quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Balão.


Linkin Park - Shadow of the Day


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- Eu não agüento mais.
- Não agüenta mais o quê, Bi?
- Isso.
- ...?
- Isso, Beto, isso!
O rapaz de cabelos curtos e meio cacheados, grandes olhos azuis, pele branquinha e nariz arredondado e pequeno, simplesmente “mordogênico”, como eles costumavam denominar coisas ou pessoas que davam vontade de morder, arqueou as duas finas sobrancelhas e fez uma expressão de “dá pra explicar logo?”. Ela impacientou-se e, de súbito, levantou do sofá. Olhou diretamente para ele, mordeu o cantinho direito da boca, como sempre fazia quando nervosa, meneou a cabeça e disse:
- Isso, Alberto! Eu não agüento isso de você não saber reagir, de você não saber o que eu estou prestes a falar, de você não me saber de cor!
- De não te saber de cor? Mas... Espera aí! Como chegamos aqui? Estávamos falando sobre nossa festa de casamento na praia e, de repente, você me diz isso!
- Não muda de assunto! E você quer saber como chegamos aqui? Eu vou te dizer...
Ele ergueu um pouco o rosto e arqueou novamente as sobrancelhas, esperando, curioso e ansioso, pela resposta de Bianca. Ela prosseguiu um tanto quanto transtornada:
- Chegamos aqui simplesmente porque você parece não saber e não querer saber sobre mim! Você parece fazer questão de estar sempre alheio! Você nem sequer discute comigo! E você não muda! Você sempre repete tudo isso. Foi assim que chegamos aqui!
- Mas, querida...
- Sem “mas”! Você me irrita sendo assim! Que ódio! – ela enfatizou a última palavra com intensidade enquanto dava a volta na mesinha de centro e corria corredor a dentro, logo trancando-se em seu quarto.
As paredes, os guarda-roupas, os lençóis, as fronhas, as almofadas e os edredons eram todos brancos. Tinham decidido deixar tudo monocromaticamente daquela forma porque achavam que branco era uma cor que lhes trazia paz de espírito e tranqüilidade. Entretanto, daquela vez o branco apenas a sufocava ainda mais, o branco a estava fazendo mal. O branco apenas a estava ajudando a sentir o peito explodir e as lágrimas pularem num menor intervalo de tempo.
Chorava por tudo que Alberto não havia feito, para dizer a verdade. O que a enfurecia é que, mesmo após de proferir aquelas palavras, ele nem veio bater na porta ou pedir para entrar.
O que a tirou de seus devaneios que duraram por volta de duas horas, suspiros, lágrimas e resmungos foi o bater da porta frontal da casa. Ouviu o portão lá de fora, depois da garagem, abrindo-se e fechando. Olhou pela janela e já não mais viu o rapaz. Ele havia saído! Fugido da situação! Aquele sem vergonha a pagaria... E do pior jeito possível!
Destrancou a porta e a jogou contra a parede, fazendo-a bater e produzir um estrondo. Caminhou firme e pesada até a sala. Ainda não acreditava que ele realmente havia feito aquilo. A descrença era tamanha que a fez querer arrumar as malas e deixá-lo.
- Quer saber? É isso mesmo que farei! Já aturei o suficiente! – bradou, sozinha.
Ao virar-se de frente para a mesinha de centro, viu um envelope com seu nome. Era a letra dele. Ora essa, era só o que faltava! Aprontou uma dessas e ainda por cima teve a pachorra de escrever uma carta!
Todavia, a curiosidade foi maior e a fez apanhar a carta, sentar-se ao estofado e começar e ler. O que aquela letra que talvez um dia conseguisse ser caprichada dizia era:
Bi, obrigado por ler isso. Não tenho muito para dizer-lhe, mas o que tenho, acho que lhe direi por aqui mesmo.
Bem, você disse que se irrita porque eu não te sei de cor e não discuto com você. Quero dizer-lhe que sim, eu te sei de cor. E é exatamente por isso que eu não discuto com você: porque você sempre tem razão e ainda que não a tenha, me convence de que tem. Porque você não suporta quando as pessoas discordam absolutamente de você.
Pensa que não sei quais são seus sorrisos? Os sei de cabeça. Você tem um sorriso pra quando acorda e vê o dia ensolarado, outro pra quando eu te falo algo que gosta, outro pra quando come aquele seu sorvete preferido de limão, outro pra quando assiste a aquele beijo cinematográfico, outro quando sua mãe fala alguma coisa e você finge concordar e, por último, um outro quando eu digo que te amo.
Pensa que não sei como revira os olhos daquele seu jeito quando você se impacienta? Acha que não sei como você entrelaça seus próprios dedos quando fica entediada? Acha que não sei como abraça o travesseiro pra dormir? Acha que não sei como você balança a cabeça delicadamente de um lado para o outro quando ouve Elvis?
Realmente acha tudo isso?
Ah, meu amor, se você soubesse o quanto eu te amo e o quanto eu só te quero bem. O quanto eu quero viver eternamente só pra te fazer feliz por todo o sempre...
E esqueci de comentar como sei que não dá pra te saber assim tão de cor. Porque você sempre consegue me surpreender.

