sexta-feira, 27 de março de 2009

Desequilíbrio.

Caminhava sem pressa, despreocupada, mas sem perder a postura. Segurava as duas alças da mochila preta de maneira frouxa. Tinha os olhos presos nos pés, vendo-os cruzar um na frente do outro.
Repentinamente levantou a cabeça, pois o cheiro familiarmente agradável da loja em frente chegara às suas narinas. Entretanto, neste ato, seu olhar também se levantou e acabou por deparar-se com uma figura surpreendente. A moça quase se desequilibrou, cruzando demais os pés, quando seus olhos bateram de frente com aquela figura de cabelos cor de ouro e meio despenteados, olhos fundos e claros, maxilar trincado, rosto quadrado de lábios e nariz finos, pele clara, mãos enfiadas nos bolsos dos jeans e ombros tão largos que faziam a camiseta azul escuro esticar. A figura a encarou, mas não de maneira tão profunda assim, já que passados dois ou três segundos ela percebeu que só estava olhando para um pôster de filme.
Abriu um pequeno sorriso, como que desprezando a si mesma pela imensa idiotisse. E pensar que por alguns segundos achou que aquele rapaz podia ser real. Até parece... Mas ainda assim, que susto aquele...

Ps.: um quinto de um daqueles já tava bom. x.x' Haha.
Natália Albertini.

segunda-feira, 16 de março de 2009

We're Going to Jackson.

Minhas mãos estavam apoiadas na mesa de madeira, e no meio delas estava posicionada um recipiente metálico coberto por um pano de prato branco de bordas vermelhas de crochê. Tinha as costas eretas e a cabeça direcionada para minha diagonal esquerda, pois essa era a direção dele.
A cozinha era simples, toda lígnea, mesclando tons claros e escuros, mas principalmente formada por antiguidades. O batente da porta também era daquele material, e era onde ele se apoiava, espiando o cômodo ao lado.
O rapaz se virou e num milésimo de segundo, estava passando por detrás de mim. Tentei reconfortá-lo:
- Você está mais aflito que eu!
Não obtive resposta verbal. Ao invés disso, ele me puxou pela mão, deixando na mesa a torta que eu tinha levado, e começou a me arrastar para o cômodo ao lado. Este, por sua vez, era também marcado por poucos móveis: apenas uma mesa e quatro cadeiras, todos também lígneos.
As três pessoas, duas mulheres e um homem, que estavam sentados, sorriram ao me ver, o que me tranquilizou. O homem voltou a tocar seu violão numa melodia que parecia distantemente familiar.
Meu menino me puxou até a escada, em cujo segundo degrau eu me sentei e esperei que ele me imitasse. Mas não o fez: pelo contrário, ele continuou subindo a escada. O olhei de soslaio, sem palavras, a que ele me respondeu:
- Desculpa, não posso ficar.
Ainda que a ausência dele me incomodasse, não pude tirar o sorriso do rosto. Voltei a olhar para aquela família, especialmente para aquele casal que ficava cada segundo mais idoso e familiar, me sentindo extremamente bem por ter sido bem aceita.
Olhando antentamente para aquele homem, percebi que ele se assemelhava incrivelmente com um velho amigo meu. Quase no fim de toda aquela onde de sensações, percebi que a melodia era sim boa e velha conhecida minha. Passei a ler os lábios de Johnny e June, cantarolando mentalmente com eles.

Meus dedos me trouxeram a sensação do algodão liso e úmido. Revirei os olhos e me virei, tirando dos ouvidos o fone e desligando o aparelho eletrônico que irradiava as letras J, A, C, K, S, O e N, bem como as que formavam Cash e Carter.
Depois disso, dormi só com o barulho do ventilador.

Natália Albertini.

domingo, 15 de março de 2009

Folhas de hortelã.

