terça-feira, 29 de abril de 2008

Leite de Cabra

Vivaldi - Andante
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Eram por volta das sete e meia da noite de 14 de Julho quando Júlia beirava a última meia hora de sua caminhada diária. O parque cheio de árvores, grama, arbustos, bancos e espaços para alongamento já estava bem mais tranquilo do que quando chegara ali. As crianças e adolescentes que passavam por aquele ambiente na volta da escola já haviam ido embora, o grupo da terceira idade que fazia Yoga ao ar livre também já havia se retirado, bem como a maioria dos demais corredores. Uma parte da pista de caminhada era completamente aberta, já a outra, adentrava um bosque muito bonito e bem conservado. Apesar de sua mãe adverti-la infindáveis vezes para que não caminhasse pelo bosque sozinha, especialmente quando o dia já havia dado lugar à escuridão, ela sempre fazia o contrário, afinal, aquelas árvores ofereciam uma atmosfera completamente tranquilizante e pacífica.
Foi exatamente o que fez: adentrou o bosque. Andou um pouco à direita e parou para tomar água no antigo, branco e azulejado bebedouro. Irrigou a boca com aquela água que subia preguiçosamente, e então esticou o dorso, pondo-se corretamente de pé. Desceu do pequeno degrau e enxugou a boca com o braço direito. Ajeitou o top e checou se a barriga estava tão definida quanto a alguns instantes atrás. Era vício conferir o corpo assim, compulsivamente.
Retomou a caminhada. Corria de maneira lenta ou seja lá o que fosse aquele tipo de passada. Andar é que não andava, considerava como corrida. Sempre se preocupava em classificar suas caminhas, coisa boba, mas que nunca saía de sua cabeça quando praticava.
As pequenas pedras que faziam o caminho remexiam-se sob seus tênis específicos para aquela atividade. O cabelo escuro, ainda que preso num rabo-de-cavalo, batia-lhe às costas e a franja escorria-lhe pelo olho esquerdo. Os braços dobravam-se pelos cotovelos e acompanhavam o ritmo do resto do corpo. Sentia falta dos fones de ouvido para embalarem seu início de noite. Era sexta-feira e dali a uma meia hora estaria em casa tomando banho, comendo pizza e se arrumando para encontrar os amigos e o namorado.
A trilha estava completamente vazia, exceto por um ou dois errantes que encontrava de vez em quando, num espaçado intervalo de tempo. A escuridão realmente já havia tomado conta do ambiente, uma vez que todo aquele verde não dava espaço a luminária alguma. Caminharia por mais alguns metros e logo iria para uma área mais clara para, então, dirigir-se à saída do parque.
Ouviu um farfalhar vindo das folhas e instintivamente virou a cabeça para trás para constatar que não havia nada além do vento balançando a folhagem.
Prosseguiu com sua atividade, porém um outro barulhinho quase igual ao anterior a fez parar de vez. Olhou para trás e, novamente, não viu nada.
Continuou parada, estática, apenas observando os troncos, as folhas e a pista delineados no escuro. Ficar imóvel provocou-lhe um imenso frio na barriga e um queimar na garganta, simultâneos ao arrepio dos cabelos da nuca. Seu pior erro foi ter parado. Ali, com os pés fincados nas pedrinhas, não conseguia se mover. O medo do vento e da escuridão a fizeram estancar-se sem mexer um dedo sequer. Nada tinha ali, mas o medo era algo incrível e, ás vezes, quase invencível.
Seus olhos passavam de um lado para o outro de maneira frenética, até que fincou-os num dos troncos à esquerda. Parecia poder enxergar o desenho de alguém a observando. Conseguia ver os cabelos ralos, uma das orelhas, o ombro direito e a mão apoiada na árvore.
Suor frio brotou-lhe na testa e os pés pareceram criar raízes. Por mais medo que tivesse, simplesmente estava hipnotizada pelo vulto. Após alguns instantes, constatou que era apenas sua imaginação. Menina tola.
Minimamente tranquilizada, virou-se de lado, quase voltando a correr - e desta vez correria mesmo para fora do bosque, ela que não queria ficar ali para confirmar que era apenas sua imaginação. Entretanto, bem quando estava quase retomando a busca por luz, pôde ouvir perfeitamente o barulho de algum movimento corpóreo humano. Desta vez o medo teve um maior apelo. Cutucou-lhe com um dedo gelado bem no meio da espinha, logo depois subindo até sua nuca e descendo até seu traseiro simultaneamente. O arrepio agora foi muito mais intenso e perceptível que o anterior. Viu o vulto recuar um pouco. Viu, viu, sim. Não podia ser apenas sua imaginação. Era real demais. Embora já tivesse passado por situações assim e depois ter achado-se uma idiota por realmente acreditar que era mais que seu medo, quando deparava-se com uma destas, deixava-se contagiar.
Queria perguntar se havia alguém ali, mas a voz não lhe saia e os olhos não desviavam. Então duas pequenas bolinhas verdes cintilaram. Eram os olhos do vulto. Ao mesmo tempo que as sobrancelhas dela subiram e arregalaram-se os olhos, as pequenas e ambiciosas esmeraldas dele se apertaram com a pressão que a ponta de dentro das sobrancelhas fez.
