quinta-feira, 29 de maio de 2014

Smile, Sunshine.

Haviam duas camas, mas eles se espremiam numa só.
A noite tinha sido turbulenta, mas o Sol os poupou, invadindo o quarto pela sacada com uma luz mais fraca que o habitual.
Ela abriu os olhos de leve e checou seu travesseiro: um braço forte, tatuado e muito aconchegante.
Ela se empurrou um pouco pra trás, se encaixando melhor no corpo atrás do seu, que reagiu abraçando-a mais forte.
Era um corpo grande, quente, e tinha um cheiro que ela reconhecia de muito longe.
Aos poucos, ele também despertou.
Apertou-a nos braços e beijou-lhe a nuca, enroscando suas pernas na dela.
Sua mão, pesada, se precipitou por dentro da blusa dela, a única peça que aquele corpo menos quente vestia, acariciando suas costelas e peitos. Depois, desceu novamente, encontrando seu umbigo e, então, o quadril exposto e branco.
E então, sim, um pouco mais pra baixo e...
Ela se contorceu e gemeu baixo, abrindo o primeiro sorriso da manhã.
Foi então sua vez de usar as mãos e fazê-lo sorrir.
Por debaixo do cobertor azul, as mãos traçavam caminhos obscenos, cor de vinho.
Ainda de costas, ela sentiu a animação dele crescer, engrossar.
O sorriso se alargou. O de ambos.
A cama cuspiu duas camisetas, e depois uma bermuda.
O cobertor, contudo, ficou. Por cima, assim como ele.
E o Sol brilhou mais forte.

Natália Albertini.

Marshmallow

O dia era bastante frio pra uma manhã de maio.
Uma chuva fina e insistente batia nos vidros do carro, como se um domingo já não fosse tedioso por si só.
Todavia, aquela domingo não ia tão monótono assim...
Ele dirigia e defendia suas opiniões com afinco dentro daquele casaco grande de náilon.
Seu tom de voz era amadeirado, melodioso aos ouvidos dela, que prestava bastante atenção no que ele dizia.
Prestava mais atenção, com tudo, no jeito como ele falava. E em como ele ficava bem de barba.
Não conseguiu se conter e, por algumas vezes, arrumou um ou outro fio que destoava. Debaixo do queixo dele, ou mais perto da orelha, quase à altura dos óculos, onde aquela barba densa se juntava com o cabelo que ele agora tanto aprovava. Barba e cabelo, ambos do mesmo tom, mas os olhos... Ah, os olhos, não... Estes tinham uma cor ainda mais doce, quase caramelo. E ela realmente gostava de como esse caramelo escorria por sua pele quando ele a encarava.
Ela sorria bastante e concordava com quase tudo que ele dizia.
Por um momento, e ela sinceramente esperava que ele não a julgasse por isso, ela divagou, se distanciando do que ele falava. Sua mente alcançou outras plataformas...
Era realmente uma atmosfera muito boa que havia dentro daquele carro, protegidos da chuva e do frio.
Ele já havia alcançado a quarta marcha, e não tinha colocado a mão na perna dela.
Pensou em como arrepios vinham à tona quando ele a tocava, ou apenas a encarava, e em como estavam numa fase boa. E pensou, abrindo ainda mais o sorriso, que tudo isso era ainda melhor porque eles não precisavam delimitar ou (ainda melhor) explicar o que estavam sentindo, até porque não era nada violento ou arrebatador. Era só... Uma sensação muito boa mesmo, easygoing. Como a sensação das ondas que chegam mansas, quase no fim, e batem nos pés que descansam sobre a areia morna.
O carro encostou. Ela voltou a mente a ele, que agora sorria.
Ela sorriu de volta e agradeceu. Esperava que ele entendesse que não só pela carona, mas pela parceria recém criada. Pela areia e pelas ondas quentes.
Ela o beijou de leve e virou o corpo pra sair do carro, ao que os dedos dele fizeram um círculo no ombro esquerdo dela.
Ela se voltou novamente pra ele e, ali, frente a frente, percebeu que ele provavelmente compartilhava da mesma sensação marshmallow que ela.
Sorriu mais uma vez e o beijou com mais afeto.
Um até breve foi dito, e ambos tomaram seus caminhos de volta com um sorriso no rosto.

P.s.: ah, ela sabe que ele ficou olhando ela ir por uns dois ou três segundos antes de engatar a primeira marcha e sair de novo. E, com isso, entrou na estação de metrô tentando conter um sorriso.

Natália Albertini.

domingo, 18 de maio de 2014

Madeira.

Ele parou, de joelhos, por cima dela, com o tronco erguido.
O pescoço e os ombros eram como rocha esculpida. Amadeirados.
O peito largo e questionador arfava.
Seu rosto ia limpo, com sentimentos distintos e indefiníveis à mostra.
Naqueles míseros segundos, o quarto silenciou.

A penumbra encobria os móveis, mas havia certa luz argêntea.
As paredes tinham a tinta cinzenta descascada, a cama, os lençóis revirados, e o chão, as roupas.

Ele inspirou profundamente outra vez, olhando aquela criatura debaixo de si, com os cabelos estendidos e a pele em chamas.
Os olhos vermelhos dela não se desgrudavam dele em nenhum momento. Dos seus cílios, do seu maxilar e dos seus braços.
Os sete segundos passados foram o suficiente para ele registrar aquela cena quase notívaga.
E então, ele avançou.

Enquanto ele lhe rasgava o pescoço e o baixo ventre, fazendo jorrar o visco rubro, num completo frenesi, afogando-a com aquele cheiro sobrehumano e hipnótico, a cabeça dela pendia solta para fora da cama, o cabelo encostando no chão.
Ela via a lua cheia de si, sorrindo pra ela, iluminando a sacada aberta, os livros, e toda a cidade. Todos de ponta-cabeça.
E se São Paulo toda olhasse para aquela sacada aberta durante aquelas horas todas, teriam visto o fogo engolindo as paredes.