sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Meus amores, este é um post de despedida para 2008.
Espero que todos vocês tenham um ótimo final de ano, bem como suas famílias.
Desejo-lhes tudo de bom nesse mundo.
Estou indo viajar hoje e não sei quando volto.
Espero que, assim que voltar, traga comigo muitas idéias, sinceramente.
Só pra vocês se manterem informados, estou lendo Crepúsculo, em seguida lerei The Woman in White, e, se possível, terminarei Alice Através dos Espelhos.
Exceto o segundo, os livros são ótimas indicações. Não indico aquele porque ainda não o li. Depois dou-lhes um parecer.
Enfim, ótimo 2009 para todos!
Muitos beijos.

Natália Albertini.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Vício.

Dimitra escorou-se na parede ao sentir o cheiro da pólvora do .38 na cintura do policial gordo que dirigia a viatura a 660m dali. Suas pupilas se estreitaram felinamente e, de maneira súbita, se dilataram.
Ao constatar-se fora de pergio, adentrou o beco e abriu a porta cinza pela qual teve de passar abaixada. Desceu a escada de ferro e enfim pisou em chão firme. Seguiu pelo aposento frio e abandonado sendo guiada por seu faro e seu tato, deixando a visão descansar um pouco.
Alcançou o cômodo terminal e bateu três vezes na porta vermelha. Um segurança de mais de dois metros de altura a abriu e revistou a loira por completo.
- Tudo limpo, senhor.
- Bom. Venha aqui, gracinha.
Dimitra aproximou-se do homem sombrio sentado na cadeira semelhante a um trono e, segura, bravou:
- Eu quero o que te pedi.
- Ah, é? Então você tem que pegar.
- Está bem. Onde está?
- Adivinha - sorriu como um gato de Chesire.
O que se sucedeu foi apenas selvageria ao som de Mozart e gemidos.


Uma hora e meia mais tarde, Dimitra estava em casa, enfileirando seu pó mágico, quando seu companheiro chegou, sobressaltando-a.
- Andreas!
Ele uivou como um lobo, bateu a porta e partiu para cima dela, virando a mesa.
- Você não aprende nunca?!
- Desgraçado! Eu paguei caro por isso!
- Não sabia que o que você tem no meio das pernas valia tanto - o moreno não gritou; diminuiu o volume e aumentou o grau de sarcasmo.
- Filho da puta! - mas antes que, num pulo, ela o alcançasse, ele se esquivou.
Brigaram de maneira brutal como sempre e tudo terminou com um lambendo e sugando o sangue do outro de maneira apressada e prazerosa.
- Merda - sabia que precisava trabalhar mais seu auto-controle naqueles dias.
- Danazzio...
- O que eu falei sobre o sotaque?! Você é uma turista agora, esqueceu?
- Desculpe.
- Venha, eu trouxe comida.

Os pratos usados estavam no chão, cheios de unhas, pequenos ossos e uma ou outra veia ainda não comidos, ao lado dos copos lambuzados de fluído plasmático rubro. Pelo vidro sujo da taça percebia-se o vai-e-vem da cama mais à frente. Por volta das seis da manhã atingiram novamente o cume de prazer dourado.
Assim que o sol nasceu, os dois adormeceram.

To be continued...
Natália Albertini.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Homens...

- Dá pra decidir?
- Você acha que é fácil assim?!
- Não, não acho, tenho certeza. Eu já me decidi há séculos!
- Mentirosa!
- O quê?! - os olhos faiscaram.
-Nada - engoliu em seco.
- Medroso.
- Só quis dizer que sua decisão foi tomada apenas a alguns minutos atrás, não a séculos - num volume bem mais baixo.
Calou-se.
- Amor?
- Que foi?!
- Por que parou de falar?
- Pra ver se você se decide logo!
- Droga! Isso é muito difícil pra mim.
- Ai, vocês...
- Nós? Nós quem?
- Vocês, homens!
- Ai, que susto, achei que tinha mais de um...
- Pelo amor de Deus! Você bebeu hoje?
Risadas.
- Tô falando sério!
- Claro que não, né?
- Sei lá...
Silêncio.
- Decidiu?
- Ai, ainda não, bebê!
- Não é tão difícil! Ou é isso ou é aquilo, ponto.
- Mas eu tenho mais de duas opções...
- Quer que eu escolha pra você?
- Não, não, isso não! Você vai ser má.
- Então vai logo, não tenho o dia todo!
- Você sabe como é sempre difícil, pra mim, tomar decisões desse tipo.
Finalmente uma terceira pessoa interferiu:
- Pelo amor de Deus! Você só tem que escolher um entre três tipos de molho e me dar o dinheiro! Dá pra agilizar ou tá difícil, colega? - esbravejou o caixa.

Natália Albertini.

Cafeína.

Duas batidas delicadas na porta lígnea. Com um lenço de papel na mão direita e o cabelo desajeitado, foi atender a porta.
- Oi, Li - a voz serena e tranquilizadora disse.
O lenço de papel foi largado para que as mãos pudessem encontrar a nuca e as costas do recém-chegado coração.
- Entre - a voz chorosa convidou.
A porta foi fechada de maneira sutil e os dois corpos se permitiram não se moverem.
- Nada ainda?
- Não - e mais lágrimas brotaram-lhe aos pés dos olhos.
Abraçaram-se por algum tempo, e no silêncio estabelecido, conseguiram ouvir murmúrios vindo do escritório.
- Vou lá vê-lo.
- Não! Ele não vai te reconhecer!
- Vai, sim - soltando-se das finas e molhadas mão.
- Não, por favor! Ele não sabe quem eu sou. Só sirvo para fazer-lhe café. Nem comer ele come mais.
Não deu ouvidos e caminhou pelo corredor, abrindo a porta que deveria dar para o escritório. O que na verdade encontrou foi uma aura prateada que mantinha em suspensão palavras rimadas em português, alemão, italiano, inglês e espanhol.
- Papai?
- Get out of here! You hijo de la puta!
Por sorte, conseguiu fechar a porta milésimos de segundos antes da xícara de porcelana atingir-lhe a cabeça. Respirou fundo e voltou a abraçar a irmã que ainda chorava.
- Eu te disse! - vacilou - Oh, meu Deus, já faz mais de uma semana e tudo o que ele faz é elaborar poesias misturando as línguas e pedir mais café - as palavras saíram entrecortadas por soluços.
- Ele pede?
- Na verdade, ele ordena. E ordena para ela.
A partir daí os soluços foram de ambos, e durante alguns pequenos intervalos, o poeta gritava de sua toca:
- More coffee, mujer!

Natália Albertini.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sex, blood and rock'n'roll.

Techno trance - Blade 2 vampire revenge

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Fios de luz vermelhos e roxos sendo atirados para todos os cantos da boate, inclusive os mais escondidos, sombrios e sujos cantos. Inclusive a entrada.
A escada de ferro entre as paredes escuras não ficavam vazias nem por um instante. O lugar estava prestes a explodir. Entretanto, parecia sempre existir um novo convite para um novo corpo entrar ali. A música atraía. Música alta e eletrizante.
Música que envolvia os canos sobre os balcões centrais. Canos sendo entrelaçados e esfregados por mulheres extremamente excitantes com seios avolumados, pernas grossas, lábios sendo lambidos a todo tempo e roupas insinuantes pela quais muitas mãos de ambos - ou, quem sabe, até mais - os sexos passavam e deixavam dinheiro.
Moedas tilintavam dentro da caixa registradora cheia. Cédulas caíam ao lado desta, logo ficando encharcadas pela bebida que era derramada. Tequila, vodka, martini, vinho e até coisas das quais meros humanos nunca ouviram falar.
Um grito agudo por trás dele que tinha certeza de que ninguém mais o tinha ouvido. Era hora.
Entornou, agressivo, a dose de tequila que o fez engolir também o sabor nojento do sangue do mendigo de algumas horas atrás. Levantou determinado da mesa e empurrou a porta verde musgo, olhando diretamente para o chão tingido de sangue.
Ah, quanto sangue. Aquele cheiro demasiadamente bom e aquela cena incrivelmente linda. Dimitra se enroscava na mulher sob ela, colocando em atrito cada parte de seus corpos. Gemia e transpirava. Tinha os seios maiores que o normal, bem como os lábios. Fazia movimentos continuos de vai-e-vem, pintando seu corpo de vermelho.
Entrou no pequeno aposento sombriamente gelado e fechou a porta atrás de si, vociferando, quase latindo algum tipo de ordem para que a loira saísse de onde estava.
Atirou-se por cima do corpo da americana estúpida e lambeu-lhe os seios e o colo até alcançar seu pescoço, de onde sugou seu fluído vital ainda quente. A parceira tentou tomar posse novamente da morena, porém seus movimentos foram agilmente interceptados pelo homem de cabelos lisos e escuros.
Colocou-se de joelhos e olhou para o cadáver, limpando a boca com o braço esquerdo. Seus rubis cintilaram perceptivelmente Fitou Dimitra, levantou-se e a colocou de pé, segurando-a brutamente pelo antebraço. Forçou-a contra a parede e puxou seus cabelos da nuca, chupando-lhe o ombro.
- Dannazione, Andr...
- Cala a boca, vadia. Larga essa porra de sotaque italiano. E trate de se vestir. Temos que ir
A vistosa loira arranhou-lhe as costas quando ele se virou, fazendo-lhe o sangue subir. Tornou a olhar para ela e decidiu terminar a noite ali mesmo, entre todo o sangue e toda a vodka derramada da adega.
A americanazinha foi testemunha do prazer que nenhum humano jamais poderia alcançar. Muito menos numa adega imunda cheia de insetos como aquela.

