quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Não-dor.

"Nada se esquece tão depressa quanto a dor. No momento em que se vai, toda a agonia termina, e sua lembrança já não pode nos causar nenhuma perturbação. Então nós mesmos não podemos mais participar da ansiedade e angústia que antes havíamos concebido." - Adam Smith.

Ah, é mesmo?
Então o nome disso que sinto não é dor, senhor Smith.

Natália Albertini.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cortes abertos.

Por míseros instantes, poupei meus pés de outro pulo consecutivo.
Senti a música fazendo minhas veias vibrarem, insanamente alta.
Senti as pessoas de ambos os meus lados saltando e gritando, chicoteando suas cordas vocais.
Senti cabeças balançando e mãos aplaudindo.
Senti a energia do cantor épico se esparramar por toda aquela multidão.
Senti as teclas de seu piano me baterem, causando-me espamos. Dos bons.
Senti o chão da arquibancada tremer, senti meus pés procurando se acalmar, espantar o medo.
Senti as luzes me cortarem a pele.
Por míseros instantes, senti.
E então voltei a pular e gritar, ao ritmo da canção.

Ps.: Ai, meus novembros, hein? [; Dia 27/11 do ano passado e dia 21/11 desse ano, quem diria!
Natália Albertini.

Pulmões sonolentos.

A persiana branca abaixada.
Rasas partículas de ar entrando naquele quarto lilás.
Um caderno aberto sobre o criado-mudo, uma de suas páginas preguiçosamente tentando se virar.
Sobre a cama, lençóis amarrotados.
Um corpo jogado, embaraçado.
Pernas alongadas, um joelho à altura do peito, quadril desencaixado. Boxer branca e top vermelho. Braços entrelaçados e dedos emaranhados.
Cachos perdidos nas profundezas daquele travesseiro de fronha amarela.
Lábios relaxados, semi-abertos.
Cílios alongados, selando os olhos.
O peito secretamente levantando e afundando, roubando oxigênio para os pulmões sonolentos.
Um ser adormecido e cansado.
Minha não-rotina.

Natália Albertini.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pele sob unhas.

Tinha os cabelos avolumados e meio molhados de suor.
As pernas cruzavam-se, bem delineadas. Os pés encaixavam-se belamente nos altíssimos saltos. As unhas dos pés estavam pintadas de preto.
Os olhos estavam num tom de cobre, agora inertes, mas que demonstravam atividade recente.
A roupa bagunçada e meio suja mostrava sua não vontade de levantar-se e trocar-se.
Ela tinha o laptop no colo. Digitava aqui e ali. Clicava agora e então.
As unhas douradas e brilhosas moviam-se elegantemente pelas pequenas teclas.
Uma janela de mensagens instantâneas subiu ao canto inferior direito da tela.
Axl says:
Hey, baby, sup?
Jenny says:
Hey. Nthg much, there?
Axl says:
Nthg much, Thought we could hang out some time.
Jenny says:
Sure.
Axl says:
What bout now? R u busy?
Ela olhou para o relógio do computador: duas e meia da manhã.
Jenny says:
Well, no, but u c, it's almost three in the morning.
Axl says:
I know, but do u have anything better to do right now?
Jenny says:
Well, no...
Axl says:
So there you go, i'll get there in half an hour.
Jenny says:
Oh, well...ok...
Dois na mesma noite não seria nada mal.
Axl says:
Dress up that lace lingerie of urs you promised me.
Jenny says:
Ok.
Axl says:
And prepare your weapons, darling, i'll eat you alive tonight! lol
Jenny says:
Right backatcha.
Olhou para o lado e, na rara luminosidade da sala de estar, viu o corpo jogado, ensanguentado e aberto, devorado.
Lambeu os lábios, divertida com o gosto acre de visco ainda grudado em suas gengivas.
Sorriu de canto, fechou o laptop e advertiu a si mesma que, embora tivesse só meia hora, deveria deixar a casa o mais limpa possível.
O que mais a atraía era sujá-la inteirinha novamente.
Com sangue fresco.

Natália Albertini.

domingo, 7 de novembro de 2010

Caninos ruminantes.

Suas roupas estavam encardidas de vermelho, enquanto ele já nem mais as tinha.
Ele estava deitado no chão, preso em posição desconfortável, amarrado pelas mãos e pelos pés.
Ela percorria-lhe o corpo, faminta.
Enfiava a mão de unhas roídas pela boca dele para facilitar o ato de lhe arrancar outro pedaço de língua.
Sentava-se a seu lado como uma primata, mastigando aquele naco, satisfeita. Sentindo aquele gosto esponjoso esparramar-se por suas gengivas, emitindo o mesmo som de um leão que mastiga um veado.
Voltava a agachar-se sobre aquele corpo já tão mutilado, reabrindo os cortes e enfiando a língua nos músculos já devorados.
Seu pescoço, seus ombros, suas mãos e seus antebraços inteiros tinham aquele visco rubro escuro já seco. Ela por vezes lambia os próprios dedos.
Ele tinha os olhos fechados, em profunda agonia, e o corpo berrando em derme aberta
Ela já tinha ruminado boa parte de seu corpo e adorava sua expressão de sofrimento.
Tomava mais visco numa taça longa. O sangue passava, quente, por seu céu-da-boca e sua língua, morno, escorregando devagar por sua garganta, grosso.

