quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Memoráveis Sensações

McFLY - Friday Night
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O ponteiro menor do relógio beirava o número sete, e o menor, o onze. O astro-rei ainda deleitava os humanos com raios praticamente intensos e quentes. A massa morna, azul e cintilante arrastava-se preguiçosamente pela areia, tocando os pés da garota que, por sua vez, aproveitava o ambiente ao máximo possível.
Morgana encontrava-se deitada naquela imensidão bege de minúsculos e quase invisíveis grãos, sedimentos de pedras. A brisa era suave e lhe acariciava. As costas nuas lhe permitiam entrar em contato com o solo. As pernas estavam dobradas e apoiadas nos pés. Os braços, deitados sobre seu tronco. Os cabelos, presos num coque.
Checou as horas em seu relógio comprada para ser usado especificamente na praia, com desenhos e estilo apropriados. Decidiu ir para casa e se arrumar, teria uma noite longa.Levantou-se vagarosamente e despediu-se do mar e do Sol, dando-lhes as costas e dirigindo-se à avenida principal. Atravessou-a e rumou seu caminho para o prédio.
Ao chegar ao apartamento, cumprimentou alguns membros da família, no geral, primos e tios, e dirigiu-se ao banheiro para tomar um bom e relaxante banho.Após seu banho, vestiu seu roupão e foi comer algo junto de suas primas. Quando se deu por conta, eram pouco mais de nove horas. Por Deus! Tinha de se trocar!
Correu ao banheiro para escovar os dentes e depois pulou para o quarto, logo abrindo o guarda-roupa e tirando de lá as vestes.
O apartamento todo estava uma loucura. Gente pra lá, gente pra cá. Simplesmente amava estas datas nas quais toda a família se reunia e tudo era divertido. O quarto estava cheio de mulheres: primas, tias, sua irmã, sua mãe. Era uma falação só. Uma pedindo a opinião da outra, uma dando uns pontos na camisa da outra, uma fazendo o cabelo da outra, uma acotovelando a outra pra usar o espelho e a maquiagem.
Vestiu seu shorts prata e sua regata branca com detalhes pratas, trançou o cabelo e maquiou-se de maneira simples e graciosa. Calçou seu par de chinelos e pronto. Estava prontinha para a virada do ano.Foi a primeira mulher a ficar pronta. Sentou-se ao sofá com três de seus primos e, como já previa, o de idade mediana, André, soltou o típico comentário:
- Vocês, mulheres, são tão enroladas! - e os outros dois concordaram, se ajeitando no sofá.
A moça apenas riu e disse:
- Mas é claro que somos! Se não fôssemos, vocês não gostariam tanto da gente, seus babacas!
- Ei, vai com calma... - respondeu, entretido, Tadeu, o mais novo.
- Ah, gente, pelo amor de Deus. O mundo pra vocês é tão fácil! - ela riu do próprio drama excessivo que, a propósito, odiava quando as pessoas o colocavam em prática, tornando-a contraditória.
- Fácil?! Fácil, nada! A gente sempre fica com o trabalho pesado! - retrucou Fernando, o mais velho.
- Ah, é? Trabalho pesado? Aposto que não aguentariam um dia como mulheres! Aposto que enlouqueceriam tendo que usar absorventes, calcinhas apertadas, sutiãs, tendo que arrumar os cabelos tendo que combinar todas as peças de roupa, tendo que forrar o vaso sanitário todas as vezes que urinar fora de casa. E vocês, homens, em dias como estes, assim como todos os outros, apenas colocam uma bermuda preta, uma camiseta colorida, um boné para não ajeitar o cabelo, um chinelo e, se der vontade de urinar, quer dizer, de mijar, vocês mijam de pé! Quer mais mordomia que isso? Vocês tem um membro a mais que, quando encontram-se em lugares sujos, ajuda muito!
Os quatro começaram a rir. Eles, por saber que ela tinha razão e por acharem realmente engraçado, sabe-se lá por quê. E ela, por sempre conseguir convencê-los daquilo; todo ano!
O apartamento era uma movimentação só. Gente andando, correndo, gritando, falando, bebendo, comendo. Então seu pai chamou a atenção dos que encontravam-se na sala, ergueu a mão que segurava a garrafa de champagne e disse em voz alta:
- Vamos, gente! Se não nos apressarmos, não vai restar lugar para pularmos as sete ondas! - e riu-se.
Era todo ano a mesma frase e todo ano todos fingiam que achavam engraçado e riam para não deixá-lo sem graça.
Ela se levantou junto com os primos e dirigiu-se à porta. Os que não ouviram o anúncio, começaram a deixar ao apartamento graças ao fato de que repararam o fluxo naquela direção.
Nas ruas que levavam à praia, um batalhão seguia quase junto: era sua família. Ela achava enorme graça nisso tudo. Eles faziam um barulho estrondoso por onde passavam, era incrível! As crianças corriam em círculos, enlouquecendo os adultos, os adolescentes andavam e riam juntos de sabe-se lá o quê, os adultos sorriam e compartilhavam algum tipo de conversa adulta.
Chegou à praia e viu o mar. Mal viu o mar que vira mais cedo, agora via apenas o mar de gente que se estendia por toda a areia, encobrindo-a quase que por inteiro. A maioria das pessoas vestia branco, pulava, ria e falava alto. Morgana simplesmente adorava todo aquele clima festivo e alegre.
Depois de algum tempo, um coro começou a contagem regressiva junto com um enorme relógio digital de um dos prédios. Enfim: ZERO!
Finalmente a queima dos fogos, as tampinhas das garrafas voando, os estalinhos destas sendo abertas, todos se abraçando e se cumprimentando. Abraçou todos da família, dizendo a cada um "Ótimo ano novo!" e desejando sinceramente que alcançassem todos os seu objetivos e metas.
Dirigiu-se ao mar desviando das pessoas que postavam-se à sua frente. Quase toda a família a acompanhava. Não poderia deixar de fazer aquela simpatia. Não que fosse exageradamente supersticiosa, mas gostava daquilo.
Pulou as sete ondas e, em cada pulo, um pedido diferente. O último deles e o que foi feito com mais intensidade foi: "Que o mundo mude sa perspectiva sobre si mesmo."
Era isso, agora não podia dar as costas ao mar, saiu e, ao chegar ao asfalto, despediu-se da imensidão azul. Deseja com ardor que seu pedido fosse atendido por algum santo ou deus, estava simplesmente cansada de ver o mundo daquele jeito. Ah, mas é claro que também não pôde colocar o egoísmo de lado e pedir um namorado que valesse a pena.
Era isso, um novo ano começava. E sabia que este ia passar mais rápido que o anteiror. Ultimamente tudo estava assim: progressiva e quase que perigosamente mais rápido.


Que o ano de 2008 lhes traga enormes felicidades e lições, e que dele vocês consigam adquirir muita experiência de vida e que suas barrigas doam de rir quando se lembrarem dele.
Eu posto quando voltar do outro planeta.
Obrigada pela atenção.
Natália Albertini.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Chuva de sapos política.