Assim que eu voltar, se quiser, conversamos. Se não quiser, tentarei entender.
Um beijo cinematográfico pra você, meu bem
.”

Ela redobrou a carta e enxugou algumas lágrimas que haviam lhe umedecido o rosto. Enquanto colocava o papel de volta no envelope, ouviu aquele familiar barulho do chaveiro de Alberto batendo contra a fechadura. Levantou a face e o viu entrando.
Ele fechou a porta atrás de si, trancou-a e aproximou-se dela, apenas observando-a. Não disse uma palavra sequer.
Bianca levantou-se e o abraçou como se não o visse há anos. Sentiu aquela ótima sensação de reconciliação e seu amor cresceu e cresceu, quase fazendo-a inflar como um balão.



Natália Albertini.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Os Três T's

Panic! at the disco - Camisado
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A maçaneta foi pressionada pela mão comprida, fina e feminina de Samanta. Estava de costas para a peça ebúrnea. Porém, não estava apenas encostada nela, não, estava contra ela, fazia força, pois tinha todo o peso de Thales sobre ela.
O rapaz alto, de cabelos bagunçados e castanhos e olhos verdes, que tinha por volta dos vinte e cinco ou trinta anos, beijava a mulher de meia-idade com volúpia, além de passar-lhe a mão por todo o corpo com visível gula.
As luzes rasteiras do jardim, assim como a da pequena varanda frontal, encontravam-se apagadas, portanto, os vizinhos não os veriam nem se realmente quisessem. O pedaço mais jovem do casal afastou o rosto alguns milímetros e reforçou a pergunta que havia feito há alguns instantes:
- Tem certeza que não tem ninguém em casa?
- Tenho. Tadeu ia passar a noite na casa de um amigo, e Tarcísio disse que ia voltar muito tarde do trabalho. Então, temos um bom tempo, não se preocupe.
Tadeu era o filho de dezesseis anos de Samanta. Já tinha quase alcançado a altura do pai, isso é, por volta de um metro e oitenta. Tinha os ombros largos, as feições e os braços fortes muito semelhantes aos do pai. Agora que tinha cortado o cabelo, tinha ficado ainda mais parecido ao marido de Sam.
A maçaneta girou por completa e abriu a porta. O casal adentrou a sala sem acender luz alguma, subiu as escadas e dirigiu-se ao segundo aposento: o quarto de Tarcísio e Samanta. Os dois fizeram tudo isso sem se desgrudarem ou diminuírem a agitação dos hormônios.
A mulher que, apesar de passar um ou dois anos dos tão temidos quarenta, tinha uma aparência desejável e conservada, adiantou-se em arrancar a camisa de Thales, jogá-la ao chão e abrir-lhe o zíper das calças. Ele, por sua vez, puxou-lhe a saia que complementava o terninho com força, juntando-a à camisa.
A cama balançava no mesmo ritmo dos gemidos. O barulho podia ser ouvido tanto do quarto de Tadeu quanto do escritório de Tarcísio, aposentos vizinhos do quarto do casal.
A casa estava escura por inteiro. Todavia, durante os arranhões, afagos, suspiros, gemidos, mordidas e beijos provenientes da relação extraconjugal, a luz de um dos cômodos ao lado do quarto se acendeu.
O tempo que Samanta levou para perceber a luz se acendendo e os passos da pessoa ressoando no corredor, foi o tempo que o tal morador levou para chegar à porta e apontar-lhes uma arma.
Sam sobressaltou-se e agarrou com toda a força Thales que, por sua vez, prosseguia com os sussurros e os movimentos contínuos. O paspalho simplesmente ainda não tinha percebido a situação. As unhas da mulher fincaram-se na pele bronzeada do rapaz e o imbecil percebeu a aflição da parceira. Quando finalmente olhou para trás, viu um vulto. Nem a própria mãe ou esposa pôde reconhecer qual dos dois estava postado de pé à porta: o filho ou o marido.
Apesar de ter uma fina camada de claridade a seu favor, não conseguia enxergar se os olhos eram verdes como os de Tarcísio ou azuis como os de Tadeu. Viu apenas um brilho avermelhado se destacar.
A mão que apontava-lhes a arma puxou o gatilho. Samanta finalmente descobriu quem era e berrou:
- Ta....
Tarde demais, o projétil deixou seu abrigo e atingiu as largas costas do rapaz moreno que, consequentemente, dificultou o escape da mulher. Não conseguia mover-se direito com todo aquele peso sobre ela. Assim que tirou-o de cima de seu tórax, um segundo tiro atingiu-lhe.
O casal jazia silencioso sobre o jogo de lençóis egípcios com 800 fios agora manchados com aquela espessa e escura camada de elemento essencial humano.
O atirador aproximou-se dos dois e checou-lhes o pulso: nada, estavam bem longe dali. Pôs as mãos para trás, levantou a jaqueta de couro e colocou a arma por debaixo da calça. Cobriu a coronha com a blusa e deixou o quarto. Apagou a luz do aposento do qual saíra e deixou a casa com certa pressa.
Roubara uma das Mercedes da garagem e deixara a cidade. Com aquela idade, conseguiria qualquer emprego que quisesse.
Durante a viagem, deu-se por conta que mais uma família havia sido vítima dos três T’s: traição, teimosia e tragédia.

