sábado, 26 de dezembro de 2009

Desculpem-me a ausência. Prometo que isso acaba quando eu entrar na USP.
Tô indo pra praia agora, logo, incomunicável por uma semana.
Se tiver meu número, liga.
Se não tiver, é porque de fato não quero que me ligue. [;
Kiddin'.

Divirtam-se com os antigos, crianças.
E FELIZ 2010 PRA TODOS!
Lhes desejo tudo de melhor.

Pois é, não tive tempo nem mesmo de escrever uma reflexão sobre meu ano. :S
Desculpem-me.

Beijos a todos.
Natália Albertini.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Acabei de ver Sete Vidas.
Não gostei.
Terminei hoje de ler Noturno, do Guillermo del Toro e Chuck Hogan.
Detestei.
Comecei agora mesmo The Bone Collector, do Jeffery Deaver.
Espero sinceramente que valha a pena.

Sim, estou mal-humorada.
Beijos.

Natália Albertini.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Mamãe, tem um monstro no meu armário.

O edredon lhe cobria as orelhas, deixando de fora apenas seus olhos. O travesseiro já tinha a marca de sua cabeça afundada ali. Os lençóis estavam encharcados, já que, em plena noite de dezembro, ela estava coberta. Entretanto, o suor não vinha só do calor corporal. Vinha também do calor causado pelos arrepios e pelo medo que a envolvia.
O quarto estava escuro. Era iluminado somente por uma fresta de luz lunar que atravessava sua janela. A porta que dava para o corredor estava fechada, enegrecendo ainda mais o ambiente.
O guarda-roupa que ficava em frente à cama, na parede oposta, tinha uma de suas portas entreabertas.
Ela acordara no meio da noite e a encontrara assim, semi-aberta. E podia jurar que, antes de se deitar, a havia fechado.
Dali de dentro, entre os casacos e jeans, havia dois pontinhos arroxeados e brilhantes que despertavam na garota um pavor estonteante.
Ela sentiu as costas, molhadas de suor, encostarem na parede. Já havia se afastado o máximo possível e ainda assim não parecia suficiente. Ela queria ficar mais longe, mais, mais, mais e mais longe, mas a parede estava ali, impedindo-a de fugir.
Não devia de ser nada, é... Era melhor voltar a dormir...
GLIMPSED.
Brilharam, brilharam! Ah, meu Deus, eu JURO que aqueles pontinhos brilharam!
E o que são aqueles pontinhos?
Não, por favor. Oh, Deus, meu bom Deus, por favor, não me diga que são...que são, que são... (não, não pense nisso)são...olhos!
São, são OLHOS!
Pelo amor de Deus, são OLHOS!
E no momento em que percebeu aquilo, os pontos passaram a um vermelho ensurdecedor, sufocante, quase que...sedentos.
Ela impulsionou seu corpo contra a parede, mas, sem querer, empurrou a cama para a frente, afastando-a. Logo, caiu do colchão, enrolada em seu edredon.
Ficou ali, entre a cama e a parede, tremendo de calor, de medo e de calafrios. Queria subir de volta à cama, logo o pesadelo acabaria. Se ela simplesmente conseguisse dormir de novo...
Acontecia que não tinha forças para se mexer, não tinha forças para subir de gatinhas de volta para o colchão.
E aqueles olhos...AH, ELES BRILHARAM DE NOVO! Caralho, eu só posso estar enlouquecendo...
Alguma nuvem passou em frente o noturno sol prateado lá fora, escurecendo por completo o quarto.
E ai aconteceu.
Aqueles olhos saltaram do armário, rastejaram com uma rapidez incrível até a cama, deitando-se ali, de barriga para a cima. A cabeça ficou jogada para trás, a milímetros de distância do rosto dela, que mal respirava.
A criatura tinha a boca escancarada num sorriso de escárnio.
A garota sentiu suas forças desvanecerem, mas ainda assim tentou gritar. Forçou os lábios a se separarem e assim que conseguiu levar voz às cordas vocais, aquilo cujo rosto, naquela noite, só ela viu, e só ela poderia descrever (ou não), meteu uma das mãos de garra em sua garganta, arrancando, com um só puxão, sua língua.
Colocou-se de barriga para baixo e abriu ainda mais a boca. Era como se o maxilar não pertencesse mais a seu rosto, estava simplesmente onde jamais poderia estar, de tão baixo.
O bicho-papão atacou, ainda sorrindo.

Ps.: péssimo, eu sei... É que foi desmedido, deu vontade e saiu esse jorro de palavras, espero que os entretenha.
Natália Albertini.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Desculpem-me pela ausência (AGAIN).
Tudo bem corrido, tempo escoando por entre meus dedos. Meio perdida.
Tô na segunda fase da FUVEST! *-*
E com umas ideias boas de contos.
Assim que der (vontade), eu posto.

Estou lendo Noturno, do Guillermo del Toro ( *0* ) e do Chuck Hogan. Depois desse, The Bone Collector.
Beijos a todos.

Natália Albertini.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Matemática Viscosa.

- Mas, antes de ser senoide, é uma equação modular, concordam?
- Sim... - alguns alunos responderam.
Enquanto o professor copiava o exercício na lousa e alguns estudantes já o resolviam por conta própria, do lado de fora da sala de aula veio um grito aterrorizado, rasgando o silêncio.
Todos se encararam com olhares cheios de interrogação e receio. Antes que murmúrios começassem, o professor perguntou:
- Isso foi lá fora? - e foi até a janela, procurar na rua, lá embaixo, por algum acidente de trânsito.
Uma voz sozinha o corrigiu, assustada:
- Não, professor...foi aqui dentro. - Não deveria ter pronunciado tais palavras. Todos já sabiam que havia sido ali dentro, mas dizê-lo tornava ainda mais real o que agora já se transformava em medo.
O tutor fez uma pergunta quase que retórica, para si mesmo:
- Aqui dentro?
Deixou o microfone numa das carteiras da primeira fila, largou o giz no suporte protuberante da lousa e saiu da sala com determinação, sem pedir licença, deixando-os somente a única exigência de terminarem o exercício.
Obviamente, ninguém o fez, estavam todos muito aflitos.
O silêncio lá fora imperava. Será que ninguém tinha ido ver de onde tinha vindo o grito? Tinha sido tão... Tão enlouquecedoramente desesperado, alguém havia de ter ido atrás!
Dentro da sala de aula, um ou outro zunido surgia, mas as palavras morriam, dando lugar à quietude geral, aguçando cada ouvido que desejava escutar algo lá de fora.
Tolos curiosos.
Um.
Dois.
Três.
Quatro minutos e trinta e sete segundos e nada de o professor voltar. Para certa parte, a apreensão começava a se desvanecer, enquanto para outra, crescia exponencialmente.
Como um trovão no meio duma tarde ensolarada, um barulho explodiu ao fundo da sala, o que chamou a atenção de todos e cada um daquela sala.
As expressões variavam entre desespero, medo e horror diante do que se via ali, escorregando parede abaixo. Era o corpo de uma jovem coberto de uma mistura rubro-negra, meio barro e meio sangue. Fresco.
A camisa da garota estava rasgada numa das extremidades e na gola. A saia também estava em farrapos. Tinha as pernas arranhadas, bem como os braços.
O garoto da última fileira, a menos de um metro da morta que descia as costas pela parede, caindo sentada, conseguiu ver suas unhas sujas de terra, reboco e uma outra textura que, a medir dali, lembrava pele.
O silêncio era cristalino até o momento em que o corpo desfalecido se estabilizou no chão, com o rosto caído para um dos lados e os olhos vidrados. Exatamente no momento em que parou, fixo, houve um grito quase tão atemorizado quanto áquele que dera origem a todo o alvoroço.
Houve confusão dentro da sala, alunos tropeçando nas mesas e nas alças das próprias bolsas, se trombando uns com os outros nas tentativas inúteis de achar o caminho correto pra deixar a sala.
Simplesmente não havia saída. Isso é, a menos que se quisesse pular o cadáver ensanguentado da menina que de repente começava a parecer demais com a namorada de um dos meninos dali.
Vozes alternavam-se entre os estridentes de desespero e os roucos de fraqueza. Desordenadamente, uns e outros tentavam pedir aos colegas para que se acalmassem, mas o clima de pavor era geral, dificilmente alguém os dava ouvidos.
Quando o garoto se aproximou daquela que, confirmadamente, era sua namorada, percebeu que em seus olhos mortos não havia só medo e desespero, mas também uma profunda dor. Deu-se por conta que a menina havia morrido sofrendo. E muito.
No mesmo instante, as luzes se apagaram. Tudo o que se via era preto. Uma escuridão pesada e intransponível que envolvia a todos. Entretanto, não houveram gritos.
O desespero de todos e de cada um foi silenciado antes que as pregas vocais pudessem imprimi-lo.

