sábado, 25 de julho de 2009

Well, I'm outta here for a week or so.
Deleitem-se com minha ausência.

Beijos.

Natália Albertini.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Pamonhas da Rua Miranda.

- Temos cural e pamonha. Pamonha fresquinha, pamonha caseira. É o puro creme do milho verde. Venha prova, minha senhora, é uma delícia.
A voz mecanizada começava a sussurrar: o carro tinha entrado na rua, à altura do número 500. Mas a casa em que estava era a 52, estava longe, embora a falta de movimento dali permitisse que as ondas sonoras alcançassem seus ouvidos.
O peito subia e descia num ritmo descontínuo, irregular. Os cabelos da nuca estavam encharcados. A pele reluzia com o sol que invadia o cômodo pela janela.
Pelo canto do olho conseguia ver o jeans surrado, jogado sobre alguns azulejos manchados. Via também a camisa xadrez rasgada
Deu uma arfada de desprezo e, pigarreando uma ou duas vezes, dirigiu a palavra à coisa que estava estatelada à sua frente:
- É, você me deu um belo dum trabalho... Deveria se orgulhar disso - e sorriu ligeiramente.
A cozinha em que se encontrava era escura. Preferia aqueles tons que sujavam menos para seus ambientes de trabalho prediletos. O balcão estava repleto de facas, colheres, garfos e até algumas xícaras; todos posicionados de acordo com o movimento que o corpo que havia estado ali fizera, empurrando-os irracionalmente.
As persianas, pretas, estavam abertas. Não que pudessem ou precisassem cobrir as janelas, mas além disso, ele gostava da luz solar refletindo nas cores que se contrastavam, tanto no piso quanto nas paredes e também no balcão.
Ele respirou uma vez mais fundo. Foi quando sentiu as costas arderem com os arranhões profundos que tinham lhe tirado bastante pele e material viscoso. Sorriu novamente, como que divertido com aquilo, e prosseguiu o diálogo com a coisa, inanimada por sua vez:
- No fim das contas, não sei porque vocês lutam... Mas eu gosto. É um desafio a mais, não é, boneca? E...ei, olha só! Que trabalho, querida! - e olhou para o que tinha no meio das pernas, ainda á mostra e ereto.
Seus olhos se deleitavam com a imagem do corpo nu e maltratado da mulher que jazia numa poça de sangue. Ela tinha os cabelos grudados no rosto pelo suor, embaraçados, a pele branca, apesar de ter passado todo o verão na praia, se bronzeando. Uma venda nos olhos, as mãos amarradas atrás do corpo e a boca recortada num sorriso de canto sombrio que subia-lhe quase que à orelha esquerda.
Entretido, ele parou de mastigar e cuspiu ao chão o pedaço da bochecha que lhe tinha roubado. Agachou-se ao lado do corpo desfalecido e fez força ao tirar o punhal fincado sob o seio direito, deleitando-se com o barulho que o instrumento fez ao puxar a pele e deixar a última das vinte e oito marcas que havia feito por toda a mulher, incluindo lugares inimagináveis.
Jogou a adaga de lado e, satisfeito consigo mesmo, tornou a ficar de pé, vestindo a calça jeans.
- Temos cural e pamonha. Pamonha fresquinha, pamonha caseira. É o puro creme do milho verde. Venha prova, minha senhora, é uma delícia. - a voz vinha de muito perto, o carro estava próximo.
Mesmo assim, ele não se preocupou, continuou a fechar seu zíper tranquilamente. Depois se abaixou e pegou o corpo, jogando-o no ombro esquerdo, carregando-o até o outro lado da cozinha.
Ficou de joelhos no chão e abriu o alçapão dali por uma alça de metal. Não perdeu tempo de descer, só despejou a recém-falecida ali e se despediu:
- Obrigado pela tarde tão agradável, meu bem. Suas amigas cuidarão bem de você ai embaixo - riu sozinho e fechou a tampa, voltando à poça de sangue da moça.
Pegou uma vassoura e alguns produtos. Tinha de começar a faxina logo, afinal, teria uma bela noite pela frente. E, ah, quase se esqueceu! Ainda tinha de tirar aquele seu Château Léoville Las Cases de sua adega. A safra de 2002 tinha sido uma das melhores, ele sempre se recordava.
- Temos cural e pamonha. Pamonha fresquinha, pamonha caseira. É o puro creme do milho verde. Venha prova, minha senhora, é uma delícia.
A voz começava a sussurrar novamente, distante. Estava se afastando, quase saindo da rua.
- Pobre coitado - pensou, com dó do vendedor.
Soubesse ele que a rua toda estava de luto pelas vinte e sete - e agora vinte e oito - mulheres desaparecidas misteriosamente, nem se atreveria a passar por ali, uma vez que as famílias não saíam mais de casa por um simples creme de milho verde.
Mas da Rua Miranda toda, as melhores já haviam sido comidas - em ambos os sentidos. "Talvez mês que vem eu comece a pesquisar as da Rua Alvorada", pensou, repassando mentalmente as moças da rua vizinha enquanto esfregava o chão com ardor.