Natália Albertini.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Lar

The Fray - How to save a life
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O barulho da chave abrindo aquele portão era inconfundível. O movimento contrário ao que as outras fechaduras exigiam, era inesquecível. Empurrou as barras metálicas, logo as colocando de volta no lugar, fechando o portão de baixo. Deu os dois passos de sempre e subiu os dois degraus, que levavam à vaga de cima que, por sua vez, tinha um portão também. Ao invés de fazer o caminho usual e dar mais uns quatro ou cinco passos para alcançar a porta, dirigiu-se para o pequeno e retangular canteiro que, agora, tinha poucas flores. Sentou-se na beiradinha de pedra que transpassava o portão e ficou ali, apenas observando.
Inclinou-se para a direita e deu de cara com o comprido e mais que estreito corredor. Lembrou de como a irmã, a prima e ela viviam a se esconder ali dos adultos quando estavam para ir embora ou, ainda, em festinhas de aniversários que eram sempre realizadas naquela casa. Voltou a olhar para o canteiro e, desta vez, recordou das brincadeiras que faziam ao redor daquilo. Uma corria atrás da outra numa espécie de pega-pega à moda delas.
Ouviu a tia chamá-la e levantou-se, agora, sim, dirigindo-se à porta lígnea. Adentrou a sala, encarou a estante, a televisão e os livros debaixo dela. Agachou-se e abriu as portinhas de vidro, tirando de lá um pequeno e bem trabalhado globo cheio de água. Era um daqueles que você chacoalha e bolinhas de alguma coisa enfeitam o líquido. Bem, aquele era um desses. O diferente era que tinha um cavalo de carrossel lá dentro, que a "alguma coisa que enfeitava o líquido" era bastante brilhante e cintilante e que, além de tudo, a fazia lembrar-se de sua avó.
Postou-se de pé e sentou-se no sofá de dois lugares, que ficava de frente para a poltrona e debaixo de um quadro. Não sabia por que motivo, mas aquele sofá sempre foi do qual mais gostou. Chacoalhou o pequeno globo e voltou para o dia em que havia ganhado sua gata de estimação. A tia e a avó haviam comprado em segredo para dá-la de presente. Lembrou-se de como havia ficado feliz e de como não havia desconfiado de que seus pais já sabiam de toda a trama, afinal, era criança. Chacoalhou novamente o globo e, desta vez, lembrou-se de uma fita de vídeo que possuía, e que, na filmagem, aparecia sentada na poltrona, segurando o mesmo globo e estava vestida com uma jardineira que sua mãe havia feito para ela. Devia ter por volta dos seis, sete anos. A música que o globo emitia quando lhe era dada a corda, embalava a garota no filme. Instintivamente, teve de levar a mão à parte inferior do globo e girar o pequeno parafuso para que a música chegasse a seus ouvidos.
A tia a chamou mais uma vez, lembrando-a da primeira. Levantou-se e deixou a sala de estar, ainda com o pequeno e trabalhado globo em mãos. Passou a caminhar pelo corredor.
À sua esquerda, via o quarto dos avós, onde inúmeras vezes dormiu com a avó na cama e fez o avô dormir ao chão. À direita, atrás da porta da sala, tinha um espelho de corpo inteiro. Mais à frente, ainda à esquerda, tinha o quarto dos tios. Tinha duas camas, uma escrivaninha e um guarda-roupa. A janela era grande e dava para o corredor do quintal. Olhar para aquela janela a fez lembrar de como a prima, a irmã e ela adoravam fugir do quarto por ali, era uma aventura só pular a tal janela.
À esquerda havia o grande e branco banheiro, onde inúmeras vezes a irmã, a prima e ela tomaram banho após quase se matarem de tanto correr e pular. O corredor terminava na extensa e tão familiar cozinha, onde a mesa e as cadeiras de madeira tão aconchegantes nunca foram trocadas, onde os armários ebúrneos sempre continuaram os mesmos, onde a geladeira sempre fazia questão de estalar de noite para assustá-la quando não conseguia dormir, onde a tesoura sempre ficava escondida atrás da cortina, sobre o parapeito da janela que dava pro corredor do quintal. Onde incontáveis vezes participou e foi a anfitriã de festinhas infantis. Onde incontáveis vezes almoçou com a família do pai e disputou a cadeira da ponta com a prima. Onde incontáveis vezes abriu ovos de Páscoa e presentes de Natal.
