quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Marcela

Tinha um ás, um valete e um quatro de copas em mãos. 
Os casais à sua frente riam e jogavam suas cartas, felizes de vinho.
Ela sorria junto, mas a mente começava a divagar.

- Marcela, joga logo! Eu já falei! - o pai lhe beliscava o cotovelo na poltrona apertada do avião
- Ai, pai! Eu não consigo clicar nesse.
- Meu Deus do céu, Marcela, eu já falei, porra, é aqui e depois aqui.
- Aqui, pai?
- É, vai logo.
- Tô fazendo certo, papai?
Silêncio do pai, olhando pela janela o céu ensolarado.
- Mamãe, olha, tô jogando baiaio!
- Ai, filha, é BA-RA-LHO. Puta merda... - expirando ar quente, cansada e desatenta.
A franjinha de Marcela lhe caía aos olhos. Ela se esforçava o máximo que podia para clicar na carta certa que o celular lhe mostrava, mas os números e cores eram confusos, ela não sabia ao certo qual... E se clicasse errado, papai ia beliscar de novo e de novo, e ela não queria.
Tentou cutucar mamãe para pedir ajuda escondido, mas ela tirou a mão quando sentiu os dedinhos lhe chamarem.
- Papai?
- Marcela, fica queita, pelo amor de Deus, eu não aguento mais ouvir a sua voz. Tem 2 horas que você não cala a boca.
Ela se encolheu na poltrona e tentou se concentrar novamente.
Olhou para os bancos da frente e, pela fresta, viu uma moça desconhecida lhe sorrindo e dando tchau. Ela não respondeu, mas também não desviou os olhos castanhos.
Tentou se aninhar no braço do pai, mas ele também se retraiu. Ele resmungava baixo sobre a mãe sempre deixar a menina fazer tudo que ela queria.
A mãe tinha o olhar fixo no chão, mas com uma expressão vazia.
Marcela juntou tudo que o pai lhe tinha dito e escolheu por fim uma carta. Clicou.
A tela do celular mostrou GAME OVER e emitiu um barulhinho de derrota.
- Puta que pariu, Marcela, você não conseguiu? Devolve aqui esse celular!
- Mas papai, eu tava tentando, me dá de voltaaaaaaaa - gritou.
Outro beliscão, e esse era dos fortes, para lhe calar a boca a contragosto.

- Ma? Marcela, amor?
- Ahn? - de volta.
- Amor, é sua vez - disse o noivo.
- Ah - ela sorriu para disfarçar - Ah, nossa, viajei! - rindo forçada.
Jogou uma das cartas e tentou parecer entretida.
Por debaixo da mesa, ela subiu um pouco o vestido e beliscou a coxa com toda força que tinha, colecionando mais um hematoma.

Saudades da Bahia

O barulho do mar já ia longe, quase não se ouvia.
Ele abriu o portãozinho, que rangeu lhe dando boas-vindas.
Arrastou o pé com as chinelas já gastas pelo ladrilho do quintal comprido, se esgueirando para passar no corredor estreito sem derrubar os chapéus e redes que tinha na mão.
Lá do fundo da casa, veio correndo Preta, com as patas sujas e o pelo desgrenhado.
- Ôh, Pretinha, cheguei, minha flô - acariciando a cabeça da cadela.
Ela latiu, pulou e se jogou com a barriga para cima, com fome.
- Hoje vai sê o mesmo pão de ontem, visse. Não vendi um chapéu que fosse, Preta.
Sílvio apoiou os badulaques ao chão, com cuidado, e olhou para o céu.
Fechou os olhos que tanto lacrimejavam, cansados da areia.
Abriu os ouvidos e ouviu distante um forró animado, com "ooohs" e "aaaahs" de gente feliz. Quase conseguiu sentir o calor emanando dos casais ouriçados e cheios de cerveja.
Sorriu pequeno e inspirou.
Que saudades da Bahia.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Ela

TumtumtumtumtTUMTUMTUM
Ssssssssssssssssssssssssssss
TumtumtumtumTUMTUMTUM

As janelas tremiam, quase se soltando.
O vento não derrubava a casa por pouco.
A caneca fumegava café e afogava todas as ideias.
As mãos com caminhos falhos deitavam sobre o teclado, imóveis. A tela brilhava mais para o azul, e o documento continuava limpo.
De novo, ele tomou um gole do café tão amargo que fizera.
Olhou pela janela.