Enya - Only Time
<\embed> src="http://www.mp3tube.net/play.swf?id=89c798c99e72ec2b5d70e420150e4289" quality="High" width="260" height="60" name="mp3tube" align="middle" allowScriptAccess="sameDomain" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" wmode="transparent" menu="false" Tinha a cabeça recostada sobre o vidro da janela do lado do passageiro no carro de sua mãe. Seu braço esquerdo a ajudava a apoiar-se na parte saliente e interna da porta do carro. Sua mãe tamborilava os dedos no volante, impaciente e bufante. A música que o CD player moderníssimo tocava era Only Time, de uma das bandas que mais gostava: Enya. A garota acompanhava a letra da canção apenas com os lábios, sem interferência das cordas vocais.
As gotículas de água batiam e escorriam pelo vidro. Ela acompanhava o movimento que água fazia ao cair. O céu, escuro e mal-humorado, enviava, além da chuva, uma série de trovões e relâmpagos furiosos. Começou a fazer as contas de quanto tempo fazia que não via uma chuva pacífica, como dizia. Chuvas pacíficas para ela eram aquelas típicas chuvas de verão que caíam sozinhas, sem acompanhamento de trovão, relâmpago, granizo ou, quem sabe, sapos. Afinal, uma chuva de sapos era o que mais precisava ultimamente.
Queria uma chuva de sapos para que pudesse mudar, para que pudesse deixar de lado todos os sentimentos que não gostava, para se tornar alguém completamente novo. Queria passar por uma total metamorfose.
"Ora essa, mas que pensamento mais egoísta", refletiu ela. Sim, era egoísta, o pior de tudo é que sabia que o egoísmo era parte do ser humano, sendo mais evidente em algumas pessoas do que em outras, mas não havia como negar, todos o tinham em algum ponto de seu corpo, em algum momento de sua vida. Porém, aceitar o egoísmo e fazê-lo cada vez mais evidente era o que tinha colocado o mundo em que vivia naquele estado deprimente.
O mundo em que vivia era um mundo que de maneira exuberada esbanjava estupidez, ignorância, egocentrismo, ganância, egoísmo e cegueira opcional. Tudo isso gerava desgraça, pobreza, catástrofes e todo o resto que só este mundo podia oferecer da melhor maneira.
Talvez quem realmente precisasse de uma chuva de sapos era o mundo, e não apenas ela. Talvez quem merecesse uma chuva de sapos eram aqueles filhos das putas que tinham nações inteiras na mãos e que, ao invés de fazer algo para melhorá-las, apenas exploravam os filhos destas para seu próprio benefício. É, talvez quem merecesse uma chuva de sapos era, sim, o dinheiro daqueles desgraçados. Não era questão de simplesmente igualá-los a todos os outros, de simplesmente apresentar-lhes a pobreza. Mas era questão de fazê-los entender o quão difícil era ter que começar do zero e conseguir chegar onde chegaram com puras honestidade e força de vontade.
Ah, não, mas é claro que isso jamais seria feito, afinal, a maioria deles era burra feito uma porta, a maioria deles não sabia o que estava fazendo ali, muitos deles tinham como profissão cantar, espalhar fofocas ou qualquer outra coisa do tipo que nada tinha a ver com a política. Aliás, eles não eram tão burros assim, não. Eles eram até bastante inteligentes, isso é, inteligentes o suficiente para sentirem mais ganância e bolaram mais algum tipo de imposto ou lei apenas para ganharem mais dinheiro.
E, afinal, tanto dinheiro para quê? Tinham tanto dinheiro que mal conseguiriam gastá-lo por completo até o final de sua vida que, se dependesse dela, não duraria por mais muito tempo, não. A propósito, ela sempre achou toda aquela coisa de dinheiro algo bem engraçado. Afinal, o que era o dinheiro? Apenas cédulas de papel uniformizadas com a mesma cor e símbolo e que servia para adquirir outros bens. Sim, aquilo era quase como um "vale-benefício", aliás, não passava disso. Só achava então que eles poderiam poupar esforços e papel e fazer um outro tipo de vale, ou seja, algo mais prático, não sabia como, queria apenas que fizessem, afinal, o ser humano era suficientemente insano para isso. Achava ainda mais engraçado as contas nos bancos e os cheques, o que era tudo aquilo?! No final do mês, os empregados recebiam seu salário, que era jogado diretamente para suas contas em seus respectivos bancos. Eles tinham o simples trabalho de ir até o banco e checar suas contas, abriam-nas e viam o visor da tela mostrando o número equivalente ao valor que recebiam. Quando queriam comprar algo, escreviam um cheque e o entregavam ao vendedor, que passava-o à loja, que recebia-o e adquiria aquela quantia. Porém, não podia-se dizer que era uma quantia em dinheiro, eram apenas números, por Deus! Eram apenas números que diziam equivaler a dinheiro! Mas, por Deus, como sabiam que realmente equivalia?! Eram apenas números escritos em papéis! Achava bastante engraçado o fato de poder adquirir-se bens apenas escrevendo números.
Sua mãe deu um súbito berro, xingando o motorista da frente que não havia avançado no tempo em que a luz verde do farol permitia. A garota sobressaltou-se e a olhou. Agora suas reflexões haviam partido. Apenas as teria quando uma outra chuva caísse. Talvez apenas quando a chuva de sapos tão esperada caísse, afinal, a sociedade a instruía para não refletir sobre tais assuntos.

Até semana que vem, meus amores.
Natália Albertini.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Que a chuva leve consigo.

Joey Cape and Tony Sly - International You Day
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O vento era suave, mas mostrava-se presente por meio das ondulações que causava na água. Esta, por sua vez, colidia com a madeira da plataforma que rangia sob os pés dele. O barco que jazia à sua direita fazia alguns leves e silenciosos movimentos com a ajuda da água.
A brisa tocava-lhe o rosto com suma delicadeza. O céu não estava tão claro, nem tão escuro, estava apenas da cor usual, da cor de seu interior quando pensava nela. As gaivotas davam mínimos saltos e moviam-se do jeito comum, apenas caminhando pelo pequeno cais, procurando algum bichinho mais indefeso que elas do qual pudessem se alimentar.
O rapaz levou as mãos ao rosto e assim as deixou por alguns segundos. Logo depois descobriu a face levando cada mão para um lado, escorregando-a para a nuca e entrelaçando os próprios dedos. Ficou naquela posição durante alguns instantes, de olhos fechados, apenas pensando. Provavelmente pensava nela.
Sentiu dois braços finos e um pouco longos abraçarem-lhe pelas costas. Ele não optou por nenhum outro tipo de reação senão apenas desfazer os nós nos dedos, descer as mãos e fazer estas acariciarem as outras que situavam-se na região de sua barriga. Não restavam dúvidas, não tinha como não ser ela, a menina dos seus olhos.
Ela era bastante mais baixa que ele, portanto ele podia sentir sua cabeça, virada para a esquerda, tocar-lhe as costas, bem abaixo de sua nuca. O silêncio era tão grande que se podia ouvir o barulho do movimento da água. Após alguns segundos, a garota virou a face de frente para as costas dele e as beijou com imenso carinho. Nesse instante, foi possível sentir e vê-lo completamente arrepiado. Seus braços, seu pescoço, tudo, completamente arrepiado. Aquilo era claramente uma explosão de sentimentos e sensações.
Ele teve vontade de puxá-la para dentro daquele barco e remar, remar, remar e remar para algum lugar onde não poderiam ser incomodados. Teve vontade de roubá-la, de tê-la só para ele. Teve vontade de fazer tudo isso, porém não o fez. Depois de tudo, não tinha forças para fazer, principalmente em meio a tal arrepio. Sabia que nada disso funcionaria. Ele se limitou a olhar para o céu e depois a fixar os olhos no horizonte, agradecendo a este imensamente por ter aquela dádiva, aquele anjo junto de si. Respirava de maneira profunda e ocilante, de um jeito ou de outro, sempre se acanhava quando a tinha por perto. Ele enfim abriu os lábios e disse suas primeiras palavras do dia para ela:
- Obrigado por ter vindo...
Ele não viu, mas sentiu que ela havia sorrido. A menina afastou-se, deixando de abraçá-lo, postou-se ao seu lado e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Agradeça apenas a si mesmo... - e dirigiu-se ao fim da plataforma, sentando-se de modo a permitir a água beijar-lhe os pés, gélida e um pouco mais agitada.
Ela jogou os braços para trás e apoiou-se sobre eles que tinham como sustento a madeira clara. Seus cabelos estavam soltos e o vento, agora um pouco mais intenso, balançava-os com leveza.
Ele prosseguiu parado por um pequeno tempo. Tempo este durante o qual teve imensa vontade de ter uma câmera ao alcance para poder bater uma fotografia. Entretanto, sabia que mesmo que ele tivesse a câmera, ela sumiria antes que pudesse alcançá-la. Era sempre assim, não tinha como guardar esses momentos fora da memória. Sabia que mais cedo ou mais tarde, esqueceria quase toda a maioria dos detalhes. E o pior de tudo era que tinha plena certeza disso.
Decidiu-se então por ir até lá, juntar-se a ela, afinal, não era sempre que ela aparecia e, quando aparecia, precisava aproveitar. Portanto caminhou e ouviu a madeira ranger sob seus pés, posicionou-se ao lado dela e sentou com pernas de índio, como dizia ela.
Ele fazia de tudo para não a olhar diretamente aos olhos, pois sabia que se o fizesse, seria vítima do encanto dela e tentaria fazer algo que, se realmente feito, apenas o frustraria da pior maneira possível.
O céu cinzento mandou um vento mais forte desta vez. Não tão forte a ponto de descabelar a garota por completo, mas apenas para lhe atrapalhar com algumas finas mexas de cabelo no rosto. Ela tirou algumas dos olhos e então, com sua voz doce e que parecia melodia aos ouvidos dele, disse:
- Então, como você tem passado, meu bem?
Ele, pacífico e quase conformado com o fato de que jamais a teria totalmente, respondeu com voz de desânimo:
- A cada dia pior, isso é, a cada dia mais conformado.
- Conformado?
- Conformado de que nossos universos apenas se entrelaçaram, mas nunca andarão exatamente de mãos dadas.
Ela sorriu delicadamente, assemelhando-se a uma boneca, e baixou a cabeça:
- Como você sabe disso?
- Do mesmo modo que você sabe.
- Eu não...
- Não sabe? É claro que sabe. Você sempre sorri e abaixa a cabeça assim quando eu digo alguma verdade incontestável.
Ela limitou-se a sorrir novamente e a beijar-lhe uma das bochechas: a esquerda, a que lhe estava ao alcance.
- Você tem mesmo que fazer isso? - contestou ele.
- Isso o quê?
- Me torturar.
- Desculpe-me, não sabia que um beijo meu lhe era tão ruim... - ela apenas continuou sorrindo, mas desta vez, era um sorriso em parte culpado, pois sabia que ele não se referia ao beijo.
- Você sabe que não me referi a isto - o fato de ele prosseguir sempre inexpressivo a irritava.
- Sei... Mas então, se referiu a quê?
- Ao fato de você aparecer, me fazer querê-la cada vez mais e depois ir embora e me deixar sozinho.
- Eu não te deixo sozinho...
- Tem razão, eu sei que eu sempre estou sozinho.
- Não, não foi isso que quis dizer!
- Não importa... - os olhos dele se fixavam na dança da água.
Ela suspirou e afastou-se um pouco dele para que assim pudesse deitar a cabeça em seu colo. Deitou confortavelmente e ficou olhando para cima, olhando para ele que, por sua vez, continuava admirando o horizonte e não ela.
- Por que você não me olha?
- Não posso.
- E posso saber por quê?
- Se eu o fizer, você parte.
- Não parto, não. De onde você tirou essa idéia?
- De todas as vezes que você o fez.
- Eu não o...
- Não negue, você o fez.
- Se você diz... Mas te juro que não foi por vontade própria.
- Se é que você tem alguma...
- Que quer dizer com isso?
- Nada, não.
Ela ergueu um de seus braços e com a mão deste, acariciou-lhe o rosto. Enfim ele baixou a guarda, não resistiu, foi obrigado a admirar seu rosto. Ah, e que rosto. Era praticamente tudo com o que sempre havia sonhado, senão a própria tradução de seu sonho. Seus olhos se prenderam nos dela: fatalidade. Agora não havia volta. Tinha apenas mais alguns segundos com ela.
O feitiço havia sido lançado pelo olhar dela, ele não teve como resistir. Aproximou-se e beijou-a com suma afeição e, em parte, receio.
Assim que tocou-lhe os lábios com os seus próprios, o céu cinzento e ranzinza trovejou e enviou-lhes uma chuva gelada, espessa e pesada. Ele abriu os olhos e olhou-a nos instantes finais. Num ato involuntário ele a abraçou e murmurou:
- Por favor, não faça isso comigo de novo.
- Eu não estou fazendo...
A chuva parecia derretê-la, fazê-la escorrer por seu colo. Ele levantou-se para ter melhor visão. E que péssima visão: a viu esvair-se por entre seus dedos. Tarde demais. A chuva a estava levando, estava tirando-lhe de seus braços da maneira mais fria possível.
Que assim fosse, então. Que a chuva a levasse de volta para onde quer que fosse seu lar. Que a chuva levasse consigo também seus sentimentos, para que jamais voltasse a sentir aquela agonia queimante no peito.


