domingo, 26 de dezembro de 2010

Porta anti-ruídos.

Esquálidos e poucos raios de sol entravam pela frestas que a cortina deixava, em feixes.
A manhã beirava as cinco horas.
Os lençóis alaranjados de algodão egípcio se espalhavam pela cama larga, onde, silencioso, um corpo jazia, respirando preguiçosamente, desacordado.
Ela estava sentada aos pés do colchão, com os joelhos dobrados e os braços largados sobre eles. Os olhos fixos no chão, firmes. O cabelo caindo-lhe insistentemente ao rosto.
Uma das mãos alcançou-lhe o semblante, dando apoio ao queixo.
O uniforme bem alinhado dava àquela comissária um ar elegante e aristocrático.
As malas, prontas, esperavam à porta.
Ela se virou, lançando um longo olhar ao rapaz ainda adormecido.
Respirou fundo, inalando a atmosfera sonolenta, tranquila e aconchegante que ele exalava.
Cada extremidade de seu corpo urgia para que ela se jogasse sobre ele, o acordasse e beijasse aqueles lábios tão bem delineados. Urgia para que as quatro mãos se encontrassem, para que as pernas se entrelaçassem e para que os olhares se rendessem novamente.
Ela, contudo, se conteve.
Engoliu o nó de saliva que se fez em sua garganta e, dona de si, levantou-se nos saltos.
Dolorosamente, suas pálpebras se fecharam e seu corpo se impulsionou para a porta.
Sem um último olhar a Fernando, Alberta partiu.
Sem ruídos.
Sem despedidas.
Sem a esperança de voltar.
Sem ele.

Natália Albertini.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Saliva áspera.

Um e-mail novo em minha caixa de entrada.
Leio, com os cotovelos dobrados na mesa e o rosto apoiado nas mãos.
Borboletas ricocheteando, batendo suas leves e macias asinhas no interior de meu estômago.
Estendo os dedos para o teclado, impulsivamente querendo responder de maneira afável.
Fecho os olhos, me concentrando.
Meu lado racional assume.
O gosto acre e áspero do orgulho me volta à boca.
Rainha de mim, respondo o que deve ser respondido de fato.

Natália Albertini.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Wisemen say only fools rush in.

Janelas abertas para a rua.
Azulejos verdes na varanda.
A porta da sala aberta, convidando o raro vento a entrar.
O som melodioso do sussurro silencioso do riacho atrás da casa.
Elvis à vitrola.
Dois corpos enlaçados e adormecidos ao chão lígneo daquela casa dos anos sessenta.

Ps.: Elvis à minha iVitrola. (:
Natália Albertini.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

How I wish, how I wish you were here...


Hoje meus pais e minha irmã me buscaram no serviço e dali fomos direto à Avenida Paulista, dar uma olhada nos enfeites de Natal.
Forcei alguns sorrisos a despontarem em meu rosto.
Entretanto, o que me corroía por dentro era tristeza. E aquele imenso vazio novamente.
Só conseguia pensar no quanto eu não quero que esse Natal chegue, no quanto eu gostaria de voltar aos meus cinco, seis anos de idade, quando o mundo era macio e melodioso.
Engoli a represa.
Minha irmã lembrou:
- Lembra que quando a gente era pequena, levavam a gente numa rua que tinha neve?
- Lembro... - um tom de nostalgia me escapou aos lábios.
Meu pai se adiantou:
- Rua Normandia. A gente vai pra lá agora!
Balancei de leve a cabeça, tentando evitar pensar no pior: que a rua não estivesse enfeitada como antes, que a neve não caísse mais, que não houvesse mais tantas crianças quanto antes.
Meu pai guiou o carro por entre as ruas do Ibirapuera. Passamos em frente ao Hospital Alvorada, onde te vi pela última vez...
Chegamos à tal Rua Normandia, não sem antes passar pela Bem-te-vi e pela Cotovia.
Pois é... Nada de enfeites grandiosos.
Só tristes luzinhas e pipoqueiros espalhados por ali.
Nada de turistas.
Nada de crianças.
Depois disso, não consigo parar de pensar no portão da sua casa com a placa de VENDE-SE.
E o trecho de Pink Floyd 'how I wish, how I wish you were here...' não desgruda da minha cabeça.
Meu peito afunda em oceanos escuros e teima em não voltar. Minha respiração falha e meus olhos incham. Meu canal de lágrimas já encontra-se obstruído.
Vou ter que fazer minha santa mãe me levar até sua casa um dia desses.
E, , perdoe-me, mas eu sei que vou chorar minhas vísceras ao ver a casa vazia.
Eu só sinto tanto a sua falta. Ela me mata todos os dias desde que você nos deixou.
Todos os dias eu sinto esse punhal perfurando meu adbôme, fazendo o sangue jorrar pra fora. Sinto a lâmina girar dentro de mim, arrastando com ela meus órgãos e minhas forças.