TumtumtumtumtTUMTUMTUM
Uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuhhh

O vento uivava para ele com desdém, reduzindo-o a sua insignificância e incapacidade de escrever uma página sequer.
Ele voltou o olhar à tela em branco.
Inspirou profundamente, passou os dedos uns nos outros e expirou, desapontado. Já passava do 2º ano agora e ainda não havia saído do título.

Só o que tinha encabeçando a página e a si mesmo era esse maldito título: Ela.

Ssssssssssssssssssssssssss

domingo, 30 de julho de 2017

Clareia

Leve abrir dos olhos.
Gosto de cerveja ainda na boca.
Inspira. Expira.
O dia já vai claro, mas a noite de ontem ainda parece próxima.
Rasa tontura
Ele respira também, profundo.
Seu peito sobe, e desce, junto com minha cabeça.
Abro mais um pouquinho os olhos.
Meu nariz encosta seu queixo.
Inspiro mais uma vez.
Beijo seu ombro, me aninho melhor, beijo seu pescoço.
Não há melhor manhã que essa.

domingo, 2 de julho de 2017

Vá.

A cabeça era um espiral só.
Uma névoa tão grande por detrás dos olhos que mal se via no espelho que ficava à sua frente.
Sentada na cama, ainda lhe parecia que faltava o chão.
Os mesmos questionamentos, todos os dias, pelo milésimo dia consecutivo.
Por quê? Pra quê? Pra quem? Até quando?
Já não aguentava mais.
Pois levantou-se num impulso único, deu seus passos pesados, passou a mão na chave do carro e na jaqueta, e bateu a porta atrás de si.
Foi-se.

domingo, 2 de abril de 2017

Outra vez.

Mais uma vez, a morte me pega de sopetão.
Numa sexta à noite, quando tudo ia bem, a morte veio pelo telefone, nos deprimir, nos revirar.
"Infelizmente, ela não aguentou", foi a mensagem passada.
Muita correria, meus pais viajaram na madrugada com meus avós para chegarem até meu tio, lá no Sul.
E estamos nos falando por whatsapp por enquanto.
Minha mãe diz que está tudo até que bem, sem muito choro... Mais de vinte anos, fazia, que ela teimava com o câncer em deixá-la por aqui mais um pouco.
"Foi melhor assim pra ela", a gente tenta se consolar...
Foi? Será?
É engraçado como a gente tenta achar meios de aliviar a dor.

Eu sei, tia, que a gente não se via há um tempão. Mas sei também que o amor era puro. Assim como meus cachos sempre nascem loiros e o seu cabelo sempre nascia tão preto e forte, como você sempre brincava.

Isso ai.
Outra vez você vem mostrar seus caninos e me derrubar. 
Parabéns, você não erra nunca, desgraçada.
Espero que um dia se depare consigo mesma. E que se leve.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Um novo ano.

Acabei de voltar de Buenos Aires. Passei lá oito dias.
Foram oito dias incríveis. Mesmo.
Por muitas vezes eu pensei em escrever algo, mas na correria da viagem e no cansaço que me batia ao entrar no quarto do hotel, deixei passar.
Eu tinha uma ideia bem boa, tentei ao máximo guardá-la. Posso até revirar as memórias agora e tentar vomitar algo, mas... Não sei...
Bem, um novo ano começou.
Achei que valia o marco aqui.
Um novo ano. Uma nova chance de eu voltar a escrever, de me revirar.
Vejamos o que isso me traz...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Deusa

