domingo, 22 de maio de 2011

Reles Mortais.

Ele surgiu à sua frente, depois de um longo intervalo.
Ela abriu os olhos como um passarinho, mas sorriu como um felino. Previsões lógicas.
Ele ergueu a mão que segurava a grande faca.
Ela não fez objeções, pelo contrário, provocou, dizendo que estava enganado.
Ele negou debilmente com a cabeça.
Com a lâmina, recortou primeiro seus pés, depois subiu às pernas, descascando a pele delas, enquanto que na virilha fez cortes que deixavam as pernas quase que completamente soltas, como marionetes esquecidas, sem movimento.
Chorava de dor e, segundo ele, por ter tanta certeza do que fazia.
Ela ficava ali, parada, com um olhar que demonstrava falsa curiosidade, o que o impelia a continuar. E o sorriso que jamais desgrudava-se de seus lábios.
Ele fincou a faca no abdôme, vendo o sangue escorrer-lhe corpo abaixo, viscoso, abrindo o apetite dela, que começava a salivar, mas mantinha-se firme, distante.
Ele banhou-se no sangue até então obtido, lambuzando o pescoço, os cabelos claros, as sobrancelhas e até mesmo os olhos tinham um tom avermelhado da loucura.
Ela ainda postava-se na inércia, com a mesma expressão, embora por dentro o gosto daquele sangue antes tão familiar lhe voltasse à boca e fizesse cócegas em sua língua.
Ela aproximou-se, contendo-se ainda mais, pois então o cheiro do rubro empestava o ar.
Os olhos dele subiram aos dela, insanamente nostálgicos e suplicantes.
Ela colocou o pé em seu peito, empurrando-o para baixo, fazendo-o deitar.
Agachou-se e encarou-o.
Nenhuma palavra foi dita.
O orgulho a divertia profundamente, tinha vontade de rir escarnadamente ali mesmo, na frente daquele reles mortal, mas os bons modos não ensinaram-lhe aquilo. Era uma assassina, sim, uma canibal. Mas das boas, pois não comia corpos. Comia massas encefálicas e átrios e ventrículos.
Postava-se bem, enquanto ele ainda suplicava-lhe para ser engolido de maneira quase infantil.
Ela apenas sorria.
Confessou para o mais íntimo de si mesma, contudo, que a tentação de beber daquele sangue de novo, de sentir-lhe pastoso e grosso na boca, era gigante.

Natália Abertini.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Oceano.

A porta da pequena sala de aula estava fechada.
Eu estava sentada à mesa redonda, corrigindo textos, simultaneamente ouvindo os sussurros de meu iPod.
O frio me incomodava, como sempre faz. Eu tinha o torso envolto em três tipos de blusa.
Meu cabelo, num coque. Meus olhos, em delineador.
Foi então que a introdução de Elephant Gun me atingiu os ouvidos.
Vislumbrei o punhal à ponta da mesa.
Massacrei meu maxilar, fazendo ambas as fileiras de dentes entravarem uma batalha.
O punhal reluzia sob a lâmpada fosforescente.
Larguei a caneta e parei de escrever meu comentário sobre o texto de algum de meus alunos.
Um oceano inteiro se revirou dentro de mim, revolto por ser represado, tentando alcançar minha garganta.
Engoli-o, resistente.
Fechei as mãos em punhos e me concentrei no punhal à outra extremidade da mesa, enfrentando-o, bem como as águas que relutantemente tentavam me escalar até meus olhos.
Inspirei fundo. Foi meu erro. O ar inalado feez redemoinhos de água: enfraqueci.
Ainda ouvindo a Beirut, estiquei o corpo e peguei o punhal prateadamente onírico.
Risos de crianças correndo. Azulejos frios. Quintal vermelho. Tesoura escondida debaixo da cortina. Conversas de duas meninas numa madrugada na sala de estar, diante da TV, sobre colchões.
Sua casa.
Minha morte.
Minhas mãos, já acostumadas ao processo, fincaram o punhal ao centro de meu peito, revirando-o, cutucando o órgão vital e galopante que ali se encontrava, sob pele e ossos.
O sangue jorrou, quente. Escorreu por minha blusa branca, manchando-a instantânea e agressivamente.
Expirei o ar antes inalado, e então o oceano, sempre vitorioso, saltou-me pelos olhos.
Perdi-me em soluços bem engolidos, pois a prática constante me levou à perfeição, em olhos cansadamente encharcados e em pele ensanguentada.
Morri. Outra vez.
E vou continuar morrendo a cada sensação ou lembrança que me trouxer você ou sua casa de volta.