Dirigiu-se ao lado direito da cozinha, sempre caminhando para frente. Passou pela pequena dispensa que, ao lado direito tinha um armário de madeira que zilhões de vezes abriu para pegar lápis de cor, canetinhas e grampeador, e, ao lado esquerdo, umas quatro prateleiras, de onde sempre pegava sucos, chocolates, bolachas da lata amarela e refrigerante sem gelo para a prima que quase sempre tinha dor de garganta e não podia ingerir nada muito gelado.
Chegou, enfim, ao aposento onde a tia se encontrava. Não sabia ao certo dizer o que era aquilo. Afinal, ali havia uma secadora, uma fruteira, uma cadeira, um balcão sobre o qual a tia sempre passava roupa, uma máquina de costura e uma outra série de umas três ou quatro prateleiras, onde encontravam-se remédios, CDs e chinelos. A tia lhe disse algo de pouca relevância e, pela porta da esquerda, saiu para o quintal. Atravessou a parte de cima do quintal, a varanda que era coberta e tinha o piso liso e verde, e chegou à beiradinha do degrau. Olhou para o lado esquerdo e viu o corredor que se estendia até chegar à garagem novamente. Deparava-se às vagas com um enorme portão de vidro e metal. Tinha aquela parte de metal devido ao fato histórico no qual ela, com seus quatro ou cinco anos, dirigindo seu não-motorizado triciclo, sabe-se lá como ou porquê, bateu com enorme força na porta vítrea. Grande parte do vidro caiu sobre ela. Olhou para a perna direita e para o pulso esquerdo, onde tinha duas cicatrizes daquele dia. Ainda olhando para o corredor, lembrou de como brincavam de “Mamãe Polenta” nas festinhas. Voltando-se para frente e encarando a parede com as samambaias penduradas, lembrou de um churrasco que a família havia feito ali, como sempre faziam, e ela havia sentado-se na cabeceira da mesa, bem próxima do degrau. O que marcou aquele churrasco foi que, assim que levantou-se para pegar um pedaço do bolo, a prima, sabe-se lá porque motivo, razão ou conseqüência, tirou-lhe o banquinho, e, quando foi sentar, não olhou para trás. Caiu para trás feito uma jaca madura e, de quebra, machucou as costas e atirou o bolo na parede. Por sorte, caiu milímetros antes do degrau.
Voltou para o meio da varanda e viu a máquina de lavar e os tanques que tinham entre si um vão, onde sempre se escondiam dos adultos. Virando-se para frente, para o fundo da casa, viu a árvore que dava-lhe de presente belas flores amarelas e vermelhas, e a terra com algumas ervas. A terra que sempre revirava com a prima para achar minhocas e matá-las. Viu a pequena estufa onde o tio antigamente cultivava orquídeas.
Deu uns dois passos à frente e sentou-se no degrau, observando a parte de baixo do quintal, a parte descoberta, a parte onde corriam e brincavam de pega-pega ou cabra-cega.
Afundou a cabeça entre os braços apoiados nos joelhos e lágrimas passaram a umidecer-lhe a face. O que mais sentia era não poder dividir todo aquele espaço e toda aquelas lembranças com sua avó.
Não que não fosse grata por todos que tinha em sua vida, mas apenas lhe faltava o brilho especial que só sua avó sabia dar à vida. Não que não entendesse que cada um tinha um limite neste mundo, mas apenas lhe faltava aquele jeito diferente.
Há algum vinha preocupando-se em demasia com a possível venda futura daquela casa. O avô ainda viveria um bom tempo. Mas, quando atingisse seu limite também, muito provavelmente venderiam a casa. E isso era o que ela menos queria. Amava aquela casa mais do que amava sua própria. Não sabia porquê, simplesmente amava. Todavia, agora já havia compreendido. A casa era seu único laço concreto com a avó.
Em cada canto daquela casa conseguia sentir o cheiro da avó. Engoliu o pranto em silêncio e olhou para o quintal. Sabia que, onde quer que a avó estivesse, estaria olhando para e por ela.
Enxugou as lágrimas e se levantou. Sentiu a avó por perto. Beijou-lhe a face e saiu.
A garota, por fim, sorriu. Eram apenas dores comuns de seres humanos diante de mistérios nem tão misteriosos assim.