As equações matemáticas na lousa, o barulho constante causado pelo efeito de microfonia, as persianas fechadas, imóveis, sem o menor sinal de vento.
O piso acarpetado por um novo tipo de vermelho, que exalava seu próprio odor e exibia sua própria magnitude.

Natália Albertini.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Tão nossas.

Uma era filha única e pequeneninha, outra tinha uma irmã mais nova e ria com efizemas pulmonares, outra tinha os cabelos bem curtinhos e um sorriso encantador, enquanto uma outra lutava judô e amava os animais.
Uma quinta tinha uns olhos de Capitu e franjinha, outra tinha luzes no cabelo e quilos de roupa da Puma, enquanto uma outra tinha uns cachos compridos e curtia um rock pesado.
Mesmo com tantas diferenças, as sete se reuniam todas as manhãs, nos dois intervalos, para trocar reclamações, risadas ou esperanças.
Já era dezembro. Meu Deus, já era dezembro... Mas elas não pareciam se afetar pelo clima nostálgico que rondava a todos, elas pareciam saber que suas peculiaridades, quando formando aquele coletivo, valia mais que qualquer distância ou tempo.
E por mais que de fato, em algum momento, se separassem, as lembranças seriam mais que só dois ou três bilhetes trocados, seriam milhares e milhares de fotos e vídeos.

Sei que não falo muito isso, mas acho que se olhar bem, vocês conseguem perceber que as amo muito e que têm um papel fundamentalíssimo em minha vida.
Obrigada.

Natália Albertini.

sábado, 28 de novembro de 2009

E viva Vinícius.

Abre os olhos devagar, se dá por conta que mesmo depois de dozer horas de sono, ainda está imprestável devido ao show da noite anterior...e que show!
Levanta devagar e vai escovar os dentes.
Toma um belo café da manhã.
Liga pra alguns amigos, assite um filme, lê, recebe alguns e-mails, toma um belo banho.
Cochila por uns vinte minutos.
Acorda com melhor disposição e põe-se a escolher uma roupa adequada, preparando-se pra noite que ainda está por vir.
Faz tudo cantando alto ao ritmo da música, com um sorriso no rosto.
Separa os pertences e come algo antes de sair.
E apesar das dores nas pernas e na coluna, tem uma vontade incrível de sair e festejar com os amigos, pra completar o dia.
Porque hoje é sábado!

Natália Albertini.
Novamente, desculpem-me pela baixa na produção de meus textos, é que meus dias têm sido um tanto quando complicados.
Enfim, show do AC/DC ontem INDESCRITIVELMENTE INCRÍVEL. Angus Toca muuuuuuuuuuuito, Malcom canta muuuuuito, todos foram MARA, amei demais!
A única coisa que desanda o ritmo um tiquinho hoje é pensar que, no fim, foi tudo ao contrário...

É, não é pra entender mesmo, nem eu sei direito.
Enfim, assim que der escrevo algo útil aqui.
Beijos enormes.

Natália Albertini.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Little bit of hell.

Tudo à minha volta era fogo. Chamas, labaredas, fogo, fogo e mais fogo. Eu mesma estava em chamas por completo.
Gritava, expelia ruídos indefiníveis, pedindo para que parassem de atear fogo em meu pobre corpo. Que minha alma sentisse tal excruciante dor, mas meu corpo não, não merecia queimar daquele jeito.
De repente minha respiração falhou e o oxigênio parecia se recusar a passar por minhas veias respiratórias.
O cabelo grudava em meu rosto e nuca quando comecei a vomitar tosses e tentativas frustradas de trazer o ar para dentro de meus pulmões.
Alguém começou a me espancar as costas. Sem forças para protestar, apenas virei o rosto e olhei minha agressora.
Entreabri os olhos até então cerrados e o que vi foi minha mãe me chamando calmamente.
- Quê? - e soltei uma arfada que ar quente, enfim conseguindo roubar algum oxigênio para mim.
- Tudo bem?
- Quê?!
Me dei conta, por fim, que o lençol estava umedecido, a camiseta grudada em mim e o shorts jogado no chão, do outro lado do quarto.
- Filha, que foi?
- Nada, mãe - arfei mais uma vez.
- Vou trazer o ventilador aqui, espera.
- Tá...
É. Só mais um pequeno cochilo durante um calor absurdamente...quente. (?)

Ps.: que calor gostosoooooooo! (Sem ironias, juro!)
Natália Albertini.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Vertigo.

O sol reluzia em sua pele, a camiseta preta parecia reter mais luz do que o usual, porque lhe queimava as costas, a calçada já parecia dura demais e a parede, pedregosa em excesso para que recostasses suas costas ali. Mas apesar daqueles fatores externos, o rapaz continuava ali, firme, divertindo-se com amenidades, esperando as horas que não passavam.
Uma de suas bandas preferidas se apresentaria naquela noite. Mas, meu Deus, ainda eram duas da tarde, faltavam exatamente oito horas para os portões serem abertos... Ai, que agonia...
Foi então que seu fluxo de consciência se interrompeu completamente. Por um ou dois segundos, seu cérebro se ocupou com um intenso branco e sua respiração falhou. A boca lhe pareceu seca, as mãos, de repente molhadas, a camiseta preta ainda mais quente (o que antes lhe tinha parecido impossível).
Seus negros olhos não conseguiam desgrudar da figura que se aproximava gradativamente, em passos calmos e seguros, indiferentes a ele. Era ela.
Pôs-se de pé num pulo só, arrumou o cabelo, esfregou os olhos, sem os desgrudar dela, ajeitou os jeans e endireitou a camiseta. Sabia como ela gostava que fizesse.
Seus amigos, alguns à direita, outros à esquerda, se levantaram gradualmente para cumprimentar a dupla de garotas que se juntou a eles. Ele engoliu em seco, incapaz de parar de fitá-la.
Enquanto elas cumprimentavam a todos, ele se posicionou ao fim do grupo, de modo que seria o último a cumprimentá-la.
Não conseguiu achar forma correta de recebê-la, mas balbuciou algumas sílabas, treinando silenciosamente, e assim que ela dirigiu os grandes olhos azuis a ele, abriu os braços de maneira acolhedora, deixando o espaço perfeito para ela. Seu corpo sentia saudades do dela há muito tempo, nunca esquecera sua textura e tamanho. Estava na expectativa, só dependia de um ou dois passos dela para completar o reencontro.
Contudo, ela não os deu. Manteve-se estática onde estava, com um olhar que não era nem desdenhoso, nem irritado, era só indiferente. A garota meneou a cabeça e se limitou a levantar sutilmente um dos cantos dos lábios, na imitação de um sorriso, e logo depois voltou o rosto para sua amiga e os outros amigos dele.
Seus ombros caíram, seus braços ficaram flácidos, seus lábios desceram numa visível careta desapontada. Sentiu uma terrível vertigem que fez seus joelhos falsearem, quase o derrubando ao chão.
Aquilo era... Completamente imprevisível, bem como foi a chegada dela. Só que ao contrário. Porque vê-la chegando foi espetacularmente bom, mas em contrapartida, vê-la ingorando-o foi inexplicavelmente frustrante.
Sua cabeça dava voltas e mais voltas, e ela nem sequer olhava para ele, nem sequer dirigia aqueles olhos aos seus, ao seu desespero tão visível.
O pequeno grupo se envolvia em previsões e esperanças relativas ao guitarrista, à setlist etc. enquanto ele se perdia em devaneios, enquanto seu corpo almejava por ter o dela em seus braços, nem que fosse pela última vez, para se despedirem da maneira correta.
O Sol de repente lhe ofuscou os olhos, forçou-o a fechar violentamente as pálpebras. E quando foi capaz de abri-las de novo, a garota já tinha sumido, já tinha ido embora, já o tinha deixado ali, desamparado, esperando por ela novamente.
E daquela vez tinha quase certeza que era em vão.