Ps.: Foto roubada do Mark . Obrigada, meu bem.
Natália Albertini.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

It just can't be cyber-love.But it is!

Foundations-Kate Nash



Aconselho você a escutar a música acima lendo o texto,a não ser que você queira escutar uma música sua,ou nenhuma(:



Ai,que saco,que saco mesmo.Todos são uns trastes,exatamente.Nenhum deles presta,é mesmo,você está certa,está certíssima!
Não,você não está louca por estar frustrada e irritada,está perfeitamente normal ao pensar que todos os garotos da sua escola são uns babacas acéfalos,porque eles são mesmo.E está totalmente com a razão ao pensar que todos os seus colegas ou amigos são muito imaturos e não servem para você,aham,tudo isso é verdade.

Você está perdida,levou uns 5 foras no último ano e está numa seca desgraçada,pior que a do nordeste.Porque uma coisa é você não ter um garoto surreal para beijar e não poder,outra é você tê-lo bem perto de você e não poder agarrá-lo porque,que infortúnio,ele não te quer.

Vive sonhando que está tendo um encontro super romântico e beijando aquele ator famosão ou que tá num amasso desesperado com aquele gostosíssimo que nunca viu na vida,fruto da sua mente fértil e madura.E quando você acorda...Todos são feios e imbecis,nenhum chega aos seus pés!E aí você pensa: “Meu Deus,Será que vou ter que apelar para aquele ‘Chat Line’ ou aquele site ‘Namore em 5 minutos’?

Aí você sai com as suas amigas e surpresa!Não há ninguém interessante para dar uns beijinhos e voltar para casa feliz.Tudo bem,tudo bem,você está com as suas amigas,tudo é divertido.Aí uma delas,aquela que conhece todo mundo em todos os lugares,começa a falar de um garoto super legal e descolado que ela conheceu nas férias que passou em outro estado,ou de um amigo que não é da sua cidade ou é e você não conhece,de um primo que tá fazendo intercâmbio na Austrália...

E aí ela resolve passar o MSN dele para você.Você o adiciona,é lógico.Os dias passam,conversa vai,conversa vem e não é que ele é muito legal mesmo?E ainda por cima é mais bonitinho do que você imaginou.Ai,ele parece tão diferente dos outros,tão sensato,tão maduro e sensível,inteligente...Você gosta dele,ele é um ótimo amigo e sabe de coisas que muita gente nunca soube.Parece tão confiável que nem parece real.

E de repente,você acha que as forças maiores do universo ou algum santo como o Antônio que você virou de cabeça para baixo e amarrou no escuro mês passado resolveu atender suas preces mais íntimas.Ele enviou aquele garoto para você,exclusivamente,mesmo que você não nunca o tenha visto na vida.Mas tudo tem seu tempo,vocês irão se ver quando ele descobrir que está apaixonadíssimo.Vão até fugir um com o outro!Ele é seu,porque o destino assim quis.

Mas,como qualquer outro garoto,ele não põe assunto algum em pauta e você,tagarela ao máximo,quer conversar sobre tudo.Fala do seu dia,dos seus segredos mais íntimos e até do fungo vaginal da sua tia-avó.E ele te dá atenção!Não é o máximo?Ele te dá atenção,percebeu que você é mais que um rostinho bonito,é inteligente,madura e tem senso de humor.

Então ele começa a ficar monossilábico ou só manda aquelas carinhas imbecis e você não percebe que é um sinal que ele está dando para que você pare de falar com ele,que você é uma bolada no saco,porém ele não irá dizer diretamente.Mas você está superafim e fala a coisa mais absurda e espontânea que lhe vier na cabeça.Fala tanta merda,mas tanta que não sabe nem como ele te suporta.Mas olha só,ele suporta!

Você quase morre quando fica on e ele está off.Ele nunca abre sua janela para ir falar com você.E você sempre promete que não vai falar com ele,mas não agüenta nem quinze minutos esperando.Quando a janelinha com a foto e o nick dele aparece no canto inferior esquerdo do seu monitor,você começa a pular de excitação.



Ele não está nem um pouco a fim,só que você ainda não percebeu isso ainda e se contorce a cada palavra que ele diz.Como você não pode olhá-lo daquele jeito,começa a dar aquelas indiretas do tipo: ‘‘aposto que você é o maior pegador!’’ quando você queria dizer ‘‘queria que você me pegasse!’’.As indiretas que ele não percebe,ou finge que não.

Você até começa a se sentir bem,com a auto-estima lá em cima,contudo agoniada por ficar guardando sua paixonite.Aí você resolve dizer que é a apaixonada,gosta ou é a fim dele.

Acabou querida,você acabou de cagar mais uma vez na sua vida amorosa/sexual.Ele fica surpreso e sem graça,dá uma disfarçada e logo você saca que você estava era iludida,porque ele não sente nada além de uma amizadezinha ou um tédio imenso de você.

Que desilusão,você levou mais um fora!Bem,você nunca viu ele mesmo,muito melhor assim.

Tudo bem,ele não era bom o bastante,não conseguiu enxergar sua maturidade e inteligência.Só reparou se você tinha peitos,bunda e um rosto ajeitadinho o bastante pelas fotos do orkut e do fotolog.

Mas a verdade,a verdade mesmo,é que ele era como todos os outros.Imaturo,imbecil e sem cultura.Só se sentiu intimidado por você ser melhor que ele.Homens sempre se sentem intimidados se a mulher é mais inteligente ou tem um caráter melhor que o deles.E ele nunca ia gostar de você simplesmente por isso.

Ele é igual a todos os outros e até fica batendo umas punhetinhas com sexo grátis e porco na internet enquanto você nunca havia pensado que ele fazia isso.Não seja tola,ele é um garoto!Ele só era diferente porque você nunca foi obrigada a conviver com ele pessoalmente.

E aí você promete que se você conhecer outro garoto por MSN e acabar gostando dele,nunca vai cometer os mesmos erros que cometeu com o anterior.Mas você está enganada também,porque você não vai conseguir evitar,faz parte de você.