Ps.: e não é que mandei embora meu bloqueio? He-he.
Natália Albertini.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Estou com um sério bloqueio (leia-se por falta de inspiração/ideias).
Desculpem-me.
Posto assim que tiver um insight.

Beijos.

Natália Albertini.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sala de Espera.

Sala de espera de dentista. Homem dos seus quarenta anos. Mulher jovem e bonita. Ela folheia uma Cruzeiro de 1950. Ele finge que lê uma Vida dentária.
Ele pensa: que mulherão. Que pernas. Coisa rara, ver pernas hoje em dia. Anda todo mundo de jeans. Voltamos à época em que o máximo era espiar um tornozelo. Sempre fui um homem de pernas. Pernas com meias. Meias de náilon. Como eu sou antigo. Bom era o barulhinho. Suish-suish. Elas cruzavam as pernas e fazia suish-suish. Eu era doido por um suish-suish.
Ela pensa: cara engraçado. Lendo a revista de cabeça para baixo.
Ele: te arranco a roupa e te beijo toda. Começando pelo pé. Que cena. A enfermeira abre a porta e nos encontra nus sobre o carpete, eu beijando o pé. O que é isso?! Não é o que a senhora está pensando. É que entrou um cisco no olho desta moça e eu estou tentando tirar. Mas o olho é na outra ponta! Eu ia chegar lá. Eu ia chegar lá.
Ela: ele está olhando as minhas pernas por baixo da revista. Vou descruzar as pernas e cruzar de novo. Só para ele aprender.
Ele: ela descruzou e cruzou de novo! Ai meu Deus. Foi pra me matar. Ela sabe que eu estou olhando. Também, a revista está de cabeça pra baixo. E agora? Vou ter que dizer alguma coisa.
Ela: ele até que é simpático, coitado. Grisalho. Distinto. Vai dizer alguma coisa...
Ele: o que é que eu digo? Tenho que fazer alguma referência à revista virada. Não posso deixar que ela me considere um bobo. Não sou um adolescente. Finjo que examino a revista mais de perto, depois digo “Sabe que só agora me dei conta de que estava lendo essa revista de cabeça para baixo? Pensei que fosse em russo.” Aí ela ri e eu digo “E essa sua Cruzeiro? Tão antiga que deve estar impressa em pergaminho, é ou não é? Deve ter desenhos infantis do Millôr.” Aí riremos os dois, civilizadamente. Falaremos nas eleições e na vida em geral. Afinal, somos duas pessoas normais, reunidas por circunstância numa sala de espera. Conversaremos cordialmente. Aí eu dou um pulo e arranco toda a roupa dela.
Ela: ele vai falar ou não? É do tipo tímido. Vai dizer que tempo, né? A senhora não acha? É do tipo que pergunta “Senhora ou senhorita?” Até que seria diferente. Hoje em dia a maioria já entra rachando... Vamos variar de posição, boneca? Mas espere, nós ainda nem nos conhecemos, não fizemos amor em posição nenhuma! É que eu odeio as preliminares. Esse é diferente. Distinto. Respeitador.
Ele: digo o quê? Tem um assunto óbvio. Estamos os dois esperando a vez num dentista. Já temos alguma coisa em comum. Primeira consulta? Não, não. Sou cliente antiga. Estou no meio do tratamento. Canal? É. E o senhor? Fazendo meu check-up anual. Acho que estou com uma cárie aqui atrás. Quer ver? Com esta luz não sei se... Vamos para o meu apartamento. Lá a luz é melhor. Ou então ela diz pobrezinho, como você deve estar sofrendo. Vem aqui e encosta a cabecinha no meu ombro, vem. Eu dou um beijinho e passa. Olhe, acho que um beijo por fora não adianta. Está doendo muito. Quem sabe com a sua língua...
Ela: ele desistiu de falar. Gosto de homens tímidos. Maduros e tímidos. Ele está se abanando com a revista. Vai falar do tempo. Calor, né? Aí eu digo “É verão”. E ele: “É exatamente isso! Como você é perspicaz. Estou com vontade de sair daqui e tomar um chope”. “Nem me fale em chope.” “Você não gosta de chope?” “Não, é que qualquer coisa gelada me dói a obturação”. “Ah, então você está aqui para consultar o dentista, como eu. Que coincidência espantosa! Os dois estamos com calor e concordamos que a causa é o verão. Os dois temos o mesmo dentista. É o destino. Você é a mulher que eu esperava todos estes anos. Posso pedir sua mão em noivado?”
Ele: ela está chegando ao fim da revista. Já passou o crime do Sacopã, as fotos de discos voadores... Acabou! Olhou para mim. Tem que ser agora. Digo: “Você está aqui para limpeza de pernas? Digo, de dentes? Ou para algo mais profundo como uma paixão arrebatadora por pobre de mim?”
Ela: e se eu disser alguma coisa? Estou precisando de alguém estável na minha vida. Alguém grisalho. Esta pode ser a minha grande oportunidade. Se ele disser qualquer coisa, eu dou o bote. “Calor, né?” “Eu também te amo!”
Ele: melhor não dizer nada. Um mulherão desses. Quem sou eu? É muita perna pra mim. Se fosse uma só, mas duas! Esquece, rapaz. Pensa na tua cárie que é melhor. Claro que não faz mal dizer qualquer coisinha. Você vem sempre aqui? Gosta do Roberto Carlos? O que serão os buracos negros? Meu Deus, ela vai falar!
- O senhor podia...
- Não! Quero dizer, sim?
- Me alcançar outra revista?
- Ahn... Cigarra ou Revista da Semana?
- Cigarra.
- Aqui está.
- Obrigada.
Aí a enfermeira abre a porta e diz:
- O próximo.
E eles nunca mais se vêem.