Ps.: é...sei lá, só saiu...
Natália Albertini.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Filhos indisciplinados.

A porta do meu quarto é aberta com um estalo sutil, levanto os olhos e vejo minha mãe. Com as mãos atrás do corpo, escondendo algo, ela me diz:
- Olha, só porque você é uma menina muito responsável e adorável, merece um agrado.
Põe as mãos à frente e me mostra um prato com pururuca (sim, causa uma puta indigestão, mas é tão gostoso...). Sorrio para ela, e enquanto pego o prato, ela continua, com um tom de censura:
- Ná, olha aqui pra mim.
Olho.
- É sério...
Espero que conclua.
- Já chega, tá?
Cara de interrogação.
- Já deu de estudar.
- Ah...isso.
- É, já chega, tá?
Reticências. Volto aos estudos.

Uma ou duas horas mais tarde, ela volta a meu quarto, com um tom pesaroso:
- Filha, numa boa...já não chega por hoje?
- Não, mãe, não dá. Tô testando a capacidade de armazenamento da minha massa encefálica. Sabia que tudo que aprendemos é gravado no cérebro e que as funções involuntárias, como respirar, são controladas pelo bulbo, e que...
Ela suspira e, profundamente decepcionada, comovida com sua perda de influência sobre mim, me deixa falando sozinha, enquanto eu já me perdia nos cálculos dos coeficientes angulares.

E pensar que ainda há alguns meses, era exatamente o contrário: dizia-me que já bastava a diversão, e que fosse aos estudos.
Quem sabe um dia eu alcanço o equilíbrio, não?
Equilíbrio...isso me lembra ponto de compensação fótico, que é o ponto em que a respiração e a fotossíntese...

Natália Albertini.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Casmurra.

Saibam que este será um dos textos mais complicados (em todos os sentidos) que já escrevi até hoje, portanto, perdoem-me erros gramaticais, pleonasmos, antíteses e qualquer outro equívoco, é só que...
É só que eu me econtro perdida, reclusa, trancafiada em mim mesma. Ando assim meio enmimesmada, metida pelos cantos comigo mesma. Machado que me perdoa as citações, mas essa minha metafísica eclodiu justamente em meio à releitura de meu livro de cabeceira.
Nos últimos dias, cílios e mais cílios têm se desprendido de minhas pálpebras. Daí, parto para duas reflexões, só não sei se paralelas, exclusivas ou complementares. A primeiro é a de que meus olhos estão aflitos por encontrarem algo que já não sabem mais onde procurar, e em meio a esse desespero em que se encontram, já chegaram a tal ponto (sim, eu sei que é Caetano) de expulsar até mesmo sua proteção ciliada. A segunda consiste numa necessidade tão grande de fazer, de realizar desejos, que até mesmo meu corpo já se deu conta disso, embora eu não divida meus cílios e acabe por assoprá-los para longe sozinha mesmo.
Acontece que minha bússola está tão desorientada que eu não consigo mais ouvir o que meus olhos querem ou os desejos pelos quais meu âmago grita. Sou toda pedaços, cacos soltos, esmigalhados, desconexos.
Simplesmente desmantelada, vomito toda a minha angústia por meio destas palavras. E estou tão ridiculamente desorbitada que não sei o principal motivo disso tudo. Não sei se é a aflição pela maratona de vestibulares que começa essa semana, se por nunca achar que minhas aulas são proveitosas o suficiente, se por ter perdido meu melhor amigo sem razão aparente alguma, se por, depois deste acontecido, eu ter me retraído, diminuindo cada vez mais a confiança em todas as outras pessoas, se por ter visto meu pai mutilado pelo oitavo ano da ausência de sua mãe e não ter sido capaz de abraçá-lo e dizer que eu estou aqui sempre, para tudo, ou sei lá eu por que outro estúpido motivo.
Eu sei que entregar-se de corpo e alma aos outros é muito vantajos, mas o que eu faço se não consigo? Simplesmente não consigo, e aqueles que dizem que invejam minha "frieza" são grandes tolos, isso, sim.
Aqui encaixam-se perfeitamente os versos do Coldplay "nobody said it was easy, no one ever said it would be so hard, oh, take me back to the start".
Mesmo que nunca leiam isso, gostaria de expressar nitidamente meu sincero pesar a todos aqueles amigos que já fizeram parte da minha vida em algum momento. Sinto muito por não ter me entregado a vocês como vocês se entregaram a mim, de modo que cada um deixou uma de suas borboletas comigo (guardo-as todas numa caixa separada), e eu, com vocês, nada meu. Logo, não os culpo caso se esqueçam logo de mim ou não façam questão de lembrar, porque sei que, por não me dedicar da forma necessário, não os marquei.
É, talvez seja esta a causa de toda essa minha infeliz angústia que me obnubilam os olhos e encharcam o travesseiro, salgando-o. Talvez seja a insatisfação em não conseguir demonstrar a cada um o quanto me fez bem. Talvez, por querer tão bem a tudo e todos, por fazer questão de ignorar qualquer contravenção, tornando possível sempre a convivência amena, eu não consiga me encontrar. Talvez u tenha me esquecido do que é ser Natália, do que é só ser.
Sinto muito, caros amigos, muitíssimo mesmo.
E quanto a mim, bem... Como bem e não durmo mal.

Ps.: obrigada, Machado.
Natália Albertini.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.
Se só me faltassem os outros, vá lá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde.
Mas falta eu mesmo, e esta lacuna é tudo."

Machado descreveu para mim perfeitamente este momento.
Nada mais a dizer.

Beijo,
Natália Albertini.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Borbolínea.

O astro dourado brilhando no alto, as nuvens escondidas do outro lado do planeta, a rede parada, estática na varanda longínqua, o barulho da piscina ainda mais longe, o cheiro de carvão queimando desde as nove da manhã, a grama seca, mas ainda verde, o ar rarefeito, difícil de ser respirado, o biquíni meio úmido, a sensação do algodão da canga debaixo das costas, o cabelo jogado de qualquer jeito, o peito subindo e descendo de forma profunda e relutante, reclamando da escassez de oxigênio, e ela ali, deitada sozinha, naquele calor que tornava o mundo todo uma imensa TV de cachorro, pensando nas idas e vindas da vida, tornando-se quase que ela mesma uma própria gramínea, ou borboleta. Como preferir.

Ps.: calor pra caraaaaca, mas assim que é bom. (H)
Natália Albertini.

domingo, 1 de novembro de 2009

Pôr-do-Sol

O cheiro dos bancos couriáceos misturado ao ar condicionado ocupava todo o interior o automóvel importado. O Sol de fim de tarde passava pelos vidros, tornando realmente necessário o uso dos óculos escuros por ambos.
O carro era guiado através de ruas calmas, bem arborizadas, e tinha como destino a Praça do Pôr-do-Sol.
Aparentemente, ele dirigia calmo, e ela só olhava pela janela com um sorriso de canto, despreocupada. Internamente, montanha-russa de ambos os lados. Subindo e descendo, girando em loopings insanos.
As pernas, que o vestido deixava à mostra, pareciam não encontrar maneira certa de ficarem: retas, pareciam desleixadas; cruzadas, muito vulgar; joelhos distanciados, muito masculinas; joelhos fechados, tímida demais. E os braços?
Ai, meu Deus, os braços! Cruzados, ao lado do corpo, no colo ou um mexendo no cabelo e outro encostado no vidro?
"Será que eu escolhi a roupa certa? Será que eu falei demais ou ri muito alto? Oh, céus, será que...?", pensava a garota, enquanto tudo o que demonstrava fisicamente era tranquilidade e leveza de espírito.
Ao mesmo tempo em que ela subia e descia com as traves do vagão abertas, ele era chacoalhado de ponta-cabeça.
As mãos e os pés estavam firmes na direção, contudo, tudo o que passava em sua mente lhe causava sérias vertigens.
Aumentar ou abaixar o som? Elvis ou John Mayer? Falar do cabelo dela ou de seu vestido? "Nossa, que pernas... E como ela fica linda com essa cara serena...É...tem que ser agora. É ela! Assim que você descer do carro, cara, você vai abrir a porta pra ela e vai elogiá-la, e ai...pule do precipício. Mas e se ela recusar? Oh, céus..."
E então eles suspiraram simultaneamente. Olharam aos olhos um do outro e riram de forma sutil.
O sorriso permaneceu no rosto durante um bom tempo, enquanto, em silêncio, se perdiam em novas reflexões, o peito palpitando e a barriga com um vazio que ia e vinha.
Enfim ele estacionou o carro e precipitou-se em dar a volta, abrindo a porta para ela.
E a montanha-russa de repente virou um abismo escuro pincelado com asas de borboletas.

