedade das quarenta mil pessoas ali, próximas, e fez uma das cordas da guitarra vibrar.
A multidão foi ao delírio.
Olhou para os companheiros, esperando a confirmação de cabeça de cada um.
Todos pronto.
Respirou fundo.
Outra vez.
Disparou para o palco, onde quase não ouvia o som da própria guitarra, mediante aos gritos de clamor daquela multidão.
Rock and roll.

Ps.: Whitesnake foi! *-* VEM, SYSTEM!
Natália Albertini.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cama.

Deitei e puxei o edredon, sentindo o camisetão se levantar até minha cintura.
Não me importei.
Afundei os cachos no travesseiro e me virei pro lado direito, com o corpo virado pra baixo, na intenção de estalar a parte interna da coxa esquerda.
Clac.
Respirei fundo e ouvi atenta o silêncio do apartamento.
Forcei as pálpebras, entrelacei os cílios.
Quatro horas para dormir e recomeçar a semana.
Minhas ancas e pernas numa dor latente.
Cansaço pré-semanal.
Sorri com aaaaahhh...que sono, acho que vou...

Natália Albertini.