E é assim que a vida funciona com os garotos.Para você achar um que enxergue o que você é,além do seu corpo e do seu rosto,vai demorar.Se você estiver com muita pressa,vai ter que se fingir de burra e ingênua,daquelas bem bestinhas,sabe?Daquelas burras que a última notícia que ouviu e não fosse fofoca de sobre a vida de alguém foi a morde da Lady Diane,como as putinhas baratas que você conhece.Vai dizer que você nunca tinha pensado por que elas fazem tanto sucesso?Elas fazem o ego deles inflarem que é uma beleza!

E,sinceramente, se for para conquistar alguém assim,não vai ter o menor sentido.Eu nunca vou estar pronta para isso.E acho que você que o faz,uma hora também não vai estar,ninguém agüenta esconder o que é a vida inteira.


Pepper Ann

domingo, 9 de dezembro de 2007

Mundo dos Sonhos

Joey Cape and Tony Sly - Violins
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- Ai, meu pé! - exclamou Marcos, um baixinho, branquelo, de cabelos bem escuros e óculos fundo-de-garrafa.

- Desculpa, cara, mas eu não vi - respondeu Júlio, uns dez centímetros mais alto que o outro, um pouco mais bronzeado, porém com o cabelo quase da mesma tonalidade.

- Gente! Cala a boca! - censurou Eduardo, o mais alto dos três e, pelo jeito, o mais sensato.

Todo o diálogo ocorrera por meio de sussurros, afinal, se falassem mais alto que isso, seriam descobertos. Todos os três estavam agachados debaixo da janela que dava para a sala da casa de Paula, uma das garotas mais bonitas, charmosas e atraentes de toda a escola. Os três faziam parte do típico grupinho sabe-tudo. Júlio e Eduardo eram "até descolados", como diziam as garotas, o problema era Marcos, "de difícil degustação", na opinião delas. Porém nada demais, acontece nas melhores famílias...

Os três jamais haviam namorado alguém, na verdade, haviam dúvidas se eles já haviam beijado alguém. Entretanto isso não os incomodava, eles não sentiam falta de uma garota, isso é, não no sentido de ter alguém para entregar o coração, porque no sentido de ter alguma delas para sua satisfação carnal, ah, aí, sim, eles sentiam falta. Bem, isso era o que até eles próprios pensavam.

Eduardo, o mais "ajeitadinho", segundo a opinião de algumas garotas, tinha uma paixão secreta, uma paixão da qual até ele tinha medo. Era simplesmente apaixonado, tanto de corpo quanto de alma, coincidentemente pela melhor amiga da dona da casa que estavam espiando agora. A garota era Anita, bela loira de cabelos compridos e olhos apaixonantemente verdes. Ora, mas é claro que eram apaixonantes, ele não estava apaixonado por ela?

O fato é que nunca haviam se falado, nada mais do que um simples "oi" quando casualmente encontravam-se numa mesma roda de amigos. Nunca passou disso, quer dizer, não para ela... Eduardo a observava há algum tempo. Não só fisicamente, mas principalmente no quesito personalidade. Conseguira algumas dicas sobre a história e mentalidade da garota e, aí, sim, decidiu entregar seu coração a ela. O de cima, não apenas o de baixo.

Lembrava de seu doce perfume de jasmins quando Marcos deu-lhe uma bela acotovelada:

- Olha lá, ela tá indo pra cozinha! - e deu uma risadinha hilariamente safada.

- É, quem sabe ela não tira a blusa graças ao calor do fogão? - prosseguiu Júlio, rindo-se de forma que só os homens vêem graça.

Eduardo apenas riu baixinho, achando graça em quanto os dois queriam que ela realmente fizesse todo aquele processo de cenas de filme. Ele praticamente engatinhou para o lado, deixando mais espaço para os dois, saindo de debaixo da janela, e recostou o dorso na parede, escorregando-o e sentando-se na grama. Marcos o olhou, quase pasmo, e arregalou os olhos, chamando-o de volta com um gesto de mãos:

- O que tá fazendo?!

- Não quero vê-la nua, isso é, se ela ficar nua...

- Ela vai ficar... Mas, por que não quer mais?

- Não sei, só perdi a vontade... Agora fique quieto, senão ela vai te descobrir!

Era bobagem, ele sabia por quê. É claro que sabia, era por causa de Anita. Ficou ali, sentando, perdendo-se em pensamentos quando repentinamente Júlio exclamou num sussurro:

- Olha só! Mais uma para nosso deleite! He-he.

- Meu Deus, estamos feitos... Essa Anita é um pitel!

Eduardo sobressaltou-se e pulou, pondo-se de pé e logo empurrando os dois para fora da janela, ficando sozinho ali para conferir. E, sim, era ela, era sua amada. Os dois voltaram e falaram quase que simultaneamente:

- Qual é a sua, Du?

- Calem a boca!

Os dois amontoaram-se sobre ele para acompanharem a situação. As duas garotas se abraçaram e continuaram assim por um bom tempo, aparentemente consolando-se. Então Marcos não pode deixar de soltar uma de suas piadinhas:

- Beleza! Lésbicas são ainda mais atraentes!

Júlio e Eduardo apenas responderam-lhe com dois murros, fazendo com que assim ele se calasse de uma vez por todas. As meninas sentaram-se no sofá e começaram a conversar. Ah, como o apaixonado gostaria de ouvir o que elas estavam falando... Anita estava tão triste e também... Opa, ela estava chorando! Ah, como queria poder consolá-la.

De repente, Paula levantou-se e virou-se de frente para a janela, o que quase levou ao fracasso da operação. Por mera sorte de todos os três, seus reflexos não deixavam a desejar e se abaixaram antes que pudessem ser descobertos. Esmagaram-se contra a parede, para que ela não os percebesse. Ela abriu a janela, afinal, a noite estava quente e quase insuportavelmente abafada. E, para dizer a verdade, eles poderiam quase ter continuado na posição em que estavam, a garota era perfeitamente hipermétrope. Porém eles não sabiam disso e, mesmo que soubessem, não se arriscariam, obviamente.

Ah, a janela agora estava aberta e o ar estava livre para ir e vir da casa, livre para deixar as ondas sonoras fluírem e chegaram aos ouvidos deles, principalmente, de Eduardo. Eles levantaram-se novamente e ficaram quase que na mesma formação, apenas um pouco mais abaixados. Apenas o suficiente para vê-las e não serem vistos. O mais alto dos três teve sua confirmação: ouviu os soluços de sua amada. Ela estava chorando, sim, com toda a certeza. Bastava agora ouvir o motivo disso. Ouviu Paula dizendo:

- Querida, não fique assim...

- Paula, eu digo isso a mim mesma todas as noites, mas tem vezes que não consigo segurar. Ele é tão perfeito, é tudo que eu sempre quis pra mim...

- Eu sei, meu bem, mas não adianta fazer todo esse escarcéu por causa dele. Ele está a sabe-se lá quantos mil quilômetros daqui, vocês nunca se viram pessoalmente, você não sabe se ele é realmente tudo isso.

- Ele é, eu sei que é. As músicas que ele me manda, as coisas que ele me fala, tudo!

- Anita, deixa disso. Se, por um acaso, algum dia vocês chegarem a se ver, aí, sim, você opta por amá-lo ou não. Mas enquanto isso não acontece, abra seus olhos para os garotos daqui. Aposto que há vários meninos daqui que morreriam por você.

Nesse instante, Anita e Eduardo, apaixonado e apaixonada, suspiraram de maneira perfeitamente simultânea. Como ela queria acreditar que aquilo era verdade, que alguém olhava para ela. E como ele queria ser aquele cara de quem ela tanto gostava. Ela deu continuidade:

- Isso não é verdade. Ninguém daqui sequer repara em mim, Paula. Eu sei disso... Não sou como você: linda e interessante. Sou uma qualquer quase convencida de que os garotos que valem a pena estão sempre longe, e eu nunca os encontrarei pessoalmente.

Marcos e Júlio estavam sentados na grama, ao lado de Eduardo. Haviam perdido o interesse, estavam conversando sobre qualquer coisa relacionada a átomos. No instante em que Anita terminou de pronunciar aquelas palavras, o garoto sentiu uma comichão arrastar-se por todo o seu corpo. Ele postou-se de pé por completo, enfiou a cabeça pela janela e gritou:

- Isso é verdade, sim! Eu reparo em você e, pra dizer a verdade, eu te amo!

Ambas as garotas o olharam extremamente surpresas e furiosas e começaram a gritar com ele.

Ele saiu correndo. Mas, espera... Seus pés continuavam plantados ali e continuava na mesma posição de antes de ter-se colocado de pé. Ah, é claro, não havia feito nada daquilo, foi apenas a força de pensamento. É óbvio, ele nunca faria aquilo. Que loucura... Se fizesse, provavelmente nunca voltaria a falar com ela. Porém, pensando por outro lado, se não fizesse, jamais falaria com ela...

Não, melhor não fazer, acharia um jeito de conversar com ela mais pra frente, tinha que achar, não guardaria aquilo para sempre.