Natália Albertini.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Sem entranhas para colocar para fora no momento.
Fazendo trabalho de matemática.
Fim de semana muito proveitoso com direito a primas e Mark.
Assim que der vontade, posto.
Desculpem-me por estar tão relapsa, sério. Tenho estado so damn busy...
Amanhã tem festa de Halloween da Skill, estarei lá (of course).

Take care you, guys.
And visit boys' blog! (http://teen-action2.blogspot.com )
Bisous.

Natália Albertini.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

D.

Passava à tinta todas as trinta e três linhas que tinha escrito à lápis na folha de almaço a ser entregue para a professora de Biologia.
Tinha a cabeça deitada sobre o travesseiro que havia colocado em cima da mesa, para maior conforto. O que a deleitava era o leve sussurro da caneta tocando o papel, imprimindo as letras, quando a gata deu um pulo do chão e foi direto à mesa, fazendo com que a caneta borrasse a folha.
- Aaaaah, meniina! - mas não pôde conter um leve sorriso de canto e acariciar o animal enquanto procurava o líquido corretivo no estojo.

Ps.: não, não tem continuação nem metáfora nenhuma. É bobo assim mesmo. Simplesmente o dia de hoje adicionado às saudades da minha Duquesa.
Natália Albertini.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O meu não, o meu é ótimo!

- So, guys, what's your reaction when your computer doesn't turn on, or your internet doesn't work?
- Aaaaah, teeeacher, I hate it! My computer ALWAYS does that! I always go crazy, mad and get reeeeally pissed off!
The teacher laughed softly, but then commented:
- Oooh, c'mon! You're overreacting!
The other student continued:
- Of course not, teacher! He's right! I feel like kicking it to see if it will work!
A third one completed:
- Yeeeah! Aaaargh, it knocks me out! It drives me mad!
The three of them said almost together:
- Yeah, yeah, that's right.
The teacher, after laughing a bit, got her book. But while she was doing that, the fourth student, who had kept silence during all the debate, finally said:
- Teacher, I don't get like that. My PC is great, it never shuts down while I'm using it, it never breaks - and smiled a little.
It's obvious that the three other students glimpsed at him (with lasers). And it's also obvious that the teacher couldn't stop laughing.

Ps.: Assim não dá, pessoal. Qualquer dia vocês me matam...
Natália Albertini.

Velocidade de Concentração.

Debaixo da luminária de mesa, respirando quase que imperceptivelmente, deixou as pálpebras se fecharem, permitiu que a mente vagasse por alguns momentos.
Os sete livros estavam abertos sobre a peça de marfim que usava como mesa. Sua cabeça estava deitada, seus cabelos jogados, na página 229 do livro de Química, na parte de velocidade das reações. Foi obrigada a tirar aquele pequeno "cochilo", se é que se pode chamar assim apenas o descanso dos olhos, quando viu o nome do capítulo.
Foi preciso permitir-se alguns momentos a sós com sua própria mente, ousando até alguns movimentos que alcançaram lembranças boas que eram trazidas pelo cheiro de livro que as narinas inalavam a cada inspirada profunda que dava.
Depois de alguns instantes, quando a posição passou a provocar-lhe dor nas costas e no pescoço, retomou a postura, respirou fundo umas duas ou três vezes mais e pegou de volta o marca-texto na mão, trazendo de volta a vontade de estudar (?) e a concentração (1g/mol. E ai quando eu quiser quantos gramas tem um mol e meio, eu...).

Natália Albertini.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

As amoras estão de fato se tornando parte fundamental da minha vida.
Hoje mesmo, ao lado de duas grandes amigas minhas, rapei galhadas e galhadas duma amoreira. (h)

Passem bem.
Beijos.

Natália Albertini.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amoreira.

Desviou os olhos da página em branco, fechando, sem ter coragem de lançar um último olhar, o livro que tinhas em mãos: estava acabado.
O que a preenchia agora era aquela sensação antagônica, inexplicável que se sucedia quando se terminava uma obra, qualquer que fosse.
Deitou o amontoado de paginas a seu lado virado para baixo, incapaz de enfiá-lo de uma vez na bolsa, bem como olhar sua capa, o que, com certeza, provocaria irresistível vontade de começar a ler tudo de novo, só pelo prazer de reviver a trama.
Alongou as costas, puxando os braços acima da cabeça, esticando a blusa que momentaneamente descobriu-lhe a cintura. Enquanto se encompridava, suas mãos tocaram algumas folhas do galho mais baixo da árvore em que se recostava.
Tornou a cabeça para cima e dirigiu os olhos ao local de suas mãos, enxergando o que seus dedos não tinham visto: pontinhas pretas arroxeadas despontando do amontoado de verde.
Não pôde impedir que o canto direito de sua boca subisse, formando um sutil sorriso de canto graças à visão agradável.
Abaixou as mãos, limitando-se a simplesmente olhar as pequenas frutinhas por algum tempo, satisfeita na constatação em si. Satisfeita com a própria tese, sem mesmo exigir a prática, o toque.
Depois de alguns instantes, levantou uma das mãos e passou a colher algumas daquelas amoras, depositando-as ao lado do livro, sobre a canga em que estava sentada, estendida na grama.
Ajeitou as costas e as encostou novamente no tronco do pé de amora, desabotoando os primeiros botões da camisa xadrez, feliz com o calor.
O sorriso não desapareceu facilmente, ficou ali, estampado por todo o tempo em que fazia o trajeto das bolinhas, desde o chão até sua boca, sentindo o sabor explodir, percebendo a tinta sujar seus dedos como sangue, mas um sangue sem dor, um sangue de satisfação.
Talvez devesse levar algumas daquelas para o menino que tanto as apreciava. É, talvez devesse... Mas estavam tão boas...tão boas que... Ah, ele que pule alguns portões depois, minhas amoras eu não divido com ninguém! Pelo menos, não hoje.

Ps.: É, meio egoísta, mesmo... Mas elas estavam tãããão gostosas... *-*
Natália Albertini.

sábado, 3 de outubro de 2009

É muita babaquice pular o dia todinho só por estar feliz porque EU VOU NO SHOW DO AC/DC?
Pois é...
Sendo ou não...
EU VOU NO SHOW DO AC/DC!
*-*

Beijos.
Natália Albertini.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Turn your mobile off, please.

Outros julgariam aquela posição muito estranha e improvável para alguém assistindo a um filme num cinema, mas para ela era confortabilíssima.
As personagens mexiam-se com tanta fluidez, que qualquer movimento de suas próprias mãos lhe parecia absurdamente bruto.
Por um momento desligou-se do contexto do filme e passou a fixar-se nas personagens em si, nosvestuários, na maquiagem, nos cabelos, nos pequenos detalhes do cenário que passam despercebidos aos olhos da maioria.
Prendeu-se à trilha sonora, àquela música tranquila. Alguma melodia que longinquamente se parecia com Anya Marina.
Prestou atenção em cada detalhe da cena à sua frente, destacando pontos que alguém jamais notaria. Simplesmente pelo puro prazer de ver, cega, o que os outros, ditos portadores da visão, nunca veriam.
Fazendo o papel de quem sabe uma segunda Joana, esquecida de qualquer Otávio e muito mais de qualquer Lídia, perscrutou-se, redescobrindo os nós dos dedos, tensos, amarrados uns nos outros, aflitos com o decorrer da história, em oposição aos ombros que, relaxados, viviam o momento como um todo, aproveitando desde a textura do ar condicionado até o sutil acariciar do algodão da blusa.

Certo tempo depois, deixou a sala de cinema sozinha, ajeitando as vestes e a bolsa no ombro. Deixando para trás toda aquela fantástica experiência, tentanto arquivar o máximo de informações possível, tentando não se sentir precipitadamente nostálgica, como costumava fazer a cada vez que se dava por conta que o relógio custava muito a retroceder os ponteiros.