Por Luís Fernando Veríssimo.
[Em: Comédias da Vida Privada]

Ps.: eu tinha que postar essa, achei linda! ><' Veríssimo rules!
Natália Albertini.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pulsos mordidos, olhos secos.

Vou me saturando de periferia, mas ainda me falta o centro, minhas bases, meus pilares (que agora mais me parecem de areia).
Á beira de outro colapso encontra-se meu meio, mas minhas extremidades parecem ainda vibrar com as amenidades que me alegram parcialmente, disfarçando o mar que por dentro se contém.
Por que a distância? A droga da distância...
Por que tudo isso voltando, surgindo, indo e voltando tão à tona?
Bem, acabei de massacrar ambos meus pulsos de tanto mordê-los, espero que sangrem bastante, que chorem no lugar de meus olhos, já tão cansados.
E até agora não consegui nomear isso que tô sentindo. Um sentimento de raiva misturado com...ai, não sei o que é! Droga.
Scheizer, scheizer, scheizer!
E juro que nessas horas me dá uma vontade enorme de explodir que nem a Fera faz, emitindo luzes dos pés e das mãos (?) até virar príncipe. Mas ai eu podia virar eu mesma, mesmo, só que sem toda essa reviravolta por dentro.
Puta inferninho isso, viu? Te contar...

Natália Albertini.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Entre e tome uma xícara de café, mas por favor não me pergunte da Deusa.