O que mais doía nele agora era saber que ela realmente acreditava que os únicos que valiam a pena e que gostavam dela não estavam perfeitamente à disposição.

Natália Albertini.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Conflitos Interiores


A televisão mostrava algum tipo de bobagem incapaz de prender sua atenção por meros quatro ou cinco segundos. Distraía-se apenas com o fato de mudar de canais freneticamente. O telefone tocou: sua salvação. Talvez fosse alguém que lhe tirasse do imenso tédio da tarde de domingo. Levantou-se do sofá e dirigiu-se à mesinha de canto sobre a qual o telefone vermelho ficava. Sentou-se na banquetinha cuja posição era exatamente ao lado do pequeno móvel e tirou o fone do gancho, levando-o à orelha esquerda:

- Alô?
- Fernanda?
- Sim, sou eu. Quem está falando?
- Sou eu, meu bem.
- Aaaaaaaaah, mas que falta de atenção minha. Desculpe-me, querido. Como você está?
- Quer a verdade?
Ela suspirou de modo que ele jamais ouviria, pois já sabia que algo de ruim havia acontecido. Muito provavelmente com a namorada.
- Claro, né, Luigi?
- A Carol terminou comigo...
- Terminou?
- É, terminou! - era possível perceber sua voz vacilando, o pranto era quase iminente, ela sabia que sim, conhecia-o há quatro anos, eram melhores amigos desde então, não havia como não saber.
- Ô, meu bem... - respondeu-lhe num tom afetuoso.
- Ai, Fê, eu não sei o que fazer...
- Mas qual foi o motivo disso?
Ele hesitou, demorou a responder, mas então prosseguiu:
- Fê, você não pode vir aqui? Preciso tanto conversar com você... Preciso do teu abraço, da tua compreensão.
- Está bem, meu amor, daqui a pouco eu estou aí.
Um clique: ela desligou sem maiores despedidas.
Desligou a televisão, dirigiu-se ao quarto, vestiu uma roupa mais apresentável do que aquela que vestia apenas para ficar em casa, pegou sua bolsa, seu celular e sua carteira e saiu do apartamento, trancando-o e logo chamando o elevador.
Chegou à casa dele depois de uns quarenta minutos. Tocou a campainha e esperou que ele viesse atendê-la. Ele não demorou a abrir a porta e, assim que o fez, jogou-se, abraçou-a com toda a força que sua alma e seu coração podiam dar. Ela retribuiu o abraço e beijou-lhe a face com sumo carinho e respeito. Eles entraram e, como de costume, dirigiram-se à sala de estar. Ela largou a bolsa no sofá e sentou-se, bastante á vontade, afinal, ia àquela casa há um bom tempo e eles eram quase irmãos, não tinha porque fazê-lo de outro modo.
Ele sentou-se ao lado dela e esperou que ela fizesse a pergunta mais óbvia:
- Afinal, o que gerou tudo isso?
- Eu não sei, Fê... - ele tinha uma incrível capacidade de fazer as pessoas se comoverem apenas com seu tom de voz quando queria que elas o fizessem. Seus olhos conseguiam penetrar-lhe a alma como outros jamais haviam de conseguir.
- Luigi, você não pensou que pode haver...
Ele a interrompeu e terminou a frase:
- Outro cara? Sim, é por isso que estou assim. Namoro a Carol há dois anos, sempre nos demos tão bem, ela demonstrava-me seus sentimentos com frequência... Meu maior medo é que eu tenha perdido meu encanto para ela, que ela tenha visto que não sou tudo que ela merece...
Fernanda apertou os olhos e o encarou com um de seus melhores olhares: um que ela só usava, e, a propósito, usava-o demasiadamente bem, para acusar alguém de completa insanidade, se é que seres humanos têm alguma sanidade.
- Ora, garoto, não fale isso, assim você me desaponta! Pensando assim, é lógico que ela ia te largar!
- Mas...
- Não, agora você vai me ouvir. Luigi, você sabe que eu não aprovo por completo seu namoro, você sabe muito bem que eu acho que ela te limita em certos aspectos e te mostra horizontes demais em outros.
- Como assim?
- Ah, pelo amor de Deus, você sabe tão bem quanto eu do que estou falando! Ela te oferecer drogas frequentemente não é abrir-te horizontes demais? Ela não te deixar sair com seus melhores amigos não é limitar-te?
- Sim, Fê, mas eu a amo...
- É claro que não! Meu bem, garanto-lhe que você não sabe o que é amar e, por favor, não queira saber tão cedo. Por enquanto tudo o que conhecemos é o amor de família e o amor de amigos, mas quanto a amar outra pessoa, aceitá-la como parte que te completa, isso vai além, muito além de nossa compreensão atual. Não apresse-se em saber, sua hora virá. Mas agora você vem me dizer que ela merece mais do que você? Eu digo o contrário: digo que ela merece alguém que seja um oitavo seu.
Ele sorriu com simplicidade e afeto e abraçou a moça, agradecendo-lhe:
- Obrigado, Fê, eu te amo... Obrigado por tudo. Obrigado por ser uma quase irmã minha, obrigado por estar sempre disposta a me ajudar... E eu prometo que vou ao menos tentar mudar minha mentalidade.
- Ótimo, já é passada a hora - ela sorriu de volta.
Passaram duas ou três horas mais jogando conversa fora e então ela decidiu partir. Despediram-se e ele a agradeceu novamente, desejando-lhe boa noite logo depois.
Voltou a pé, bastava andar alguns quarteirões, entretanto isso foi suficiente para mexer com seu interior.
Enquanto caminhava, tudo voltou à tona. Tudo o que tinha de melhor guardado, tudo o que não queria que voltasse. Tudo. Tudo o que sentia por aquele infernal garoto.
Era tão irritantemente ligada a ele, tão desagradavelmente íntima com ele... Ela jamais iria querer algo além de amizade, se é que isso já não era grande coisa. Jamais pensaria nele como algo além de melhor amigo. Era só que de vez em quando isso voltava e nem ela sabia por quê. Voltava como as ondas voltam para a praia, o ritmo era o mesmo, era aquele vai-e-vêm constante. Se bem que o dela não era tão constante assim... Devia ser culpa dos malditos hormônios.
Pretendia ficar solteira por um demasiadamente longo tempo e jamais, jamais iria querer quebrar esse "plano" com um melhor amigo. Mas os hormônios sempre a invadiam. Não fazia sentido nem para ela, mas ela sentia e isso não podia negar.
Uma chuva fina e gélida começou a cair do céu. Adorava chuvas solitárias, isso é, não acompanhadas de relâmpagos ou trovões. Deixou-se molhar por completo pela água. Banho de chuva sempre limpava sua alma, a chuva era uma de suas melhores companhias, sempre levava com ela os sentimentos e pensamentos indesejáveis para a moça.
Após alguns instantes, chegou ao hall do prédio completamente molhada. Subiria de forma rápida para que ninguém reclamasse.
Entrou no elevador e seu celular apitou. Ela esperou entrar em casa e secar a mão para poder pegá-lo. Luigi havia acabado de mandar uma mensagem:
"Fê, você nem sabe. A Carol disse que ela só estava confusa e a gente voltou!"
A mensagem continha também algum tipo de símbolo que demonstrava felicidade.
Fernanda limitou-se a rir daquilo e tudo que lhe veio à mente foi que seu plano estava de volta: pretendia, sim, continuar solteira por um bom tempo e por mais que fraquejasse de vez em quando, algum garoto a fazia se lembrar de como eles quase não valiam a pena.

Natália Albertini.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

E os lençóis marcados.

