domingo, 30 de novembro de 2008

Outback

Um bar sofisticado, com taças, copos e bebidas diferenciados. Dois rapazes estrangeiros se divertindo com alguma observação do bartender. Um chopp para cada um deles. Dois tons de azuis, um em cada camisa. Uma alianças escondida em cada bolso traseiro das calças jeans. Dois olhares atentos, famintos e adúlteros sobre as moças do outro lado do bar.
Um casal por trás de uma mesa de madeira escura. Uma moça procurando algo atrativo no cardápio. Um rapaz, embora abraçado à moça, lançando um olhar lupino e infiel a uma jovem que passava no corredor ao lado com um shorts não muito comprido e de corpo atraente.
Uma senhorita esticando o pescoço por sobre o encosto do banco para olhar o atendente alto, de ombros largos, loiro e de olhos azuis que trajava um uniforme amarelo e limpava a mesa ao lado.
Juro que acho que eu realmente me apaixonei por ele...

Ps.: Hehe...besteiras avulsas.
Natália Albertini.

Workaholic.

Pietro desceu as escadas correndo, esperando encontrar a avó a lhe esperar com a intenção de levá-lo até em casa. Entretanto, o que, ou melhor dizendo, quem encontrou superou toda e qualquer expectativa, exaltando-o em felicidade. A mulher que o esperava era relapsa, negligente. Era alta, esbelta e com cabelos vinho. Era devota ao seu trabalho (e, se me é permitido dizer, aparentemente só a este). Não se deu ao trabalho de levantar ou de olhar aos olhos do menino que se espantou ao vê-la. Apenas o olhou desanimada, suspirou e pensou consigo mesma que precisava de férias de tudo aquilo, ou simplesmente precisava voltar ao trabalho.
Os gritos do menino podiam ser ouvidos por toda a escola.
- Mãe! Mãe! Mamãe! Mamãe, mamãe, mamãe. Mãe! Olha, Vê, essa é minha mãe! - apresentou-a ao coleguinha com um sorriso enorme estampado no rosto e voltou a olhar encantado para a mulher á sua frente, enchendo-a de beijos e abraços.
Assim que conseguiu se livrar de tudo aquilo, a mulher se pôs de pé e segurou com força o pequeno braço daquele garoto que se via obrigada a chamar de filho.
- Você demorou. Vamos indo.
A professora se percebeu com os olhos marejados. Ah, como adorava ter aquelas crianças por perto. Como adorava crianças. Elas simplesmente viam tudo da maneira mais simples possível. Nem em um milhão de anos uma criança perceberia que sua mãe, ao contrário de uma heroína, que é o que pensam, é, na verdade, uma viciada em dinheiro que realmente acha que isto é muito mais do que tem de dar a seu próprio filho. Será que pensando que ele é um próprio pedaço seu, ela mudaria suas atitudes?
Puro egoísmo.

Natália Albertini.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Só um minuto, John.

O ônibus estava razoavelmente espaçoso, isso é, ninguém era obrigado a ficar de pé. Nos quatro últimos assentos do lado direito, logo à frente da porta traseira, sentavam-se duas moças e duas mulheres mais velhas. Estas últimas sentavam logo antes da porta. Já aquelas, um banco à frente.
Os fones serviam de ponte para John Mayer alcançar a mente da moça mais jovem, sentada ao corredor. A que estava ao seu lado babava no vidro, profundamente adormecida, quando o diálogo das mais velhas chamou a atenção da mais jovem das quatro:
- Ééééé, dizem que a vida começa aos 40. Acho que têm razão. Porque a minha começou mesmo... Começou a piorar! - e riu, acompanhada da colega ao lado, que prosseguiu a conversa.
- Pois é, depois dos 40, os "gistas" despencam em cima da gente, né? É cardiologista, oftalmologista, nefrologista, otorrinolaringologista (não que ela pudesse realmente pronunciar isso, mas tentou ao máximo), neurologista, pneumologista, reumatologista...
- É, e por ai vai...
John Mayer teve de esperar. Ele que sussurrasse em seus ouvidos mais tarde, pois aquela conversa merecia mais atenção. Olhou aflita para os lados, para checar se alguém acompanhava o diálogo: nada. A mulher a seu lado dormia, o velhinho do outro lado do corredor lia o jornal, o cobrador contava o dinheiro. Nada, ninguém não se dava ao trabalho de parar o que quer que estivesse fazendo por um só segundo e ouvir aquelas mulheres que conversavam em alto e bom tom.
As duas mulheres conversavam sobre um dos maiores medos da humanidade, um dos maiores mistérios ou seja lá o que fosse, conversavam sobre uma questão ótima: o tempo. E ninguém tinha a capacidade de dividir o seu. Era precioso demais.
É, talvez fosse isso. Talvez achassem seu tempo sagrado demais e acreditassem que aquelas duas mereciam ser queimadas vivas por tamanha falta de respeito para com seu deus.
Teve vontade de se virar e encará-las admiradamente, mas não o fez, pois sabia que nenhuma tomaria aquilo como um gesto de respeito, mas sim como desrespeito. Decidiu por apenas continuar a ouvir. Entretanto, uma delas teve de descer, pois "a casa de sua patroa era logo ali, virando a esquina".
A garota também desceu. E, assim que o fez, John foi testemunha de quanta indignação o olhar da menina continha.

