quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Baunilha empoeirada

Sigur Rós - Salka
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Olhava pela janela. O dia não estava chuvoso nem nublado. O Sol brilhava com intensidade e fazia a temperatura alta a ponto de dificultar a respiração de alguns humanos.
Voltou a cabeça para o colo e deu de cara com a foto que lhe impulsionou a realizar o ato anterior. A fotografia havia sido tirada num dia de uma grande tempestade, infelizmente não se recordava exatamente do que tanto ela e seus companheiros riam, apenas inundou-se de felicidade ao rever o retrato.
O peso do grande álbum vermelho sobre as pernas cruzadas num nó lhe era praticamente agradável, quase imperceptível, apesar de ter sido cheio com mais de trezentas fotos. As mãos viravam as páginas rígidas e dobráveis em intervalos regulares, dando-lhe tempo suficiente para submergir-se em incontáveis sensações distintas.
O que lhe matava era pensar que cada um daqueles rostos em cada retrato algum dia já havia sido seu confidente, seu amigo, e agora, nada, mal se recordava com que letra começavam seus nomes. O que lhe matava era saber que isso era inevitável e que por mais que quisesse, jamais conseguiria atrasar os ponteiros do relógio do gato Félix que ficava sobre sua cama. Sabia que não o alcançaria, desde criança, nunca o alcançou.
Assim que os olhos do gato moveram-se com o apito das três horas da tarde daquele dezembro sufocante, o álbum foi retirado do peito em que dormia pelas mãos da mãe daquele ser adormecido, fechado e colocado de volta na prateleira para seguir todo seu curso com a poeira.
Exatamente às três horas marcadas pela cauda preta do gato inalcançável, o cheiro de baunilha e as inúmeras faces amigas que haviam voltado para saudar-lhe, foram embora mais uma vez. Jamais seria possível retomá-las integralmente. A cada virada de página, elas eram mais e mais esquecidas, era seu curso natural e inevitável.

Ps.: Meio confuso, mas anyway...
Natália Albertini.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Retrovisor.

Enquanto eu olhava pelo retrovisor, prestando imensa atenção no trânsito daquela estrada e falava sobre alguma amenidade, senti um toque suave em minha perna esquerda. Virei a cabeça para meu lado esquerdo e vi meu pai dirigindo, como sabia que o encontraria. Mas algo foi incomum. Ele trazia no rosto um sorriso definitivamente feliz e infantil.
Enquanto uma das mãos segurava o volante e garantia que o automóvel continuasse na mesma direção, a outra tinha todos os dedos dobrados, exceto o indicador, uma vez que este apontava o velocímetro do carro. Antes mesmo de ele falar, meus olhos já estavam marejados:
- Sua mãe fica louca quando faço isso nesse trecho da estrada...
Sua felicidade era tão visível e infantil que me invadiu de forma completamente súbita. Não pude pronunciar quaisquer palavras, apenas soltei um pequeno riso, para ele entender que eu o havia escutado. Não precisava fingir nada mais, afinal ele não estava me olhando, o momento já havia passado com a mesma velocidade do carro, ele já havia prendido a atenção novamente no câmbio e no retrovisor esquerdo.
Felicidade deste nível senti a alguns dias atrás, quando ensinei um passo novo de dança a ele e então ficou maravilhado infantilmente.
Não sei bem explicar como me senti, apenas senti. São coisas que a gente não sabe o motivo, elas simplesmente acontecem e você acha aquilo mágico.
Talvez não consiga traduzir em palavras aquilo que senti, mas pelo menos tentei. Sei que se não o fizesse, essa sensação iria embora logo, logo, e alguns meses depois, algum tipo de vislumbre voltaria e eu não a recordaria por inteiro, deixando ainda maior a frustração.
Isso é bem pessoal, mas talvez lendo este texto, você se lembre de alguma outra situação com qualquer outra pessoa amada. Jamais deixe de demonstrar a estas o quanto elas lhe são fundamentais.
Acredite, eu sei bem o valor de tudo isso e o quanto nos custa dizer, mas simplesmente temos de dizer...
Exatamente agora, meus olhos estão marejados, pai, e espero que algum dia eu tenha coragem de te mostrar isso.

Natália Albertini.