Ps.: só postei essa coisa escrota hoje porque estou chorando há dias. Meus olhos só pediram gentilmente para que meus dedos dividissem a dor com eles na noite de hoje, pois o peso já é grande demais para tão raros cílios.
Da sempre sua,
Natália Albertini.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Veludo adocicado.

Ele fez um sinal com o indicador, mandando-a se aproximar.
Ela obedeceu. De lingerie preta e rendada. De gatinhas.
Ele abriu mais as pernas, ouvindo a calça de couro estalar.
Ela chegou até ele, apoiou as mãos sujas em seus joelhos e se pôs de pé com alguma dificuldade.
Embora tivesse uma das maçãs do rosto dilacerada, sorria de maneira felina e sensual, com olhos de pantera.
Ajeitou-se e sentou em seu colo.
Enquanto ele sussurrava um vocabulário barato e imundo, ela lhe dava a melhor lapdance de sua vida.
Rebolava de forma a encaixar os quadris e passava as unhas afiadas por seu tronco desnudo e esbranquiçado.
Os dois sorriam enquanto faziam as línguas se entrelaçarem.
As unhas dele eram tão pontiagudas quanto as dela.
Assim, partículas de pele eram arrancadas das costas, dos ombros e dos peitos de ambos.
A escuridão dava espaço para seus corpos avermelhados, cheios de apetite.
Ele ergueu a mão e puxou violentamente os cabelos dela, fazendo-a envergar o delgado pescoço para trás, em dor, embora ainda sorrindo.
Ele lambeu a região e desceu por entre os seios dela, sentindo o gosto de pele lhe lamber a língua.
Em sincronia, atacaram-se.
Enfiaram as unhas um no outro até sentirem o fluido vital pulsar para fora do corpo, esmaltando as unhas de vermelho.
Morderam-se.
Arrancaram nacos de pele das cinturas, dos ombros, dos pescoços, dos rostos e das barrigas.
A carne na boca era esponjosa, suculenta, mouth-watering. O sangue seco em algumas partes dava o tempero agridoce, picante.
As gengivas vibravam por mais e mais.
Ajudavam as próprias línguas a empurrarem os nacos de carne pra baixo da garganta com boas goladas do melhor visco.
Aquele ainda morno e grosso, que enche a boca e nada nas gengivas e bochechas, que escorrega pela garganta, rubro, aveludado, doce e pesado.

E pela manhã, por entre as cortinas negras, corpos sujos, ensanguentados e cansados, ofegantes, jogados ao carpete vermelho.

Ps.: ouvir Manson a uma hora dessas dá nisso.
Natália Albertini.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Um bom desaniversário!

Mon Dieeeeeeeeeeeeu!
Hoje é meu birthday, seus limdos!
Tô turning 18 years old!
Que cute, né? ><'
Então um viva pra mim.
E outros dois pra Clarice Lispector, aquela limda! :D
Sry, too excited to post!
Hahahha.

Depois escrevo sobre today! [x

Beiguinhos!

Natália Albertini.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Café.

Sentada no balcão da cozinha, com as pernas meio abertas, tomando café numa caneca verde.
O cabelo bagunçado.
A roupa de dormir amarrotada.
Uma fresta de cintura descoberta, o Sol matutino lambendo aquele pedaço de pele, revelando acres marcas roxas.
Em contraposição, penumbra cobrindo as sutis dentadas tatuadas no pescoço.
Ela sorriu de canto para o café, para sua pele e para si mesma.
Partículas macias de memória da noite passada.

Natália Albertini.