"Oh, Deus, oh, Deus, oh, meu santo e amado Deus, é uma pessoa!", pensou a moça, incapaz de conter seus calafrios e seu intenso medo que estava para sair em forma de algo viscoso e amarelado. Algo que não punha para fora desde os quinze anos quando teve a primeira bebedeira.
Por mais fortes que fossem as raízes do medo sob seus pés, não foram suficientemente resistentes à força de seus desespero e instinto de sobrevivência. Virou-se de costas e se pôs a correr. O ambiente parecia ainda mais escuro, as árvores pareciam fechar-se diante dela, o bosque parecia realmente querer ser testemunha de algo que ela nem queria imaginar o que podia ser.
Correu quase cem metros sem ter a coragem de olhar para trás, apesar de não ter ouvido em momento algum o estalar das pedrinhas atrás dela, além do que ela mesma fazia. Enfim parou. Respiração ofegante, franja caída nos olhos, mãos apoiadas nos joelhos, coração batendo rápido. Silêncio.
"Ora essa, sua idiota. Você tem quantos anos, afinal? Sete?", riu-se dela mesma, debochando do medo infantil. Era óbvio que não havia nada lá, apenas sua imaginação e um pouco de escuro.
Ainda hesitante, pôs de lado a desconfiança e finalmente olhou para trás: nada além das folhas balançando com o vento. Ah, que imbecil, dando vida a medos infantis sem fundamentos. Que coisa boba, que coisa feia. "Bem que eu avisei-lhe sobre o bosque", podia ouvir a mãe dizendo.
Um susto. Algo tampando-lhe a boca. Uma mão! Não, não era só seu medo, havia mesmo alguém em sua companhia!
Gritou, porém seu berro foi abafado pelo agressor e também pelo bosque que visivelmente não queria vê-la viva. Antes que sua companhia pudesse agarrá-la de maneira fatal, mordeu-lhe a mão e deu um salto para a frente, logo virando-se para ele.
As esmeraldas estavam bem á sua frente e seu dono era definitivamente um homem. Um ou dois centímetros mais baixo que ela, mirrado e de feições feias. Ossos finos e nariz grande. Cabelos ralos e escuros. Apesar de ser maior que ele e, aparentemente, ter maior chance de sair ilesa do que ele, a suspresa ainda tomava-lhe conta. Deu um passo para trás e se desequilibrou, porém não caiu.
Aproveitando-se do estado de choque dela, o magro agressor apressou-se em colocar as finas e geladas mãos no pescoço da morena esguia, apertando-o com surpreendente força. Conseguiu gritar umas três, quatro vezes, porém os gritos saíram esganiçados e falhos. Ninguém a mais de vinte metros poderia ouví-los. Ela o olhava com sumo desespero e tentava, em vão, tirar-lhe as mãos do pescoço. Estava completamente desamparada, não sabia o que fazer. Tudo o que podia ver era o sinistro, malicioso e débil sorriso abaixo das pequenas e ambiciosas esmeraldas e tudo o que podia ouvir era a voz de sua mãe culpando-a com as palavras "Eu lhe avisei sobre o bosque, sua pequena vadia!".
Algo estalou atrás do menino e o fez preocupar-se, soltando a moça que, sem ar, cambaleou para trás. Ele se virou: nada, apenas havia pisado numa folha seca. Voltou-se para ela, quase caída e com a garganta preenchida por dois grandes hematomas: um de cada lado. Havia recostado-se numa árvore e estava prestes a ir ao chão quando ele se aproximou novamente, a agarrou pelo rabo-de-cavalo e bateu-lhe a cabeça no tronco de madeira. Só não a bateu com mais força porque queria que ela presenciasse o gran finale.
Voltou a esganá-la e só parou antes que ela desmaiasse. Por fim, quando ela caiu já sem força sobre a terra e a grama ao lado da pista de caminhada, ele arrancou-lhe a calça de corrida e deu-lhe um tapa estalado no traseiro, rindo dantesca e insanamente.
A moça, com um filete de sangue escorrendo pela testa e outro pelo nariz e com a garganta já inchada, finalmente vomitou. Porém, além da usual pasta amarela, pôs para fora também sangue. Sentia a inconsciência chegar arrastada. Sentia também o desgraçado satisfazendo-se às suas custas. Não sabia se tinha mais nojo dele ou dela mesma, que por mero capricho não seguiu o conselho da mãe e por mera surpresa não defendeu-se dum magrelo como aquele.
Tinha os cotovelos, os braços, os joelhos e o rosto enfiados na grama, enlameados quando um vislumbre da cena que os policiais achariam na manhã seguinte passou-lhe pela mente: um cadáver duma moça beirando os vinte e cinco anos, descabelada, sem a calça e a parte debaixo da lingerie preta, o corpo cheio de barro, sangue seco no lábio, abaixo do nariz e na testa, os olhos fechados, a garganta inchada, uma pequea mancha de sangue na árvore á direita e sua calça jogada em algum lugar por perto.
Não conseguiu mais aturar aquele fedelho montado sobre ela como uma criança monta num cabrito e se balança para frente e para trás para fazê-lo andar. Vomitou novamente e, por fim, desfaleceu.