Natália Albertini.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Pena e Tinta.

Ewan McGregor & Nicole Kidman - Come What May
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Annemarie tinha os ruivos e cacheados cabelos presos para cima, com exceção de uma fina mexa que escorria-lhe pela nuca propositalmente. Trajava naquele dia um vestido azul celeste, igualmente pomposo aos outros que tinha, porém com alguns diferenciais. O espartilho lhe esmagava o tronco e fazia seus seios praticamente saltarem para fora. A saia era rodada e armada, ao contrário da parte superior do vestido, que, como de costume, era bastante justa.
Estava sentada numa confortável e grande cadeira que era estofada com uma almofada estampada. Sobre a mesa à sua frente, havia um tinteiro, uma pena e uma folha de papel ao lado de um pequeno e amarelado envelope. Preferia escrever a carta a mandar um criado fazê-lo.
Era de uma influente família francesa da Idade Moderna e, assim como todas as damas, tinha um casamento arranjado com o filho de um barão.
Sua união conjugal havia sido arranjada desde que tinha três anos e meio. Se casaria dali a um ano, mais ou menos, uma vez que já havia alcançado seus quatorze anos de idade. Estava a escrever uma de suas cartas para Bernard, seu futuro marido. Haviam habituado-se a trocarem correspondências há uns dois anos, simplesmente por curiosidade de se conhecerem mais.
Bernard dizia que também preferia escrever a mandar um serviçal fazê-lo. Aliás, nenhuma das duas famílias sabia que eles trocavam cartas. Ambos entregavam as correspondências nas mãos de seus criados mais leais e se asseguravam que ninguém saberia de nada.
Annemarie havia sinceramente encantado-se com as sutis e agradáveis palavras do rapaz desde a primeira carta que recebeu. Em meio a palavras, compartilhavam alegrias, tristezas, inseguranças e certezas. Tinha quase certeza de que estava apaixonada por ele, entretanto, não estava tão certa assim. Não sabia explicar, sabia apenas que tinha sérias e profundas dúvidas.
Por um lado, sentia-se deleitada com a personalidade que Bernard demonstrava ter por meio de suas cartas. Poderia quase dizer-se apaixonada. Porém, por outro lado, sabia que sentia-se assim apenas por ele ser o único homem com o qual relacionara-se de maneira mais profunda. O único homem que teria a chance de desposá-la. Não tinha outras opções, logo, seu corpo havia aceitado-o como única alternativa.
Após terminar de escrever, entregou o envelope à criada Charlotte para que fizesse chegar até Bernard. Sentou-se ao parapeito da janela e pôs-se a pensar no encontro deles.
Será que realmente ele era tudo que suas palavras mostravam? Ou será que as palavras apenas serviam para não denunciar algum tipo de personalidade arrogante e bruta?
Será que ele veria na pequena Annemarie uma esposa prendada e desejável? Ou será que mesmo depois de tudo, ela não passaria de um casamento arranjado?
Será que formariam um belo casal? Ou será que apenas os prestigiariam por respeito?
Será que ele seria tão confiante e galanteador quanto suas letras e poesias? Ou será que, na verdade, mandava um serviçal escrever as cartas para que não perdesse tempo de caçada?
Será que algum dia chegariam a trocar votos sinceros de amor eterno? Ou será que só seriam eternos graças à união matrimonial?
Será que se não gostasse de Bernard, poderia usar suas palavras para enforcar-se? Ou será que elas serviriam apenas de cortejo secreto a algum outro cavalheiro respeitoso?
Será que os olhos de ambos brilhariam ao enxergarem as almas um do outro? Ou será que brilhariam apenas pelo reflexo das jóias?
Será que ela algum dia conheceria o que realmente era o famoso amor? Ou será que não passaria do respeito?
Será que algum dia teria menos dúvidas e mais certezas? Ou será que toda sua vida seria de falsos sentimentos, falsos sorrisos, falsas lágrimas e reais decepções?
Será que algum dia serviria para algo mais que apenas estabelecer a paz entre duas famílias influentes?
Será que a tinta de sua pena havia servido como veneno? Ou será que havia servido apenas como anestesia?