Ps.: to be continued.
Natália Albertini.

domingo, 30 de novembro de 2008

Outback

Um bar sofisticado, com taças, copos e bebidas diferenciados. Dois rapazes estrangeiros se divertindo com alguma observação do bartender. Um chopp para cada um deles. Dois tons de azuis, um em cada camisa. Uma alianças escondida em cada bolso traseiro das calças jeans. Dois olhares atentos, famintos e adúlteros sobre as moças do outro lado do bar.
Um casal por trás de uma mesa de madeira escura. Uma moça procurando algo atrativo no cardápio. Um rapaz, embora abraçado à moça, lançando um olhar lupino e infiel a uma jovem que passava no corredor ao lado com um shorts não muito comprido e de corpo atraente.
Uma senhorita esticando o pescoço por sobre o encosto do banco para olhar o atendente alto, de ombros largos, loiro e de olhos azuis que trajava um uniforme amarelo e limpava a mesa ao lado.
Juro que acho que eu realmente me apaixonei por ele...

Ps.: Hehe...besteiras avulsas.
Natália Albertini.

Workaholic.

Pietro desceu as escadas correndo, esperando encontrar a avó a lhe esperar com a intenção de levá-lo até em casa. Entretanto, o que, ou melhor dizendo, quem encontrou superou toda e qualquer expectativa, exaltando-o em felicidade. A mulher que o esperava era relapsa, negligente. Era alta, esbelta e com cabelos vinho. Era devota ao seu trabalho (e, se me é permitido dizer, aparentemente só a este). Não se deu ao trabalho de levantar ou de olhar aos olhos do menino que se espantou ao vê-la. Apenas o olhou desanimada, suspirou e pensou consigo mesma que precisava de férias de tudo aquilo, ou simplesmente precisava voltar ao trabalho.
Os gritos do menino podiam ser ouvidos por toda a escola.
- Mãe! Mãe! Mamãe! Mamãe, mamãe, mamãe. Mãe! Olha, Vê, essa é minha mãe! - apresentou-a ao coleguinha com um sorriso enorme estampado no rosto e voltou a olhar encantado para a mulher á sua frente, enchendo-a de beijos e abraços.
Assim que conseguiu se livrar de tudo aquilo, a mulher se pôs de pé e segurou com força o pequeno braço daquele garoto que se via obrigada a chamar de filho.
- Você demorou. Vamos indo.
A professora se percebeu com os olhos marejados. Ah, como adorava ter aquelas crianças por perto. Como adorava crianças. Elas simplesmente viam tudo da maneira mais simples possível. Nem em um milhão de anos uma criança perceberia que sua mãe, ao contrário de uma heroína, que é o que pensam, é, na verdade, uma viciada em dinheiro que realmente acha que isto é muito mais do que tem de dar a seu próprio filho. Será que pensando que ele é um próprio pedaço seu, ela mudaria suas atitudes?
Puro egoísmo.

Natália Albertini.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Só um minuto, John.

O ônibus estava razoavelmente espaçoso, isso é, ninguém era obrigado a ficar de pé. Nos quatro últimos assentos do lado direito, logo à frente da porta traseira, sentavam-se duas moças e duas mulheres mais velhas. Estas últimas sentavam logo antes da porta. Já aquelas, um banco à frente.
Os fones serviam de ponte para John Mayer alcançar a mente da moça mais jovem, sentada ao corredor. A que estava ao seu lado babava no vidro, profundamente adormecida, quando o diálogo das mais velhas chamou a atenção da mais jovem das quatro:
- Ééééé, dizem que a vida começa aos 40. Acho que têm razão. Porque a minha começou mesmo... Começou a piorar! - e riu, acompanhada da colega ao lado, que prosseguiu a conversa.
- Pois é, depois dos 40, os "gistas" despencam em cima da gente, né? É cardiologista, oftalmologista, nefrologista, otorrinolaringologista (não que ela pudesse realmente pronunciar isso, mas tentou ao máximo), neurologista, pneumologista, reumatologista...
- É, e por ai vai...
John Mayer teve de esperar. Ele que sussurrasse em seus ouvidos mais tarde, pois aquela conversa merecia mais atenção. Olhou aflita para os lados, para checar se alguém acompanhava o diálogo: nada. A mulher a seu lado dormia, o velhinho do outro lado do corredor lia o jornal, o cobrador contava o dinheiro. Nada, ninguém não se dava ao trabalho de parar o que quer que estivesse fazendo por um só segundo e ouvir aquelas mulheres que conversavam em alto e bom tom.
As duas mulheres conversavam sobre um dos maiores medos da humanidade, um dos maiores mistérios ou seja lá o que fosse, conversavam sobre uma questão ótima: o tempo. E ninguém tinha a capacidade de dividir o seu. Era precioso demais.
É, talvez fosse isso. Talvez achassem seu tempo sagrado demais e acreditassem que aquelas duas mereciam ser queimadas vivas por tamanha falta de respeito para com seu deus.
Teve vontade de se virar e encará-las admiradamente, mas não o fez, pois sabia que nenhuma tomaria aquilo como um gesto de respeito, mas sim como desrespeito. Decidiu por apenas continuar a ouvir. Entretanto, uma delas teve de descer, pois "a casa de sua patroa era logo ali, virando a esquina".
A garota também desceu. E, assim que o fez, John foi testemunha de quanta indignação o olhar da menina continha.

Natália Albertini.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Joaninha

Com mais um de meus intermináveis períodos dionisíacos, tenho chorado até sentir a garganta implorar-me para parar, meus olhos me dizerem que não têm mais água e minha barriga se contrair. Tenho feito caretas para a vida, ainda que com o Sol brilhando lá fora.
Hoje uma joaninha pousou em minha blusa. Eu a peguei na mão e depois de alguns segundos, ela bateu asas e levantou vôo. Acho que minhas lágrimas abrangem isso também.
Eu não tenho do que reclamar da minha vida. Não derramo água salgada por ingratidão ou, como eu mesma digo, bichisse. Acho que é apenas medo. Medo de perder tudo de uma hora pra outra. Medo de perder todos de uma hora para outra.
Esse final de ano talvez represente pra mim muitas mudanças, e eu tenho muito medo disso, afinal, estarei entrando num último ano de uma trajetória longa que foi acompanhada por pessoas muito especiais. Mais um ano vai se passar e todos vão continuar envelhecendo. E, meu Deus, que medo que eu tenho de perder vocês.
Que medo que eu tenho de, daqui a pouco, olhar pro lado e me ver sem o meu Gustavo. Que medo que eu tenho de, daqui a pouco, olhar pro lado e me ver sem meus avós, sem meus tios, sem meus primos, sem meus pais, sem minha irmã. Estremeço por inteiro só de pensar nisso, porque é a coisa mais horrível que poderia me acontecer qualquer dia.
Eu quero, sim, que todos vocês batam asas, mas, pelo amor de Deus, jamais levantem vôo. Isso pode ser egoísmo, mas eu simplesmente não posso perdê-los, de jeito algum.
Eu tento me distrair e, por vezes, até esqueço de tudo, mas assim que desligo a TV, o computador, assim que fecho meus livros, que guardo minhas canetas e lápis no estojo, assim que deito, assim que entro no banho, assim que paro de falar, o medo me invade novamente.
Ele só está aumentando, e eu não sei o que fazer para terminar com toda essa angústia.
Eu só queria conseguir fazer aquelas três palavras saírem de minha boca algum dia, principalmente para meus pais e minha irmã. Eu juro que tento cada dia mais, mas parece que a cada dia os amo mais e mais, logo, torna-se mais difícil.
Talvez eu poste isso e talvez não, vai depender da consciência de meus dedos.
E se algum dia eu levantar vôo antes de vocês, que pelo menos minhas palavras daqui prevaleçam com vocês, tomando a forma de meu amor.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

The sweetest thing.

