terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Costas.

Seu próprio reflexo a encarava do espelho.
Os cabelos caíam mais de um lado.
Ele, com a cabeça abaixada, mordia de leve seu ombro, por detrás dela.
Os corpos pressionavam-se um contra o outro.
Uma das mãos dele apertou-lhe o seio esquerdo com enorme força, fazendo-a fechar os olhos com intensidade e arquear os lábios sobre os caninos.
Quando se recuperou da onda de calor e do arrepio, voltou a olhar para o espelho.
Encontrou os olhos esverdeados dele a fitá-la fixamente.
Tudo o que via no reflexo era seu corpo, até a faixa do umbigo, e, por trás de si, os olhos dele sobre seu ombro, seus braços que passavam por sua frente, beliscando uma ou outra parte de sua cintura, e suas pernas, por fora das suas próprias.
As batidas da bateria e as cordas gritantes de guitarra berravam nas caixas de som.
O quarto era envolvido em penumbra.
Ele ergueu o rosto e mostrou o maxilar bem aberto, de dentes bem formados.
Ela ergueu o cabelo, levou a mão esquerda dele a seu seio e o induziu a apertá-lo com ainda mais força, enquanto sentia as perfurações de seus caninos em seu ombro.
E o sangue a lhe escorrer pelas espáduas, quente e viscoso.
Ele lhe elogiou as costas.

Natália Albertini.

Verme.

O trem metálico deslizava pelos túneis escuros, silencioso.
Eu tinha a cabeça encostada no vidro, séria.
Um cheiro acre me chamou a atenção.
Farejei algo diferente, com certo nojo.
Não precisei correr os olhos pelo vagão, de cara o vi parado no meio do corredor, fixo.
Devia ter por volta de um metro e meio de altura.
Sua pele era translúcida, seus cabelos, pesados e negros, e os olhos verde-escuro, de pupilas dilatadas.
Tinha manchas vermelhas e arroxeadas na região dos cotovelos e da nuca.
Sua aparência era debilitada, doente, embora o sorriso contido não desgrudasse seus lábios desbotados.
Ele não me olhou diretamente, mas eu sabia que havia me visto e era isso que o fazia sorrir.
Endireitei o corpo e senti meus lábios arquearem-se sobre meus caninos em repulsa, despropositadamente.
Um demônio num corpo de um menino.
They were back in town.
Pensei que precisava avisar Andreas o mais rápido possível, mas isso foi só um vislumbre de pensamento, pois o cheiro daquele verme, súdito do verme-mor, me enojava de forma intensa e viscosa.
As portas se abriram e ele se foi.
Só então senti o arrepio desgrudar-se de minha pele e meus dentes serem cobertos pelos lábios não mais escancarados.
Vermes.
Ainda extermino todos eles.
E guardo os corpos como troféus.
Andreas vai gostar disso... É, ele vai.

Natália Albertini.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tsunami

Eu saía da água com o cabelo respingando em minha cintura e a pele úmida.
O Sol lambia a imensidão de areia da praia.
Eu andava de volta para a esteira e a canga. Eles quatro conversavam animados.
Um deles tinha o corpo quase tão úmido quanto eu. Ele se postava de pé, de costas pra mim, mexendo as mãos em seu jeito tão característico. Os ombros morenos e caninos me davam segurança. Eu podia imaginar-lhe os olhos castanho-escuro esquadrinhando os que sentavam-se na esteira, pensando mil coisas num milésimo de segundo.
O segundo enrolava-se numa toalha, com os olhos de fora, fazendo os outros três rirem profundamente. As pernas esticavam-se à areia.
O terceiro rapaz tinha os ombros avermelhados, provavelmente ardidos. Olhava de soslaio para o segundo, expressando toda e qualquer partícula de sentimento e reação às falas por meio de sobrancelhas arqueadas e repuxadas de pescoço.
Ela... Bom, ela tinha na perna um laço cor-de-rosa amarrado e, no braço esquerdo, uma imagem semelhante a de si mesma. No topo da cabeça de cabelos longos e pesadamente escuros, um par de óculos-de-sol. Com seus traços finos e marcados, observava o diálogo em silêncio.
Por fim cheguei ao ponto onde estavam e me cumprimentaram com sorrisos.
Uma grande tsunami atingiu-me pelas costas, me fazendo mergulhar num mar profundo.
Mesmo sem ar, eu conseguia enxergar a luz do sol brilhando sobre a água.
Eu afundava, contudo.
Afundava e afundava, sem conseguir nadar de volta à superfície.
Meus membros não me obedeciam.
A sensação era boa.
Me deixei afogar naquele mar de afeto.

Ps.: para os meus quatro. Obrigada pelo fim de semana.
Natália Albertini.