Ps.: aquele cheirinho de ar condicionado é do ozônio, right? Ozônio. Ozonólise, cetona e aldeído...
Natália Albertini.

domingo, 27 de setembro de 2009

Tinha escrito umas boas duas páginas, mas não gostei e deletei tudo.
É isso que chamam de escrever, certo?

Natália Albertini.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Dorme, Ná. Mamãe te chama quando chegar em casa.

Fim de festa. Minhas pálpebras pesam, difícil resistir. Estendo meus braços gordinhos na mesa enfeitada e adormeço.
Trevas.
Pontinhos de luz penetrando meus cílios. Papai me carrega enquanto se despede de todo mundo. Estou cansada, finjo que estou completamente adormecida, com o pescoço mal ajeitado, a cabeça jogada no ombro dele e os braços largados ao lado do corpo de qualquer jeito, enquanto meu par de All Stars número 26 balança nas mãos de mamãe, a meu lado, despedindo-se de titia.
Papai me leva até o carro. Quando chega, com muita agilidade abre uma das portas traseiras e me ajeita no banco. Fecha a porta e dá a volta no carro, tomando seu posto de motorista enquanto mamãe ajeita-se no banco do passageiro com as incontáveis Tapawers contendo pedaços de torta, salgadinhos, brigadeiros, bolos e afins.
A viagem de volta pra casa começa.
Me posiciono da melhor forma para um sono bem aproveitado. Porque o melhor sono é esse. Esse do banco traseiro desse Santana azul, quando tomo conta de todo meu corpinho, quando fico pensando o quão maior serei, quando fico pensando se algum dia serei tão importante para alguém quanto papai e mamãe são pra mim, quando fico pensando se terei uma irmazinha, quando sinto esse cheiro de carro, quando ouço as vozes de mamãe e papai comentando sobre a festa, quando as luzes da cidade penetram parcialmente por minhas pálpebras que voltam a ficar tão cansadas e escuras...escuras... Será que alguma fadinha vai aparecer e...aaaaah, que sono...
Será que alguma fadinha vai aparecer e me contar sobre o futuro?
Será que amanhã de manhã o Papai Noel já vai ter deixado minha bicicleta ao lado da árvore de Natal?
Será que...

Ps.: e são dessas coisas que não quero esquecer nunca, talvez por isso as escreva...para mais frente poder provar que esses sentimentos e sensações de fato existiram e me tocaram mais do que conflitos internos me tocam agora.
Natália Albertini.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Areia.

Sacada preenchida por brisa. Rede balançando sutilmente, no embalo das ondas que ecoavam ao longe. Um braço pendurado para fora, os dedos enganchados na orelha de um livro.
Silêncio marítimo. Cheiro salgado e respiração tranqüila. Sonhos em preto leve, delicado.
Louça no escorredor de pratos. Mesa arrumada. TV desligada e lápis no chão, ao lado do sofá.
Sono envolvendo todos os corpos.
Era assim que eram observados: com enorme ternura e carinho.
Quanto ao corpo que dormia na rede, era tão corpo que passava a ser só espírito, leve, quase que flutuando. As preocupações tinham sido levadas embora.
Só sobrava aquele gosto de saliva seca e palavras herméticas de Clarice Lispector nas pálpebras agora fechadas, absorvendo as idéias e se identificando cada vez mais com elas.
Dezembro.
Meus dezembros...

Natália Albertini.

Ps.: dica de música de acompanhamento: "Exploration", da trilha sonora da Coraline que, a propósito, é um filme lindo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O mar lambendo a areia, o sorvete, o açaí, Perfil 2, Imagem e Ação, os filmes, o sofá-cama aberto, a rede, a varanda, a brisa, o chuveiro, a beliche, a cozinha apertadinha, o ventilador de teto da sala, o apartamento no segundo andar, as escadas, o elevador tão antigo, os bancos na entrada do prédio, o portão, o asfalto quente, a árvore da esquina, o gótico, o calor, o amor platônico de Havaianas, o pastel, o protetor, a Fê reclamando da areia grudada no corpo, as caminhadas, o calçadão, as pessoas, as pranchas, as estrelas, os carros com música alta, a Rio de Janeiro, chegar tarde depois de andar na Pitangueiras, as pedaladas infinitas, o chuveiro lá de baixo, a padaria, a farmácia, as sonecas no meio da tarde depois de tomar muito sol e nadar, o vôlei ao pôr-do-sol, os convites a umas voltinhas num invejável Eclipse, os caras-enchidas, as naves-espaçonaves etc.
De tudo isso sinto muita falta agora. E só tô torcendo pra esse feriado continuar com esse tempo maravilhoso pra poder voltar pra praia!
:D

E em alguns aspectos, esse é o melhor semestre da minha vida.

Beijos mil.
Fui dar aula.
*;

Natália Albertini

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O que os astrônomos diriam se tratar de um outro cometa.

Acho que dizer que eu estou dilacerada é um mero eufemismo.
Desde quarta-feira, venho experimentando um humor ótimo. Os dias esquentando, o Sol despontando na minha janela, meus alunos satisfeitos, aumento de carga horária, confiança, estudos demasiados e o que mais importa, satisfação minha, felicidade comigo mesma.
Hoje não foi diferente, mas o sonho de ontem á noite me mostrando seu rosto pela zilionésima fez com que uma pequena pontada de sei-lá-eu-o-que me perturbasse a manhã toda. Não que tenha feito meu humor mudar, mas desceu um ou dois degraus.
Agora chego em casa e esse sentimento de nostalgia adicionado a certa raiva (acho que é isso, não consegui definir) me faz olhar algumas fotos suas atuais. E o que mais me dói é que você é completamente outra pessoa e eu, aparentemente, já não faço mais parte da vida dela.
Sua face parece mais emblemática do que nunca. As sobrancelhas meio caídas, bem como os ombros. E o que me machuca, o que me dilacera é saber que eu não sei mais te decifrar. Saímos de sintonia. E você não se importa nem um pouco.
Desorbitados, sistemas planetários totalmente diferentes e longínquos.
Estamos aprendendo a viver um sem o outro. E pensar que já nos prometemos que isso nunca aconteceria...
Tolos.
Toda a minha coragem de enfrentar essa maratona de aulas e simulados que me ocupará o fim de semana todo, começando daqui a quinze minutos, se esvaiu por entre meus dedos. A melancolia começou a me assolar, e isso não é nada bom. Além de muito melodramático.
Já engoli orgulho demais por você. Gostaria que você se entregasse um pouco mais ás vezes, já que agora o sempre nos é vetado. Mas, sinceramente, também aprendi a não alimentar grandes esperanças.
Se nossos eixos continuarem se desorbitando assim, uma pena. Perda da maior amizade que já encontrei em minha vida. Mas paciência... Não só de você eu vivo, nem nunca vivi. Vou me ajeitar.
É, Natália, fica ai escrevendo sobre isso... Nem das mudanças do número de parágrafos, nem das aulas extras, nem muito menos de quão mal estruturado fica seu texto ao falar sobre essa amizade de anos, nem de como seu cabelo está maior, e nem sequer pense que da falta que você sente daquilo tudo ele se dará conta.
Simplesmente engula e siga sua vida. Todas as suas forças já se esgotaram nas batalhas anteriores, ainda não percebe?
Vocês (se) perderam.

Natália Albertini.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Spinning Heads (num movimento centrípeto acelerado...Não, espera...)

Outro de meus pequenos prazeres: ficar à deriva, vegetando (briófitas não tem vasos condutores...Pteridófitas, angiospermas e gimnospermas são traqueófitas) na frente do computador, simplesmente ouvindo Coldplay, sem sequer balbuciar os versos (redondilho menor, cinco versos, rendondilho maior, sete) que sei de cor.
Mas o que acompanha esse meu pequeno deleite (leite...lactose...) hoje não é agradabilíssimo (superlativos): perceber o quanto medo, desprezando as tais medidas preventivas, esse semestre já começou a me dar.
Num misto de cansaço, reflexões excessivas, nostalgia precoce e, admito, certa empolgação, já que sou uma das adeptas ao modelo de vida sem-tempo-para-nada, me deparo com uma maré vermelha que é causada pela proliferação das algas... Ai, não, calma. Digo...me deparo com uma maré de sentimentos antagônicos, porém complementares (sim, complementares...as raízes imaginárias sempre vêm acompanhadas de suas conjugadas).
Não sei se isso tudo é por ser adolescente, mulher (é, a igualdade perante a lei entre homens e mulheres foi estabelecida na Constituição de 88, portanto é muito recente), Natália, sagitariana ou tudo junto.
Realmente, esse último semestre vai me deixar completamente louca e fora de mim. E o pior é que não sei me decidir entre ânimo, vide prévia explicação, ou medo, idem. Já tô até vendo, meio embaçado, admito, uns Guimarães Rosa radioativos e uns amperímetros da O.R.I.
Gosh...
Heavens help us, mates.

