segunda-feira, 28 de março de 2011

Cordas.

Sentado aos lençóis brancos, lisos, de algodão, ele respirava baixo. Os cílios cintilavam ao Sol das quatro. No colo, sua amada. Ele a dedilhava de maneira calma, sutil e fluente. Os acordes pairavam à sua volta, sem rasgar o silêncio, amaciando-o somente. Os olhos, por detrás das pálpebras, descansavam, assim como os cabelos que lhe caíam à testa. Os ombros ouviam em paz. As pernas não se incomodavam com aquele mísero peso do instrumento. As cordas vibravam, mansas, ao toque dos dedos já tão conhecidos. Uma melodia apaziguadora vinha encher o quarto enquanto a luminosidade do outono se esparramava pelo assoalho. Ps.: Ao som de #3, de Ben Harper & The Innocent Criminals. Natália Albertini.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Os lápis.

Eu estava sentada num dos bancos verdes do metrô, relendo um de meus livros favoritos.
Tinha o cabelo bagunçado, como de costume, os fones brancos nos ouvidos e os óculos de sol ao topo da cabeça.
Os cílios iam longos, movendo-se minimamente, lendo com ânsia nostálgica as páginas de um livro que há muito a havia encantado.
Percebi um movimento constante e frenético à minha diagonal direita.
Discretamente, olhei.
Vi um rapaz, que deveria ir lá a seus bons vinte e cinco anos, sentado, com a mochila aos pés. Às mãos, tinha um bloquinho de papel e um lápis de desenho. Sua mão direita ia e vinha em rabiscos de grafite.
Conjurei sobre o que ele poderia estar a desenhar. Assim que subi os olhos aos seus, entretanto, entendi.
Esforcei para não explicitar que eu o olhava e que percebia o que fazia.
Vi, então, que ele me desenhava.
A mim, uma pessoa tão comum, lendo, quieta, lhe havia despertado a imaginação, incitando-o a desenhar.
Voltei a ler e não retornei meus olhos aos seus, mas percebi ainda que os dele iam do papel a mim e vice-versa.
Internamente, sorri.
Eu que me inspiro tanto em estranhos, no metrô inclusive, para acordar escritas, me vi do outro lado da situação. Boa, a propósito.
Resolvi, então, escrever sobre ele, como um agradecimento, retornando-lhe o favor.
Saí do metrô com os lábios recusando-me um sorriso.
Contudo, saí satisfeita.
Voltei a escrever.

Natália Albertini.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O veneno.

De maneira muito rápida e confusa, como um flash, o barman colocou os dois pequeninos copos sobre o balcão.
Embora um fosse loiro e cheio de cachos e o outro, moreno de sutis curvas, ambos os cabelos andavam, durante toda a noite, meio revirados, bagunçados, eufóricos.
Um par de ombros altos e largos falavam com as duas moças pela esquerda, enquanto outro, de camisa xadrez, as enlaçava pelas cinturas.
Quando as duas se voltaram ao balcão, o líquido dourado já transbordava dos copinhos, enquanto fatias de limão e algum sal lhes eram empurrados.
Enquanto batidas ensurdecedoras da música contagiavam-lhes os corpos, nunca imóveis, e viam faixas de luzes de todas as cores cortarem-lhes a visão, se entreolharam.
Ali, naquela fração de segundo, por mais embriagada que fosse, os olhos, os marrons e os azuis, viram-se lilás. Viram-se sintonizados, gratos, famintos e atiçados.
Sorriram compreensivamente uma para a outra e, juntas, lamberam o sal das mãos, entornaram os pequenos copos de veneno e sugaram todo o limão, sentindo as gargantas queimarem.
Limparam as bocas e forçaram os corpos de volta à pista, onde dançaram frenética e incessavelmente até os primeiros raios de sol tocarem-lhe as nucas.

Ps.: só uma coisa a dizer sobre tal Carnaval: É POCA ZUERA???
Ps2.: desculpe-me pela ausência, dear blog, mas i'm back.
Natália Albertini.