domingo, 27 de outubro de 2013

Cinzenta.

Silêncio.
Céu cinza.
Um silêncio arrebatador, calmo, que nascia e fluia naquela massa densa de água salgada.
Eu estava boiando, com as orelhas abaixo d'água, o corpo leve, a mente vazia.
Completamente vazia.
Um estalo ou outro debaixo daquela imensidão marítima, mas, no geral, um silêncio verde escuro, pesado.
Ondas levantavam mais ao longe, e eu conseguia ouvir seu movimento por debaixo d'água, mas num volume baixo, o silêncio ainda me preenchia muito.
Reviravoltas aconteciam longe de mim.
Crianças brincavam na praia, outras pessoas nadavam mais ao raso, e tsunamis se erguiam no meio do oceano.
Gotas geladas e finas caíam do céu e me tocavam a testa e o nariz, ainda pra fora da massa salgada e líquida.
Eu me fechava no meu próprio universo.
Me sentia preenchida pelo vazio, cada vez mais. E cada vez mais impelida a fazê-lo.
Algumas algas me tocavam os pés, e alguns peixes, as mãos, mas eu continuava intacta, boiando, sem coragem ou covardia de me mover.
Meu corpo se movia com o ir e vim suave e doce do mar.
A chuva começou a cair mais grossa e rápida, e o céu trovejou.
Um som, ao longe, de pessoas se recolhendo na praia.
Areia pisada e cadeiras molhadas.
Não, chuva, nem de você eu quero saber.

Afundei.
Me deixei afundar, mas de olhos fechados, presa em mim mesma, permitindo apenas ao silêncio e à água gelada me abraçarem, me fazendo afundar cada vez mais, sem nunca tocar o solo.
Escuro.
Silêncio.

Natália Albertini.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um Outro N.

Ela estava a meu lado direito, com um copo de cerveja em mãos, num gesto espelhado ao meu.
Conversávamos sobre alguma amenidade passada em mais um dia de escritório.
Ela tinha o cabelo repicado, e os olhos densos, cheios de experiência, apesar da pouca idade.
Tinha também um ar meio sarcástico, que me fazia lembrar alguém...
O ambiente era barulhento, porém mais claro que de costume.
Como sempre ela tinha alguma peripécia pra me contar, situações que chamávamos de "Natalhisses".
Experiências que só nós duas poderíamos entender, afinal, o nome só nos pertencia.
E, mais do que isso, éramos a perfeita personificação do tal.
Ela me fazia rir muito.
Nos conhecemos há pouco mais de um ano, mas a sintonia agora era tamanha que... Me espantava.
Não éramos melhores amigas, porque a definição disso que normalmente nos vem à cabeça é alguém que te conhece há muitos anos e com quem você já partilhou muita bagagem.
Esse não era o caso ali.
É só que... Entre aqueles copos de cerveja, nossa conversa tão azul claro e nossas gargalhadas, parecíamos nos conhecer há eras.
Talvez nos esquecêssemos em pouco, ou talvez levaríamos uma amizade pra vida. Independente de quais rumos tomássemos, eu só nutria uma enorme vontade de abraçá-la e agradecê-la por simplesmente estar ali, num sentimento pleno.
Claro que não o fiz, porque provavelmente, Natalharíamos e tropeçaríamos em algo, ocasionando numa queda, num provável joelho ralado e coisas do gênero...

But thanks. :)
Natália Albertini.

terça-feira, 9 de abril de 2013

A Ponte.

Saiu do trem com a pressa e o cuidado habituais, segurando a bolsa com uma mão e a protegendo com outra.
Passou as catracas segurando o vestido para que não levantasse e pegou a ponte que levava para o parque.
Já passavam das dez. O caminho era escuro e sua única companhia era sua sombra trêmula e algumas cigarras.
A ponte devia ter cerca de 1km, mas ela estava acostumada com sua extensão.
A estação de trem ia ficando cada vez mais pra trás.
Seus passos no chão acimentado eram ásperos e solitários.
A bolsa parecia pesar mais agora, mas com certeza era só o peso de um longo dia de trabalho.
O vento uivou mais forte e uma lâmpada a seu lado, no gramado da beira da ponte estourou, sobressaltando-a.
Ela deu um leve pulo para a esquerda e sentiu o coração pular uma batida.
Se concentrou e voltou a andar. Ainda deviam faltar uns bons 700m.
Ela só queria chegar em casa. Seus pés a estavam matando, só queria um bom banho e sua...
Schps.
Um silvo.
Ela não parou de andar, mas olhou para trás.
No começo da ponte, na boca da estação, um homem de trajes escuros saiu. O barulho era apenas a sola de seu sapato so ial raspando no cimento.
Ele não era muito suspeito, mas ela inconscientemente apertou o passo e fixou a visão no posto policial que ficava quase no final da ponte.
SCHPS.
O barulho pareceu mais próximo, mas com certeza era apenas sua imaginação cansada.
Ela só precisava de uma boa noite de...
- Cama? - uma voz aveludada e grave sussurrou ao pé de seu ouvido.
Ela se arrepiou inteira e, com um gritinho de susto, saltou para longe da figura que agora estava a seu lado.
Arregalou os olhos e assim que abriu a boca para dar um bom grito de socorro, uma língua quente e dentes afiados invadiram sua garganta e arrancaram bons nacos de língua e gordas gotas de sangue.
Pálida. Ela ficou mais pálida que a lua.
Largou a bolsa no chão e, numa rajada de adrenalina, correu o mais rápido que pôde para alcançar o posto policial, onde um grande policial cochilava sobre sua mesa.
Os sons que ela emitiam não passavam de urros guturais.
Foi parada repentinamente quando topou com o homem de feições sobrenaturais mais uma vez.
- Vamos, boneca - ele disse num sorriso - Não estou a fim de brincar.
Atônita, ela o golpeou algumas vezes, para só então perceber que os murros em nada o afetavam.
Seus olhos não poderiam estar maiores e sua mente não podia estar mais desesperada e vazia. Que porra era aquela?!
Num movimento quase invisível, a criatura a golpeou na barriga e a fez gemer alto.
Com um imenso sorriso de satisfação, então, a segurou pelos cabelos e a içou para cima, obrigando-a a ficar de pé.
Seu pescoço pulsava vívida e pesadamente.
Ele sentiu aquele calor delicioso e usual abaixo do estômago.
Abriu a mandíbula num ângulo desumano e fincou os pontiagudos dentes na carne tão saborosa, sugando aquele visco grosso, vermelho e quente.
Fê-lo fluir todo por sua garganta, alcançando o êxtase em poucos segundos.
Quando terminou, limpou a boca com o antebraço e sumiu na escuridão.

O policial se agitou em seu sono, mas logo voltou à tranquilidade usual.

A saia dela levantou com o vento mais forte, afinal, sem uma mão protetora.