Natália Albertini.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

F.

Ela afastou os lábios dos dele, olhou-o aos olhos e fez um beicinho, com cara de pensativa.
Ele se manteve calado, apenas a observando, admirado, enquanto ela se ajeitava em seu colo. Até que ela quebrou o silêncio:
- Você tem fumado, ?
Ele abaixou os olhos, como que envergonhado, e enfiou a mão no bolso.
- Não faz isso, você acaba com seus pulmões...
Ele tirou a mão de dentro do bolso e mostrou o último cigarro que tinha por perto. Com um movimento dos dedos, quebrou o pequeno objeto bicolor e o jogou na lareira.
Ela fixou os olhos na lenha e os deixou ali, repassando a cena mentalmente. Tinha vontade de rir e ao mesmo tempo de beijá-lo. Pensou em como aquela cena poderia dar um filme se eles se comunicassem melhor, quem sabe até falassem a mesma língua, se a lareira estivesse acesa e se um maquillador tirasse algumas sutis imperfeições de seus rostos.
Entretanto, aquele ato fora tão...tão...particularmente engraçado na vida real. Foi delicadamente cômico, e lhe provocou a repentina vontade de rir.
Voltou o rosto para o olhar dele e, desta vez, se prendeu ali. Ora, que se dane se havia sido piegas. Fora um ato de altruísmo e, ao mesmo tempo, auto-respeito dele.
Ela sorriu, meio envergonhada e meio grata, e esperou a reação dele. Ele finalmente sorriu para ela, ajeitou-a novamente em seu colo, a abraçou a deitou a cabeça no ombro direito dela, respirando devagar.
Ela afagou-lhe os cabelos negros e sussurrou-lhe um quase que indecifrável "gracias" ao ouvido direito dele. Beijou-lhe a nuca e passou a lhe fazer um cafuné de leve, enquanto o observava adormecer como uma criança de cinco anos o faria.
Respirou fundo e agradeceu por tudo estar acontecendo ali. E, principalmente, por tudo não a seguir até em casa, era o que mais a deixava contente, embora parecesse um tanto quanto insensato para outras pessoas.

Natália Albertini.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Caixinhas, caixinhas, minhas caixinhas.

Recostou-se numa parede e revirou o cabelo de qualquer forma, só para tirá-lo do rosto. As pernas não conseguiam parar de se mover ao ritmo do reggaeton no último volume.
Apoiou as mãos na cintura e depois as passou à nuca, pendurando-as ali. Varreu quase que toda a casa noturna com seus olhos então acinzentados.
Viu um grupo de amigos recém-feitos dançando, viu argentinos pulando, cantando e bebendo. Viu os lasers indo e vindo pelo ambiente, iluminando uns e outros, tornando os olhares felinos. Bem, alguns até mesmo lupinos...
Viu e ouviu tudo aquilo e tentou ao máximo arquivar até os mínimos detalhes em seu departamento de memórias agradáveis.
Se pudesse, guardaria tudo aquilo numa caixinha vermelha com um laço branco. E quando sentisse vontade de voltar, era só desfazer o laço, abrir a caixinha e, tum, pular ali dentro.
Numa fisgada pesada, percebeu que não estava mais na festa tão animada, mas, sim, em casa, em sua própria cama. Droga, estava sonhando de novo... Que saudades de tudo...
Se virou na cama e afogou o rosto no travesseiro, esticando os braços. Os dedos tocaram uma superfície dura e lisa. Estranhando o fato, sentou-se na cama e olhou para o colchão. Só então deu-se por conta de que não estava deitada de fato num colchão, mas, sim, sobre milhões e milhões de caixinhas vermelhas com laços de cores diversificadas.
Arregalou os olhos e avistou uma com um laço branco. Gananciosa, esticou a mão direita para alcançá-la. Assim que o fez, desamarrou o laço e jogou longe a tampinha vermelha. Enxergou somente algumas luzes fluorescentes. Sem hesitar, mergulhou ali dentro.
Infelizmente, acabou por descobrir que a fluorescência vinha da luz de seu próprio quarto. Sua irmã havia acendido para procurar algo que perdera no meio da noite.
Bufou e revirou-se na cama, desta vez em seu próprio colchão, quase implorando ao subconsciente para trazer de volta as caixinhas.

Ps.: nossa, oi, o que é isso? Sei lá, só fui escrevendo enquanto cantarolava Hasta Abajo Papi e Descontrolado! xD
Ps2.: oooooo saudaaaaaaades! :S
Natália Albertini.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Peter Pan

Entre as sombras das árvores, a luz do Sol consegue se esgueirar e iluminar pequenas partes do painel. Sobe devagar pela sua mão esquerda, que guia o carro, quase lhe alcançando o cotovelo. Deixa-lhe a pele ainda mais branca, embora me pareça impossível.
Seu cabelo está um pouco bagunçado na nuca, levando meus olhos a alcançarem seu pescoço e seu maxilar. Subo. Sua boca, seu nariz e um Ray Ban espelhado.
Desço. Seus ombros que fazem a camiseta esticar informalmente.
Você fala com tanta naturalidade, mas também aprecia tanto quanto eu não me calo.
Por vezes apoia os óculos acima do joelho na perna direita, que gracinha.
Enquanto eu olho pelo retrovisor, tentanto evitar teu embalo, você fica cantarolando Elvis baixinho, e me faz tomar consciência novamente da aura de pozinho mágico que te envolve.
E mesmo agora, depois de certo tempo, aquele pozinho ainda me faz cócegas ás vezes. E eu juro que poderia voar se fosse como todas as outras...

Ps.: back from the paradise. Although I'm not there anymore, it ain't over yet. Take you guys with me everywhere I go from now on. Thank you all so fucking much.
Ps2.: ÔÔÔÔÔÔÔÔ BARILÔ BARILÔ BARILOCHE!
Ps3.: não, o texto não tem nada a ver com Bari. Eu devia ter postado antes de ir. Espero que a pessoa nunca leia isto. Um pouco de vergonha, né, sabe como é...hihi. x:
Natália Albertini.

sábado, 25 de julho de 2009

Well, I'm outta here for a week or so.
Deleitem-se com minha ausência.

Beijos.

Natália Albertini.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Pamonhas da Rua Miranda.

