sexta-feira, 17 de abril de 2009

Abre bem a boca.

Apoiava-se num dos bancos para manter o equilíbrio enquanto o veículo grande e metálico fazia manobras, freava e avançava nos sinais. Olhava pelo vidro, enxergando sem ver o mundo andante lá de fora. Foi quando, impulsionada por um movimento do ônibus, sentiu aquele cheiro tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho.
Empurrou a cabeça para a direita e então a viu: a mulher estava sentada num dos assentos, com uma expressão facial de profunda agonia, enquanto segurava com a mão esquerda uma pequena toalha cor-de-rosa, encharcada daquele líquido rubro e viscoso tão bem conhecido de todos.
Franziu o cenho e tentou respirar o mínimo possível, evitando que o odor da desconhecida subisse por suas narinas, embora hipnotizada pela cor de tamanha aflição. A mulher levou a toalha à boca e a enxugou, umidecendo ainda mais o algodão com aquela cor escura. Então todo aquele sangue vinha dali, da boca dela que parecia jorrar visco. Ora essa, mulher, o gato comeu-lhe a língua?
Independente do autor ter sido Hannibal ou qualquer outro felino de Chesire, a cena passou-se num intervalo tão curto que não lhe deu tempo de sentir pena.
Assim que desceu do coletivo, levou o pulso ao nariz e puxou o perfume com força, obrigando-o a substituir o cheiro anterior. Se incomodava profundamente de inalar a intimidade dos outros assim, sentia-se invasiva e invadida, bem como detestava que outros sentissem a sua.

Ps.: Be careful, maybe Hannibal is actually in town, 'cause the scene was real. o.o'
Natália Albertini.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Friendly as it should be.

I shared with him so many tears, so many whispers and so many sobs last night that now i'm even embarassed to look at him again. He had seen me in so many situations, sometimes so freaking happy, sometimes tired, sometimes damn depressed, but one thing he always notices is that i always need him, and, at certain times, more than once a day. He's definately one of my closest friends, if not the most one.
I'm again in doubt about everything in my life, again asking myself things i don't wanna hear the answer. And again he was my confident. He's the only person who knows what i'm really talking about here. I mean, you all know it's madness of mine, but he knows where it comes from.
In the middle of the night, he was the only one who stayed with me when i most needed a hug, when i most needed a shoulder to cry over. And he's always so soft and gentle with me... He always knows what my dreams are and if they ever are going to come true.
He's just...my pillow.
Thank you for all you've done, P.

Ps.: é, a partir de hoje, tenho um caso com meu travesseiro! --'
Natália Albertini.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Boticário.

Um dos meus pequenos mas fundamentais prazeres é sentir o cheiro dos shoppings, sabia? É, pode ser uma enorme bobagem e até parecer que sou a pessoa que mais idolatra o capitalismo ou coisas assim. Mas, não, não tem nada a ver com ideologias ou filosofias, é simplesmente aquele mínimo prazer carnal que você tem, entende?
Todos os dias que saio da escola e venho para casa de ônibus, sou obrigada a passar pelo shopping Metrópole (minúsculo, a propósito, quase uma galeria). Eu espero o farol fechar para poder atravessar a Av. Pereira Barreto, passando por três faixas de pedreste, até alcançar a calçada do posto de gasolina, onde sempre tenho de dar um passo maior que os outros para poder subir aquela pequena inclinação. Com as mãos nos bolsos, soltas ou segurando as alças da mochila, adentro o shopping e, como que realizando um ritual rotineiro, inalo aquele odor tão familiar e reconfortante. Caminho rápido até a loja O Boticário, da qual me aproximo e também roubo um pouco de seu cheiro tão peculiar. Caminho rápido até esta loja porque, talvez vocês nunca tenham percebido, o odor dessa loja misturado ao odor do shopping Metrópole é incrivelmente agradável.
Depois de perceber estes dois cheiros, caminho mais tranquila, guardando-os na memória e perdendo-os das narinas pouco a pouco. Minhas mãos se tranquilizam, meus dedos se desdobram e fico até mais leve. Peculiaridades visíveis somente a mim.
Besteira, né? Mas eu tinha de postar isso em algum momento, simplesmente não havia encontrado maneira de fazê-lo. Talvez vocês não saibam, ou talvez saibam, o quanto é importante, ao menos pra mim, postar esses meus pequenos prazeres, pensamentos, indignações ou qualquer outro tipo de coisa. Porque acho que, apesar de muito faminta pelo futuro, ás vezes mordo a língua e engulo doses e doses de nostalgia.
Esses cheiros são tão concretos a mim neste momento, mas talvez daqui a algum tempo não sejam mais. E talvez, lendo este texto no futuro, eu me lembre de todas as tardes em que ia embora xingando o colégio e do quanto isso faz falta.
E vocês não sabem como meus joelhos se amolecem e como o chão parece sumir só de pensar que meu tudo de agora pode não ser nem um terço do meu tudo do futuro...

Natália Albertini.