Natália Albertini.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Joaninha

Com mais um de meus intermináveis períodos dionisíacos, tenho chorado até sentir a garganta implorar-me para parar, meus olhos me dizerem que não têm mais água e minha barriga se contrair. Tenho feito caretas para a vida, ainda que com o Sol brilhando lá fora.
Hoje uma joaninha pousou em minha blusa. Eu a peguei na mão e depois de alguns segundos, ela bateu asas e levantou vôo. Acho que minhas lágrimas abrangem isso também.
Eu não tenho do que reclamar da minha vida. Não derramo água salgada por ingratidão ou, como eu mesma digo, bichisse. Acho que é apenas medo. Medo de perder tudo de uma hora pra outra. Medo de perder todos de uma hora para outra.
Esse final de ano talvez represente pra mim muitas mudanças, e eu tenho muito medo disso, afinal, estarei entrando num último ano de uma trajetória longa que foi acompanhada por pessoas muito especiais. Mais um ano vai se passar e todos vão continuar envelhecendo. E, meu Deus, que medo que eu tenho de perder vocês.
Que medo que eu tenho de, daqui a pouco, olhar pro lado e me ver sem o meu Gustavo. Que medo que eu tenho de, daqui a pouco, olhar pro lado e me ver sem meus avós, sem meus tios, sem meus primos, sem meus pais, sem minha irmã. Estremeço por inteiro só de pensar nisso, porque é a coisa mais horrível que poderia me acontecer qualquer dia.
Eu quero, sim, que todos vocês batam asas, mas, pelo amor de Deus, jamais levantem vôo. Isso pode ser egoísmo, mas eu simplesmente não posso perdê-los, de jeito algum.
Eu tento me distrair e, por vezes, até esqueço de tudo, mas assim que desligo a TV, o computador, assim que fecho meus livros, que guardo minhas canetas e lápis no estojo, assim que deito, assim que entro no banho, assim que paro de falar, o medo me invade novamente.
Ele só está aumentando, e eu não sei o que fazer para terminar com toda essa angústia.
Eu só queria conseguir fazer aquelas três palavras saírem de minha boca algum dia, principalmente para meus pais e minha irmã. Eu juro que tento cada dia mais, mas parece que a cada dia os amo mais e mais, logo, torna-se mais difícil.
Talvez eu poste isso e talvez não, vai depender da consciência de meus dedos.
E se algum dia eu levantar vôo antes de vocês, que pelo menos minhas palavras daqui prevaleçam com vocês, tomando a forma de meu amor.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

The sweetest thing.

Sigur Rós - Salka
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Estava sentada, lutando contra o sono que a livraria de toda aquela dor de cabeça, quando ele se aproximou. Ela não fez nada, apenas continuou do mesmo jeito que estava, e até tentou sorrir. Entretanto, o que tinham entre eles era tão forte que assim que chegou perto o suficiente, perguntou o que acontecia e a abraçou.
O abraço foi o suficiente para lembrá-la do quanto se importava com aquele homem que conheceu quando garoto, e fazê-la irromper em lágrimas silenciosas que só poderiam ser compreendidas pelos ouvidos dele.
O que se seguiu foram trocas de palavras e pequenos gestos que camuflavam a vontade de continuar em silêncio apenas contemplando a bondade do mundo em tê-los unido. Não sabia ao certo como conseguiria algum dia explicar-lhe o quão bom era saber que o tinha, nem sabia se o conseguiria. Mas, minutos mais tarde, deu-se por conta, pela trilionésima vez durante os cinco anos de amizade, que não precisava dizer nada, ele simplesmente sabia.
E a cada toque ou olhar trocados, ela sentia uma pontada no coração. Eram medo e amor entrelaçados.

Ps1.: acho que já postei essa música, mas encaixou direitinho, so...
Ps2.: você sabe que é pra você e, novamente, obrigada por tudo.
Da sempre sua,
Natália Albertini.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Remember, remember the fifth of november
The gunpowder treason and plot
I see no reason
Why the gunpowder treason
Should ever be forgot

Today is the day, dear V.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

- Minha filha?

Todo o brilho da Lua refletia-se no negro cabelo comprido e liso dela. Sua franja caída nos olhos os deixavam um tanto quantos místicos. Seus longos cílios protegiam seus rubis mais verdes que qualquer outros. Seu nariz era fino e alongado aristocratamente. Suas sobrancelhas eram razoavelmente finas e curvadas, dando-lhe um leve ar de tristeza que entrava em contraste com seu sorriso branco que se escondia debaixo de sua pinta no canto direito da boca. Deus, todo seu rosto.
Seu pescoço tinha duas pintinhas que quase alcançavam o ombro esquerdo. Meus Deus, todas as pintinhas.
Seus ombros eram magros e desciam por braços compridos e mãos alongadas com unhas bem pintadas debaixo dos vários anéis. Oh, os anéis...
A maneira com que pegava o copo e o colocava na boca, a maneira com que engolia o líquido, a maneira com que devolvia o copo à superfície da mesa ao mesmo tempo que passava a língua discretamente pelo canto dos lábios achando que ninguém perceberia, a maneira com que rodava o anel de seu indicador direito, a maneira com que jogava o cabelo para o lado direito, tornando-o mais volumoso, a maneira com que sorria agradecendo ao garçom, a maneira com que revirava a bolsa em busca de um batom, tudo, tudo o que fazia, meu Deus, ela era perfeita e havia saído dele. Como ele poderia ter criado algo tão perfeitamente magnífico?
Tanta magnitude, entretanto, trazia-lhe tristeza. Oh, Deus, ela era tão ela... Ela era tão a mãe dela. E a saudades que sentia de sua mulher era indescritível.
E cada dia mais se odiava por não saber se amava a filha por ser ela mesma ou simplesmente por ser igual á mãe em cada aspecto particular.


Natália Albertini.