Natália Albertini.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Tradução.

Snow Patrol - Run
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André tinha a cabeça recostada no banco, as pernas esticadas e os braços colocados de qualquer jeito. Estava numa posição aparentemente muito desconfortável, estava praticamente jogado. Suas pálpebras encobriam seu Oceano Atlântico, mas ainda encontrava-se acordado. Tudo isso devia-se à espera cansativa do carteiro que, especialmente naquele dia, demorava a chegar.
- Boa tarde, piá!
O garoto sobressaltou-se e se colocou de pé num só pulo. O carteiro desculpou-se, dizendo que não havia percebido que estava a dormir. O rapaz fez questão de dizer-lhe que não era nada, que nem estava dormindo, para dizer a verdade.
Um desconhecido diria que André estava caminhando normalmente, porém, quem o conhecia, poderia dizer que ele estava de certa forma ansioso. O que o denunciava eram os dedos que se moviam incessantemente e as maçãs do rosto que coravam quase que imperceptivelmente.
Atravessou o gramado nem tão extenso, porém bastante verde, e colou as mãos ao portão, logo estendendo a direita, pedindo a carta ao homem.
- Tu tá abatido demais pro meu gosto, André.
O garoto sorriu ligeiramente, agradecido pela preocupação e respondeu:
- Não é nada, Zé. Juro que não é nada. Só estou esperando você por volta de umas três ou quatro horas.
- Ah, ultimamente eu tenho pego cartas demais pra entregar, tu sabe como é. Por isso demoro.
- Não importa, agora você já chegou.
José pegou a carta com dois dedos da mão direita e a entregou a André, que logo puxou o braço de volta, levando a carta ao nariz.
- Valeu, Zé, até semana que vem!
- De nada, piá. Até.
O rapaz entrou em casa, fechou a porta atrás de si e dirigiu-se a seu quarto, logo se trancando lá.
Já tinha o envelope parcialmente aberto, pois não pôde se conter e começou a rasgá-lo ainda no corredor. Terminou de abri-lo e novamente levou a carta ao nariz. Ah, como adorava o cheiro daquela menina. Ela tinha sempre o capricho de borrifar um pouco de seu perfume nos papéis de carta, entretanto, especialmente naquele dia, o odor parecia bem mais fraco, quase que ausente.
Desdobrou o papel e passou a ler o que talvez não gostaria de saber. O que vinha escrito era:
Querido André,
Não sei por onde começar, não sei como ordenar tudo o que tenho a te falar nesta carta. Pode parecer meio clichê, mas acho que exatamente agora, a melhor maneira de começar tudo isso é fazendo uma espécie de retrocesso no tempo.
Lembro-me perfeitamente do dia em que recebi sua primeira carta. Lembro-me perfeitamente de suas palavras, lembro-me do jeito meigo com o qual me disse que minha carta para minha prima havia sido extraviada e quem a havia recebido era você.
Lembro-me que enviávamos cartas um ao outro num período mais ou menos mensal, depois o diminuímos para três semanas, depois para duas e, finalmente, para apenas uma.
Lembro-me de como achávamos que era nosso destino ficarmos juntos, afinal, só o destino para fazer uma carta endereçada a Alto Paraná ir parar justamente na casa de um tal de André que mora em Curitiba!
Lembra de como nos dizíamos apaixonados um pelo outro? De como trocávamos palavras de afeto e tudo o mais?