Tudo o que via era vinho escuro. As maozinhas seguravam com força aquele pano pesado em volta de seu corpo, deixando á mostra as oscilações que sua barriga fazia, descendo e subindo, puxando e expirando o ar. A cortina era bastante grossa e grande, mas não comprida o suficiente para lhe encobrir os bem lustrados e afivelados sapatinhos brancos de vinil.
A sala de estar tinha móveis aconchegantes e tapetes desenhados. Era um ambiente de cores quentes e escuro, mas bem iluminado por janelas que iam do teto ao chão em puro vidro.
- Que estranho, eu poderia jurar que vi uma pequena garotinha entrar aqui...
Um cheiro suave a familiar de hortelã chegou às pequenas narinas, ainda que por detrás daquele grosso brim cor de vinho, causando um pequeno surtos de risadas abafadas. Aquele odor sempre trazia à pequena criança uma sensação de bem estar e segurança. Mal sabia ela que se lembraria daquilo pelo resto de sua vida.
Á medida que percebia a presença daquela outra grande criança que brincava com ela cada vez mais próxima, Laura apertava mais e mais a cortina em volta de si, prendendo cada vez mais a respiração e as risadas.
Quando estava quase petrificada, uma mão de unhas bem feitas puxou o pano comprido, revelando o esconderijo daquela criaturinha.
Os olhos da mãe se encheram de encanto e brilho ao ver aquele cabelo quase branco todo bagunçado e grudado nas bochechas e testa da menina. O vestido vermelho estava torto, descobrindo-lhe o ombrinho esquerdo. As mãos apertavam a saias e as anáguas. Os pés estavam ambos virados para dentro. E o sorriso banguela no rosto da criança era infinitamente gratificante para aquela jovem mãe que logo tratou de meter as mãos pela pequena cintura de Laura e fazê-la cair ao chão de tanto rir de cócegas.
As duas passaram uma tarde ótima juntas, tomando chá e comendo bolachinhas doces preparadas juntas. A mãe de hortelã mantinha em mente o pensamento de que talvez aquela pequena criatura fosse a mais perfeita tradução de toda a sua felicidade. Já Laura pensava se o chá que tomavam tinha sido feito com fios de cabelo de sua mãe, porque cheirava tanto a hortelã...

Natália Albertini.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Last Tango In Paris.

As pernas cruzadas por debaixo da mesa continuavam inquietas ao som da melodia de fundo. Os dedos tamborilavam na superfície metalizada que apoiava uma taça ornamental de algum drinque vermelho, bem como o vestido. Este, decotado nas costas e amarrado no pescoço formando uma frente-única estonteante, realçava-lhe os ombros e braços finos e claros, como também seu pescoço comprido e charmoso que fazia um caminho bem delineado até traços angulosos de seu rosto feminino e misterioso. Seu cabelo estava preso num coque volumoso e escuro, de maneira a combinar com os olhos pintados e cheios de ondas revoltas.
Num ambiente escuro e marcado por colorações quentes, sua presença ainda assim se destacava. Por ter sido bem observada, uma mão mais forte e morena que a sua logo se estendeu para ela.
O pequeno e de bem selecionado público bar argentino logo se iluminou com todo o brilho daquele casal que se perdeu em ochos, ganchos e tango pelo resto daquela madrugada de outubro.

Natália Albertini.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Dor de ouvido.

Esse aqui, meus amores é um pedido de desculpas imeeeenso. Por favor, não fiquem chateados comigo, eu sei que lhes devo contos e mais contos, mas acontece que tô passando por uma fase bem estranha.
Essa semana principalmente tá bem complicada. Essas amígdalas não voltam pra onde deviam ficar nunca, que inferno! Fica incomodando, argh...
E de novo tenho percebido que quero cada vez mais ficar sozinha. Os assuntos dos outros não trato com desprezo, óbvio, mas simplesmente parece que não tenho mais aquela necessidade que tinha antes (ainda que pouca, comparada à de outras certas pessoas...) de saber deles. Sobre os meus assuntos? Eu os organizo numa conversa comigo mesma, e juro que todas as vezes que falei algo sobre mim mesma para terceiros nesta semana, foi por ter me obrigado, só para ver como sentia aquilo saindo. E o que senti? Exatamente nada. E essa necessidade de externar as coisas tem se perdido cada vez mais...
Eu só não quero me tornar mais uma Carrie (era só o que me faltava: menstruar na frente de todos...).
Meus tímpanos doem com os ecos de meus próprios canhões.


*Tinha se aguentado forte e inteira durante o dia todo. Cabeça erguida e braços abertos, apesar de não falar muito. Entretanto, depois de chegar em casa, passados alguns instantes, percebeu que estava escondida do mundo. Tirou do pescoço a lembrança da lua que a havia protegido durante o dia, colocou-a de lado e afogou-se no travesseiro, disparando um diálogo rápido, unilateral e encharcadamente salgado com ele.*

Natália Albertini.