domingo, 27 de outubro de 2013

Cinzenta.

Silêncio.
Céu cinza.
Um silêncio arrebatador, calmo, que nascia e fluia naquela massa densa de água salgada.
Eu estava boiando, com as orelhas abaixo d'água, o corpo leve, a mente vazia.
Completamente vazia.
Um estalo ou outro debaixo daquela imensidão marítima, mas, no geral, um silêncio verde escuro, pesado.
Ondas levantavam mais ao longe, e eu conseguia ouvir seu movimento por debaixo d'água, mas num volume baixo, o silêncio ainda me preenchia muito.
Reviravoltas aconteciam longe de mim.
Crianças brincavam na praia, outras pessoas nadavam mais ao raso, e tsunamis se erguiam no meio do oceano.
Gotas geladas e finas caíam do céu e me tocavam a testa e o nariz, ainda pra fora da massa salgada e líquida.
Eu me fechava no meu próprio universo.
Me sentia preenchida pelo vazio, cada vez mais. E cada vez mais impelida a fazê-lo.
Algumas algas me tocavam os pés, e alguns peixes, as mãos, mas eu continuava intacta, boiando, sem coragem ou covardia de me mover.
Meu corpo se movia com o ir e vim suave e doce do mar.
A chuva começou a cair mais grossa e rápida, e o céu trovejou.
Um som, ao longe, de pessoas se recolhendo na praia.
Areia pisada e cadeiras molhadas.
Não, chuva, nem de você eu quero saber.

Afundei.
Me deixei afundar, mas de olhos fechados, presa em mim mesma, permitindo apenas ao silêncio e à água gelada me abraçarem, me fazendo afundar cada vez mais, sem nunca tocar o solo.
Escuro.
Silêncio.

Natália Albertini.