Natália Albertini.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Ídolos




Bem,vou tornar a coisa por aqui um pouco mais pessoal.

Eu sou totalmente a fim de criar um tipo de grupo revolucionário que poderia se chamar ‘Eu quero falar com o meu ídolo’.Não pensem que eu sou louca,mas olhem bem,nós amamos nossos ídolos porque os achamos demais,insuperáveis,perfeitos.Mas pera aí,como é que a gente sabe que eles são tudo isso?Quero dizer,eles são seres humanos como a gente.Como é que eu posso ser fã de uma pessoa,coloca-la em um pedestal, se eu nem sei se gosto da pessoa real dela?

Eu sinto uma necessidade enorme de falar com meus ídolos por exemplo,aquela vontade que ès vezes quero chorar.Quero que eles saibam o que eu sinto em relação à eles.Aí vocês me perguntam: ‘pra que existe o MySpace?’.Vai saber?Talvez pra fazer merchan.Os caras recebem milhões de mensagens todos os dias e aceitam,vocês acham que eles lêem cada uma?Quem sabe se são eles mesmo que aceitam?Eu às vezes queria que pelo menos um dos meus ídolos respondesse uma das minhas mensagens,ou carta ou sei lá o quê,mas eles são ocupados demais para isso(sendo que a gente é que bota eles no topo e quase se esfola por uma foto pessoalmente).

A gente podia ser fã das pessoas que a gente conhece,sabe?Das nossas mães,pais,avós,amigos,o cara da operadora de telefone que te agüenta do outro lado da linha...Mas não,a gente corre atrás das pessoas mais inacessíveis.Não digo que ninguém é errado,porque isso é absolutamente normal desde que inventaram a mídia.E até eu sinto isso.E querem saber?Agora eu coloquei na cabeça que vou mandar um monte de mensagens pro meu ídolo até ele realmente ler e me responder uma,como naquela música do Eminem,’Stan’.É claro que não vou me matar se ele não me responder,mas que eu vou fazer isso vou.Pode parecer besta,mas se nenhuma mensagem chegar,eu chego até ele.
Ana.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Mídia.


 Alexi Murdoch - Orange Sky
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O sol tornava o ar daquela tarde de agosto rarefeito e de difícil absorção, prejudicando os portadores de bronquite, asma e afins.
A sirene, aguda, aproximava-se da Rua Menderson quase que arrastada e transpirante, bem como os policiais de dentro do carro. Haviam sido chamados uns vinte, trinta minutos atrás pelo vizinho da casa azul, que tinha ouvido os gritos abafados da menina aparentemente deixada sozinha.
Um tumulto silencioso e cauteloso havia se formado na frente da casa, foi avistado pelas duas viaturas e fez com que desligassem o escandaloso aparelhinho vermelho umas três esquinas antes, apenas com a finalidade do possível agressor não ouvir sua chegada.
Os carros bicromáticos estacionaram logo atrás da reunião de quase todos os moradores da cidadezinha. Duas mulheres e um homem que estavam mais para trás do tumulto, logo, mais perto dos policiais, puxaram dois deles e disseram quase que em uníssono:
- Por que demoraram tanto? A menina está sozinha em casa!

