domingo, 30 de julho de 2017

Clareia

Leve abrir dos olhos.
Gosto de cerveja ainda na boca.
Inspira. Expira.
O dia já vai claro, mas a noite de ontem ainda parece próxima.
Rasa tontura
Ele respira também, profundo.
Seu peito sobe, e desce, junto com minha cabeça.
Abro mais um pouquinho os olhos.
Meu nariz encosta seu queixo.
Inspiro mais uma vez.
Beijo seu ombro, me aninho melhor, beijo seu pescoço.
Não há melhor manhã que essa.

domingo, 2 de julho de 2017

Vá.

A cabeça era um espiral só.
Uma névoa tão grande por detrás dos olhos que mal se via no espelho que ficava à sua frente.
Sentada na cama, ainda lhe parecia que faltava o chão.
Os mesmos questionamentos, todos os dias, pelo milésimo dia consecutivo.
Por quê? Pra quê? Pra quem? Até quando?
Já não aguentava mais.
Pois levantou-se num impulso único, deu seus passos pesados, passou a mão na chave do carro e na jaqueta, e bateu a porta atrás de si.
Foi-se.

domingo, 2 de abril de 2017

Outra vez.

Mais uma vez, a morte me pega de sopetão.
Numa sexta à noite, quando tudo ia bem, a morte veio pelo telefone, nos deprimir, nos revirar.
"Infelizmente, ela não aguentou", foi a mensagem passada.
Muita correria, meus pais viajaram na madrugada com meus avós para chegarem até meu tio, lá no Sul.
E estamos nos falando por whatsapp por enquanto.
Minha mãe diz que está tudo até que bem, sem muito choro... Mais de vinte anos, fazia, que ela teimava com o câncer em deixá-la por aqui mais um pouco.
"Foi melhor assim pra ela", a gente tenta se consolar...
Foi? Será?
É engraçado como a gente tenta achar meios de aliviar a dor.

Eu sei, tia, que a gente não se via há um tempão. Mas sei também que o amor era puro. Assim como meus cachos sempre nascem loiros e o seu cabelo sempre nascia tão preto e forte, como você sempre brincava.

Isso ai.
Outra vez você vem mostrar seus caninos e me derrubar. 
Parabéns, você não erra nunca, desgraçada.
Espero que um dia se depare consigo mesma. E que se leve.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Um novo ano.

Acabei de voltar de Buenos Aires. Passei lá oito dias.
Foram oito dias incríveis. Mesmo.
Por muitas vezes eu pensei em escrever algo, mas na correria da viagem e no cansaço que me batia ao entrar no quarto do hotel, deixei passar.
Eu tinha uma ideia bem boa, tentei ao máximo guardá-la. Posso até revirar as memórias agora e tentar vomitar algo, mas... Não sei...
Bem, um novo ano começou.
Achei que valia o marco aqui.
Um novo ano. Uma nova chance de eu voltar a escrever, de me revirar.
Vejamos o que isso me traz...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Deusa

Eu passei pela porta, escolhi uma das raias e fiquei de pé, na frente dela.
Joguei meus óculos na piscina e comecei a me alongar brevemente.
Percebi, então, dois pares de olhos logo à minha esquerda, mais abaixo.
Eu olhei.
Eles congelaram.
Eram dois rapazotes, de seus 17 ou 18 anos, provavelmente fazendo uma aula teste na piscina, e dividiam a mesma raia.
Eles me olhavam estarrecidos.
Eu, de pé, acima deles, os choquei. 
O olhar deles, estarrecido, sem palavras, me alimentou, e eu cresci.
Tinha meus 1,70m. Depois, 2m, 3, 4, 5, 6 metros de altura.
Me tornei imponente.
Minha forma física e aura tomaram conta da atenção deles de forma que nenhum outro som era ouvido senão o de admiração deles. Uma admiração sem entendimento. Eles me olhavam sem saber o por quê.
Era a Deusa que se mostrava por mim.
Quebrei o brilho que me rodeava e mergulhei, nadando como eles nunca viram outra humana nadar.
Ficaram completamente estancados, embasbacados. 
Eu fui Igraine, Morgause e Morgaine.
Para eles, fui Ela.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Über?

