sábado, 29 de maio de 2010

Relâmpago.

Sentado num dos assentos verdes-água, esperava o metrô chegar, com a mochila sobre suas pernas.
Estava cabisbaixo, labialmente acompanhando os instrumentos naquela sinfonia Tchaikovskyniana.
De soslaio viu uma máscara de Guy Fawkes ao pé do banco.
Seus olhos se iluminaram.
Sua coluna endiretou-se.
Suas mãos se apertaram.
E ali, secreta e silenciosamente, um ideal revolucionário trovejou por seu meio-sorriso.

Ps.: não adianta, eu não canso de me inspirar vendo V.
Natália Albertini.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Sentiram

E atrás de todas as barracas, atrás da fogueira e até mesmo dos troncos, atrás das toalhas estendidas, atrás de todo o bosque, ali, escondidos, compartilharam o mesmo prazer.
Sentiram a grama úmida sob os pés descalços, as gotas de orvalho pingando das folhas acima em suas nucas, as sombras noturnas rodeando-os.
Sentiram.
O vento acariciava-lhes as cinturas.

Natália Albertini.

domingo, 23 de maio de 2010

Ainda quente.

Enfurecida, desafiou-o com os olhos.
Avançou e estendeu uma das mãos até o ombro dele.
Dali, suas unhas acharam por si mesmas o caminho até o pescoço pesado e latente.
Fincaram-se na pele quente.
Pressionaram-a, sentido o sangue grosso trafegando.
Sorriu para a expressão de desespero naquela face semi-viva.
Apertou mais e mais as unhas, sentindo o sangue arremessar-se contra a parede da jugular.
Por fim as unhas penetraram o delgado pescoço e o visco saltou para fora, num jato. Escorrendo pela pele e pelos ombros e tórax desnudos.
O líquido quente e maciço escorregava pela pele daquele ser.
Ela abriu o maxilar e fincou-o na origem de tanto alimento, sugando-o. Sentindo a vida dele esvair-se junto com o rubro-negro.
Passaria a noite toda lambendo, sugando e abocanhando aquele corpo sem vida, embora ainda quente.

Natália Albertini.

I'm leaving now.

Parei na soleira da porta.
Os pés reclamando dos bicos do par de sapato, as panturrilhas, do salto alto.
As mãos nos confortáveis bolsos da saia, escondendo a pulseira e o anel.
O cabelo preso no alto da cabeça, de forma despreocupada.
Os olhos azuis delineados por um preto intenso.
Esperei que ele me olhasse.
Seus olhos, como que de maneira ensaiada, quem sabe até mesmo proposital, pararam nos meus.
Por milésimos de segundos todos os nossos bons momentos compartilhados pasaram por minha mente.
Sem sorrir, desenhei com meus lábios: "estou indo embora".
Ele entendeu somente um dos dois sentidos possíveis.
Permaneceu sentado, me encarando como se tudo estivesse em seus conformes.
Não levantou para me abraçar dignamente. Dali mesmo, de longe, mandou-me um simples e comum beijo. Inespecial.
Permaneci mais alguns instantes parada, deixando que minha mente absorvesse tudo o que meu corpo absorvera em centésimos de segundos.
Estou indo embora...
Acho que demorei até demais, pois ele, pra mim, já fora há tempos.
Algum dia cheguei a vislumbrar que éramos amigos de verdade e de longa duração.
Enganei-me.
Profundamente.
Talvez algum dia volte a vê-lo. Mas tenho quase certeza que não será por livre e espontânea vontade.
Minha mente então assimilou que sim, eu estava conscientemente desviando meus caminhos dos seus. Assimilou a razão. Assimilou a emoção anulada.
Assimilou que algum dia já desejei todo o bem do mundo para ele. Assimilou que eu jamais o desejaria o mal. Assimilou que, mesmo ninguém compreendendo, eu aceitava as atitudes dele, embora não as apoiasse. Assimilou que eu estava indo embora.
Assimilou.
Parti, enfim.
De olhos escuros e sem um último abraço.

Natália Albertini.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mood swinger.

Tiring and rainy morning in this Wednesday.
All I wanted was my pillow and my blanket. Not necessarily to sleep, but to put my head in its right place. Just to show my heart who's the boss.
Usual and small arguments with my mom and sis.
Unusually (or even better... IMPOSSIBLY), a student asked me out. Really weird situation.
Had dinner.
Analyzed, sociologically, the brazilian soap opera. But had to stop it.
Too many feelings here inside.
Cannot translate. Not even hear what they're screaming for.
I mean... I don't want to...
And in these past days, the definition that doesn't leave my mind, that best describes me, is professional mood swinger.
Think I finnaly know what I am: a constantly indefinited creature.
Anyway...

Ps.: why don't we just die?
Natália Albertini.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Jeans underneath my nails.