O corpo magro, frio e rígido do pré-homem estava por trás do dela. Ele, de forma não convencional, não estava preocupado com seus gritos de desespero e pedidos de ajuda. Deixava-a esguelar-se o quanto quisesse, sua garganta não interfereria no processo.
Havia rasgado-lhe o vestido e lambia suas costas de maneira doentia, praticamente psicótica. Afogava as mãos pela parte interna e frontal das coxas dela, transformava os gemidos em arfadas e apenas a ouvia gritar, era muito mais prazeroso.
Não havia como se soltar dele. Ela estava presa entre uma superfície esquentada pelo sol e a pele molhada e aderente do agressor. Gritava ensadecida, ninguém parecia escutar-lhe, ninguém parecia querer escutá-la.

Os policiais foram conduzidos pelo meio do aglomerado de interioranos ainda mudos, e levados à porta da casa. No total, eram sete, incluindo o delegado. Não que fosse necessária a presença de todos eles, mas como naquela cidade, pelo que eles sabiam, não era cometido crime algum, quando alguém se atrevia a fazê-lo, todos queriam uma pontinha de mérito. O delegado e mais três ficaram fora da casa, apenas observando os outros adentrarem e, por vezes, conversando num volume mínimo com os moradores e, em maioria, vizinhos.

Ela continuava gritando e tentando esquivar-se dele, mas o filho da puta era desgraçadamente grande e forte, não deixava-a escapar de jeito algum. O rapaz emitia sons guturais, fazia movimentos contínuos de vai-e-vém, apertava-lhe intensamente as coxas e prensava-lhe contra a superfície espelhada e quente. "Caralho, que rabo...", ele gemeu no ouvido dela. A garota, irreversível e espontaneamente, sentiu um arrepio de asco acompanhar o fluído interno subir por sua garganta e esparramar-se sobre o queimante espelho azulado. O infeliz mal reparou aquilo, apenas continuou molestando-a divertidamente.
As mãos dela estavam amarradas de forma exuberadamente forte com uma corda felpuda e nova. Os braços estavam dobrados, fazendo com que as mãos tocassem seus seios. O desgraçado a havia prensado. Não conseguia mudar de posição. A parte externa dos antebraços já havia sofrido queimaduras de primeiro grau, as mãos, ela já nem mais sentia. Estavam amarradas de forma desumana pelos pulsos, haviam perdido a circulação havia algum tempo, logo, não sentiu quando o líquido esverdeado e viscoso as tocou assim que escorreu.

Os cômodos estavam todos escuros, mas os policiais ainda ouviam os gritos infantis e o débil pranto escandaloso. Faziam o mínimo ruído possível. Não precisavam das lanternas, uma vez que o dia, além de impossivelmente quente, estava infinitamente claro e iluminava bem a casa. Dois deles estavam ainda no segundo piso. Já haviam passado pelo quarto dos pais, pelo quarto da menina, pelo escritório e pelos dois banheiros, porém, até então, nada. O outro oficial estava no piso inferior. Havia checado a cozinha, a sala de estar, a sala de jantar, mas também nada havia encontrado.
O policial mais velho, com a camisa enfiada por dentro das calças apertadas nas pernas generosamente gordas, com a mão no coldre e fazendo as chaves tilintarem ao andar, estava ainda dentro do escritório. Assim que passou os olhos pela janela que dava para a garagem atrás da casa, viu o carro azul, a garota, o vômito e toda a situação.
- A gente já chegou! - gritou para a menina quase desmaiada.
O policial que estava também no segundo pavimento, estranhou ao ver o colega descer apressadamente os dois lances de escada e acabou por descer junto, chamando também o terceiro que encontrava-se na cozinha.

A menina havia gritado tanto que sentiu, por fim, sua força se esvaindo. Por fim, entregou-se, desmaiou. O rapaz se satisfez por mais algun instantes e, ao perceber que havia desmaiado, largou a garota semi-nua, deixou-a cair no chão e viu o vômito sobre a superfície azul.
- Vadia desgraçada - e chutou-lhe o estômago, fazendo-a cuspir um pouco de um fluído estranhamente avermelhado.
Ouviu um ruído e subitamente se virou com os olhos arregalados, prestes a fugir de qualquer bala ou soco.

- Não se mova! - berrou o policial gordo.

O agressor tinha o músculos enrijecidos e as batidas do coração aceleradas. Espantou-se.

O oficial aproximou-se do carro com cautela. Preocupou-se em não pisar em gosma alguma. Nem encostou no carro. Apenas ficou a fitar a garota estatelada.
- Chamem uma ambulância! Rápido!
O outro policial apressou-se em discar o número da emergência.

O rapaz constatou que a criatura que havia feito o barulho e o havia alarmado não passava de um cachorro velho e mal tratado. Sentiu um arrepio frio percorrer-lhe a espinha e a barriga gelando, ou seja, sentiu os músculos amolecerem, despreocupou-se.
Abriu a porta do carro e entrou, tomando imenso cuidado para não encostar no vômito da menina.