Eu estava bem irritada, porque havia esperado uma carona e não tinha dado certo, então, além de sair atrasada, ia ter que pagar por um Uber.
E tem outra, tava garoando. Aquele clima horrível de fim de tarde em São Bernardo.
Ah, foi me irritando também o fato de passarem os minutos e o cara não chegar pra me buscar, o GPS do Uber tava bagunçado, então já viu...
Enfim, chegou. Emerson, chamava. Num Honda City bem confortável, por sinal.
O caminho do escritório pra minha casa não durava mais que 15min, mesmo.
Eu realmente não sei como, mas ele começou a me contar que havia voltado da Alemanha nesse ano.
Ele teve um restaurante aqui em São Paulo durante 30 anos. Tinha se casado por aqui e teve até um neném!
Quando o bebê tinha por volta de um ano, eles resolveram vender tudo e simplesmente ir morar em Düsseldorf, onde ele abriu um café e eles viveram durante 2 anos.
Eles acabaram se separando e ele voltou para "resolver algumas pendências aqui", sobre as quais, claro, eu querendo evitar ser nosy, não perguntei, mas ele mesmo assim disse que pretende voltar pra lá ainda no ano que vem. Que está trabalhando e juntando dinheiro pra isso.
Que é um lugar maravilhoso pra morar. Que as coisas deram certo. Que, claro, ele passou por bons perrengues, mas que aquela cerveja e aquela comida e até mesmo aquele povo fizeram valer a pena.
Caralho, sabe... Caralho!
CARALHO, mundo, universo, sei lá que merda de força pode existir nesse planeta.
Jura?
Jura que nessa fase de pensar tanto nisso, você me joga uma dessas na cara?

Gastamos os últimos minutinhos contando experiências engraçadas que vivemos na Alemanha e sentindo saudades da cerveja e das Bratwurst.
Eu não podia simplesmente sair, sabe? Sair e só.

Eu agradeci Emerson:
- Cara, que foda... Muito obrigada MESMO por essa conversa. Só meu deu mais fôlego, mais ânimo pra seguir no caminho que venho traçando.
- Nossa, EU que te agradeço. Isso só serviu pra me lembrar meus objetivos e me fazer ir em frente!
- Emerson, tenha um ÓTIMO final de semana.
- Natália, você também! E boa sorte na sua jornada!
- Pra você também!

Foi isso...
Eu precisava escrever, pra nunca esquecer isso.
Espero ir tomar um café com Emerson daqui uns 2 anos, mas pedindo Kaffee mesmo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Mendigos.

Ele era o que chamamos de mendigo. Um dos mais pobres.
Sentava numa mureta da esquina, com as roupas maltrapilhas e malcheirosas, rotas. Tinhas a muletas também apoiadas à mureta, enquanto descansava sua única perna.
Tinha uma toca à cabeça e cabelos muito ralhos e grisalhos.
A vida não lhe tinha sido leve.
Tinha o feito sujo, desgraçado e pobre. Muito pobre.
À sua frente, contudo, sentava um cachorro.
Um vira-lata, assim como ele mesmo. Com o pelo indefinido e até meio grisalho.
Se postou ali e ali ficou. Sentado, encarando o mendigo. Encarando. Encantado.
Sua admiração crescia e crescia, naqueles pequenos olhinhos cintilantes.
Era tão visível que arrancou do mendigo um grande sorriso.
O mendigo lhe estendeu a mão. Ele lhe estendeu a patinha direita em retorno.
Os dois ficaram se encarando, de mãos dadas, infinitamente.
Os dois seres mais ricos do mundo.

domingo, 3 de julho de 2016

Aos trancos, pro barranco?