Aerosmith - I Don't Wanna Miss A Thing.mp3
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- Por que você tem que ser assim? - disse a moça, deitada com a barriga para baixo em sua cama e pousando a cabeça sobre os braços cruzados, estes, por sua vez, sobre o travesseiro. Alguns fios de cabelos teimosos caíam-lhe aos olhos, atrapalhando-lhe a visão. Porém não fez esforços para tirá-los dali, não era nada necessário. Seus olhos semicerrados e visivelmente cansados se fixavam nos dele que a olhava com demasiados encanto e admiração.
Ele arqueou as sobrancelhas e lhe respondeu:
- Assim como, meu amor? - o tom foi parcialmente confuso. Ele encontrava-se na mesma posição que ela. Agora seus dedos foram levados ao rosto da garota e lhe tiraram os cabelos da face de maneira carinhosa, logo depois acariciando-lhe. Estavam bem próximos, logo, não teve que esticar muito o braço.
Ela suspirou e piscou de forma lenta e preguiçosa. Assim que ele correu a mão por sua boca, beijou-lhe os dedos com carinho e feição, em seguida lhe respondendo:
- Assim, perfeito.
Ele riu com suavidade e a olhou, divertido:
- Perfeito? Querida, estou muito longe da perfeição e, para lhe dizer a verdade, não sei se quero chegar lá.
Ela não se esforçou nem para oferecer-lhe um mero sorriso de canto, apenas prosseguiu:
- Você me entendeu.
- Sim, você foi bastante clara dizendo que eu era perfeito e eu, lhe contradizendo.
- Não, não. Quis dizer não que você é perfeito, sem nenhum defeito. Mas sim, que até seus defeitos me agradam.
- Ah - disse ele, novamente divertido e rindo levemente - agora entendi. Mas acho que isso não acontece de verdade. Ou então isso quer dizer que todas as vezes que você se irritava comigo, você estava apenas fingindo para que eu não me convencesse que era bom demais? - e fez uma cara de espanto, suficientemente fingida para que ela risse.
Ela se descontraiu e soltou uma pequena risada, logo depois voltando a encará-lo com paixão e respondendo-lhe:
- Não, seu bobo, eu não fingi. Eu sei lá... Mas acho que me agrada até quando me irrita. Você sempre reconhece que está errado e vem me pedir desculpas com aquela sua cara de cachorro que caiu da mudança.
Ambos riram com leveza, sem deixar de se olharem e depois nutriram um silêncio pacífico que depois de alguns instantes foi quebrado por ele enquanto acariciava o braço da moça:
- Então vou tentar te irritar mais para você gostar ainda mais de mim.
- Não tem como.
- Não tem como te irritar mais? - e arqueou uma das sobrancelhas.
- Não, seu bobo, isso você sempre consegue. Digo que não tem como eu gostar ainda mais de você.
- Nossa, mas eu sou tão ruim assim? - e sorriu-lhe um sorriso de canto.
- Não, você é só muito bom e eu já gosto de você com todas as minhas forças, não tem como gostar ainda mais, entende?
- Ah, sim, acho que posso dizer o mesmo.
- Não, não pode. Não tem como você gostar de mim tanto quanto eu gosto de você.
- Ah, pare com esses joguinhos melosos, vai.
- Não, não é joguinho algum, meu bem. É a mais pura verdade. Você nunca vai entender como minha garganta dá-se um nó, como meu estômago se revira e como eu arrepio a cada vez que você vem me ver, a cada vez que você me liga, a cada vez que você me toca.
Ainda que o quarto estivesse com a janela fechada, ela pôde ouvir que lá fora o céu havia começado a chorar, as lágrimas dele batiam no vidro e pediam para entrar. Mas não queria, agora já tinha suas próprias e nem sabia por quê. Ele, preocupado, enxugou-lhe algumas e aproximou-se mais, perguntando-lhe:
- O que acontece? Eu fiz algo errado?
- Não, quem fez fui eu.
- Como assim?
- O que fiz de errado foi alimentar essa falsa esperança, achar que isso poderia dar certo, me apaixonar por você.
Sua voz vacilava de vez em quando graças ao pranto silencioso. Ele ficou sem palavras e tudo o que fez foi abraçar-lhe. Ela afundou a cabeça no travesseiro e engoliu alguns suspiros, mas logo virou a face e beijou-lhe o pescoço. Ele não teve reação, parecia não ter sequer sentido aquilo, parecia não ter sequer tomado conhecimento do que ela fez, e isso apenas lhe causou mais lágrimas e mais suspiros.
- Eu te queria pra todas as horas e situações.
- Mas você me tem pra tudo isso.
- A quem você quer enganar?
- Por Deus, não quero te enganar... Estou apenas lhe dizendo a verdade.
- E que verdade? Em meio a tudo isso, já nem sei mais o que é verdade.
- A verdade é que fomos feitos um para o outro e que eu te amo.
- Você... Você... Você me ama? - ela hesitou em perguntar, pois aquilo lhe causou mais borboletas no estômago que nunca.
- Claro que amo.
- Não, não fale isso...
- Mas eu te amo.
- Para! - desta vez ela gritou, assustando-o.
- Você está tão estranha... - disse ele, afastando-se um pouco e deixando de abraçá-la.
- Estranha? Não sei nem se você me conhece para saber quando estou estranha e quando não estou.
- Mas é claro que conheço... Por que você está tão confusa?
- Não estou, eu sou confusa. E com você por perto, perco o chão.
Ele sorriu, lisonjeado e concernado simultaneamente.
- Sabe, eu queria que tudo isso realmente fizesse parte de meu cotidiano.
- Mas isso faz...
- Não faz não, e você sabe tão bem quanto eu.
- Sei, mas não podemos ignorar isso ao menos quando estamos juntos?
- Não dá.
- Por quê?
Ela apenas meneou a cabeça e não respondeu, permaneceu em silêncio.
- Agora durma, você precisa descansar, está muito confusa.
- Mas você promete que quando eu acordar você estará aqui?
- Prometo.
- E o que eu tenho que fazer para você cumprir isso? - outra lágrima solitária e quente escorreu-lhe pelo rosto.
- Não acordar.
Ele aproximou-se e beijou-lhe os lábios com total afeição e suavidade. Ela dormiu e, no dia seguinte, tudo o que tinha de lembrança dele era o gosto de mel na boca.

Baseado num garoto aparentemente real.


Natália Albertini.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

First Time I: Handling you,standing you.(O namorado canalha,a garota idiota)

Aconselho você a escutar a música abaixo lendo o texto,a não ser que você queira escutar uma música sua,ou nenhuma(:



-Pára.-ela o repreendeu,ofegante.

Ele parou as mãos no fecho do sutiã dela,desgrudou a boca de seu pescoço e a olhou surpreso.

-Por quê?-ele perguntou.

-Porque...Eu acho que ainda não estou pronta.-ela murmurou,ruborizada, começando a desvencilhar uma de suas pernas dos quadris dele,saindo de seu colo e caindo deitada na cama.

-Mas por que você deixou que nós chegássemos até aqui se você realmente não
quer nada?-ele acusou-a com o tom de voz um pouco elevado e cheio da indignação masculinamente inata,enquanto se levantava bruscamente sem desviar o olhar dela.

-Foi por impulso.-ela justificou,virando-se de lado.-Eu tenho a certeza de que te amo,acho que você é o primeiro que eu amo de verdade,mas...

-Mas...?-indagou ele arqueando as sobrancelhas.

-Eu sei que nos conhecemos faz tempo,somos bons amigos...Mas nós só estamos namorando há duas semanas,eu sou virgem e não tenho certeza se você me ama realmente,sabe?Me ama daquele jeito.-ele riu.

-E você acha que estou com você por quê?

-Não sei.-respondeu cinicamente,sentando-se e ensaiando uma expressão pensativa com direito a dedo indicador sobre os lábios.-Por que talvez eu seja só mais uma das gostosinhas da sua imensa lista?

Ele abriu a boca para falar mas não emitiu som algum.Ela olhou para lado ainda esperando que ele dissesse alguma coisa.

-Deixa de ser imbecil.-ele retorquiu.-Eu não namoro uma garota se não sinto algo por ela.

Ah,ele sentia,sentia mesmo!Qual era mesmo o nome do sentimento?Atração Física?Tesão?Quero-te-comer-porque-você-é-bonita-e-gostosa?

Está bem, ele até podia gostar dela,mas não do jeito que ela gostava dele.

-E também não fico a suportando tanto tempo assim.

Já estava acostumada com a rispidez dele,mas não conseguia ficar quieta perante à ela.

-Suportando?-indagou,incrédula.

-Você entendeu.-vociferou concisamente virando-se de costas pra ela.

-Eu não quero que seja só sexo. Tem que ser especial,tem que ter sentimento,tem que ter amor.

-Você tem que entender que essa coisa de ‘Primeira Vez Perfeita’ é um mito,uma idiotice.E eu não acho que consiga transar do seu jeito tão complexo.-ele debochou com uma sobrancelha arqueada.

Ela sentiu um solavanco extremamente doloroso no ventre e suspirou.Se ele queria a deixar impaciente,conseguira.

-Não importa mais.Eu vou embora.-avisou secamente enquanto pulava da cama.Pegou sua bata roxa e se aproximou de sua calça jeans jogada no carpete de madeira.Não mais agüentaria o desprezo dele por seus sentimentos.Pelo menos não naquela noite.

Quando foi vestir a bata,sentiu as mãos quentes dele segurando seus braços para interromper seu ato.

-Espera.-disse forçando os braços dela para baixo e soltando-os logo após.-Desculpa,eu não queria...Não queria te machucar...

Ele nunca queria machucá-la,mas sempre acabava por fazê-lo,como se fosse uma opção da qual se arrependia automaticamente após escolhê-la.Não sabia porque continuava a suportar as injúrias dele.Talvez Shakespeare estivesse certo ao dizer que o amor é cego.Ou talvez ela não soubesse ou fingia não saber que fazia vista grossa para tudo isso ao dizer para si mesma que tudo era parte da personalidade dele.

-Já machucou,docinho.-avisou com o olhar semicerrado, enfatizando perversamente a última palavra e desviando-se dele para sair do quarto modernamente decorado.