De sua neta,
Natália Albertini.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Encardidos.

Estava sentada num dos bancos azul-escuro do metrô.
Tinha sobre minhas pernas meu casaco e minha mochila. Eu partia para uma noite inescrupulosa.
O gigante metálico estava excessivamente povoado de corpos cansados naquele sábado à tarde.
À minha frente, uma mãe com roupas surradas e uma criança por volta dos quatro anos em seu colo, com as sobrancelhas envergadas.
O pequenino tinha a pele encardida. Às temporas, subiam-lhe manchas escuras, bem como às maozinhas, com as quais ele tanto esfregava os olhos.
Seus lábios incolores se retorciam para baixo, ameaçando o pranto. Ele esfregava, esfregava os olhos, e então esfregava mais um pouco, reclamando palavras soltas, das quais eu só consegui extrair "fome".
Ele estendia os bracinhos ao pescoço da mãe, por sua vez inerte, de olhos fixados no chão do trem.
Ela parecia cansada, exausta. Da vida.
Meus olhos encheram-se de água, como os da criança, e desviei-os, tentando prestar atenção a outros seres, mas tudo o que eu via era um velhinho com uma mala gigante às costas, tão incolor quanto a mãe e o filho, e uma outra senhora de bengala, da mesma cor encardida, que há meses não via água em abundância, com bochechas caídas, cansadas.
Por fim voltei aos olhos ao menino, que ainda choramingava e agora, por vezes, passava uma das maozinhas, enquanto a outra esfregava os olhos, na barriga, como que tentando acalmá-la.
Quando me dei por mim, eu quase derramava lágrimas, minhas sobrancelhas envergavam-se quase tanto quanto as dele, e eu contraía os lábios.
Tive um ímpeto gigante de levantar, pegá-lo, fazê-lo encaixar as perninhas magras a meu quadril, levá-lo até a lanchonete mais próxima e comprar algo que o satisfizesse, enquanto eu sorriria para ele e o afagaria os cabelos, ralos e sujos.
Contudo, quando o condutor anunciou a próxima estação, a mãe, que mais parecia uma rocha, cansada demais para se abalar com as lamúrias da criança, levantou-se e pôs-se para fora do metrô.
E eu fiquei ali, com aquela sensação de que algo havia sido arrancado de mim, rodeada por outras pessoas que talvez precisassem de mim.
Duas estações depois eu desci, e aí eu já tinha esquecido tudo o que havia passado, já me focava em mim mesma novamente. Voltando a ser a cidadã egocêntrica que o sistema me ordena ser.
Hipócritas, nós somos os encardidos.

Natália Albertini.

sábado, 7 de maio de 2011

Vitória Régia.

Um corpo flutuava sobre a quente e calma água.
Sob si, nascentes incansáveis e pedras dorminhocas.
Acima, um aveludado céu enegrecido, pontilhado de incontáveis estrelas long gone.
Não havia barulho que incomodasse o silêncio aquaticamente vítreo.
Seus cabelos a rodeavam como uma vitória régia. Seus cílios eram acariciados pelo veludo noturno, e seus olhos, pelas inacreditavelmente belas estrelas.
Com os ouvidos debaixo dágua, ouvia a própria respiração, calma.
O planeta girava, sereno, enquanto ela vagava pela superfície da água.
Continuou boiando por um tempo indeterminado.
O tempo já não mais existia, nem suas reflexões. Era só ela e o planeta. Ela fundia-se à natureza, sendo ela mesma a Mãe.
Viu-se, então, no fundo do lago, tocando as pedras, quentes pela água, sem esforço algum para manter-se submersa. Parecia pesada o suficiente para afundar.
Com olhos bem abertos, tão aquáticos quanto as próprias nascentes, olhou toda a imensidão ao redor de si, aquela vastidão infindável.
Ao olhar para cima, viu o corpo ainda boiando à superfície, embora com a face virada para baixo, encarando-a.
Os olhos corpóreos estavam arregalados, sem medo, contudo.
Ela sorriu ao corpo que a havia sido tão útil e se entregou completamente às profundezas, sendo dali levada, absorvida.
Toda azul e preto.
Toda veludo.

Natália Albertini.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Fúria.