Sigur Rós - Salka
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Estava sentada, lutando contra o sono que a livraria de toda aquela dor de cabeça, quando ele se aproximou. Ela não fez nada, apenas continuou do mesmo jeito que estava, e até tentou sorrir. Entretanto, o que tinham entre eles era tão forte que assim que chegou perto o suficiente, perguntou o que acontecia e a abraçou.
O abraço foi o suficiente para lembrá-la do quanto se importava com aquele homem que conheceu quando garoto, e fazê-la irromper em lágrimas silenciosas que só poderiam ser compreendidas pelos ouvidos dele.
O que se seguiu foram trocas de palavras e pequenos gestos que camuflavam a vontade de continuar em silêncio apenas contemplando a bondade do mundo em tê-los unido. Não sabia ao certo como conseguiria algum dia explicar-lhe o quão bom era saber que o tinha, nem sabia se o conseguiria. Mas, minutos mais tarde, deu-se por conta, pela trilionésima vez durante os cinco anos de amizade, que não precisava dizer nada, ele simplesmente sabia.
E a cada toque ou olhar trocados, ela sentia uma pontada no coração. Eram medo e amor entrelaçados.

Ps1.: acho que já postei essa música, mas encaixou direitinho, so...
Ps2.: você sabe que é pra você e, novamente, obrigada por tudo.
Da sempre sua,
Natália Albertini.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Remember, remember the fifth of november
The gunpowder treason and plot
I see no reason
Why the gunpowder treason
Should ever be forgot

Today is the day, dear V.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

- Minha filha?

Todo o brilho da Lua refletia-se no negro cabelo comprido e liso dela. Sua franja caída nos olhos os deixavam um tanto quantos místicos. Seus longos cílios protegiam seus rubis mais verdes que qualquer outros. Seu nariz era fino e alongado aristocratamente. Suas sobrancelhas eram razoavelmente finas e curvadas, dando-lhe um leve ar de tristeza que entrava em contraste com seu sorriso branco que se escondia debaixo de sua pinta no canto direito da boca. Deus, todo seu rosto.
Seu pescoço tinha duas pintinhas que quase alcançavam o ombro esquerdo. Meus Deus, todas as pintinhas.
Seus ombros eram magros e desciam por braços compridos e mãos alongadas com unhas bem pintadas debaixo dos vários anéis. Oh, os anéis...
A maneira com que pegava o copo e o colocava na boca, a maneira com que engolia o líquido, a maneira com que devolvia o copo à superfície da mesa ao mesmo tempo que passava a língua discretamente pelo canto dos lábios achando que ninguém perceberia, a maneira com que rodava o anel de seu indicador direito, a maneira com que jogava o cabelo para o lado direito, tornando-o mais volumoso, a maneira com que sorria agradecendo ao garçom, a maneira com que revirava a bolsa em busca de um batom, tudo, tudo o que fazia, meu Deus, ela era perfeita e havia saído dele. Como ele poderia ter criado algo tão perfeitamente magnífico?
Tanta magnitude, entretanto, trazia-lhe tristeza. Oh, Deus, ela era tão ela... Ela era tão a mãe dela. E a saudades que sentia de sua mulher era indescritível.
E cada dia mais se odiava por não saber se amava a filha por ser ela mesma ou simplesmente por ser igual á mãe em cada aspecto particular.


Natália Albertini.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Menina Moça

Dá um pause rapidinho na playlist ali do lado pra poder ouvir isso aqui junto, tá?
Se preferir, ouve antes prestando atenção e depois lê. Caso ainda não conheça a música, acho que isso é o melhor a fazer.

Móveis Coloniais de Acajú - Menina Moça
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Assim que sua companhia foi embora, outra pessoa se aproximou:
- Você já achou a saída?
- Ainda não, esse labirinto é impossível!
- É! Que ódio...
- Nossa, não fala isso... Ódio é um sentimento muito forte...
Percebeu que já tinham saído da sala de estar e estavam correndo pelo labirinto da fase final do Torneio Tribruxo. Enfim pararam, como se a tal competição tivesse acabado repentinamente e se sentaram novamente no sofá da sala de estar, que agora ficava debaixo duma macieira num pomar.
- Eu gosto de maçã.
- É...
- Nossa...valeu, hein?
- Que foi?
- Nada...
- Então tá.
- Nossa...
- O que foi?!
- Nada, não precisa se irritar.
- Você já me irritou! Agora vai dizer o que é ou não?!
- Por que você tá gritando comigo?
- Olha, teu ouvido deve ser supersônico, porque meu tom de voz é o mesmo desde o início do labirinto.
- Que labirinto?
- Uhn?
- Você acabou de falar que pra ser o tal, não é preciso ser você. E ai, não consigo entender porque você sempre fica brava comigo!
- Eu não estou brava, cara! Se eu fico quieta, acha ruim, se eu falo, acha ruim, não se decide não, é?
- Ai, tá vendo? Calma.
Pegou uma maçã da árvore e então prosseguiu:
- Homens...
- Mulheres... Vem cá. Como você tem coragem suficiente pra depilar a virilha?
- Quê?
- É, né, sabe que menina moça, eu não queria te dizer, mas me parecia, não querias compreender.
- É, vocês são uns idiotas. Realmente param pra pensar nisso... A gente simplesmente faz pra conseguir mais de vocês. A gente tá no topo da cadeia alimentar.
- Só queria te dizer...
- O quê?
- Que pra ser o tal, não é preciso ser bacana e sacal, não é preciso ser sacana e banal, não é preciso ser.
- Mas o difícil é entender...
- Que pra ser o tal, não é preciso ser você.
A voz dele começou a se parecer demais com a de André Gonzales e passou a se afastar.
De repente seu Mickey Mouse de pelúcia apareceu diante de seus olhos. Enfim levantou-se, colocou os pés no chão e foi abaixar o som que tocava Móveis Coloniais de Acaju.

Ps.: Menina Moça, por Móveis Coloniais de Acaju.
Natália Albertini.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Realmente ainda não me decidi entre esperar que você perceba e eu mesma tomar a atitude.
Acho que por enquanto a segunda opção é a mais atrativa.

Natália Albertini.

sábado, 11 de outubro de 2008

Bicho Papão

Reinaldo passou a mão esquerda pela coxa da esposa e pouco abaixo da virilha, apertou-a.
- Querido, espera eu colocar o Renato na cama, tá? - e beijou os lábios avantajados dele.
Assim que ele a puxou para o colo, lambendo-lhe a nuca, a criança com a cabeça pendurada no outro braço do sofá abriu os olhos sonolentos e pôde ver, antes dos adultos perceberam sua presença não mais dormente, os pais se amassando, enquanto que seu pai, seu maior herói, seu maior exemplo, sussurrou audivelmente para a mulher em seus braços que não mais parecia sua mãe de tão descabelada e descoberta:
- Eu vou te comer...
Renato postou-se de pé num pulo á frente dos dois agora de olhos esbugalhados como um adolescente pego em flagrante enquanto pratica seu primeiro furto. A mãe tentou algo:
- Neném, a mamãe e o pap...
Antes que pudesse terminar, a criança teve seus olhos marejados. Prendeu o maxilar e fechou as maozinhas como o faria um advogado orgulhoso que perde o melhor caso de sua vida. Fez um beicinho e então saiu correndo.
Os pais se olharam sem saber o que fazer. A mãe saiu do colo do marido num impulso e foi em direção ao quarto do filho, mas não sem antes arrumar o cabelo olhando-se no espelho da sala. Bateu duas vezes na porta e entrou. O que viu foi o filho de costas, com uma pequena mochila dos Power Rangers escancarada, bem como uma gaveta, de onde tirava algumas cuecas do Snoopy. Teria rido ao ver como ele se parecia com trinta anos, ainda que tivesse apenas seis naquele momento, mas a tensão era maior.
- Filho...
- Não quero saber, Estela, não quero saber! - não chamá-la de mãe finalmente a fez rir, quase gargalhar.
Ela se sentou ao pé da cama e o pegou no colo.
- Não quer saber do quê?
Ele se manteve frio, sem abraçá-la.
- De vocês dois! O papai simplesmente...
- Filho, as pessoas têm...
- Religião, eu sei! E ele simplesmente foi contra a nossa religião, mãe!
- Não é bem assim, Renatinho...
- É, sim, mãe!
- Mas Deus...
- Deus, mãe? Papai do Céu?
- É, não fala dele quando fala de religião?
- Ai, agora essa...
Ela quase riu, mas simplesmente esperou pela continuação dele.
- Mãe, tô falando da outra religião!
- Que religião?
- Eu vou é embora daqui! Vou morar com a vovó, ela, sim, sabe o que é o certo! E você vem comigo, por via das dúvidas! - e se pôs de pé novamente, voltando a arrumar suas coisas.
- Renato, do que você tá falando?
Ele finalmente expurgou as lágrimas e confessou:
- Sabe, mãe, nunca na minha vida - e realmente pareceu que tivesse mais de sessenta anos então - eu comi um pedaço de carne porque você e o papai me disseram que era errado. Vocês falam que nós somos ve...ve...
- Vegetarianos.
- Eu sei! Nós somos vegetarianos, mamãe! E aquele homem foi contra isso! Ele não é meu pai! Não quero nunca mais saber desse homem! E você tem que fugir! Foge, mamãe, foge! - então percebeu-se que a discussão tinha se transformado em gritos desesperados.
- Renato, por que ele iria me fazer mal?!
- Ele vai te comer, mamãe! Ele vai te comer!