-Não,não!Fica,por favor!-ele quase implorou(ele nunca imploraria a uma garota totalmente) postando-se na frente dela e segurando-a para impedi-la de sair.-Eu quero tentar.Eu vou tentar fazer do seu jeito,daquele jeito,ok?

A coisa toda se resumia não em fazer daquele jeito e sim, em sentir daquele jeito.Sua mente oscilou entre ir e permanecer imóvel ali durante alguns segundos até ele tocar uma de suas bochechas levemente,a encarar com um olhar dócil totalmente planejado e dizer irresistível e suavemente:

-Tá tudo bem.Não negue que nós queremos isso aqui e agora.-e tornou a beijá-la da forma mais tenra que pôde enquanto a guiava novamente para a cama que já tinha os lençóis um pouco amarrotados e arrancava a blusa que estava em sua mão atirando-a mais uma vez ao chão.

Ela se sentou na beirada do móvel ainda presa a ele, que abaixou a cabeça para poder continuar a beijá-la.Quando as hábeis mãos dele alcançaram novamente o fecho de seu sutiã,ela pensou em relutar mais uma vez,por causa da sua insegurança,mas deixou que ele continuasse e tirasse a peça por completo.Deitou-se e arrastou-se mais para o meio da cama deixando que ele caísse por cima de seu corpo, já sem a camiseta,fazendo-a sentir o calor que emanava.

Enquanto os lábios úmidos dele desciam de seu pescoço para seu colo,ela perguntou,mais uma vez em seu dilema:

-Você me ama?De verdade?

Ele parou com os beijos em seu colo por um momento,e a encarou profundamente.

Sabia que não a amava,sabia que era só tesão e que como ela havia acusado,era era só uma das gostosinhas de sua lista,com quem ele queria muito trepar e que por um infortúnio estava apaixonada.Bem,isso já não era problema dele,era?Demorara muito para chegar onde estava,porque ela era realmente difícil.

Depois disso talvez continuaria com ela comendo em sua mão por algum tempo e terminaria tudo.Ou talvez tentasse se apaixonar realmente,isso é, se conseguisse transar com a mesma garota por tanto tempo.Às vezes gostaria de saber como é estar apaixonado,gostaria de saber o que significava fazer amor.Seria diferente de trepar,foder,comer ou qualquer outro nome que ele desse para uma transa?Por mais que fosse insensato ainda tinha uma parte sensível escondida lá no fundo,bem no âmago de sua alma.

Ele levou os lábios a uma das orelhas dela,que sentiu os pêlos da nuca arrepiarem, e sussurrou do modo mais sedutor e convincente que pôde sua mentira mais insolente:

-Amo.Eu te amo.

Seu tom não a convenceu totalmente,podia ser só mais um jogo sexual de um garoto imaturo,ela sabia.Mas talvez ele estivesse falando a verdade,afinal.E ela não conseguia mais ignorar cada sentimento diferente que lhe era provocado a cada toque suave ou intenso dele em qualquer lugar do seu corpo.

Não estava segura,já não sabia mais o que era certo e o que era errado,o perfume de seus corpos juntos infestava o ambiente com cheiro de pecado.Não conseguiria mais impedir,murmurava palavras indecifráveis,gemia e procurava guardar cada toque,cada frêmito em sua lembrança.

Talvez estivesse fazendo a pior besteira de sua vida,conhecia essa possibilidade.Mas já não se importava mais.Estava fazendo porque desejava,porque o amava.

Pepper Ann

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Bola de Neve.

As aulas da semana haviam acabado e, pelo visto, todos haviam decidido pegar o mesmo ônibus que ela. Passou a catraca após uma piscadela do motorista e ajeitou a mochila nas costas, logo ajeitando-se numa brecha entre dois homenzarrões.
A garota era Lídia, ruiva de dezenove anos, pele branquíssima e olhos verdes. Seus olhos costumavam ser famintos e curiosos. Mas desde algum tempo atrás, estavam sem brilho, sem vontade de descobrir coisas novas. Afinal, o mundo todo era, pra ela, uma grande lixeira. É claro que haviam algumas pessoas que se salvavam por terem uma mente extraordinária ou coisa do tipo, mas de resto, quase tudo a desagradava.
O homem de sua esquerda, de alto porte e face demasiadamente desagradável a seus olhos, abaixou-se e, de maneira nem tão sutil, sussurrou algum tipo de porcaria, provavelmente do tipo das mais nojentas. Não era de seu feitio arranjar brigas, mas especialmente alí, ela teve uma enorme vontade de atingir-lhe a cara com um punho fechado e fazer seu nariz parar abaixo do olho direito. Mas não o fez, ela jamais teria coragem de fazê-lo, especialmente num ônibus lotado daquele. Afinal, o homem se inclinaria e cairia sobre outra pessoa, que a culparia por tudo.
Assim que deu o sinal para o ônibus parar no próximo ponto, afastou-se um pouco e passou por trás do estúpido que, desta vez, deu-lhe um tapinha no traseiro. Ela se esforçou para não lançar-lhe um olhar do tipo vou-te-matar. Continuou andando e parou à porta do ônibus, esperando que cesasse por completo para então descer. Durante aqueles segundos, pensou em como queria ter dado aquele belo golpe planejado. De forma repentina e brusca, sua bexiga cutucou-lhe, avisando-a que precisava descarregar. Lídia pediu-lhe que aguentasse mais um pouco, ao menos até chegar ao trabalho. O pedaço de Lídia aceitou, calou-se.
A moça desceu do ônibus, ajeitou novamente a mochila nas costas e começou a caminhar. O escritório de advocacia onde trabalhava como secretária ficava a nada mais que cinco quarteirões dalí.
Sentiu algo vibrar na região das costas e lembrou-se que tinha um daqueles pequenos aparelhos filhos da deterioração do mundo. Tirou um braço de uma das alsas e trouxe a mochila para o lado contrário, abrindo um dos zípers e pegando o pequeno telefone móvel. Fechou o zíper e voltou a arrumar a mochila, logo depois atendendo ao celular. Quem falava era sua mãe:
- Lídia, minha filha, por que demorou tant a atender?
- Mãe, não demorei mais que trinta segundos! - respondeu ela com sua voz fina e passiva.
- Isso pra mim já é motivo de preocupação. Trinta segundos de distração no trânsito podem levar a uma morte precoce, sabia disso?
- Sim, sabia, você me fala isso todos os dias. Por isso ando de ônibus: se eu morrer, a culpa não vai ser minha - e riu de leve.
- Pelo amor de Deus, Lídia Maria, que brincadeira de mal gosto!
Apenas sorriu, achando graça da preocupação da mãe. Continuou caminhando e olhando para o chão, distraída, esperando calada sua mãe voltar a falar.
- Minha filha, preciso de um favor.
- Eu sabia... - murmurou.
- O que disse?
- Nada, mãe, perguntei qual era o favor.
- Era, não, ainda é. Preciso que passe na lavanderia e pegue o terno de seu irmão para o baile de formatura de amanhã. E depois, se puder, passe no supermercado e traga-me papel toalha e guardanapos.
- Mãe, não sei se vou conseguir fazer isso...
- Como não vai?! É claro que vai! - Sua mãe enfatizou esta última frase, e agora estava aos berros.
- Mas você disse "se puder".
- Menina, além de tudo você está biruta? Eu não disse isso!
- Mãe...
- Ora, você vai fazer isso, sim!
- Mas mãe, eu estou indo para o trabalho agora, saio de lá às nove e vou para a casa do Danilo. Não tenho tempo.
- Casa do Danilo?! Você vai para a casa dele hoje e não me avisou?! Mas que falta de respeito com sua mãe! Já disse para me avisar!
- Mas eu avisei...
- Não avisou, não! E trate de me trazer o que te pedi AINDA HOJE!
Lídia teve uma enorme e quase incontrolável vontade de bater o telefone na cara da mãe e não aparecer em casa por uns dois dias. Mas não o fez, aliás, ela nunca o faria, não era do feitio dela. A bexiga apertou novamente, e Lídia pediu-lhe que esperasse. A mãe da garota falou por mais alguns minutos e depois clique: desligou.
Enfiou o celular no bolso e chegou ao escritório. Assim que colocou os pés na sala onde trabalhava, seu chefe a surpreendeu:
- Lídia! Por onde andava?! Tinha que estar aqui há vinte e cinco minutos!
- Não, seu Carlos, eu deveria estar aqui daqui a dez minutos, estou adiantada!
- Não está, não, senhorita! Eu te avisei ontem que deveria chegar mais cedo!
Ouviu o sermão enquanto tirava a mochila e o casaco. Há quanto tempo ouvia aquele sermão... Sempre a mesma coisa: ele reclamava de que nunca chegava na hora sendo que jamais a havia avisado quando deveria chegar. A vontade que tinha era de aumentar a voz, jogar-lhe tudo na cara e sair andando. Mas não o fez, aliás, nunca o faria, não era de seu feitio. E pensando bem, ela precisava daquele emprego. Não responder a toda aquela inquietação de seu chefe fez-lhe lembrar que deveria esvaziar a bexiga imediatamente. Esperou que seu Carlos disesse a última palavra para poder assentir e dar-lhe as costas, em direção ao banheiro. Porém houve um imprevisto: o chefe novamente. Ele segurou-a pelo braço, encarou-a e resmungou:
- Onde pensa que vai, senhorita? Você vai ficar aqui. Precisa arquivar todos estes processos - e apontou para a pilha que deveria ter no mínimo uns duzentos processos sobre a mesa dela.
Ela suspirou e pensou que na verdade, nunca acabaria aquilo se parasse para ir ao banheiro. Portanto sentou-se na cadeira que tanto lhe prejudicava as costas, mas da qual nunca reclamou, e começou o serviço.
Depois de aproximadamente duas horas daquela chatisse toda, Bianca, sua vizinha de mesa, veio cumprimentar-lhe e dizer-lhe que havia alguém no telefone e que era para a ruiva. Lídia levantou-se de dirigiu-se à mesa sobre a qual ficava o antigo telefone verde que sempre achou horrível, mas que jamais havia dito uma palavra sequer. Pegou o fone e o colocou à orelha:
- Alô?
- Lídia?
- Sim, sou eu, Dan.
- Ah, oi, meu amor.
- Oi.
- Como você está?
- Bem... E você?
- Também. Lí, preciso te pedir uma coisa.
- Não vai ser o único... - suspirou de maneira quase inaudível.
- Desculpe, o que disse?
- Nada, meu bem, prossiga.
- Será que poderíamos sair amanhã? É que me apareceu um compromisso inadiável de última hora, sabe como isso sempre acontece aqui na firma...
- Sim, sem problemas - disse, não muito convincente.
- Tem certeza?
- Sim, tenho.
- Então, está bem. Te ligo amanhã, ok?
- Uh-hun.
- Um beijo.
- Outro - e recolocou o fone no gancho.
Como teve vontade de dizer-lhe que sim, haviam problemas, que não estava tudo bem e que não aguentava mais aqueles seus compromissos inadiáveis. Mas não o fez, aliás, nunca o faria, não era de seu feitio e, pensando bem, ela não queria ficar solteira tão logo.
A bexiga a incomodou novamente, mas Lídia agora a ignorou e voltou para seu monótono serviço.
Nove e meia: hora de ir pra casa. Ou melhor, ora de fazer os afazeres de sua mãe, os tais "favores".
Deixou o escritório e foi andando até a lavanderia. Ao chegar, pediu o terno e a atendente respondeu-lhe:
- Preciso do boleto.
- Que boleto?
- O boleto que é entregue assim que deixa sua roupa aqui.
- Não estou com o boleto, mas minha mãe deve tê-lo...
- Então ela deve vir buscar o terno.
- Mas moça, a formatura do meu irmão é amanhã e ele realmente precisa do terno!
- Lamento, mas são as normas.
Teve uma vontade inimaginavelmente grande de mandar aquele seu sorrisinho cínico e suas normas ao inferno. Mas não o fez, aliás, nunca o faria, não era de seu feitio. E pensando bem, não queria inimizades gratuitamente. Deu-lhe as costas e dirigiu-se ao supermercado.
Pegou o necessário e dirigiu-se ao caixa para dez volumes. Cumprimentou a atendente e entregou-lhe os produtos, logo oferecendo-lhe seu cartão de crédito.
- Posso ver sua identificação?
- Fala sério?
- Claro - disse a atendente, surpresa com a reação da cliente.
- Ora, mas é um cartão de crédito, nunca ouvi essa de pedirem identificação...
- É a nova lei.
Ah, claro, a nova lei. Leis sem fim, isso era o que significava a Constituição. Que palhaçada! Os homens donos do Estado e de tudo o mais que pertencia a este não tinham mais o que fazer e ficavam inventado este tipinho de lei sem pé nem cabeça.
A vontade quase incontrolável desta vez foi de gritar e mandar tudo e todos ao inferno, ao quinto dos infernos, por melhor dizer. Mas não o fez, aliás, não o faria, não era de seu feitio. E pensando bem, o vontade não foi tão incontrolável assim. Afinal, conseguiu controlar. Já a vontade de esvaziar a bexiga, não.
Sentiu as calças molhadas comom não sentia desde que tinha um ano e meio de idade. Sentiu um líquido fino e quente molhar-lhe as pernas e as maçãs do rosto corarem como nunca.
A atendente apenas arregalou os olhos como nunca e dobrou o dorso, apoiando-se sobre os joelhos, cuidando-se para não cair de tanto rir.
Todos em volta olharam para ela e ficaram sem reação.
A vontade desta vez foi ter uma arma e atirar em todos dalí, mas não o fez, aliás, nunca o faria, apenas desta vez era algo bom que não fosse de seu feitio.