Bem, Dé, acho que tudo o que posso fazer num momento destes, é escrever-lhe meu sincero agradecimento. Quero agradecer-te por tudo o que me disse, por todo o tempo que gastou comigo.
Quero lhe pedir desculpas pelas últimas semanas, nas quais não tenho sido tão carinhosa quanto você merece. É só que estava prestes a chegar na conclusão que cheguei antes de ontem. Passei as duas últimas noites tentando achar uma maneira sutil para dizer-lhe o seguinte, mas não saí da estaca zero, portanto, aqui vai: quero pedir-lhe desculpas por ter-lhe enganado. Mas acredite, não foi consciente, juro que não foi. Também achei que estivesse perdidamente apaixonada por você, porém entendi que, na verdade, estava apaixonada por suas palavras. Sim, eu sei que agora acabo de cair em contradição, uma vez que sempre te disse que acredito piamente que conhecemos as pessoas apenas por sua maneira de falar. Porém, temos de admitir que não nos conhecemos pessoalmente, não nos conhecemos de maneira completa.
Por último e antes que você rasgue esta carta, o que, provavelmente, deve estar na iminência de fazer, quero lhe dizer que na próxima semana eu estarei de mudança. Estou indo para a Austrália por causa do serviço do meu pai. Soube disso há três semanas, mas não tinha coragem suficiente para contar-lhe.
Não é certo ainda o tempo que passarei lá. Podem ser semanas, meses ou anos. Mas me decidi por terminar tudo por aqui, se é que algum dia realmente começou...
André, meu bem, cessarei minhas palavras, bem como minhas cartas, por aqui.
E antes que eu fale algo a mais ou algo a menos, me despeço para sempre de você.
Se cuida, guri.
Grande beijo,
Bela
.”
O rapaz ergueu a cabeça, inspirou profundamente, redobrou a carta e a enfiou novamente no envelope praticamente dilacerado. Olhou para seu criado-mudo e de lá puxou a foto da garota que ela mesmo havia enviado previamente. Chateou-se parcialmente pelo fato de que a garota realmente achava que nada havia começado entre eles. A decepção só não foi maior, pois ele estava praticamente preparado para isso. Sabia desde o começo que nada sairia como saía nos sonhos dele.
Abriu uma de suas gavetas e enfiou a carta junto da foto ali, juntando-as com todas as outras e quase incontáveis cartas de Isabela.
Fechou a gaveta e decidiu-se por pensar no que fazer depois. Agora sairia e encontraria alguns amigos, se divertiria.
Pararia de pensar na decepção e nas saudades que viriam a seguir. Enfim, pararia de pensar na garota. Ao menos por enquanto.
Deixou a casa e quarenta ou cinqüenta minutos depois, estava na casa da Bruno, jogando baralho e rindo alto, fingindo esquecer o perfume das palavras.

A muitos quilômetros de distância de Curitiba, a sorocabana Isabela revirava seu guarda-roupa, pensando no que doaria e no que levaria consigo. Em meio a calças e blusinhas, achou uma das cartas de André. Levou-a ao peito e a enfiou na fronha do travesseiro. De noite leria novamente e talvez até reconsideraria sua decisão. Agora achava-se bruta demais, mas sabia que uma hora ou outra, as doces e reconfortantes vogais e consoantes do rapaz deixariam de niná-la. Que fosse agora, então, enquanto tinha coragem.

Natália Albertini.