Ps.: prometo que assim que possível, eu o revisarei, foi só pra não perder a idéia...tô com um tiquinho de pressa.
Natália Albertini.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Mãe, me deixa tirar uma foto?

- Natália, vem aqui falar tchau pra vó! - gritou minha mãe.
Com um impulso, fiz a cadeira girar sobre os próprios pés e me levantei, indo de encontro á minha avó, postada em frente à porta de meu quarto.
- Tchau, vó, parabéns de novo e boa viagem. Assim que chegar lá em Curitiba, liga pra avisar, tá bom?
- Tá bom. Obrigada por tudo. Fica bem ai. Acho que semana que vem a gente já tá de volta. Eu te amo.
A partir dai, tudo o que eu suponho ter sido palavras e gestos saíram em forma de silêncio e imagem de câmera desfocada.
Desde então meu chão tem relutado a voltar para sob meus pés.

Natália Albertini.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Baunilha empoeirada

Sigur Rós - Salka
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Olhava pela janela. O dia não estava chuvoso nem nublado. O Sol brilhava com intensidade e fazia a temperatura alta a ponto de dificultar a respiração de alguns humanos.
Voltou a cabeça para o colo e deu de cara com a foto que lhe impulsionou a realizar o ato anterior. A fotografia havia sido tirada num dia de uma grande tempestade, infelizmente não se recordava exatamente do que tanto ela e seus companheiros riam, apenas inundou-se de felicidade ao rever o retrato.
O peso do grande álbum vermelho sobre as pernas cruzadas num nó lhe era praticamente agradável, quase imperceptível, apesar de ter sido cheio com mais de trezentas fotos. As mãos viravam as páginas rígidas e dobráveis em intervalos regulares, dando-lhe tempo suficiente para submergir-se em incontáveis sensações distintas.
O que lhe matava era pensar que cada um daqueles rostos em cada retrato algum dia já havia sido seu confidente, seu amigo, e agora, nada, mal se recordava com que letra começavam seus nomes. O que lhe matava era saber que isso era inevitável e que por mais que quisesse, jamais conseguiria atrasar os ponteiros do relógio do gato Félix que ficava sobre sua cama. Sabia que não o alcançaria, desde criança, nunca o alcançou.
Assim que os olhos do gato moveram-se com o apito das três horas da tarde daquele dezembro sufocante, o álbum foi retirado do peito em que dormia pelas mãos da mãe daquele ser adormecido, fechado e colocado de volta na prateleira para seguir todo seu curso com a poeira.
Exatamente às três horas marcadas pela cauda preta do gato inalcançável, o cheiro de baunilha e as inúmeras faces amigas que haviam voltado para saudar-lhe, foram embora mais uma vez. Jamais seria possível retomá-las integralmente. A cada virada de página, elas eram mais e mais esquecidas, era seu curso natural e inevitável.

Ps.: Meio confuso, mas anyway...
Natália Albertini.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Retrovisor.

Enquanto eu olhava pelo retrovisor, prestando imensa atenção no trânsito daquela estrada e falava sobre alguma amenidade, senti um toque suave em minha perna esquerda. Virei a cabeça para meu lado esquerdo e vi meu pai dirigindo, como sabia que o encontraria. Mas algo foi incomum. Ele trazia no rosto um sorriso definitivamente feliz e infantil.
Enquanto uma das mãos segurava o volante e garantia que o automóvel continuasse na mesma direção, a outra tinha todos os dedos dobrados, exceto o indicador, uma vez que este apontava o velocímetro do carro. Antes mesmo de ele falar, meus olhos já estavam marejados:
- Sua mãe fica louca quando faço isso nesse trecho da estrada...
Sua felicidade era tão visível e infantil que me invadiu de forma completamente súbita. Não pude pronunciar quaisquer palavras, apenas soltei um pequeno riso, para ele entender que eu o havia escutado. Não precisava fingir nada mais, afinal ele não estava me olhando, o momento já havia passado com a mesma velocidade do carro, ele já havia prendido a atenção novamente no câmbio e no retrovisor esquerdo.
Felicidade deste nível senti a alguns dias atrás, quando ensinei um passo novo de dança a ele e então ficou maravilhado infantilmente.
Não sei bem explicar como me senti, apenas senti. São coisas que a gente não sabe o motivo, elas simplesmente acontecem e você acha aquilo mágico.
Talvez não consiga traduzir em palavras aquilo que senti, mas pelo menos tentei. Sei que se não o fizesse, essa sensação iria embora logo, logo, e alguns meses depois, algum tipo de vislumbre voltaria e eu não a recordaria por inteiro, deixando ainda maior a frustração.
Isso é bem pessoal, mas talvez lendo este texto, você se lembre de alguma outra situação com qualquer outra pessoa amada. Jamais deixe de demonstrar a estas o quanto elas lhe são fundamentais.
Acredite, eu sei bem o valor de tudo isso e o quanto nos custa dizer, mas simplesmente temos de dizer...
Exatamente agora, meus olhos estão marejados, pai, e espero que algum dia eu tenha coragem de te mostrar isso.

Natália Albertini.

Geometria

Em frente àquela boquinha perfeitamente desenhada, àqueles imensos olhos castanhos de cílios alongados e àquelas mãos pequenas e gordinhas que representavam Kyra, William teve vontade de explodir em lágrimas. Não por criar a criança sozinho, afinal aquilo era uma felicidade e tanto para ele. Mas, sim, por que, em momentos que lhe orgulhavam como aquele em que a menina acabara de fazer o primeiro desenho da vida dela - que, a propósito, só era bonito aos olhos do pai, quando olhava para o lado, Naomi não estava mais lá.
O ângulo de visão da mulher jamais estaria novamente no mesmo plano que o seu.

Natália Albertini.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Suspiro.

E lá no fundo, onde os olhos famintos por litoral não viam, a massa quente e azul engolia mais um coração entre o entardecer e os braços ondulados.

Natália Albertini.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Rubis.

 Amadeus Mozart - Lacrimosa - Requiem
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Remexeu-se e se ajeitou debaixo de sua capa rasgada para espantar o frio. Ultimamente, tinha acordado inúmeras vezes no meio da noite. Simplesmente parecia que aquele local não lhe era mais tão seguro. Nenhum lugar no mundo continuava a ser seguro para os desfavorecidos economicamente.
A barba estava mal feita, sua calça, rasgada, e o cabelo cobria-lhe o campo visual, mas ainda assim podia ouvir e enxergar muito bem. Recostou a cabeça na parede e semicerrou os olhos, deixando apenas uma pontinha aberta. Percebeu uma sombra na janela da direita. Com certeza era a criada Alberta vindo trazer a água e cobrir a filha de seu mestre.
Giuseppe era um desgraçado que vivia nos fundos daquele castelo há anos. Conhecia quase todos os criados por nome, já que estes, de vez em quando, traziam-lhe ás escondidas algum resto de comida. O dono do castelo era Dom Bartolomeo, cuja filha preferida tinha por volta dos dezessete anos e levava o nome de Loretta. A bambina tinha olhos negros como os cabelos que reluziam a noite. Era um primor.
A sombra desapareceu assim que a luz do quarto foi acesa. Ouviu-se um grito de desespero e profunda agonia, como o grito que imaginamos ouvir saindo da boca da figura de Edvard Munch em O Grito. Algo ruim acontecera.
Os olhos de Giuseppe se abriram completamente e, ao abaixá-los, tirando-os da janela, fixou-os num contorno quase humano ao pé da árvore que tinha as folhas balançadas levemente pela brisa da madrugada.
A figura aparentava ter cabelos curtos e lisos, beirando a linha do maxilar. Parecia ser esbelta, porém suas vestes eram negras, o que impossibilitava maior visualização. Tentou enxergar um pouco mais, para sua infelicidade. Viu dois rubis brilhando.
Sobressaltou-se e decidiu que o melhor a fazer era voltar a dormir. Cerrou novamente os olhos, tentando evitar a curiosidade.
Impossível. Nessas horas, a curiosidade é quase sempre maior que o medo. Abriu apenas o olho esquerdo e, pela ponta deste, enxergou os rubis agora a seu lado.
- Buona sera, signore.
Outro grito. Menos estridente, mas ainda mais apavorado.
Sangue tilitando no chão e manchando a barba mal feita.