- Temos cural e pamonha. Pamonha fresquinha, pamonha caseira. É o puro creme do milho verde. Venha prova, minha senhora, é uma delícia.
A voz mecanizada começava a sussurrar: o carro tinha entrado na rua, à altura do número 500. Mas a casa em que estava era a 52, estava longe, embora a falta de movimento dali permitisse que as ondas sonoras alcançassem seus ouvidos.
O peito subia e descia num ritmo descontínuo, irregular. Os cabelos da nuca estavam encharcados. A pele reluzia com o sol que invadia o cômodo pela janela.
Pelo canto do olho conseguia ver o jeans surrado, jogado sobre alguns azulejos manchados. Via também a camisa xadrez rasgada
Deu uma arfada de desprezo e, pigarreando uma ou duas vezes, dirigiu a palavra à coisa que estava estatelada à sua frente:
- É, você me deu um belo dum trabalho... Deveria se orgulhar disso - e sorriu ligeiramente.
A cozinha em que se encontrava era escura. Preferia aqueles tons que sujavam menos para seus ambientes de trabalho prediletos. O balcão estava repleto de facas, colheres, garfos e até algumas xícaras; todos posicionados de acordo com o movimento que o corpo que havia estado ali fizera, empurrando-os irracionalmente.
As persianas, pretas, estavam abertas. Não que pudessem ou precisassem cobrir as janelas, mas além disso, ele gostava da luz solar refletindo nas cores que se contrastavam, tanto no piso quanto nas paredes e também no balcão.
Ele respirou uma vez mais fundo. Foi quando sentiu as costas arderem com os arranhões profundos que tinham lhe tirado bastante pele e material viscoso. Sorriu novamente, como que divertido com aquilo, e prosseguiu o diálogo com a coisa, inanimada por sua vez:
- No fim das contas, não sei porque vocês lutam... Mas eu gosto. É um desafio a mais, não é, boneca? E...ei, olha só! Que trabalho, querida! - e olhou para o que tinha no meio das pernas, ainda á mostra e ereto.
Seus olhos se deleitavam com a imagem do corpo nu e maltratado da mulher que jazia numa poça de sangue. Ela tinha os cabelos grudados no rosto pelo suor, embaraçados, a pele branca, apesar de ter passado todo o verão na praia, se bronzeando. Uma venda nos olhos, as mãos amarradas atrás do corpo e a boca recortada num sorriso de canto sombrio que subia-lhe quase que à orelha esquerda.
Entretido, ele parou de mastigar e cuspiu ao chão o pedaço da bochecha que lhe tinha roubado. Agachou-se ao lado do corpo desfalecido e fez força ao tirar o punhal fincado sob o seio direito, deleitando-se com o barulho que o instrumento fez ao puxar a pele e deixar a última das vinte e oito marcas que havia feito por toda a mulher, incluindo lugares inimagináveis.
Jogou a adaga de lado e, satisfeito consigo mesmo, tornou a ficar de pé, vestindo a calça jeans.
- Temos cural e pamonha. Pamonha fresquinha, pamonha caseira. É o puro creme do milho verde. Venha prova, minha senhora, é uma delícia. - a voz vinha de muito perto, o carro estava próximo.
Mesmo assim, ele não se preocupou, continuou a fechar seu zíper tranquilamente. Depois se abaixou e pegou o corpo, jogando-o no ombro esquerdo, carregando-o até o outro lado da cozinha.
Ficou de joelhos no chão e abriu o alçapão dali por uma alça de metal. Não perdeu tempo de descer, só despejou a recém-falecida ali e se despediu:
- Obrigado pela tarde tão agradável, meu bem. Suas amigas cuidarão bem de você ai embaixo - riu sozinho e fechou a tampa, voltando à poça de sangue da moça.
Pegou uma vassoura e alguns produtos. Tinha de começar a faxina logo, afinal, teria uma bela noite pela frente. E, ah, quase se esqueceu! Ainda tinha de tirar aquele seu Château Léoville Las Cases de sua adega. A safra de 2002 tinha sido uma das melhores, ele sempre se recordava.
- Temos cural e pamonha. Pamonha fresquinha, pamonha caseira. É o puro creme do milho verde. Venha prova, minha senhora, é uma delícia.
A voz começava a sussurrar novamente, distante. Estava se afastando, quase saindo da rua.
- Pobre coitado - pensou, com dó do vendedor.
Soubesse ele que a rua toda estava de luto pelas vinte e sete - e agora vinte e oito - mulheres desaparecidas misteriosamente, nem se atreveria a passar por ali, uma vez que as famílias não saíam mais de casa por um simples creme de milho verde.
Mas da Rua Miranda toda, as melhores já haviam sido comidas - em ambos os sentidos. "Talvez mês que vem eu comece a pesquisar as da Rua Alvorada", pensou, repassando mentalmente as moças da rua vizinha enquanto esfregava o chão com ardor.

Ps.: e não é que mandei embora meu bloqueio? He-he.
Natália Albertini.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Estou com um sério bloqueio (leia-se por falta de inspiração/ideias).
Desculpem-me.
Posto assim que tiver um insight.

Beijos.

Natália Albertini.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sala de Espera.

Sala de espera de dentista. Homem dos seus quarenta anos. Mulher jovem e bonita. Ela folheia uma Cruzeiro de 1950. Ele finge que lê uma Vida dentária.
Ele pensa: que mulherão. Que pernas. Coisa rara, ver pernas hoje em dia. Anda todo mundo de jeans. Voltamos à época em que o máximo era espiar um tornozelo. Sempre fui um homem de pernas. Pernas com meias. Meias de náilon. Como eu sou antigo. Bom era o barulhinho. Suish-suish. Elas cruzavam as pernas e fazia suish-suish. Eu era doido por um suish-suish.
Ela pensa: cara engraçado. Lendo a revista de cabeça para baixo.
Ele: te arranco a roupa e te beijo toda. Começando pelo pé. Que cena. A enfermeira abre a porta e nos encontra nus sobre o carpete, eu beijando o pé. O que é isso?! Não é o que a senhora está pensando. É que entrou um cisco no olho desta moça e eu estou tentando tirar. Mas o olho é na outra ponta! Eu ia chegar lá. Eu ia chegar lá.
Ela: ele está olhando as minhas pernas por baixo da revista. Vou descruzar as pernas e cruzar de novo. Só para ele aprender.
Ele: ela descruzou e cruzou de novo! Ai meu Deus. Foi pra me matar. Ela sabe que eu estou olhando. Também, a revista está de cabeça pra baixo. E agora? Vou ter que dizer alguma coisa.
Ela: ele até que é simpático, coitado. Grisalho. Distinto. Vai dizer alguma coisa...
Ele: o que é que eu digo? Tenho que fazer alguma referência à revista virada. Não posso deixar que ela me considere um bobo. Não sou um adolescente. Finjo que examino a revista mais de perto, depois digo “Sabe que só agora me dei conta de que estava lendo essa revista de cabeça para baixo? Pensei que fosse em russo.” Aí ela ri e eu digo “E essa sua Cruzeiro? Tão antiga que deve estar impressa em pergaminho, é ou não é? Deve ter desenhos infantis do Millôr.” Aí riremos os dois, civilizadamente. Falaremos nas eleições e na vida em geral. Afinal, somos duas pessoas normais, reunidas por circunstância numa sala de espera. Conversaremos cordialmente. Aí eu dou um pulo e arranco toda a roupa dela.
Ela: ele vai falar ou não? É do tipo tímido. Vai dizer que tempo, né? A senhora não acha? É do tipo que pergunta “Senhora ou senhorita?” Até que seria diferente. Hoje em dia a maioria já entra rachando... Vamos variar de posição, boneca? Mas espere, nós ainda nem nos conhecemos, não fizemos amor em posição nenhuma! É que eu odeio as preliminares. Esse é diferente. Distinto. Respeitador.
Ele: digo o quê? Tem um assunto óbvio. Estamos os dois esperando a vez num dentista. Já temos alguma coisa em comum. Primeira consulta? Não, não. Sou cliente antiga. Estou no meio do tratamento. Canal? É. E o senhor? Fazendo meu check-up anual. Acho que estou com uma cárie aqui atrás. Quer ver? Com esta luz não sei se... Vamos para o meu apartamento. Lá a luz é melhor. Ou então ela diz pobrezinho, como você deve estar sofrendo. Vem aqui e encosta a cabecinha no meu ombro, vem. Eu dou um beijinho e passa. Olhe, acho que um beijo por fora não adianta. Está doendo muito. Quem sabe com a sua língua...
Ela: ele desistiu de falar. Gosto de homens tímidos. Maduros e tímidos. Ele está se abanando com a revista. Vai falar do tempo. Calor, né? Aí eu digo “É verão”. E ele: “É exatamente isso! Como você é perspicaz. Estou com vontade de sair daqui e tomar um chope”. “Nem me fale em chope.” “Você não gosta de chope?” “Não, é que qualquer coisa gelada me dói a obturação”. “Ah, então você está aqui para consultar o dentista, como eu. Que coincidência espantosa! Os dois estamos com calor e concordamos que a causa é o verão. Os dois temos o mesmo dentista. É o destino. Você é a mulher que eu esperava todos estes anos. Posso pedir sua mão em noivado?”
Ele: ela está chegando ao fim da revista. Já passou o crime do Sacopã, as fotos de discos voadores... Acabou! Olhou para mim. Tem que ser agora. Digo: “Você está aqui para limpeza de pernas? Digo, de dentes? Ou para algo mais profundo como uma paixão arrebatadora por pobre de mim?”
Ela: e se eu disser alguma coisa? Estou precisando de alguém estável na minha vida. Alguém grisalho. Esta pode ser a minha grande oportunidade. Se ele disser qualquer coisa, eu dou o bote. “Calor, né?” “Eu também te amo!”
Ele: melhor não dizer nada. Um mulherão desses. Quem sou eu? É muita perna pra mim. Se fosse uma só, mas duas! Esquece, rapaz. Pensa na tua cárie que é melhor. Claro que não faz mal dizer qualquer coisinha. Você vem sempre aqui? Gosta do Roberto Carlos? O que serão os buracos negros? Meu Deus, ela vai falar!
- O senhor podia...
- Não! Quero dizer, sim?
- Me alcançar outra revista?
- Ahn... Cigarra ou Revista da Semana?
- Cigarra.
- Aqui está.
- Obrigada.
Aí a enfermeira abre a porta e diz:
- O próximo.
E eles nunca mais se vêem.

