segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Uivos.

Ela fica ali, jogada àquele gramado minimamente verde.
Tem nos ouvidos pequenas coisinhas brancas que parecem emitir algum som.
E pensar que antes ela só gostava da minha voz...
Ela se joga ali, com um trecho da cintura de fora, achando que pode me provocar sem ter o troco, ora essa!
Dedilho, então, sua franja, bagunçando-a.
Ela, sem nem sequer destrancar os cílios, arruma os cabelos alaranjados de volta e retorna à inércia.
Irritado, balanço o topo das solitárias árvores que a cerca, fazendo uma ou outra folha cair aqui e ali. Ela nada, deixa os lábios ali, meio-abertos, me tentando a tocá-los. O faço, secando-os, mas ela passa a língua por eles, umedecendo-os novamente.
Passo meus braços, suaves, por seus quadris, arrepiando-a.
Ela, que ontem atirou desesperos e desaforos a mim, como um tapa em meu rosto, sorri de canto e, sem muitos movimentos, faz com que o som daqueles pontinhos brancos aumentem.
Não!
Você deve ouvir A MIM!
SOMENTE A MIM!
Ora, que penso eu?
Me acalmo, a deixo em paz por hoje, pois sei que por mais que eu uive à sua janela ou lhe despenteie os cabelos, ela nunca me verá.

Natália Albertini.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Verde, Vermelho, Preto.

Verde.
Vermelho.
Preto.
Verde.
Vermelho.
Preto.
A sequência das luzes coloridas se repetia, se alternava e se misturava freneticamente, às batidas da música ensurdecedora que fazia o chão da casa vibrar.
A moça tinha as voluptuosas pernas de fora, numa saia curta, e as costas à mostra, numa blusa propositadamente rasgada.
Balançava o corpo, dando ombradas brutas e cabeçadas violentas nas ondas de som, atingindo-as com força ao mesmo tempo em que as usava para embalar os membros de maneira graciosa.
Os olhos iam fechados, orgulhosos demais para encarar qualquer um. Os cabelos iam soltos e bagunçados, sendo revirados a cada movimento de cabeça. As mãos, aneladas.
De longe, ele, com os olhos, lhe ateava fogo, a via queimar sem piedade, em chamas altas.
Tomava os últimos goles da vodka pura e sentia a garganta arder em fogo, bem como ela ardia.
Passou a mão pelos negros e espessos cabelos e tomou passadas largas, decididas, imponentes.
Ela sentiu uma presença intimidadora se aproximando e abriu de súbito os olhos, encarando os dele rightaway.
Sem dizer palavra e sem um toque sequer, ele encontrou as batidas dela, e passaram a dançar em sincronia, agressivos e rudes.
Verde.
Vermelho.
Preto.
Verde.
Vermelho.
Ele a pegou pelo antebraço, apertando-a. As marcas de seus dedos ficariam ali por uns bons dias.
Ela sentiu-se bem com aquela dor.
Ele a empurrou escada acima, sem prestar atenção aos degraus que rangiam ao ritmo da música ensandecida, para o piso onde o número de pessoas era menor, mas não o volume das batidas.
Enfiou-a por uma porta pixada, vendo-se num banheiro mal ajeitado.
Trancou a porta atrás de si.
O corpo dela ainda se movia em sincronia com o som que entrava sem convite pelas brechas das paredes.
Ele a virou de costas, forçando-a contra a parede.
Ela não sorriu, mas os olhos não pediam parada tão imediata. Ajudou-o a apertar os próprios peitos.
Ele levantou sua saia e forçou os ossos de seu quadril contra os azulejos azuis, sentindo-a puxar com imensa força seus cabelos da nuca.

Vermelho.
Preto.

Natália Albertini.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Melodia.

Esticou a canga sobre a esteira, naqueles incontáveis e minúsculos grãos de areia.
Tinhas mexas do cabelo trançadas e enxarcadas, bem como a roupa de banho e o resto do corpo.
A água salgada ainda fresca escorria-lhe nuca abaixo, pelos ombros e braços, pelas ancas e pelos quadris.
Pôs-se de joelhos sobre as cores que acabara de esticar sob o Sol e então deitou-se com as costas para cima, apoiando a cabeça nos braços cruzados.
A inspiração calma e a expiração sossegada faziam os ombros subirem e descerem delicadamente.
Os raios amarelamente lânguidos lambia suas costas de forma esponjosa.
A sombra do prédio atrás da orla começava a se espreguiçar à areia.

Abriu os olhos devagar, com os cílios empoeirados.
Passou a língua pelos lábios e, com o cenho franzido, girou a cabeça para saber onde estava.
O sol havia dado espaço à imagem projetada do prédio, em cinza claro, ao bege.
Envergou o corpo para trás e avistou sua irmã, sentada numa cadeira, com os pés enfiados nos minúsculos e infindáveis grãos. A garota lhe mandou um:
- Opa! Viva?
Sorriu de canto e só aí percebeu que adormecera sob o sol, sobre a areia, com a melodia do oceano indo e vindo lhe embalando os pensamentos oníricos.

Ps.: isso faz tão bem. (:
Natália Albertini.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Tigres.

Com um coque bagunçado ao topo da cabeça e a testa limpa, entrou no elevador.
Tinha o corpo confortável e leve vestido num vestido ralo, roxo, liso. Os pés a chinelos.
Deu bom-dia à grávida e ao homenzinho uniformizado de mochila às costas, prestes a ganhar um irmaozinho.
Nem se deu ao trabalho de olhar seu reflexo. Só checou os bolsos: um tinha a chave, o outro, o celular.
Enquanto se perdia em sua reflexão bolsínea, a mulher grávida de cabelos dourados e óculos de sol grandes disse, encarando o abdominal da moça:
- Ai, queria ser mocinha assim outra vez... Queria poder usar uns vestidos fresquinhos assim!
O coque quase se desfez.
Os olhos de cílios ainda não pintados ergueram-se às lentes do rosto em frente, interrogativos.
O suspiro da mulher foi perceptivelmente nostálgico, longe da inveja.
A moça, dissimulada, soltou um leve muxoxo em forma de risada, com os lábios retorcidos à esquerda.
Quando a mãe e o filho saíram do elevador, se despediram.
Sozinha, silenciosa, encarou seu reflexo.
Testa lívida, cabelos repuxados para trás, pescoço altivo.
O decote do vestido deixava o topo dos seios ainda infantis à mostra, mas nada que os tornasse provocativos.
A cintura era rasamente acentuada pelo tecido fino, enquanto as pernas se deixavam à mostra, delgadas e inocentes, esquálidas ao mesmo tempo.
Sentiu-se aos treze anos, uma menina ainda, e sorriu, incompreensiva, para a fala da mulher.
Assim que ergueu os olhos para os de seu reflexo, entretanto, teve tempo de pegar as garras do tigre lhe arranhando internamente as íris.
Assustou-se e afastou um passo.
Seu reflexo, entretanto, não.

Natália Albertini.