terça-feira, 25 de outubro de 2011

Contra as leis

Sete horas da manhã. Estação cheia. O fluxo de pessoas vai para São Paulo, é notável, não é preciso perguntar individualmente qual seu destino, afinal, as escolas, universidades, maiores concentrações de emprego, comércio e oportunidades estão lá, no centro, na cidade que não pára. Vê-se o trem chegando, preparam-se, bolsas a frente do corpo, posição de quem vai para a luta. Primeiro desafio do dia: Entrar no trem. Em meio a empurrões, manobras com o corpo, xingamentos, desafiam as leis da física e provam que não só dois, mas sim vários corpos ocupam o mesmo lugar. A porta se fecha e um pensamento vem à mente:
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988” lembra-se, “Artigo 1, A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos... parágrafo 5, a dignidade da pessoa humana.”
A dignidade da pessoa humana. Não conseguia encontrá-la em meio ao aperto do trem.
E isso se repete diariamente. Para onde foram os R$2,90 que pagaram para entrar ali? Quem tiver curiosidade, encontrará dificuldades para obter a resposta. As empresas vinculadas à Secretaria de Transportes Metropolitanos como CPTM, Metro e EMTU, não disponibilizam esses dados com facilidade, divulgam balanços e demonstrativos com valores aleatórios e de difícil entendimento, mostra-se quantias destinadas a investimentos, porém, resta saber sobre quais investimentos estão falando já que diariamente é possível constatar a precariedade da estrutura dos trens e diante da necessidade do cotidiano, se torna cômodo, todos se acostumam, não há nada que possam fazer a não ser equilibrar-se em meio a muitos outros corpos para manter-se em pé no trem até chegar a seu destino. Atualmente a CPTM atinge 22 municípios e transporta 2,12 milhões de passageiros por dia. Se não é esta uma questão de suma importância para as prioridades de agenda política, é preciso rever conceitos. Não somente a falta de estrutura é incômoda, mas como também acarreta em uma série de outros problemas causados pelo acúmulo de pessoas e falta de espaço e também a falta de respeito. O Metrô registra até cinco casos de assédio sexual por mês dentro de seus trens, ainda uma estatística falha porque na maioria das vezes, as vítimas não registram queixa formalizada. Eis então a realidade da mulher que sai de casa de manhã para trabalhar ou estudar e é desrespeitada de forma repugnante por não ter outra opção de transporte, e não ter estrutura suficiente para acomodar seres humanos a pelo menos 10 centímetros de distância um do outro. A situação é preocupante, mas parece que só se preocupa com isso é quem utiliza o transporte público, e já que nisso não se inclui nossos governantes, nossos prefeitos ou nossa presidenta, não é de lá que virá a solução. Com o mínimo de esperança o trabalhador, o estudante, aquele que não possui um automóvel, vai torcer para que as obras da Copa do Mundo beneficiem indiretamente os usuários dos trens e metrô mesmo sabendo que o que for feito não será para eles, mas sim, só para inglês ver.


Ps.: Pedi um espaço emprestado no blog e a Natália gentilmente me concedeu. Brigada, Ná!
Rebecca Bonaldi.

domingo, 23 de outubro de 2011

A língua.

Silêncio e a mais pura escuridão.
Tentou ao máximo calar a respiração que, ofegante, parecia alta demais ali debaixo, poderia denunciá-lo a qualquer momento.
O chão poeirento debaixo da cama lhe fazia querer espirrar.
Não, agora, não!
Torceu o nariz e deixou os olhos, igualmente irritados, bem abertos.
Prendeu a respiração por segundos para apurar os ouvidos.
As últimas passadas haviam sido há mais de seis segundos.
A adrenalina lhe corria as veias desenfreada, ansiosa, comendo-lhe o sangue.
Por sorte, quando havia descido do colchão até ali, o edredon havia descido um pouco, cobrindo seu esconderijo - o mais seguro que pode achar em meio ao desespero dos passos pesados no piso ebúrneo.
Uma brisa gelada correu pelo vão deixado entre a coberta suspensa e o chão.
Seus pulmões congelaram, seus olhos arregalaram-se ainda mais, a respiração cessou por completo.
O edredon começou a ser erguido.
Um dedo gelado pecourreu-lhe o corpo do fim da coluna até sua nuca, fazendo-o estremecer.
O edredon erguia-se devagar, à medida que o frio adentrava seu esconderijo.
Uma lufada de vento bruta estapeou-lhe o rosto, quase o fazendo fechar os olhos.
Naquela escuridão pesada e palpável, eis que surgiram.
Eles.
Os dois rubis flutuantes, a uma distância mísera de seu rosto.
Ele abriu a boca, mas as cordas vocais demoraram demais a responder.
A luminosidade avermelhada deu lugar ao brilho claro de caninos afiados que abriam espaço para uma língua comprida demais para ser humana.

Na casa ao lado, Melina ouviu um grito que parecia ter a voz de Tim.
Não deve ser nada...
Voltou a dormir e, naquela mesma noite, sonhou com um par de rubis a flutuar perto dela.

Ps.: que saudades de escrever minhas babaquisses aqui! Onde vende TEMPO mesmo?
Natália Albertini.

domingo, 9 de outubro de 2011

De ponta-cabeça.

Ele forçava suas pernas para fora.
Ela apoiou-se sobre os braços na pia e envergou o pescoço, deixando a cabeça cair pra trás, encarando seu reflexo embaçado de ponta-cabeça.
A pressão no meio de suas pernas fazia a parte inferior de sua virilha se esquentar surpreendentemente.
Deixou a cabeça cair ainda mais e então o viu.
Ela sentia o peito dele roçar sua cintura e seu abdôme.
No reflexo, viu aqueles olhos manchados de vermelho e aquela boca com dentes sujos de visco rubro escalando o meio de seus seios.
Ele fincou os caninos ali e fez o sangue escorrer por seu corpo desnudo.
Ela não conseguia levantar a cabeça.
A sensação simultaneamente gelada e quente a dominava, deixando-a mole.
Apertou os próprios olhos e ficou vendo o reflexo ensanguentado e de cabeça para baixo comer-lhe.

Natália Albertini.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Crazy Diamond.

Sentiu o lençol sob si, o camisetão subindo e deixando a pele da cintura em contato com o algodão do edredon.
Remember when you were young?
You shone like the sun.
O refrão, melodioso.
Afundou o rosto no travesseiro e estralou a parte interna na coxa direita, pondo-se de bruços, numa posição que ninguém além dela acharia confortável.
O resto de sol esguio e poeirento se infiltrava no quarto, arrastando-se silenciosamente pelo chão lígneo.
Now there's a look in your eyes,
Like black holes in the sky.
O refrão, adocicado.
Respirou fundo.
Deixou as pálpebras se beijarem, os cílios se abraçarem.
Entrou no sono.

Ps.: já pode fazer isso? x.x
Natália Albertini.