terça-feira, 26 de outubro de 2010

BIC

O computador ligado, quinhentas páginas de internet abertas em diferentes sites relacionados a diferentes assuntos.
Livros da biblioteca e comprados abertos sobre a mesa.
Papéis espalhados.
Caneta azul imprimindo letras gordinhas no caderno.
Cachos em reviravoltas e óculos no topo da cabeça.
Meia-noite e meia.

Ps.: ebaaa, adoro acordar com olheiras! *-* E isso não é ironia!
Natália Albertini.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Azulejos.

A rasa luz prateada da meia-noite lambia os azulejos da cozinha.
Ela tinha os olhos injetados, vermelhos, os cabelos revirados e os dedos tamborilando a mesa.
Levantou de súbito e abriu a primeira gaveta do balcão de forma violenta e descuidada, fazendo todos os talheres e a própria gaveta caírem ao chão, embaralhados.
Com mãos trêmulas, ela achou a maior e mais afiada das facas.
Com as costas na parede, sem parar pra repensar sobre aquilo, ela levou a lâmina à altura do queixo e, sem conseguir fechar os olhos, rasgou o pescoço da esquerda à direita num movimento brusco só.
Os membros enfraqueceram, o corpo tremeu convulsivamente até cair sentado desconfortavelmente no chão branco, agora tingido com aquele visco rubro-negro.
O luar dava um brilho poético e apetitoso para a cena suicida.

Ps.: dica de música pra acompanhar esse texto: Internal Primates Forever, do Mudvayne.
Ps2.: cansei de brincar de amigdalite, comofäs//
Natália Albertini.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Marshmallow.

Eu aqui, sentada nessa cadeira de rodinhas, digitando nesse laptop sobre essa mesa improvisada nesse meu quarto lilás.
Esse meu iTunes seleciona Sparks, desse meu Coldplay tão conhecido.
Sou arremessada de volta ao ano passado, nesse mesmo período de outubro, quando me preocupava tanto com vestibulares e provas por vir.
E eu achava que aquela era uma das épocas mais difíceis da minha vida...
Esse cheiro de marshmallow e essa maciez do meu travesseiro invadem meus dois sentidos favoritos.

Ps.: "every step that you take could be your biggest mistake (...) that's the risk that you take".
Natália Albertini.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tato.

Eu ia fazer um texto poético e narrativo, ia me descrever sentada naquela sala de estar tão espaçosa, descalça, sentindo a textura do sofá florido sob meus pés e a cortina batendo bem de leve em minha nuca.
Só que ai eu lembrei que a TV não está mais lá, e foi aí que as lágrimas começaram a saltar de meus olhos mais uma vez.
Sabe, eu suprimo essa dor todo dia, a cada olhar não lacrimenjante e a cada sorriso que forjo. A cada "sim" que respondo pra cada "tudo bem?" que me perguntam.
Mas tem dias que não consigo simplesmente engolir, tenho que vomitar de novo essas vísceras já, infelizmente, familiares.
A chuva que cai agora é fina e incisiva. Tenho vontade de sair no seu quintal e sentir essa água me lavar, queria ter a fé da Evey, queria acreditar que você, vô, pode estar na chuva. Assim, nos tocaríamos mais uma vez.
Fui à sua casa domingo.
Quando chegamos, meu pai foi ao banheiro e me deixou sozinha naquela imensidão da sua casa.
Meus dedos, por vontade própria, foram dedilhando os objetos de que se aproximavam.
Minhas pernas me levaram de cômodo em cômodo, meus olhos me encheram a mente de boas recordações, embora profundamente dolorosas. E o cômodo que mais me prendeu foi o seu quarto. Sem você.
Desculpe, vô, eu não consegui entrar lá. Me desculpe...
Eu sei que me contradigo ao colocar seu nome em meus vocativos, pois você sabe o quão não-espiritualista eu sou, me contradigo ao usar uma conjunção adversativa pra começar um parágrafo, mas, desculpe-me, esse texto não é pra ter um começo e um fim. Até porque não vejo como pôr fim a essa minha dor.
E sabe o que mais me doeu muito no domingo?
Antes de sair de sua casa, vi meu pai parado na soleira da porta do quarto do pai dele, exatamente como eu o fiz, exata e igualmente paralisado pela dor de não te ver ali. E eu não pude abraçá-lo. É, covarde que sou, simplesmente me afastei e disse "vamos".
Meus tios já falam de chamar algum corretor de imóveis para avaliar a casa, a família inteira se mobiliza para tirar móveis antigos, dividir bens etc. Mas eu não quero isso. Eu quero sua casa lá, com tudo lá, com minha memória lá. Com você.
As sensações tácteis que me sobram de você me provocam dia após dia, sinto sua unha quebrada sob meu polegar, sua casquinha de pele sob meu indicador, no hospital. Seu cabelo grisalho entre meus dedos. Sua pele enrugada, suas manchas, seu nariz, seus grossos óculos, seus olhos.
Elas só são substituídas por minhas próprias unhas dilacerando minhas próprias costas. E aí vejo esse sangue sob minhas unhas e só consigo pensar que é, em parte, seu sangue também.
Agora tomo um bom gole de lágrimas para settle down tudo isso.
E, de novo, mentir para meus alunos, dizendo que estou bem, sorrindo para suas gracinhas e fingindo que, nesse instante, eles são minha maior preocupação.
Saudades infindáveis.

Natália Albertini.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Poliglota

Os cabelos lhe caíam ao rosto, desembaraçados e insistentes.
A coluna não tinha boa postura: se inclinava para que as mãos pudessem trabalhar melhor.
Concentrava-se de forma pesada na foto que começava a aparecer no papel gelatinado imerso na bacia de revelador.
O cronômetro batia os primeiros dez segundos da leve agitação que ainda devia ser levada até um minuto e vinte a mais.
Ela tinha o corpo envolto pelo ambiente rasamente iluminado por alguns spots de luz vermelha.
Sentiu, então, outro corpo pressionar-lhe contra a bancada. Outro pescoço pressionar-lhe o seu.
Ele inalou o ar com força, enquanto ela arfou.
Ambos sorriram.
As mãos dele eram voluptuosas e rápidas. Acharam logo o caminho de sua cintura e, então, por dentro de suas pernas, beliscando-as bruscamente.
Ela jogou um dos braços para trás e puxou-lhe com força os cabelos da nuca.
Antes do cronômetro alcançar os nove minutos, os corpos já se enroscavam felinamente, rasos, vermelhos. Madrugada a dentro.


Muitas vezes depois de reiniciado o cronômetro, a vermelhidão luminosa parecia nascer das paredes, brotar do chão.
Contudo, seu aspecto não era lá muito imaterial. Era, au reverse, viscoso, de dar água na boca.
O corpo dela fora varrido dali, mas, como recordação, ele deixou, boiando junto ao papel encharcado de química, a língua dela.

Ps.: sorry pela ausência, mas semana corrida, finally! *-*
Natália Albertini.