Natália Albertini.

domingo, 7 de setembro de 2008

Telefone.

Acho que, agora, apenas me basta que meus amores lembrem de mim como sou. Seja quando criança, arranhando-me as pernas por pura raiva, seja agora, imitando e dançando com os comerciais de shampoo, ou seja quando adulta, segurando meus gêmeos e ninando-os.
Acho que, agora, apenas me basta um bom banho para esconder meus soluços.
Acho que, exatamente agora, simplesmente me basta minha força adicionada à memória de você.
Eu ainda te amo com todas as minhas forças e, onde quer que você esteja, sempre levarei comigo teu brilho. Obrigada por tudo.

Não, não sei do que se trata. Simplesmente fechei meus olhos e isso acabou de sair.
Acredite, a vontade de postar para que mais tarde possa ler é mais forte que eu.

Natália Albertini.

As estrelas brilham para nós, querida.

Vanessa Carlton - Hands On Me
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- E todos os nossos momentos desde que nos conhecemos?
- Que tem eles?
- Nós os deixaremos pra trás?
- Acho que eles já fizeram isso antes da gente.
- Mas...
- Seria demais se eu te pedisse para não insistir?
- Seria. Estaríamos jogando fora mais uma chance!
- É, realmente... É isso. Mais uma... Mais uma chance. Quantas nós já não tivemos?
- Aonde você quer chegar?
- Quero chegar em casa – ela afastou-se dele, soltando seu braço.
- Você me entendeu...
- É, por um certo tempo, entendi. E acho que te entendo. Sabe, eu tinha essa mentalidade também.
-Que mentalidade?
- A de que combinávamos.
- Mas nós combinamos! Todo mundo diz isso!
- Eu não.
- Mas realmente acha que não? – ele pareceu magoado.
- Desculpe-me, mas é verdade. No começo, achava que sim. Mas agora tenho certeza que não.
Ele se manteve quieto, abalado. Depois de alguns momentos, enfim, voltou a relutar:
- Não, mas vejamos os... – ela já estava a onze metros de distância.
E por todos os anos passados juntos, ele sabia que nada a impediria de tomar a decisão que julgava certa.


Natália Albertini.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Amável H.

A cadeira rangeu ao ter aproximadamente 49kg depositados sobre si. Suas rodas lideraram o frágil corpo feminino de encontro à mesa ebúrnea.
As mãos apáticas e de unhas roídas percorreram o marfim em busca da régua. O envelope oficial reclamou ao ser aberto, incomodando os pequenos ouvidos da mulher.
Enquanto bombas caíam detrás da janela, o telegrama finalmente deixou seu abrigo pardo e transmitiu a informação. Os olhos abatidos de Helga finalmente se depararam com o sangue e as balas legíveis.

Natália Albertini.

Café da Tarde.

Luz. Fefê corre pelo quintal de minha mãe. Seu cabelo castanho fixa-se em sua testa e em suas bochechas rosadas. Seu cadarço esquerdo está desamarrado.
- Fê, deixa a mamãe amarrar seu cadarço - estico os braços para minha criança.
Cílios. Treva.
Luz.
- Mamãe! - o mar salta-lhe pelos olhos e pela garganta, molhando o chão, agora mais próximo.

Natália Albertini.

Feriado.

A água límpida e azulejada de cor azul piscina movimentava-se de maneira sutil. Sua superfície era salpicada por gotículas celestiais. O chão liso e escorregadio também recebia sua parcela de líquido transparente. O copo de vidro debaixo de guarda-sol fechado tinha seu álcool agitado pela chuva e pelos estrondos sonoros de inúmeras vozes italianas que vinham da varanda, onde se divertiam sem culpar a tempestade por molhar a carne e o carvão.

Natália Albertini.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Antídoto.

A caneca gorda e hialina em cima do balcão havia sido esvaziada brutalmente. Restavam apenas alguns resquícios do líquido amarelo e espumante, que se esvaía gota a gota. A lâmpada fluorescente ao lado do refrigerador, fraca, reclamava, incessante. Em cima da mesa verde aveludada, uma mancha escura e pegajosa. A bola oito tinha uma terceira cor: o vermelho escuro. Um pedaço do couro do casaco da criatura notívaga foi esquecido ao pé da mesa, ao lado do taco. O plasma gotejava da rede com bolas no mesmo ritmo da bebida de cevada a três metros e meio; seus barulhos, entretanto, não se misturavam, muito menos seus cheiros. A mancha era iluminada em intervalos regulares pela luz vermelha e gritante que vinha da frente do tumulto de curiosos fora do bar da Avenida São João.

Natália Albertini.

Balões.

O azul bebê da porcelana amenizava a máscara carregada da moça. O lápis de olho tilintou ao deitar ao lado da torneira. Logo depois, o batom escorregou pia abaixo, sendo então freneticamente procurado pela mão de unhas bem feitas. O espelho foi cúmplice do disfarce.

Natália Albertini.

Bigodes de Sabiá.

A janela deixava passar, por uma fresta, o amarelo necessário para clarear o cômodo. A persiana branca batia sutilmente contra o vidro, embalada pela calmaria das cinco da tarde daquela primavera. A coberta florida pendia da cama num de seus cantos, subindo e descendo no mesmo ritmo da cortina, bem como se moviam os finos e escuros fios de cabelo que descansavam sobre a boca de Bianca, envolta por piados amarelos e serenos de bem-te-vi com patas de gato.

Natália Albertini.

Via Láctea.

A cama coberta de laranja teve seu espaço reduzido e o edredon pareceu menor do que nunca. As barrigas subiam e desciam de maneira ritmada e tranqüila, mas um pequeno emaranhado de cabelos negros e pele branca no centro da cama quebrava aquele ritmo.
O pequeno espaço entre os pais era suficiente para proteger o menino dos monstros peludos e de um olho só que o atormentavam na imensidão azul de seu quarto iluminado apenas pela luz amarela recortada e interrompida por dinossauros e estrelas.


Natália Albertini.

Grão.

Sobe e desce. Abre e fecha. Aberta, a máquina deixa passar o jato de água fervente que chia e estala no fundo da porcelana. Fechada, as bolhas minúsculas, beges e melhores amigas se acoplam ao plasma preto com cheiro de grão, e, juntos, pressionam a comporta para que abra novamente e, mais uma vez, tinja outra língua com seu sabor.

Natália Albertini.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Açúcar Refinado.