Natália Albertini.

E as Velinhas?

Aconselho você a escutar a música abaixo lendo o texto,a não ser que você queira escutar uma música sua,ou nenhuma(:





Clara já sabia qual escolher.Sabia o tamanho,a cor,o modelo.Ia levar o vestido roxo,pediu à vendedora que embrulhasse para presente e colocaria um laço de fita cor-de-rosa no pacote quando chegasse em casa,era costume o presente ter no embrulho o laço dessa cor desde os 9 anos de idade,ela e Amanda que fizeram tal acordo.Clara sabia tudo sobre Amanda,desde a cor predileta-o roxo-até o homem com que ela havia acordado no dia anterior e detalhes sobre o que havia acontecido entre ela e o tal.Eram melhores amigas
há 20 anos,desde os cinco anos de idade.Se conheceram no jardim de infância e ninguém jamais conseguiu separá-las e jamais conseguiriam,ela tinha absoluta certeza disso,podia sentir o elo incrivelmente forte que as ligava.Não havia amizade mais bela no mundo,na opinião dela.

Clara estava tão empolgada!Adorava comemorar o aniversário da melhor amiga,as comemorações sempre deixavam lembranças para se guardar por toda a vida.Mais lembranças,porque elas tinham muitas,infinitas,bonitas,feias,de todas as cores,tons,cheiros e sentimentos.Enquanto saía da loja e caminhava até a casa do namorado,deparou-se com um velhinho que vendia sorvetes e comprou um picolé,lembrando-se de quando ela e Amanda comeram tanto sorvete que ficaram fortemente gripadas.Olhando os ladrilhos pretos e brancos da calçada,se lembrou de quando elas andavam juntas por aquela mesma rua e uma só pisava no ladrilho preto e a outra só no branco.Passou pelo parque e lembrou-se de quando as duas subiram em uma árvore e ela caiu e quebrou a perna esquerda,lembrou-se de como doía e a Amanda,mesmo desesperada,se mostrou forte e foi buscar ajuda.Descendo uma ladeira,passou em frente de uma loja se lingeries e se lembrou de quando foram comprar o primeiro sutiã,juntas,com suas mães.Caminhando a passos mais lentos,passou por um casal que se beijava e lembrou-se do dia em que Amanda deu seu primeiro beijo e foi correndo até sua casa depois,para contar,porque ela era sempre a primeira a saber de tudo sobre qualquer assunto.Entrou na locadora,que era em frente a uma banca de revistas e jornais, para devolver um filme se lembrou das inúmeras noites que passaram juntas,em claro e de pijama,assistindo “A Princesinha”,prometendo que a amizade delas seria como a das duas garotas do filme,para sempre.Entrando no hall do prédio do seu namorado,Diego,lembrou-se de quando a mãe de Amanda havia morrido e ela havia lhe prometido que elas superariam qualquer obstáculo,qualquer barreira,sempre juntas.

Apertou o botão que tinha o número 12,que levava ao décimo segundo andar,onde Diego morava e lembrou-se que mesmo tendo esquecendo seu celular no apartamento dele, ele não estava em casa,trabalhava até as oito nas quintas,teria que abrir a porta com a sua cópia da chave para pegá-lo.O elevador parou e ela empurrou a porta,segurando a sacola que continha o presente de aniversário da amiga, da MELHOR amiga de todas já existentes.Girou a chave na fechadura do apartamento 121 e empurrou a porta.

Diego e Amanda,que estavam nus e se beijavam fervorosamente sobre o sofá bege,que ela escolhera pra ele.Ela,que não acreditava no que via,piscou duas vezes.Não era miragem.Os dois pararam para olhá-la,foram pegos desprevenidos.Do mesmo jeito que Clara abrira a porta,com rapidez,fechou-a.

As lágrimas invadiram seus olhos e ela, enxergando tudo embaçado,abriu novamente a porta do elevador e entrou.Estava chocada.Por isso Diego recusara o convite para jantar em seu apartamento no dia anterior,porque ele era justamente o homem do dia anterior de Amanda.Presente de melhor amiga,lembrancinha de aniversário para toda a vida.

Pepper Ann