segunda-feira, 27 de junho de 2016

Delorean

O céu estava azul claro, quase cinzento, mas com a promessa de alguns raios de sol, como há muito não prometia.
O vento beijava de leve a janela do espaçoso e tranquilo apartamento.
Ela apoiou as duas mãos no parapeito daquela janela, que servia de apoio pra algumas almofadas e já tinha servido de cantinho da leitura.
A cidade se estendia à sua frente, meio cinza, mas com muitas árvores.
Ela girou a cabeça devagar num sentido e depois, no outro. Bocejou e se esticou, ainda despertando.
O cheiro de café lhe aquecia.
A cidade continuava se estendendo, bem como seus pensamentos.
Inspirou devagar e sorriu de canto... Pensar que, há alguns anos, achava que aquilo jamais aconteceria, que ela nunca nunquinha estaria ali...
Riu de leve, sozinha, e bocejou mais uma vez, desdenhando da própria inocência.
Com achou que não conseguiria?
Mais cheiro de café.
Passos leves, descalços, com um leve arrastar de moletom pelo chão lígneo.
Ela sentiu os braços fortes e quentes a envolverem por trás.
Ele apoiou o queixo em seu ombro.
Ela inspirou mais uma vez e recostou a nuca no peito dele.
Eles respiraram devagar juntos.
- Lembra quando eu dizia que nunca ia conseguir vir pra cá? - ela perguntou, com deboche.
- Lembro! E você nunca acreditava quando eu dizia que íamos conseguir - ele riu de volta e beijou-lhe a nuca.
Ofereceu-lhe, então, a xícara de café, que dividiram - old habits die hard.
Eles ficaram assim por mais alguns minutos, até despertarem pra quinta-feira e partirem para seus trabalhos (incríveis, por sinal).
Não esqueceram, é claro, de alimentar Mingau e Jujuba.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Raia.

Azul claro.
Azul claro, mas a faixa, no meio da raia, era quase roxa.

Um, dois, três, quatro, cinco e respira.

Um, dois, três, quatro, cinco e respira.
Um, dois - roxo - três, quatro - azul piscina - cinco e respira.
Um, dois - roxo escuro? - três, quatro - azul escuro!

Uma lâmpada, lá em cima, estourou.

Algumas faíscas caíram na piscina.
Metade dela ficou desiluminada.

Parou de nadar e afundou o corpo um pouco.

Olhou em frente.
Azul escuro e cinza. No light.
A água esfriou e o ar já tinha deixado completamente seus pulmões. 
Bateu as pernas desesperadas à frente, tentando se impulsionar no sentido contrário em que vinha.
Rápido, rápido, bate perna, bate perna, nada!!
NADA?!
Tentou alcançar a superfície da água. Via o reflexo distorcido do professor conversando com um outro aluno.
Tentou gritar, mas só bolhas saíram.

Dedos. Dedos muito, muito gelados e viscoso em sua canela direita.

Adeus.

Tristeza.

Tita ia à padaria do seu Mateu todo domingo pela manhã.
Neste, não foi diferente. Exceto pelo que houve lá dentro.
Ela já tinha passado dos 80 anos, mas ainda andava e ouvia bem. Seu único problema era que seu maior defeito, o de nunca querer falar sobre seus sentimentos, havia se tornado de fato uma doença: não conseguia mais falar.
Pediu os pães e também um doce que comeria depois do almoço e aguardou, perto da janela.
Um rapazinho entrou correndo e foi logo pedindo ao seu Mateu o que queria.
Ele era esguio e tinha os cabelos bem lisos, castanhos.
Quando foi perguntado sobre que sabor de pão recheado ele queria, ficou na dúvida. Se voltou pra trás e gritou:
- Dona Carolina, que sabor mais te apetece?
Tita buscou, ávida, pela mulher que deveria responder. Esse nome sempre a deixava sobressaltada.
Seus olhos a encontraram, apoiada numa cadeira, olhando algumas revistas.
Ela não havia ouvido o rapaz. Como sempre, não ouvia.
Ele se aproximou dela e repetiu a pergunta, ainda mais alto. Ela respondeu e continuou onde estava.
O coração de Tita quase lhe saiu pela boca.
Era ela. Carolina. A sua Carolina.
Pensou em finalmente se aproximar e pegar-lhe a mão, trançar-lhe o cabelo, como fazia quando eram meninas.
Entretanto, já não podia mais falar, nem ela, ouvir.
O rapaz pagou, tomou a mão de Dona Carolina e foi-se embora.
Tita ficou ali. Parada. Sozinha. Muda.
Uma tristeza densa e cinzenta a inundou. A tristeza que nunca passou. As lembranças que não se calavam e o arrependimento que já não mais a deixava.
O peito pesava como pressionado por uma pedra.
Tristeza.
Tristeza de velha. Desde menina.