As persianas balançavam levemente e batiam de maneira cautelosa contra o vidro da janela. Havia uma razoável claridade banhando o quarto, mas nada em exagero. O silêncio na casa era grande, uma vez que o almoço um tanto quanto pesado colaborou com o hábito de dormir da família dele. A refeição tinha sido uma delícia, muita variedade e um ótimo tempero. Mas, ainda assim, o que mais a alegrava não era a refeição e sim o fato de estar namorando aquele menino havia alguns anos e de que a cada ano eles melhoravam, amadureciam e cresciam juntos. A simpatia de toda a família dele por ela a enchia de satisfação e gratidão. Quando menor, sempre imaginava se algum dia teria um namorado que valesse a pena, que conhecesse toda a família dela e ela, a sua; que tivesse uma relação madura etc. E nessas ocasiões, percebia que sonhos viram, sim, realidade. A satisfação de ter realizado aquele desejo era imensa, mal podia ser compreendida pela menina. Entretanto, havia uma felicidade e uma satisfação ainda maiores - se é que era possível. Sentia-se extasiada todas as vezes que lembrava que tinha aquele namorado. Sentia-se demasiadamente deleitada ao saber que tinha ele, ninguém menos, ninguém mais, ninguém a não ser ele.
Enquanto perdia-se em reflexões e gratidão, ele respirou mais fundo e a abraçou inconscientemente, ainda dormindo, como que adivinhando-lhe os pensamentos. Ela não conseguiu evitar o sorriso que veio á tona. Respirou profundamente e, a partir daí, sua respiração entrou no mesmo ritmo da respiração dele, como sempre acontecia quando estavam em perfeita harmonia. Ah, Deus, como era bom ter aquele menino com ela. Como ela queria eternizar aquele momento. Como ele conseguia fazê-la ter a absoluta certeza de que o sentimento era recíproco? Ele era mágico, só podia ser isso...
- Não consegue dormir, meu amor?
Ela sobressaltou-se, não esperava ouvir a voz dele. Entretanto, voltou a sorrir, sentindo ainda mais aquela sensação de bem estar percorrer seu corpo todo.
- Achei que você estivesse dormindo.
- Eu não estou?
- Uhn?
- É que toda vez que me dou por conta que você está do meu lado, demoro a acreditar que é realidade, não um sonho.
Ela não teve outra reação senão a de expulsar sal e água pelos olhos, virar o corpo e beijar-lhe a ponta do nariz.
- Dorme...
- Tá.
Só depois de alguns segundos de silêncio a voz dele ressoou novamente e, daquela vez, pela última vez nas próximas quatro horas:
- Eu te amo.
A língua da garota enrolou-se, a garganta apertou e as borboletas eriçaram-se em seu estômago quando ela respondeu com a maior sinceridade do mundo que também o amava. E, desta vez, a água não era só salgada. Na verdade, tinham muito mais gosto de marshmallow do que de carne assada.


Ps.: obrigada pela foto, Má e Fê. Adoro vocês e desejo tudo de bom. Beijo enorme.
Natália Albertini.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Luz

- Por favor, não me deixa. Não agora.
- Se fosse em qualquer outro momento, eu poderia?
- Não. Não... Não me deixa, não me deixa.
- Não posso mais olhar para você.
- Pelo amor de Deus! Claro que pode! Olha, eu estou bem aqui!
- Você está sumindo da minha vida.
- Por Deus, não me deixa! Fala comigo! Fica aqui! Não me deixa!
- Não tenho mais forças...
- Oh, Deus, oh, Deus, Deus, Deus!
- Não me acompanha, os...
A carne amoleceu-se, o plasma esfriou e as duas últimas borboletas se libertaram.

E aos fundos podia-se ouvir alguém gritando "chamem uma ambulância!". Não sabiam ao certo se era uma ou duas vidas em questão.

Um curtinha pra vocês,
Natália Albertini.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Fase de porcelana.

 Boys Like Girls - Thunder
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Dalila se esticou para alcançar o armário da cozinha. Assim que conseguiu, pegou dois pratos e fechou a portinha. Numa das belas peças de porcelana, colocou macarrão talharim e, por cima, bastante molho branco. Na outra, colocou praticamente o dobro de comida. Assim que terminou, levou os pratos para a mesa já arrumada e os posicionou frente a frente. Voltou ao balcão e da primeira gaveta da esquerda tirou dois garfos. Enquanto fechava a gaveta com a perna e se virava de volta para a mesa, gritou:
- Guilherme, vem comer!
O barulho dos degraus lígneos rangendo delicadamente sob os pequenos pés soou familiar a Dalila. Em menos de quarenta segundos, a criança chegou à cozinha e se sentou numa das cadeiras.
- Se estiver sem sal, me avisa, tá bom, filho?
O menino cruzou os braços e franziu o cenho. Sua pele era morena e tinha o cabelo tão escuro quanto os olhos. Seus cílios enormes sempre encantavam a jovem mãe que agora sentava em frente à criança.

Enquanto enrolava o macarrão no garfo, olhava fixamente para a expressão sisuda do filho:
- Que foi? Tá sem fome ou é só frescura? Já está bem grandinho. Já tem doze anos, é quase um homem! Pode muito bem comer sozinho, não acha? - riu levemente, colocando a primeira porção na boca.
O garoto continuou sério e mudo. Seu olhar se dirigia à vidraça da janela, inexpressivo.
- Vamos, Gui! - a mãe esticou o corpo sobre a mesa e, com o garfo do menino, enrolou um pouco de talharim e imitou barulho de avião - Olha o aviaozinho!
Sem resposta, a mulher apoiou os dois cotovelos na mesa. Numa das mãos, tinha o garfo. Já a outra apenas ficava por baixo para que o molho não sujasse a toalha. Só então sua expressão passou a mostrá-la preocupada. O filho nunca rejeitara uma porção de comida sequer quando ela fazia aquele gesto tão rotineiro.
- Que que foi, Guilherme? Aconteceu alguma coisa? - ela deitou o garfo no prato e se esticou mais, então alcançando o rosto do garoto, acariciando-o - Aconteceu alguma coisa na escola, na natação ou no piano?

Ela deixou a cabeça pender para o lado esquerdo e mordeu o canto da boca, visivelmente concernada.
- Vamos, filho, conta pra mamãe o que aconteceu...
De forma repentina, a criança direcionou o olhar à mãe e colocou as mãos por baixo do prato, logo jogando-o para fora da mesa num ato de fúria.
- Eu não sou seu filho! Eu odeio quando você me chama assim! Você não é minha mãe! - a voz saiu aguda o suficiente para perfurar o peito e contorcer a garganta da mulher.
- Meu bem, nós já conversamos sobre isso... - ela fingiu paciência e compreensão.
- Já! E você me disse que eu não vim da sua barriga! Eu quero a minha mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mamãe! Tem uma mulher fingindo que é você! Mamãe! Mamãe! - os gritos saíram estridentes, graves, altos, amedrontados, ameaçadores, espaçados e consecutivos. Enfim, saíram da maneira mais natural, a maneira como a raiva e o medo se manifestam juntos.
- Não, filho, não faz isso... - ela não pode evitar que seus olhos ficassem marejados.
- Eu não sou seu filho! Não sou! Olha como você é branca! Eu não sou seu filho! Mãe! Mamãe! Não sou seu filho, sua branquela! - e subiu correndo para o quarto.
A mulher escondeu o rosto entre as mãos e deixou que a série de soluços salgados viesse.

Ás oito e vinte da noite, Fábio chegou em casa e encontrou o filho na sala de estar, assistindo à televisão. Deu-lhe um beijo e um abraço e perguntou:
- Cadê sua mãe?
- Não sei - uma estranha sinceridade pôde ser percebida na frase do menino.
Subiu as escadas e abriu a porta de seu quarto. As cortinas estavam fechadas, deixando passar apenas a escassa luz proveniente da rua.
Procurou pela quarto, sem acender a luz, e então viu a esposa. Estava na cama, jogada, cercada por travesseiros e lenços de papel. Trajava o pijama do marido, deixando claro sua dependência dos laços afetivos estabelecidos entre eles.
O homem fechou a porta enquanto largava a maleta e o paletó no chão mesmo. Correu para a cama e ainda calçado deitou-se ao lado dela, abraçando-a com força.
- O que houve?
Ela tremia perceptivelmente quando respondeu:
- De novo. De novo. Eu devo ter falhado... De novo ele... - e simplesmente parou de falar.
O marido estava bastante assustado, pois a mulher estaria completamente imóvel se não fosse pelos calafrios e espasmos. Ela tinha os olhos arregalados e fixos em um ponto qualquer do quarto, as pálpebras inchadas, os cabelos bagunçados, os braços e as pernas colocados de qualquer maneira, fracos, a pele pálida e a respiração rápida e contínua. Parecia estar em transe ou algo do tipo. Era perceptível sua imensa fraqueza.
- Quer que eu converse com ele?
Ela negou com a cabeça.
- É só uma fase, meu amor. Isso vai passar, você vai ver...
- Já fazem cinco anos... - a mulher teve bastante dificuldade para completar a resposta.
Ele a aninhou entre os braços e beijou-lhe as costas, sentindo-as extremamente geladas:
- Nós vamos conseguir. Não desista, meu amor...

Natália Albertini.
Ps.: E se fosse você?
Pss.: me desculpem a demora. Tentarei agilizar alguns textos iniciados.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Eu não demoro.