Foi quando o ouviu balbuciar com a língua frouxa:
- Não se esques do - deu um tempo, tentando dominar o músculo falhado - mmmmmmeu coras...
Ela abriu um sorriso largo e felino, com os dentes sujos de pele e sangue.

Ps.: thks to Cannibal, from Kesha, of course! :D
Natália Albertini.

sábado, 6 de novembro de 2010

Constante Sorriso.

Ela prendeu os largos cabelos num coque, no topo da cabeça.
Vestiu os coturnos e amarrou-os.
Não seu olhou ao espelho.
O mundo a conheceria naquele dia.
E talvez depois não fosse o mesmo. Essa era a intenção.
Só abaixou a máscara de Fawkes sobre o rosto, abriu a porta e saiu recitando os versos daquele cinco de novembro.

Ps.: Dezembro já, já chega. Se estiverem sem ideias, aceito uma máscara do Fawkes como presente de bday! :D
Natália Albertini.

O Punhal.

Tenho levado meus dias em razoável bom humor. Sorrindo e cantarolando, por vezes.
Mas e aí que vejo um velhinho beirando os oitenta anos perto de mim, com o maxilar empurrado pra frente, os cabelos brancos, a pele enrugada e manchada, e a camisa listrada.
Que saudades que me dá...
Que vontade de despejar meus oceanos ali mesmo, sem esperar até chegar em casa.
Lembro de novo que sua casa está acenando pra mim.
Que a areia se esvai por entre meus dedos e eu não consigo segurá-la.
Essa dor excruciante em meu peito outra vez, me dando um alô, tão familiar.
Entrelaço os cílios before my glasses e esmigalho meu maxilar.
Espero até chegar em casa e aí desabo.
Que saudades que me dá...

Natália Albertini.

Cabelos brancos.

Eu lia um livro sobre a Starbucks para descobrir um pouco mais sobre sua estratégia. Lia sobre o Green Apron Book e já formulava mentalmente algumas frases que colocaria em meus slides mais tarde.
Ao mesmo tempo, eu mexia os lábios, acompanhando um bom Pink Floyd.
Foi quando um velhinho, aparentemente beirando os setenta anos, sentado no banco preferencial à minha frente, deu dois leves tapinhas amistosos em meu joelho.
Levantei os olhos a ele e tirei um dos fones.
- Desculpe te interromper, menina - disse ele - mas preciso te dizer algo.
A moça sentada a meu lado era sua acompanhante, talvez uma filha. Olhou-o com tanta curiosidade quanto eu.
- Sem problemas, senhor.
- Eu fico admirado - ele prosseguiu - em como você consegue ler e se concentrar tanto num livro dentro do metrô.
- Ah, é o hábito.
- Você vê, eu leio muito.
- Ele lê muito mesmo - acrescentou a moça - e ele lê aqueles livros desse tamanho - fazendo um gesto para indicar a grossura dos livros.
Eu sorri. Ele emendou:
- Pois é. Eu leio, mesmo. Mas não consigo ler assim, no metrô, no ônibus, no carro...
- Ah, mas antes eu também não conseguia, me sentia enjoada.
- Iiisso, a gente se sente assim, mesmo - os dois concordaram.
- Então, só que eu faço esse caminho de ida e volta todo dia, e dura tanto tempo que eu não gosto de simplesmente desperdiçar assim. Aí acabei me acostumando a ler, agora não sinto mais náuseas.
- Oh, que interessante... - ele disse - Talvez eu tente.
Retribuí-lhe com um largo sorriso.
- Bom, desculpe ter te atrapalhado! - ele disse, e os dois sorriram de volta.
- Ah, imagine!
Os três ficaram ali, amigavelmente sorrindo.
Logo eles dois voltaram a falar sobre algo que não me convinha, então coloquei de volta meu fone e voltei a ler.
Duas ou três estações depois, percebi que ela já havia descido e que ele se levantava para deixar o trem metálico.
Bateu suavemente em meu ombro e acenou:
- Tchau, mocinha!
- Tchau, senhor! Muito prazer!
Nós acenamos um para o outro e sorrimos.
Eu vi ele saindo e as portas se fechando.
Me vi sozinha.

Natália Albertini.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Bulletproof

We are told to remember the idea and not the man. But you cannot kiss an idea, cannot touch it or hold it.
Ideas do not bleed. They do not feel pain. They do not love.
And it's not an idea that I miss.
It is a man.

Remember, remember the fifth of november
The gunpowder treason and plot
I know of no reason why the gunpowder treason
Should ever be forgot.

Creedy: Why don't you die?!
V: Because behind this mask there's more than bones and muscles, Mr. Creedy. Behind this mask there's an idea. And ideas are bulletproof.

Ps.: sorry, but i have really no time to write something myself right now. I promise I'll do it asap, ok? I'm just running outta time to finish up some papers here. Mwack.
Pps.: hip hip Fawkes!
Natália Albertini.