O delegado adentrou a casa correndo e tratou de tirar a garota de cima do carro.
A menina de onze, doze anos havia chego em casa e não havia encontrado a mãe. Subiu no carro para proteger-se de qualquer inseto que tanto temia. Com o tempo daquele jeito, teve um ataque de asma e tosse simultâneas. Vomitou e, sem forças, acabou por desmaiar.

O estuprador fez o motor do Volvo ronronar e deu ré. O automóvel deu um pequeno tranco ao passar por cima das pernas da garota.
Tirou a bolsa do banco do passageiro e a atirou ao chão, junto da menina:
- Fica com ela, filha da puta! E obrigado pelo econtro! Garotas...
A menina havia saído com ele, achando que teria um primeiro beijo perfeito aos quinze anos.
O carro acelerou e seguiu viagem para fora do estado e para dentro de alguma outra vida.

Shoot by Érico Marques.
Natália Albertini.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Flores e fronhas.

Sigur Rós - Sigur Rós - Glosoli
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Os dedos transmitiam para todas as mais longíquas extremidades do corpo o amarelo, o vermelho e o verde que se estendiam por baixo dele e iam até onde os olhos podiam ver. As pétalas das flores amarelas eram mais macias que as das flores vermelhas, porém seu caule tinha mais espinhos.
O sol já não estava mais a pino, logo daria espaço à amante que nunca encontrava. O ar se movimentava com intensidade média, nem forte, nem fraca, faziam os cabelos dele se moverem quase que imperceptivelmente.
Cerrou os olhos e sorriu discretamente. Ninguém havia dito uma palavra sequer - na verdade, ninguém poderia, estava sozinho naquele imenso campo amarelo e vermelho - mas sabia que dentro de instantes ela estaria com ele.
Passados dois ou três segundos, o toque mais macio que o amarelo despertou-lhe o ombro adormecido. A mão era fina, tinha os dedos compridos e frios. A dona das mãos gélidas sentou-se ao lado direito dele, logo pousando a cabeça em seu ombro.
Ele demorou alguns segundos mais para abrir os olhos, estava tentando achar pontinhas de carne para enfiar satisfação e alegria que transbordavam, sem lugar para ficar. Ao olhar novamente para o horizonte, viu o astro-rei quase ausente, dividia agora seu imenso e infinito brilho com a garota a seu lado. Levou a mão direita ao joelho esquerdo dela e o acariciou ternamente. Ainda vasculhava seu vocabulário em busca de vogais ou consoantes que traduzissem sua felicidade. Como não achou nada fiel, optou por dizer o que costumava dizer:
- Você é tudo que eu preciso...
A menina sorriu de canto e, desta vez, quem fechou os olhos foi ela. Respirou de maneira longa, profunda e audível.
- Mas bem que eu não seria tudo o que precisaria se passássemos fome e morássemos debaixo de uma ponte, sujeitos a enchentes e a assassinatos de última hora como a maioria. - seca.
- Eu me alimentaria da tua luz, moraria na tua pureza, me secaria com o teu calor e revieria, porque todo amor que eu tenho por você não cabe numa única vida.
Ela era cética. Acreditava somente na ciência e era bastante pessimista, entretanto, em momentos como este, era obrigada a admitir que algo maior existia. Algo como o respeito, a gratidão e, quem sabe, até o tão famoso amor.
Ela arfou e beijou-lhe o pescoço. Ele arrepiou-se por inteiro e estremeceu. Não era um arrepio simplesmente carnal, era o arrepio vindo de dentro causado pela ligação incontestável e suprema que ela mantinha com ele pelo toque de qualquer parte do corpo.
O apaixonado ergueu o ombro direito como que dizendo para que ela se levantasse: ela o obedeceu. Os dois olharam-se sem combinar, apenas intuitivamente. Nos olhos dela, ele encontrava sua paz e seu desespero. E nos olhos dele, ela encontrava toda sua ciência resumida e toda e qualquer teoria que anulava todas as outras.
Como que num ato irremediável e inevitável, os lábios se encontraram. O amarelo e o vermelho já nem mais existiam. O prateado sol noturno não era evidente. Toda a luz irradiava deles. Abraçaram-se e mantiveram a ligação pelo máximo tempo possível. Teve-a nos braços durante o máximo tempo possível.

Sentado na mesa, comendo alguns pequenos biscoitos e lembrando do fato passado, o garoto ouve a mãe reclamar:
- Você não passa uma noite sequer sem babar no travesseiro, menino?

Natália Albertini.