Acendeu seu Zippo e pôs fogo na ponta daquele penúltimo Pall Mall.
O vento fazia a neve atirar-se ao chão rodopiando em volta daquele amontoado de casacos.
Tory estava ali, recostada à mureta, em jeans e coturnos, sob um imenso capuz que cobria seus cabelos e olhos quase tão escuros quanto a própria noite em volta de si.
Não fosse pela luminosidade do cigarro, seus contornos seriam imperceptíveis ali.
Deu uma tragada e ficou a apreciar o gosto, segurando o palito nos dedos magros, entre o indicador e o médio.
Tão silencioso quanto ela, ele surgiu à sua frente.
Ela não lhe ergueu os olhos, só terminou o cigarro e jogou o inaproveitável no chão, apagando-o com o solado do coturno.
Enfim se olharam.
Bruce lhe entregou um par de chaves. Suas peles não se tocaram.
Ele era mais alto, chegava a quase 1,90m. Vestia um enorme capuz também, mas seus olhos eram acinzentados, embora tão raivosos quanto os dela.
Manuseando o Zippo como de costume, deixou-o para trás e caminhou até a Ducatti.
Montou, ligou o motor e sentiu o doce ronronar.
Posicionou-se bem e pôs o capacete.
Acelerou agressivamente e ganhou a estrada, furiosa.

Ps.: oi?
Natália Albertini.

domingo, 1 de maio de 2011

Listras.

Uma longa fila esperava de pé no corredor do avião para o desembarque, preguiçosa.
De um dos lados da barreira de pessoas cansadas da viagem, uma moça, só, com pernas compridas e morenas, torneadas em shorts listrados e curtos, pés em chinelos, torso em camiseta lisa preta e olhos em delineador preto.
Do outro lado, um rapaz alto, de pernas em jeans, tórax em camiseta cinza, cabelos em tons louros e maxilar em barba rala. Ele, porém, não estava só. Sua namorada, presa num corpo insípido e quebradiço, sentava a uma das poltronas, insossa.
Por cima do corpo daquele peso morto, ele encarava a moça do outro lado da barreira, infiel em pensamento, com olhos duros.
Ela levantou os seus azuis aos verdes dele e sustentou o olhar, provocativa e orgulhosa.
Ele olhou bem para a moça escorregadia e sem vida abaixo e, sem titubear, passou por cima de suas pernas, empurrou as pessoas que formavam a fila e a barreira que o separava daquelas pernas escandalosas, causando certa balbúrdia.
Ela não pareceu surpresa, pois só jogou o celular que tinha em mãos num dos assentos, e o encarou até o último instante, até que seus lábios se encontraram.
Atracaram-se.
Ele a empurrou contra o assento do meio. Ela abriu as pernas e envolveu com elas o torso dele, enquanto as línguas se embaraçavam e as mãos vasculhavam os corpos.
Puxaram os cabelos, reviraram os olhos e arrancaram as roupas. Ali mesmo, aos olhos dos passageiros embasbacados, chocados, ultrajados.
A surpresa era tamanha que ninguém falava. O silêncio da aeronave já parada só era quebrado pelos gemidos e gritos débis e animais que eles soltavam.
A namorada era de tamanha indiferença que mal se levantou para olhar, parecia alheia, só continuou sentada, sem poder ver nada, já que corpos se interpunham no corredor.
Arranharam-se, morderam-se e lamberam-se. Os corpos se esquentavam e friccionavam em movimentos contínuos e irregulares. Ela gemia mais e ele arfava, e então eles...
- Pode passar, moço - uma mulher de meia idade lhe dirigiu a palavra, dando-lhe passagem, já que a fila andara.
Ele saiu do transe.
Estava ali, ao lado daquela namorada sem brilho, imóvel desde o início da briga de olhares. E ela ainda o encarava, tão firme quanto no começo. Sem, contudo, terem sequer se tocado.
Ele agradeceu a mulher, mas cedeu a passagem às pernas.
Ela sorriu de canto, orgulhosa, e depois de colocar o celular no bolso de trás, de forma rápida, mas visível somente a ele, fechou o zíper dos shorts. O sorriso não lhe desgrudou os lábios avermelhados.
Ela passou à sua frente e caminhou em direção à rampa de acesso ao aeroporto.
Logo atrás, ele olhou bem o quadril bem definido e as nádegas delineadas nos shorts justos, sentindo os arranhões lhe arderem nas costas.
Sorriu sem discrições, sem ao menos saber o nome de sua infidelidade.

Ps.: de volta e inspirada!
Natália Albertini.