O pé ia mais e mais fundo no acelerador.
Trocou de marcha rápido.
Passou a mão esquerda pelo lábio e a viu se encher de sangue.
Puta merda... Puta merda.
Segurou o volante com a mão direita e, com a ensanguentada, rolou a tela do celular.
O carro ia aos trancos pra frente, até desembocar na rodovia.
O jeans rasgado ao joelho direito e mais sangue lhe escorrendo pela têmpora.
Os 130km/hr pareciam não dar conta de deixar aquele pesadelo pra trás.
Ela tinha feito de novo!! Puta que pariu!
Ele meteu o pé no freio e encostou na beira da rodovia, perto de um córrego. O mau cheiro lhe estapeando e a noite ficando mais escura.
Desceu do carro e acabou deixando a porta manchada de sangue ao batê-la.
O sinal do celular não voltava.
VOLTOU!
Ele apertou logo o botão de chamar e aguardou alguns segundos.
Enquanto aguardava, limpou a mão de sangue no jeans e passou o braço da jaqueta na boca e na têmpora, secando o sangue dali.
- PORRA, achei que não fosse atender. Ela... De novo... Não, não... Não, não, não. ELA, porra, tô te falando.
O ar gelado e quase nenhum carro passando à frente. O cabelo encharcado na nuca e a bateria do celular apitando.
- EU SEI! Eu sei, mas ela não apareceu... Só me armou outra.
Ele enfiou a mão no bolso e rodou o pequeno objeto que guardava desde o último quase-encontro.
Rodou-o nos dedos e o deixou, por fim, quieto, ali de volta.
- Tá, tá. Tá, eu sei. Vou praí.
Afundou o celular no outro bolso, bateu a porta do carro e arrancou noite adentro.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Delorean

O céu estava azul claro, quase cinzento, mas com a promessa de alguns raios de sol, como há muito não prometia.
O vento beijava de leve a janela do espaçoso e tranquilo apartamento.
Ela apoiou as duas mãos no parapeito daquela janela, que servia de apoio pra algumas almofadas e já tinha servido de cantinho da leitura.
A cidade se estendia à sua frente, meio cinza, mas com muitas árvores.
Ela girou a cabeça devagar num sentido e depois, no outro. Bocejou e se esticou, ainda despertando.
O cheiro de café lhe aquecia.
A cidade continuava se estendendo, bem como seus pensamentos.
Inspirou devagar e sorriu de canto... Pensar que, há alguns anos, achava que aquilo jamais aconteceria, que ela nunca nunquinha estaria ali...
Riu de leve, sozinha, e bocejou mais uma vez, desdenhando da própria inocência.
Com achou que não conseguiria?
Mais cheiro de café.
Passos leves, descalços, com um leve arrastar de moletom pelo chão lígneo.
Ela sentiu os braços fortes e quentes a envolverem por trás.
Ele apoiou o queixo em seu ombro.
Ela inspirou mais uma vez e recostou a nuca no peito dele.
Eles respiraram devagar juntos.
- Lembra quando eu dizia que nunca ia conseguir vir pra cá? - ela perguntou, com deboche.
- Lembro! E você nunca acreditava quando eu dizia que íamos conseguir - ele riu de volta e beijou-lhe a nuca.
Ofereceu-lhe, então, a xícara de café, que dividiram - old habits die hard.
Eles ficaram assim por mais alguns minutos, até despertarem pra quinta-feira e partirem para seus trabalhos (incríveis, por sinal).
Não esqueceram, é claro, de alimentar Mingau e Jujuba.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Raia.

Azul claro.
Azul claro, mas a faixa, no meio da raia, era quase roxa.

Um, dois, três, quatro, cinco e respira.

Um, dois, três, quatro, cinco e respira.
Um, dois - roxo - três, quatro - azul piscina - cinco e respira.
Um, dois - roxo escuro? - três, quatro - azul escuro!

Uma lâmpada, lá em cima, estourou.

Algumas faíscas caíram na piscina.
Metade dela ficou desiluminada.

Parou de nadar e afundou o corpo um pouco.

Olhou em frente.
Azul escuro e cinza. No light.
A água esfriou e o ar já tinha deixado completamente seus pulmões. 
Bateu as pernas desesperadas à frente, tentando se impulsionar no sentido contrário em que vinha.
Rápido, rápido, bate perna, bate perna, nada!!
NADA?!
Tentou alcançar a superfície da água. Via o reflexo distorcido do professor conversando com um outro aluno.
Tentou gritar, mas só bolhas saíram.

Dedos. Dedos muito, muito gelados e viscoso em sua canela direita.

Adeus.