Abriu a janela e deixou os raios de sol inundarem o chão lígneo do cômodo. Apoiou-se no parapeito e aproveitou para fazer um attitude, acompanhando os últimos segundos da música clássica que ressoava por todo o seu quarto, proveniente das grandes caixas sonoras.
Depois disso deu uma pirueta e sentou-se graciosamente na cadeira de rodinhas, girando-a, ficando de frente para a tela do computador, de frente para a tela branca do Word que normalmente lhe parecia tão deprimente, já que as palavras demoravam-lhe a sair e os dedos pareciam tropeçar nas teclas.
Fazendo jus ao colã, à meia-calça e às sapatilhas que vestia, ajeitou-se numa posição quase que felina, aparentemente impossível para qualquer um que não fosse bailarino há tantos anos quanto ela. Tirou o elástico do cabelo e tornou a prendê-lo, melhor que anteriormente.
Começou a digitar, os dedos dançando, como ela o havia feito alguns momentos atrás, sobre o teclado, simplesmente fazendo jorrar na tela palavras que nem a mente dela tinham consciência, vinham direto do peito.
Pausou por um momento e pegou a caneca que jazia ao lado do monitor, cheia de veneno vicioso que ela costumava chamar de café. De qualquer jeito, servia para aquecer-lhe o corpo, espantar aquele frio de julho que a assolava assim que ficava imóvel por um ou dois segundos.
O telefone tocou. Deixou que gritasse por duas ou três vezes e então atendeu, despreocupada, colocando a caneca de volta na mesa:
- Alô?
- Oi, Lolô, é a Bi! - um sorriso do outro lado da linha acompanhava a voz tão familiar da amiga de faculdade.
- Oi, Bi - e retribuiu o sorriso vocal.
A conversa durou uns bons vinte minutos, quem sabe mais. Falaram sobre amenidades e sobre a próxima sexta-feira, afinal, eram universitárias, não podiam ficar em casa numa noite de sexta. Depois de tudo acertado, despediram-se:
- Então tá, a gente se vê amanhã.
- Nos vemos, sim.
- Ah, e...?
- Sim?
- Não esquece de levar as sapatilhas que deixei ai, por favor.
- Tudo bem - respondeu, lançando um olhar às sapatilhas pretas já embrulhadas num canto do aposento. Ela não se esqueceria de levar.
- Até amanhã.
- Até.
Clique.
Após terminar tudo o que tinha para escrever, sorveu os últimos goles de café enquanto esperava a impressora terminar de trabalhar. Assim que acabou, pegou as folhas, desligou o computador e passou ao cômodo ao lado.
Apesar das cortinas serem escuras e estarem fechadas, era possível enxergar claramente as poças escuras e já secas de sangue no chão de madeira clara. Colocou as sulfites digitadas sobre a cama de lençóis revirados e aproximou-se bastante do rosto ainda congelado numa expressão de agonia que quase lhe provocava piedade.
Enfiou a mão direita por debaixo do pescoço do rapaz que ali jazia e, pela nuca, levantou-lhe a cabeça, trazendo seu rosto ainda mais para perto. Olhou-o bem aos olhos e sorriu delicadamente.
Sem sair daquela posição, puxou as folhas com a mão livre e passou a ler algumas passagens pelo canto dos olhos, revezando o ato com algumas olhadelas para o recém-apresuntado. Depois de terminar a última página, deixou-lhe a cabeça cair ao chão novamente e, divertida, informou-lhe:
- É, eu sou mesmo uma boa escritora... Descrevi seus últimos minutos exatamente como foram. Não sou um orgulho mesmo? - e riu para si mesma, na cara do infeliz - Eu já te dou o funeral adequado, meu bem, espere só um instantinho.
Levantou-se e abriu uma gaveta do móvel também lígneo, tirando dali de dentro uma pasta comprida e avolumada de cor vemelha. Puxou um clips da pequena caixinha também dentro da gaveta e afixou as páginas que tinha em mãos na ordem correta. Abriu os elásticos da pasta e ajeitou suas palavras ali dentro, misturando-as com todas as outras.
- Ah, meus amores... - suspirou, olhando afetuosamente para a pasta enquanto a fechava.
Ali dentro guardava seus relatos de todos os seus "encaminhados", como ela os chamava. Guardou a pasta novamente e fechou a gaveta que ainda seria aberta incontáveis vezes.
Ajeitou o corpo que jazia ali e começou a puxá-lo pelas pernas para a porta dos fundos. Nem sentindo incômodo de puxar todo aquele peso graças a toda sua satisfação de estar mandando outro escolhido para o caminho correto, arrastou-lhe pela escadinha da varanda e ouviu sem se importar os baques surdos que a cabeça do defunto emitia ao bater contra os degraus. Arrastou-lhe ainda por quatro ou cinco metros até alcançar a margem do rio que passava aos fundos de sua casa.
Antes de jogá-lo ali, fez o que fazia com todos os seus bem-aventurados: ajoelhou-se, sem pensar que podia rasgar a meia-calça já manchada de visco rubro humano, fechou-lhe as pálpebras e beijou-lhe a testa, sorrindo:
- Vá, querido, vá e dê um alô à Deusa por mim assim que acabar a queda d'água. Diga-lhe que depois daqui a alguns anos, quando eu terminar essa minha missão, eu mesma a encontrarei.
Andou de gatinhas na grama e empurrou-lhe pelos ombros até ver a própria correnteza se resposabilizar pelo encaminhamento dele.
E ali, voltando para casa para limpar o chão e tomar um belo banho, entre piruetas e pulos balarinísticos, mal sabia ela que a algum tempo dali ela mesma seria encaminhada por outro fanático.
Até hoje os que por ali vivem sentem a presença da magia da tão oculta Deusa, mas se recusam a falar tanto sobre ela quanto o incrível caso de Lorena. Evitam o assunto assim como os adultos evitam a matéria "De-onde-vêm-os-bebês-papai-e-mamãe?" ou "Por-que-meus-amiguinhos-ficam-dizendo-que-Papai-Noel-não-existe?".