Sentou-se no banco frio de pedra escura com os dois pés no chão e os joelhos flexionados. Com a mão esquerda tirou o velho chapéu marrom que tinha o mesmo tom da calça e era um pouco mais escuro que a camisa. Após ter deixado o acessório a seu lado no banco, passou a mesma mão pelo cabelo, ajeitando os fios que, apesar de terem sido fixados com gel, haviam levantado. Seu cabelo era grisalho e liso, sempre penteado para trás, longo apenas o suficiente para alcançar-lhe a nuca.
A grama, que, a propósito, era mais verde ali que em qualquer outra parte do grande espaço, podia sentir o cuidadoso toque do solado do sapato marrom escuro do ancião. A grande árvore que envolvia aquela pequena região em sombra era capaz de sentir o sutil cheiro de muito escasso suor que brotava na raiz do algodão. O homem não suava de calor, mas, sim, de nervoso. Apesar de tantos anos juntos, sempre ficava apreensivo quando ia falar com a mulher.
Suspirou de forma completamente profunda e passou as mãos pelas pernas até pousá-las nos joelhos. Enfim esboçou um resquício de voz:
- Oi, querida.
- Olá, meu bem - respondeu ela numa voz baixa e vacilante.
- Como você está hoje?
- Estou bem. Demorou a vir me ver.
- Sim, me desculpe por isso, houve um imprevisto.
- Que houve?
- Helena teve um surto.
- Um surto?! - a terra subiu e desceu nem tão delicadamente com a surpresa.
- Sim, um surto.
- Mas por quê? Como? Quando?
- Calma, eu explico. Você sabe que todos esses anos têm sido muito difíceis para todos nós, mas Helena sempre foi a menos resistente...
- Sim, eu sei, mas esses surtos estavam menos frequentes ultimamente, não?
- Estavam, sim. Mas a psicóloga disse que este último ataque não foi tão preocupante quanto aqueles dois primeiros.
- E como aconteceu?
- Isso é mesmo relevante? - ele apertou os dedos no joelho direito, visivelmente nervoso.
- Não, tudo bem...
- Por que você não... – e interrompeu o discurso, guardando o que quer que fosse para si mesmo.
- Por que eu não o quê?
- Nada.
- Diz, querido.
- Por que você não volta pra casa? – ainda receoso.
- Lá vem você... Já não conversamos sobre isso?
- Sim, mas não me convenci de que isso não pode ser colocado em prática.
- Já se passou tanto tempo, todos se desacostumaram a me ter em casa. Não sei se voltariam a falar comigo.
- Claro que sim. O mais improvável era eu voltar a falar com você, mas, veja, eu o fiz! Antes eu não tinha crença alguma, era completamente cético, mas então, com um pouco de esforço, me surpreendi.
- E sou-lhe imensamente grata por isso. Simplesmente não sabia o que fazer quando você não acreditava que eu queria retomar contato.
- Mas você tem que entender que é difícil, tem de compreender meu lado da história...
- Eu compreendo e não discuto mais com você por este motivo. Apenas lhe agradeço.
Ele respirou de maneira profunda ao mesmo tempo que ela. E então:
- Acho melhor eu ir embora. Helena pode estar precisando de mim.
- Sim. Mas não demore a voltar, por favor.
- Você sabe que eu não demoro.
O homem jogou o corpo para frente e caiu de joelhos, logo dobrando o dorso, apoiado sobre as mãos. Abaixou a face e beijou delicada e afetuosamente os lábios finos e ainda rosados da mulher.
- Você sabe que eu não demoro... – repetiu em forma da sussurro.
Então postou-se de pé, bateu as mãos na camisa e na calça para ajeitá-la e pôs o chapéu de volta na cabeça. Olhou uma última vez ao chão e, limpando os próprios lábios para livrar-se do gosto de terra, enfim partiu.

Natália Albertini.

sábado, 24 de maio de 2008

Prince Charming(o modelo do fotolog ao lado)

Eu adoro quando os pensamentos da madrugada me invadem,realmente.Eu fui ver meu horóscopo no site da capricho e aí acabei me desviando totalmente do que queria ver.Achei várias matérias,sobre from uk,sapatos,os mais badalados estilistas e blablabla.Uma delas era sobre modelos que tê, fotolog.A matéria falava um pouco sobre os garotos e dava o endereço dos fotologs deles.Curiosa que eu nasci,claro que bisbilhotei o fotolog de alguns e até comentei em uns dois acho.Mas sabem,isso me faz pensar em como nós,meros mortais,somos tão próximos e tão distantes uns dos outros.Pensem bem,garotas,vocês olham um garoto daqueles e pensam consigo mesmas: 'meu deus,se eu tivesse um cara desses na minha vida...'Aí,nesse mundo injusto,claro que há chances de você ter um cara daqueles algum dia,mas elas podem ser quase remotas.Mas bem que Deus devia ter fabricado um para cada uma de nós.Você comenta no fotolog do cara e fica esperando ele responder.OKAY,TE DOU UMA GRANA PRETA se um cara daqueles perder tempo olhando sua foto comum no fotolog e comentando.Não estou dizendo que os caras são antipáticos,ou antisociais,ou metidos,nem nada disso.Vai saber,eu nunca os conheci para ter formar qualquer opinião.

Eu não sei se consigo fazer vocês entenderem o que eu quero dizer,mas prestem atenção,você tira fotos comuns,mesmo que toda estilosa e cheia de brilho e,aos olhos deles é uma menina comum,mesmo que inteligentíssima e puro glamour,como eu(hahaha,just kiddin').E,se você por acaso encontrar um cara bonitão passando na rua,ele vai pensar a mesma coisa e você não vai ter nem tempo de mostrar o seu sorriso mais sedutor para ele.E,o modelo do fotolog ao lado,que apareceu na capricho,nasceu um ser humano comum,como você,sem mais nem menos.Okay,eu compreendo,talvez ele possa ter passado 100 vezes a mais do que você na fila da beleza,mas mesmo assim ele tem as mesmas possibilidades que você em 95% das coisas,a única diferença é que por uma jogada de sorte do destino ele se destacou.

Eu sei que você gostaria que ele fosse seu namorado,eu gostaria,que menina em sã consciência não gostaria?Mas,quer saber,outros 20 reais se você conseguir.Não desista,garota,continue tentando,confie em você,sempre,uma hora você consegue.Mas SÓ se não desistir.Talvez eu esteja falando besteira,talvez não.Mas querem saber,what so ever.Aliás,vai que um cara desses é mais burro e mais imaturo,ou tanto quanto,o carinha chato e feio que senta do seu lado?Ele pode ter uma beleza de 2 milhões de reais,mas você não aguenta 5 minutos com ele.Ou vocês podem ser incompatíveis,quem sabe?

Às vezes a gente evita acreditar,mas pode ser verdade aquela história de que mais vale um feio super duper gente fina do que um príncipe encantado montado num cavalo branco(ou dirigindo um carro importado).À propósto,quem foi que disse que todos os príncipes encantados são bonitos e ricos?De todos eles,eu fico é com o John Mayer,HA HA HA.Mas enquanto não o tenho,eu me contento com os caras comuns e notáveis que me cercam.


'Boys and girls pretend to know me,they try so hard.And I get what I want,my name is my credit card.Don't try to hate me,because I am so popular.Pop,pop,popular.'Popular-The Veronicas

Ana.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A Sutileza do Amarelo e do Laranja

