quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Menina Moça

Dá um pause rapidinho na playlist ali do lado pra poder ouvir isso aqui junto, tá?
Se preferir, ouve antes prestando atenção e depois lê. Caso ainda não conheça a música, acho que isso é o melhor a fazer.

Móveis Coloniais de Acajú - Menina Moça
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Assim que sua companhia foi embora, outra pessoa se aproximou:
- Você já achou a saída?
- Ainda não, esse labirinto é impossível!
- É! Que ódio...
- Nossa, não fala isso... Ódio é um sentimento muito forte...
Percebeu que já tinham saído da sala de estar e estavam correndo pelo labirinto da fase final do Torneio Tribruxo. Enfim pararam, como se a tal competição tivesse acabado repentinamente e se sentaram novamente no sofá da sala de estar, que agora ficava debaixo duma macieira num pomar.
- Eu gosto de maçã.
- É...
- Nossa...valeu, hein?
- Que foi?
- Nada...
- Então tá.
- Nossa...
- O que foi?!
- Nada, não precisa se irritar.
- Você já me irritou! Agora vai dizer o que é ou não?!
- Por que você tá gritando comigo?
- Olha, teu ouvido deve ser supersônico, porque meu tom de voz é o mesmo desde o início do labirinto.
- Que labirinto?
- Uhn?
- Você acabou de falar que pra ser o tal, não é preciso ser você. E ai, não consigo entender porque você sempre fica brava comigo!
- Eu não estou brava, cara! Se eu fico quieta, acha ruim, se eu falo, acha ruim, não se decide não, é?
- Ai, tá vendo? Calma.
Pegou uma maçã da árvore e então prosseguiu:
- Homens...
- Mulheres... Vem cá. Como você tem coragem suficiente pra depilar a virilha?
- Quê?
- É, né, sabe que menina moça, eu não queria te dizer, mas me parecia, não querias compreender.
- É, vocês são uns idiotas. Realmente param pra pensar nisso... A gente simplesmente faz pra conseguir mais de vocês. A gente tá no topo da cadeia alimentar.
- Só queria te dizer...
- O quê?
- Que pra ser o tal, não é preciso ser bacana e sacal, não é preciso ser sacana e banal, não é preciso ser.
- Mas o difícil é entender...
- Que pra ser o tal, não é preciso ser você.
A voz dele começou a se parecer demais com a de André Gonzales e passou a se afastar.
De repente seu Mickey Mouse de pelúcia apareceu diante de seus olhos. Enfim levantou-se, colocou os pés no chão e foi abaixar o som que tocava Móveis Coloniais de Acaju.

Ps.: Menina Moça, por Móveis Coloniais de Acaju.
Natália Albertini.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Realmente ainda não me decidi entre esperar que você perceba e eu mesma tomar a atitude.
Acho que por enquanto a segunda opção é a mais atrativa.

Natália Albertini.

sábado, 11 de outubro de 2008

Bicho Papão

Reinaldo passou a mão esquerda pela coxa da esposa e pouco abaixo da virilha, apertou-a.
- Querido, espera eu colocar o Renato na cama, tá? - e beijou os lábios avantajados dele.
Assim que ele a puxou para o colo, lambendo-lhe a nuca, a criança com a cabeça pendurada no outro braço do sofá abriu os olhos sonolentos e pôde ver, antes dos adultos perceberam sua presença não mais dormente, os pais se amassando, enquanto que seu pai, seu maior herói, seu maior exemplo, sussurrou audivelmente para a mulher em seus braços que não mais parecia sua mãe de tão descabelada e descoberta:
- Eu vou te comer...
Renato postou-se de pé num pulo á frente dos dois agora de olhos esbugalhados como um adolescente pego em flagrante enquanto pratica seu primeiro furto. A mãe tentou algo:
- Neném, a mamãe e o pap...
Antes que pudesse terminar, a criança teve seus olhos marejados. Prendeu o maxilar e fechou as maozinhas como o faria um advogado orgulhoso que perde o melhor caso de sua vida. Fez um beicinho e então saiu correndo.
Os pais se olharam sem saber o que fazer. A mãe saiu do colo do marido num impulso e foi em direção ao quarto do filho, mas não sem antes arrumar o cabelo olhando-se no espelho da sala. Bateu duas vezes na porta e entrou. O que viu foi o filho de costas, com uma pequena mochila dos Power Rangers escancarada, bem como uma gaveta, de onde tirava algumas cuecas do Snoopy. Teria rido ao ver como ele se parecia com trinta anos, ainda que tivesse apenas seis naquele momento, mas a tensão era maior.
- Filho...
- Não quero saber, Estela, não quero saber! - não chamá-la de mãe finalmente a fez rir, quase gargalhar.
Ela se sentou ao pé da cama e o pegou no colo.
- Não quer saber do quê?
Ele se manteve frio, sem abraçá-la.
- De vocês dois! O papai simplesmente...
- Filho, as pessoas têm...
- Religião, eu sei! E ele simplesmente foi contra a nossa religião, mãe!
- Não é bem assim, Renatinho...
- É, sim, mãe!
- Mas Deus...
- Deus, mãe? Papai do Céu?
- É, não fala dele quando fala de religião?
- Ai, agora essa...
Ela quase riu, mas simplesmente esperou pela continuação dele.
- Mãe, tô falando da outra religião!
- Que religião?
- Eu vou é embora daqui! Vou morar com a vovó, ela, sim, sabe o que é o certo! E você vem comigo, por via das dúvidas! - e se pôs de pé novamente, voltando a arrumar suas coisas.
- Renato, do que você tá falando?
Ele finalmente expurgou as lágrimas e confessou:
- Sabe, mãe, nunca na minha vida - e realmente pareceu que tivesse mais de sessenta anos então - eu comi um pedaço de carne porque você e o papai me disseram que era errado. Vocês falam que nós somos ve...ve...
- Vegetarianos.
- Eu sei! Nós somos vegetarianos, mamãe! E aquele homem foi contra isso! Ele não é meu pai! Não quero nunca mais saber desse homem! E você tem que fugir! Foge, mamãe, foge! - então percebeu-se que a discussão tinha se transformado em gritos desesperados.
- Renato, por que ele iria me fazer mal?!
- Ele vai te comer, mamãe! Ele vai te comer!

Ps.: prometo que assim que possível, eu o revisarei, foi só pra não perder a idéia...tô com um tiquinho de pressa.
Natália Albertini.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Mãe, me deixa tirar uma foto?

- Natália, vem aqui falar tchau pra vó! - gritou minha mãe.
Com um impulso, fiz a cadeira girar sobre os próprios pés e me levantei, indo de encontro á minha avó, postada em frente à porta de meu quarto.
- Tchau, vó, parabéns de novo e boa viagem. Assim que chegar lá em Curitiba, liga pra avisar, tá bom?
- Tá bom. Obrigada por tudo. Fica bem ai. Acho que semana que vem a gente já tá de volta. Eu te amo.
A partir dai, tudo o que eu suponho ter sido palavras e gestos saíram em forma de silêncio e imagem de câmera desfocada.
Desde então meu chão tem relutado a voltar para sob meus pés.

Natália Albertini.