Natália Albertini.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Envelopes (muito bem) Selados

Debruçada nas costas inclinadas de um colega, tinha o pescoço esticado e a face virada para a esquerda, observando atentamente aquele que detinha então a atenção de (quase) todos os presentes. Na frente de uma multidão de sabe-se lá quantas cabeças sobre um minúsculo palco de menos de 5m de comprimento, o rapaz falava sobre os três anos passados juntos com todos os que estavam atrás dele e também à sua frente, os chamados mestres. Falava sobre as experiências boas e ruins, os abraços e beliscões, as gargalhadas e os muitos minutos de sono. Falava sobre como cada um daqueles tinha sua própria importância, formando um tudo excepcional.
Enquanto aquelas palavras povoavam o ambiente externo, a garota, numa posição desconfortável, deixou os olhos vagarem e ecoarem dentro dela milhões de outras reflexões, das quais muitas esqueceu-se logo depois, como sempre ocorre. Mas ainda se lembra que refletiu sobre o próprio garoto que tinha o microfone em mãos, sobre a garota dos cachinhos ao lado dele, sobre o menino de origem oriental que abraçava-o, sobre o outro rapaz que então passou a proferir da própria boca o sentimento dos outros, sobre a menina que havia cantado estonteantemente a momentos atrás, sobre o pequeno professor japonês de química que tinha os olhos marejados, sobre todos os outros professores que sorriam de orgulho e saudade precoce. Lembra-se que refletiu sobre ela mesmo. Lembra-se de ter refletido sobre tudo e todos, coletiva e individualmente.
E lembra-se de quase ter caído ali no meio. Toda aquela gente, apesar de muito querida, provocou nela uma sensação de calor desagradável. Mas não era só isso, toda aquela reflexão a fez sentir todo o medo novamente. O medo de não ver nenhuma daquelas faces outra vez na vida, o medo de esquecê-las, ainda que parcialmente. O medo simplesmente de não lembrar de todos eles todos os dias, como então o fazia. O medo deles não lembrarem dela, afinal, que tinha ela demais? O medo de esquecer muitas das lições aprendidas, não só no quesito educacional. O medo, aquele medo que numa trovejada transformou-se numa nostalgia precoce quase que arrebatadora, fisgando-lhe os joelhos e a fazendo quase cair. Todavia, não caiu.
Não, não caiu. A moça decidiu resistir. Sim, estava morrendo de medo e já sentia a garganta arder, premeditando o sofrimento que viria dali a um semestre, toda a nostalgia e a dor que sentiria ao deixar seus companheiros tão fundamentais, ainda que se fizessem promessas de saídas e passeios juntos, querendo esconder o que todos sabiam ser inevitável. Mas decidiu manter-se de pé. Não deixaria o medo detê-la, não o deixaria impedi-la de aproveitar o resto do ano. Ah, não, isso nunca.
Aproveitaria aquele ano como nunca aproveitara qualquer outro, principalmente dadas as tais circunstâncias. Aproveitaria todos sem arrependimentos, empanturraria-se deles até querer vomitá-los. Faria como que uma reserva de lembranças de todos eles, se lembraria de tirar inúmeras fotos e gravar muitos vídeos. Porque o que mais temia na vida era perder amizades tão importantes como aquelas. E faria de tudo para jamais ver aquele medo tornar-se real.
E quando todos se dispersaram, após ela ter abraçado o amigo que havia dançado um tango anteriormente, deu-se por conta que a fisgada que sentira a alguns instantes atrás não havia sido causada somente pelo medo e nostalgia antecipados, mas também por amor. Daqueles inexplicáveis e excessivos. Amor de amigo, de cartas e cartas escritas com canetas coloridas espalhadas na cama.

Natália Albertini.