O céu estava claro e algumas poucas nuvens cobriam a luz direta do Sol, mas nada que fizesse o dia escuro.
Nathalie tinha a pequena menina loira no braço direito e a mão do pequeno menino ruivo apertada em sua esquerda. A bolsa preta e grande, cheia de meias, luvas, pomadas, papinhas, colheres, papéis, canetas, agenda, maquiagem, óculos e presilhas, estava pendurada no ombro esquerdo, querendo cair, uma vez que o braço a puxava para baixo com a força de todos aqueles vinte e três quilos brancos e laranjas. O cabelo castanho claro estava solto e só continuava ajeitado graças aos óculos solares no topo da cabeça. A consulta ao pediatra tinha sido tranqüila apesar de alguns imprevistos como a troca de fralda de última hora da menina. Ambas as crianças estavam perfeitamente bem de saúde. Apenas as levou por uma questão de rotina e segurança.
O casalzinho hoje estava simplesmente impossível. Completamente ativos. “Hiperativados”, como dizia a jovem mãe. Estava a duas quadras do quitanda, onde pegaria algumas frutas e depois pegaria o carro no lava-rápido para, enfim, ir direto para casa. As crianças adicionavam a cada passo uma nova pergunta do tipo mamãe-o-que-é-isso. Tinham acabado de aprender a fazer movimentos ordenados com a língua e, consequentemente, formar palavras, logo, tudo o que mais queriam fazer era falar. Olhar e falar, ou, melhor dizendo, olhar e perguntar. Apesar do cansaço físico, Nathalie amava isso. Amava ver os quatro pequenos olhinhos verdes arregalados e cheios de fome por conhecimento, as pequenas boquinhas se movimentando de modo vacilante e as mãozinhas apontando para todo e qualquer lugar. Aquelas crianças a enchiam de vontade de viver e satisfação.
Por fim chegou à quitanda. Dona Chuchu, baixa e encolhida senhora dona do estabelecimento, de origem nipônica, cabelo curto e com franjinha, extremamente preto e liso, óculos grandes, roupas simples e imenso carisma, encontrava-se à frente das bancadas do lado de fora, tirando uma pêra daqui e pondo outra maçã ali. Aproximou-se da tão afetuosa anciã e esta já percebeu sua chegada, o que lhe foi permitido graça ao alvoroço das crianças.
- Bom dia, Nathalie! – disse, virando-se de frente para a vistosa e alta moça.
- Bom dia, dona Chuchu – respondeu com um sorriso completamente carinhoso e quase que aliviado por ter chego.
- E os gêmeos, como vão?
- Muito bem! – respondeu, animada e risonha, a pequena Alice.
- Mamãe, de onde vêm os bebês? – irrompeu a aguda e nem tão baixa voz do menino.
A mãe apenas sorriu e dirigiu a palavra à dona da quitanda, pois sabia que dentro de segundos, quem sabe até milésimos, o filho perguntaria outra coisa. E mesmo que insistisse, não era nada desesperador ou preocupante.
- A senhora poderia pegar para mim cinco maçãs, dois abacates, um abacaxi, quatro goiabas e três cachos de uva?
Ágil e disposta, a pequena japonesa colocou cada tipo de fruta num saquinho plástico e depois os juntou, colocando-os numa sacola maior.
- Mamãe, você me ouviu?
- Ouvi, Bernardo. – respondeu, atrapalhada em soltar a mão do filho e colocar a menina no chão para poder abrir a bolsa e tirar o dinheiro.
- Você me pega depois, Nathalie. Não se preocupe!
- Imagine, Dona Chuchu. Espere só um instantinho.
Enquanto isso, Alice logo abraçou a perna da senhora e calou-se, paciente. Porém, Bernardo insistiu:
- De onde vêm os bebês?!
- Da barriga das mamães, filho.
- Aaaaaaaah... – e fez cara de pensativo, deixando a mãe ainda mais apaixonada – Mas como elas ficam com aquele barrigão?
- Bem – interrompeu Dona Chuchu, ajudando – na verdade, o papai e a mamãe decidem quando querem ter seus filhos e, então, o papai compra uma semente mágica e dá pra mamãe comer, entendeu?
Os olhinhos verdes fixaram-se na pequena e curvada senhora que havia lhe explicado enquanto a mãe ainda procurava a carteira na bolsa.
- Mas onde ele compra a semente?
- Numa quitanda! – disse Dona Chuchu, entusiasmada.
- Numa quitanda?
- Sim. A semente que a mamãe deve comer para ficar com o barrigão é uma semente de melancia!
- Não! – gritou Bernardo, visivelmente preocupado e espantado.
- Que foi, filho? – apressou-se em perguntar, já preocupada.
- Mamãe... - vacilou – lembra quando comemos melancia nessa semana?
- Uh-hun. – e sorriu, já imaginando o que estava por vir.
- Eu acho que engoli uma semente – e fez uma cara de pavor. – E agora, mamãe, e agora?! Ficar com barrigão é coisa de menina!
As duas adultas irromperam em gargalhadas de divertimento com a inocência da criança ruiva.
- Não, queridinho – interveio a nipônica – só acontece quando mamãe a papai realmente querem que aconteça, entendeu?
- Ah, então tudo bem. Mamãe, eu não quero que aconteça, viu?
Nathalie ainda se recompunha das risadas quando sorriu para o filho, concordando e, enfim, entregando o dinheiro à dona da quitanda. Com os olhos, agradeceu imensamente pela explicação da gravidez e, pela última vez do dia, lhe sorriu um sorriso de extremo carinho e afeição.
- Agora vamos, crianças. Digam tchau à Dona Chuchu!
- Tchau, Dona Chuchu! – esganiçaram os gêmeos, quase que em uníssono.
Alice estendeu os bracinhos para que a mãe a pegasse. Novamente carregando a loirinha nos braços e o ruivo pela mão, a morena foi de encontro ao lava-rápido do outro lado da rua e pediu seu carro. Pagou com o dinheiro que desde a quitanda já havia separado no bolso esquerdo da calça jeans para não causar a mesma confusão, e então o manobrista lhe trouxe o Toyota preto.
- Obrigada. – sorriu com extrema simpatia usual.
Abriu a porta traseira do lado do motorista e ajeitou Alice na cadeirinha lilás e roxa. Após ter colocado o cinto de maneira correta, virou-se e viu o menino conversando de forma empolgada com um dos manobristas. Sorriu contente em ver o filho e o chamou. O garoto veio correndo, ela o pegou no colo e, fechando a porta, abriu a do outro lado, ajeitando Bernardo na cadeirinha preta e azul. O procedimento foi o mesmo e então fechou a porta, dirigindo-se para seu lugar.
Fechou a trancou a porta pelo lado de dentro, colocou seu cinto de segurança e abaixou os óculos, protegendo os olhos. Ao sair, buzinou, agradecendo pela última vez e despedindo-se do dono do estabelecimento.
Colocou o CD das crianças, pegou a avenida principal e em menos de meia hora estava em casa. Estacionou o carro e levou as crianças para cima. Ao abrir a porta lígnea do apartamento, as crianças entraram correndo para o quarto.
- Não se esqueçam de lavar as mãos!
Fechou a porta atrás de si e foi, junto aos gêmeos, lavar as próprias mãos. Após deixá-los em segurança no quarto, foi à cozinha preparar o jantar.
A refeição foi tranqüila e calma. O marido não havia se atrasado e também estava de ótimo humor. Todos conversaram e comeram bastante à mesa. Enquanto Nathalie tirava a mesa e lavava a louça, Luiz deu sorvete às crianças e logo depois deu-lhes banho, ninou e as colocou na cama, já adormecidas.
Ao voltar para o quarto, encontrou a mulher vestida com sua camisola de seda preferida, sentada na cama, lendo um de seus livros. Tomou uma ducha na suíte e voltou para a cama, sentando-se ao lado dela e soltando um suspiro de alívio.
Ela leu o último parágrafo, pegou a rosa e marcou a página, deitando o livro sobre seu criado-mudo.
- Como foi o serviço hoje?
- Bom.
- Só bom?
- Na verdade, foi ótimo, Rafael disse que talvez na próxima semana eu comece como gerente.
- Gerente?! – e deu um pulo na cama, abrindo um largo sorriso.
- Sim.
- E por que não me contou antes?
- Não é nada demais...
- Como não é nada demais? Claro que é!
- Ah, queria fazer suspense – e riu de leve, tímido e gracioso como sempre.
- Aaaaaaaaaah, meu amor! – ela nem precisou falar quão feliz estava, seus beijos e abraços disseram tudo.
- Mas e o seu dia, como foi?
- Foi bom.
- Algo de surpreendente?
- Ah, a cada dia me surpreendo mais ao ver que eu consigo gostar ainda mais dos gêmeos.
Ele riu.
- Realmente, eles são uns amores. E eu os amo muito, mesmo.
- Sabe, não sei explicar, só sei dizer que hoje estou imensamente grata.
- Pelo quê, meu bem?
- Por tudo. Estou me sentindo extremamente bem e grata.
- Isso é bom.
- É, sim.
Em meio a conversas e beijos, Luiz adormeceu antes que ela. Nathalie não demorou muito a dormir também, mas nos últimos segundos acordada, uma sensação de gratidão e satisfação inundou seu corpo e a fez sentir num daqueles dias em que nada estragaria seu bom humor. Não sabia se o dia seguinte seria assim. Dificilmente seria, mas só aquele dia, aquele exato dia, valeu por uma semana toda, quem sabe até duas. Os gêmeos e o marido era tudo que um dia sonhou ter. E além disso, tinha um emprego maravilhoso e uma família toda muito amável.
Era apenas mais um daqueles raros dias em que tudo dá certo e que motivos externos não nos afetam nem um pouco.


Natália Albertini.