Por Luís Fernando Veríssimo.
[Em: Comédias da Vida Privada]

Ps.: eu tinha que postar essa, achei linda! ><' Veríssimo rules!
Natália Albertini.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pulsos mordidos, olhos secos.

Vou me saturando de periferia, mas ainda me falta o centro, minhas bases, meus pilares (que agora mais me parecem de areia).
Á beira de outro colapso encontra-se meu meio, mas minhas extremidades parecem ainda vibrar com as amenidades que me alegram parcialmente, disfarçando o mar que por dentro se contém.
Por que a distância? A droga da distância...
Por que tudo isso voltando, surgindo, indo e voltando tão à tona?
Bem, acabei de massacrar ambos meus pulsos de tanto mordê-los, espero que sangrem bastante, que chorem no lugar de meus olhos, já tão cansados.
E até agora não consegui nomear isso que tô sentindo. Um sentimento de raiva misturado com...ai, não sei o que é! Droga.
Scheizer, scheizer, scheizer!
E juro que nessas horas me dá uma vontade enorme de explodir que nem a Fera faz, emitindo luzes dos pés e das mãos (?) até virar príncipe. Mas ai eu podia virar eu mesma, mesmo, só que sem toda essa reviravolta por dentro.
Puta inferninho isso, viu? Te contar...

Natália Albertini.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Entre e tome uma xícara de café, mas por favor não me pergunte da Deusa.

Abriu a janela e deixou os raios de sol inundarem o chão lígneo do cômodo. Apoiou-se no parapeito e aproveitou para fazer um attitude, acompanhando os últimos segundos da música clássica que ressoava por todo o seu quarto, proveniente das grandes caixas sonoras.
Depois disso deu uma pirueta e sentou-se graciosamente na cadeira de rodinhas, girando-a, ficando de frente para a tela do computador, de frente para a tela branca do Word que normalmente lhe parecia tão deprimente, já que as palavras demoravam-lhe a sair e os dedos pareciam tropeçar nas teclas.
Fazendo jus ao colã, à meia-calça e às sapatilhas que vestia, ajeitou-se numa posição quase que felina, aparentemente impossível para qualquer um que não fosse bailarino há tantos anos quanto ela. Tirou o elástico do cabelo e tornou a prendê-lo, melhor que anteriormente.
Começou a digitar, os dedos dançando, como ela o havia feito alguns momentos atrás, sobre o teclado, simplesmente fazendo jorrar na tela palavras que nem a mente dela tinham consciência, vinham direto do peito.
Pausou por um momento e pegou a caneca que jazia ao lado do monitor, cheia de veneno vicioso que ela costumava chamar de café. De qualquer jeito, servia para aquecer-lhe o corpo, espantar aquele frio de julho que a assolava assim que ficava imóvel por um ou dois segundos.
O telefone tocou. Deixou que gritasse por duas ou três vezes e então atendeu, despreocupada, colocando a caneca de volta na mesa:
- Alô?
- Oi, Lolô, é a Bi! - um sorriso do outro lado da linha acompanhava a voz tão familiar da amiga de faculdade.
- Oi, Bi - e retribuiu o sorriso vocal.
A conversa durou uns bons vinte minutos, quem sabe mais. Falaram sobre amenidades e sobre a próxima sexta-feira, afinal, eram universitárias, não podiam ficar em casa numa noite de sexta. Depois de tudo acertado, despediram-se:
- Então tá, a gente se vê amanhã.
- Nos vemos, sim.
- Ah, e...?
- Sim?
- Não esquece de levar as sapatilhas que deixei ai, por favor.
- Tudo bem - respondeu, lançando um olhar às sapatilhas pretas já embrulhadas num canto do aposento. Ela não se esqueceria de levar.
- Até amanhã.
- Até.
Clique.
Após terminar tudo o que tinha para escrever, sorveu os últimos goles de café enquanto esperava a impressora terminar de trabalhar. Assim que acabou, pegou as folhas, desligou o computador e passou ao cômodo ao lado.
Apesar das cortinas serem escuras e estarem fechadas, era possível enxergar claramente as poças escuras e já secas de sangue no chão de madeira clara. Colocou as sulfites digitadas sobre a cama de lençóis revirados e aproximou-se bastante do rosto ainda congelado numa expressão de agonia que quase lhe provocava piedade.
Enfiou a mão direita por debaixo do pescoço do rapaz que ali jazia e, pela nuca, levantou-lhe a cabeça, trazendo seu rosto ainda mais para perto. Olhou-o bem aos olhos e sorriu delicadamente.
Sem sair daquela posição, puxou as folhas com a mão livre e passou a ler algumas passagens pelo canto dos olhos, revezando o ato com algumas olhadelas para o recém-apresuntado. Depois de terminar a última página, deixou-lhe a cabeça cair ao chão novamente e, divertida, informou-lhe:
- É, eu sou mesmo uma boa escritora... Descrevi seus últimos minutos exatamente como foram. Não sou um orgulho mesmo? - e riu para si mesma, na cara do infeliz - Eu já te dou o funeral adequado, meu bem, espere só um instantinho.
Levantou-se e abriu uma gaveta do móvel também lígneo, tirando dali de dentro uma pasta comprida e avolumada de cor vemelha. Puxou um clips da pequena caixinha também dentro da gaveta e afixou as páginas que tinha em mãos na ordem correta. Abriu os elásticos da pasta e ajeitou suas palavras ali dentro, misturando-as com todas as outras.
- Ah, meus amores... - suspirou, olhando afetuosamente para a pasta enquanto a fechava.
Ali dentro guardava seus relatos de todos os seus "encaminhados", como ela os chamava. Guardou a pasta novamente e fechou a gaveta que ainda seria aberta incontáveis vezes.
Ajeitou o corpo que jazia ali e começou a puxá-lo pelas pernas para a porta dos fundos. Nem sentindo incômodo de puxar todo aquele peso graças a toda sua satisfação de estar mandando outro escolhido para o caminho correto, arrastou-lhe pela escadinha da varanda e ouviu sem se importar os baques surdos que a cabeça do defunto emitia ao bater contra os degraus. Arrastou-lhe ainda por quatro ou cinco metros até alcançar a margem do rio que passava aos fundos de sua casa.
Antes de jogá-lo ali, fez o que fazia com todos os seus bem-aventurados: ajoelhou-se, sem pensar que podia rasgar a meia-calça já manchada de visco rubro humano, fechou-lhe as pálpebras e beijou-lhe a testa, sorrindo:
- Vá, querido, vá e dê um alô à Deusa por mim assim que acabar a queda d'água. Diga-lhe que depois daqui a alguns anos, quando eu terminar essa minha missão, eu mesma a encontrarei.
Andou de gatinhas na grama e empurrou-lhe pelos ombros até ver a própria correnteza se resposabilizar pelo encaminhamento dele.
E ali, voltando para casa para limpar o chão e tomar um belo banho, entre piruetas e pulos balarinísticos, mal sabia ela que a algum tempo dali ela mesma seria encaminhada por outro fanático.
Até hoje os que por ali vivem sentem a presença da magia da tão oculta Deusa, mas se recusam a falar tanto sobre ela quanto o incrível caso de Lorena. Evitam o assunto assim como os adultos evitam a matéria "De-onde-vêm-os-bebês-papai-e-mamãe?" ou "Por-que-meus-amiguinhos-ficam-dizendo-que-Papai-Noel-não-existe?".

Natália Albertini.