Geometria

Em frente àquela boquinha perfeitamente desenhada, àqueles imensos olhos castanhos de cílios alongados e àquelas mãos pequenas e gordinhas que representavam Kyra, William teve vontade de explodir em lágrimas. Não por criar a criança sozinho, afinal aquilo era uma felicidade e tanto para ele. Mas, sim, por que, em momentos que lhe orgulhavam como aquele em que a menina acabara de fazer o primeiro desenho da vida dela - que, a propósito, só era bonito aos olhos do pai, quando olhava para o lado, Naomi não estava mais lá.
O ângulo de visão da mulher jamais estaria novamente no mesmo plano que o seu.

Natália Albertini.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Suspiro.

E lá no fundo, onde os olhos famintos por litoral não viam, a massa quente e azul engolia mais um coração entre o entardecer e os braços ondulados.

Natália Albertini.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Rubis.

 Amadeus Mozart - Lacrimosa - Requiem
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Remexeu-se e se ajeitou debaixo de sua capa rasgada para espantar o frio. Ultimamente, tinha acordado inúmeras vezes no meio da noite. Simplesmente parecia que aquele local não lhe era mais tão seguro. Nenhum lugar no mundo continuava a ser seguro para os desfavorecidos economicamente.
A barba estava mal feita, sua calça, rasgada, e o cabelo cobria-lhe o campo visual, mas ainda assim podia ouvir e enxergar muito bem. Recostou a cabeça na parede e semicerrou os olhos, deixando apenas uma pontinha aberta. Percebeu uma sombra na janela da direita. Com certeza era a criada Alberta vindo trazer a água e cobrir a filha de seu mestre.
Giuseppe era um desgraçado que vivia nos fundos daquele castelo há anos. Conhecia quase todos os criados por nome, já que estes, de vez em quando, traziam-lhe ás escondidas algum resto de comida. O dono do castelo era Dom Bartolomeo, cuja filha preferida tinha por volta dos dezessete anos e levava o nome de Loretta. A bambina tinha olhos negros como os cabelos que reluziam a noite. Era um primor.
A sombra desapareceu assim que a luz do quarto foi acesa. Ouviu-se um grito de desespero e profunda agonia, como o grito que imaginamos ouvir saindo da boca da figura de Edvard Munch em O Grito. Algo ruim acontecera.
Os olhos de Giuseppe se abriram completamente e, ao abaixá-los, tirando-os da janela, fixou-os num contorno quase humano ao pé da árvore que tinha as folhas balançadas levemente pela brisa da madrugada.
A figura aparentava ter cabelos curtos e lisos, beirando a linha do maxilar. Parecia ser esbelta, porém suas vestes eram negras, o que impossibilitava maior visualização. Tentou enxergar um pouco mais, para sua infelicidade. Viu dois rubis brilhando.
Sobressaltou-se e decidiu que o melhor a fazer era voltar a dormir. Cerrou novamente os olhos, tentando evitar a curiosidade.
Impossível. Nessas horas, a curiosidade é quase sempre maior que o medo. Abriu apenas o olho esquerdo e, pela ponta deste, enxergou os rubis agora a seu lado.
- Buona sera, signore.
Outro grito. Menos estridente, mas ainda mais apavorado.
Sangue tilitando no chão e manchando a barba mal feita.


Natália Albertini.

domingo, 7 de setembro de 2008

Telefone.

Acho que, agora, apenas me basta que meus amores lembrem de mim como sou. Seja quando criança, arranhando-me as pernas por pura raiva, seja agora, imitando e dançando com os comerciais de shampoo, ou seja quando adulta, segurando meus gêmeos e ninando-os.
Acho que, agora, apenas me basta um bom banho para esconder meus soluços.
Acho que, exatamente agora, simplesmente me basta minha força adicionada à memória de você.
Eu ainda te amo com todas as minhas forças e, onde quer que você esteja, sempre levarei comigo teu brilho. Obrigada por tudo.

Não, não sei do que se trata. Simplesmente fechei meus olhos e isso acabou de sair.
Acredite, a vontade de postar para que mais tarde possa ler é mais forte que eu.

Natália Albertini.

As estrelas brilham para nós, querida.