Escorou-se na parede, com a mochila nas costas, as mãos penduradas nas alças. Esperava o ônibus.
Afundou o queixo no cachecol que lhe envolvia o pescoço, antes da gola rolê; e as mãos, nos bolsos dos jeans.
O vento acariciava-lhe o rosto e dedilhava seus cabelos.
A dor nas costas e as pálpebras pesadas, bem como os cílios entrelaçantes, já faziam parte de seu cotidiano.
Pensava nos afazeres do dia quando decidiu parar.
Parou.
Puxou o freio de mão e rodou a chave.
Amarelo claro.
Sensações puras.
Sentiu o jeans nos extremos de seus dedos, sentiu a lã do cachecol sob sua mandíbula, sentiu o gosto reminiscente de café e pasta de dente que se recusava a largar sua língua e gengivas, uns míseros fios de cabelo chicoteando delicadamente seu nariz.
Deu-se por conta que sua vida jamais fora tão maluca.
E ao mesmo tempo, deu-se por conta que já estava cansada da maluquice, pois já virara rotina.
Fechou os olhos por alguns instantes e mentalmente afixou um post it na parte interna de suas pálpebras, completando a lista de afazeres de 2010: "APRENDER A VIVER ROTINEIRAMENTE, COMO UMA PESSOA NORMAL".
Abriu os olhos, voltou à órbita terrestre, e viu seu ônibus avançando no sinal, sem sequer arriscar esperar por aquela pessoa tão cansada.
Perdeu o ônibus.
Perdeu a hora.
Perdeu a paciência.
Perdeu as reflexões.
Perdeu a sensação táctil tão aguçada.
Perdeu-se.

Ps.: e estou me perdendo tão facilmente esses dias...
Natália Albertini.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Venosa Verinha vazia.

Trabalhava arduamente, mas sem perder a graciosidade e os lábios retorcidos que formavam a caricatura de um sorriso.
Cortava aqui e retalhava ali. Amortecia a carne do animal já abatido com as próprias mãos e, por vezes, com um martelo de cozinha.
Separou a cabeça num largo vidro cheio de formol sobre uma prateleira, ao lado de outros de conteúdo semelhante.
Passou a trabalhar somente no corpo do bicho, tirando-lhe os órgãos com dedicação.
Como de costume, cheirou o cadáver de perto, fechando os olhos. Amarelo claro.
Enfim começou a drenar-lhe o sangue que ainda relutava em sair, grudado nas veias e artérias, também armazenando-os em recipientes etiquetados.

Três ou quatro horas mais tarde, recebeu a prazerosa visita de uma dama mui amiga sua. Conversaram sobre política, jardinagem, saúde e, por fim, durante o jogo de cartas acompanhado de um pedaço de torta, sobre culinária:
- Essa torta é mesmo um esplendor - ela disse.
- Ora, eu agradeço!
Após uma breve pausa, retomaram o que falavam antes. Ela içou:
- E cá digo-lhe a verdade: nada tiramos dos outros além do pior que elas têm a oferecer.
- pois sou da mesmíssima opinião. Entretanto, é um fenômeno imutável.
- Ah, sim?
- Ora, claro! Já que nós aceitamos de bom grado, a oferta continua a mesma.
- Sim... Faz sentido - Ela olhou seu leque de cartas e mastigou mais um pedaço de torta.
Retomou:
- Deliciosa torta! Não me canso de congratular-te. Não posso acredeitar que este seja o seu pior.
- Ao menos, não o meu - sorriu e sutilmente olhou para o vidro etiquetado "venoso" na prateleira ao longe. - E nossa cara senhorita Verinha, como anda?
- Disso já não sei. Só que não aparece em casa de seu pai há alguns dias.
- Qual! - fingiu espanto - Curioso, não?

O vidro vazio.

Natália Albertini.

domingo, 2 de maio de 2010

Cheiro de Nivea.

Chegamos à casa de sua irmã. Cumprimentamos os que vieram nos receber.
Alcançamos a cozinha e lá estava ela.
Cumprimentou meu pai, teu filho, minha mãe, tua nora, minha irmã, tua neta, e por fim a mim, tua.
Tive que me abaixar um pouco, pois de repente pareci muito alta.
Ao abraçá-la, meu Deus...
Ela tem teus ossos pesados, teus ombros, teus braços, tuas pernas marcadas.
E acho que o pior de tudo é que ela tem o teu cheiro, vó.
Fui obrigada a me afastar das pessoas por uns vinte segundos. Meus olhos estavam marejados, minhas mãos desesperadas para tocar as tuas.
Tentei não estabelecer contato, até mesmo visual, com ela.
Foi simplesmente doloroso demais.
É...
Aquele domingo foi completamente violento para mim. Me desmoronou.

Natália Albertini.