Eu passei pela porta, escolhi uma das raias e fiquei de pé, na frente dela.
Joguei meus óculos na piscina e comecei a me alongar brevemente.
Percebi, então, dois pares de olhos logo à minha esquerda, mais abaixo.
Eu olhei.
Eles congelaram.
Eram dois rapazotes, de seus 17 ou 18 anos, provavelmente fazendo uma aula teste na piscina, e dividiam a mesma raia.
Eles me olhavam estarrecidos.
Eu, de pé, acima deles, os choquei. 
O olhar deles, estarrecido, sem palavras, me alimentou, e eu cresci.
Tinha meus 1,70m. Depois, 2m, 3, 4, 5, 6 metros de altura.
Me tornei imponente.
Minha forma física e aura tomaram conta da atenção deles de forma que nenhum outro som era ouvido senão o de admiração deles. Uma admiração sem entendimento. Eles me olhavam sem saber o por quê.
Era a Deusa que se mostrava por mim.
Quebrei o brilho que me rodeava e mergulhei, nadando como eles nunca viram outra humana nadar.
Ficaram completamente estancados, embasbacados. 
Eu fui Igraine, Morgause e Morgaine.
Para eles, fui Ela.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Über?

Eu estava bem irritada, porque havia esperado uma carona e não tinha dado certo, então, além de sair atrasada, ia ter que pagar por um Uber.
E tem outra, tava garoando. Aquele clima horrível de fim de tarde em São Bernardo.
Ah, foi me irritando também o fato de passarem os minutos e o cara não chegar pra me buscar, o GPS do Uber tava bagunçado, então já viu...
Enfim, chegou. Emerson, chamava. Num Honda City bem confortável, por sinal.
O caminho do escritório pra minha casa não durava mais que 15min, mesmo.
Eu realmente não sei como, mas ele começou a me contar que havia voltado da Alemanha nesse ano.
Ele teve um restaurante aqui em São Paulo durante 30 anos. Tinha se casado por aqui e teve até um neném!
Quando o bebê tinha por volta de um ano, eles resolveram vender tudo e simplesmente ir morar em Düsseldorf, onde ele abriu um café e eles viveram durante 2 anos.
Eles acabaram se separando e ele voltou para "resolver algumas pendências aqui", sobre as quais, claro, eu querendo evitar ser nosy, não perguntei, mas ele mesmo assim disse que pretende voltar pra lá ainda no ano que vem. Que está trabalhando e juntando dinheiro pra isso.
Que é um lugar maravilhoso pra morar. Que as coisas deram certo. Que, claro, ele passou por bons perrengues, mas que aquela cerveja e aquela comida e até mesmo aquele povo fizeram valer a pena.
Caralho, sabe... Caralho!
CARALHO, mundo, universo, sei lá que merda de força pode existir nesse planeta.
Jura?
Jura que nessa fase de pensar tanto nisso, você me joga uma dessas na cara?

Gastamos os últimos minutinhos contando experiências engraçadas que vivemos na Alemanha e sentindo saudades da cerveja e das Bratwurst.
Eu não podia simplesmente sair, sabe? Sair e só.

Eu agradeci Emerson:
- Cara, que foda... Muito obrigada MESMO por essa conversa. Só meu deu mais fôlego, mais ânimo pra seguir no caminho que venho traçando.
- Nossa, EU que te agradeço. Isso só serviu pra me lembrar meus objetivos e me fazer ir em frente!
- Emerson, tenha um ÓTIMO final de semana.
- Natália, você também! E boa sorte na sua jornada!
- Pra você também!

Foi isso...
Eu precisava escrever, pra nunca esquecer isso.
Espero ir tomar um café com Emerson daqui uns 2 anos, mas pedindo Kaffee mesmo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Mendigos.

Ele era o que chamamos de mendigo. Um dos mais pobres.
Sentava numa mureta da esquina, com as roupas maltrapilhas e malcheirosas, rotas. Tinhas a muletas também apoiadas à mureta, enquanto descansava sua única perna.
Tinha uma toca à cabeça e cabelos muito ralhos e grisalhos.
A vida não lhe tinha sido leve.
Tinha o feito sujo, desgraçado e pobre. Muito pobre.
À sua frente, contudo, sentava um cachorro.
Um vira-lata, assim como ele mesmo. Com o pelo indefinido e até meio grisalho.
Se postou ali e ali ficou. Sentado, encarando o mendigo. Encarando. Encantado.
Sua admiração crescia e crescia, naqueles pequenos olhinhos cintilantes.
Era tão visível que arrancou do mendigo um grande sorriso.
O mendigo lhe estendeu a mão. Ele lhe estendeu a patinha direita em retorno.
Os dois ficaram se encarando, de mãos dadas, infinitamente.
Os dois seres mais ricos do mundo.