Vanessa Carlton - Hands On Me
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- E todos os nossos momentos desde que nos conhecemos?
- Que tem eles?
- Nós os deixaremos pra trás?
- Acho que eles já fizeram isso antes da gente.
- Mas...
- Seria demais se eu te pedisse para não insistir?
- Seria. Estaríamos jogando fora mais uma chance!
- É, realmente... É isso. Mais uma... Mais uma chance. Quantas nós já não tivemos?
- Aonde você quer chegar?
- Quero chegar em casa – ela afastou-se dele, soltando seu braço.
- Você me entendeu...
- É, por um certo tempo, entendi. E acho que te entendo. Sabe, eu tinha essa mentalidade também.
-Que mentalidade?
- A de que combinávamos.
- Mas nós combinamos! Todo mundo diz isso!
- Eu não.
- Mas realmente acha que não? – ele pareceu magoado.
- Desculpe-me, mas é verdade. No começo, achava que sim. Mas agora tenho certeza que não.
Ele se manteve quieto, abalado. Depois de alguns momentos, enfim, voltou a relutar:
- Não, mas vejamos os... – ela já estava a onze metros de distância.
E por todos os anos passados juntos, ele sabia que nada a impediria de tomar a decisão que julgava certa.


Natália Albertini.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Amável H.

A cadeira rangeu ao ter aproximadamente 49kg depositados sobre si. Suas rodas lideraram o frágil corpo feminino de encontro à mesa ebúrnea.
As mãos apáticas e de unhas roídas percorreram o marfim em busca da régua. O envelope oficial reclamou ao ser aberto, incomodando os pequenos ouvidos da mulher.
Enquanto bombas caíam detrás da janela, o telegrama finalmente deixou seu abrigo pardo e transmitiu a informação. Os olhos abatidos de Helga finalmente se depararam com o sangue e as balas legíveis.

Natália Albertini.

Café da Tarde.

Luz. Fefê corre pelo quintal de minha mãe. Seu cabelo castanho fixa-se em sua testa e em suas bochechas rosadas. Seu cadarço esquerdo está desamarrado.
- Fê, deixa a mamãe amarrar seu cadarço - estico os braços para minha criança.
Cílios. Treva.
Luz.
- Mamãe! - o mar salta-lhe pelos olhos e pela garganta, molhando o chão, agora mais próximo.

Natália Albertini.

Feriado.

A água límpida e azulejada de cor azul piscina movimentava-se de maneira sutil. Sua superfície era salpicada por gotículas celestiais. O chão liso e escorregadio também recebia sua parcela de líquido transparente. O copo de vidro debaixo de guarda-sol fechado tinha seu álcool agitado pela chuva e pelos estrondos sonoros de inúmeras vozes italianas que vinham da varanda, onde se divertiam sem culpar a tempestade por molhar a carne e o carvão.

Natália Albertini.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Antídoto.

A caneca gorda e hialina em cima do balcão havia sido esvaziada brutalmente. Restavam apenas alguns resquícios do líquido amarelo e espumante, que se esvaía gota a gota. A lâmpada fluorescente ao lado do refrigerador, fraca, reclamava, incessante. Em cima da mesa verde aveludada, uma mancha escura e pegajosa. A bola oito tinha uma terceira cor: o vermelho escuro. Um pedaço do couro do casaco da criatura notívaga foi esquecido ao pé da mesa, ao lado do taco. O plasma gotejava da rede com bolas no mesmo ritmo da bebida de cevada a três metros e meio; seus barulhos, entretanto, não se misturavam, muito menos seus cheiros. A mancha era iluminada em intervalos regulares pela luz vermelha e gritante que vinha da frente do tumulto de curiosos fora do bar da Avenida São João.

Natália Albertini.

Balões.

O azul bebê da porcelana amenizava a máscara carregada da moça. O lápis de olho tilintou ao deitar ao lado da torneira. Logo depois, o batom escorregou pia abaixo, sendo então freneticamente procurado pela mão de unhas bem feitas. O espelho foi cúmplice do disfarce.

Natália Albertini.

Bigodes de Sabiá.

A janela deixava passar, por uma fresta, o amarelo necessário para clarear o cômodo. A persiana branca batia sutilmente contra o vidro, embalada pela calmaria das cinco da tarde daquela primavera. A coberta florida pendia da cama num de seus cantos, subindo e descendo no mesmo ritmo da cortina, bem como se moviam os finos e escuros fios de cabelo que descansavam sobre a boca de Bianca, envolta por piados amarelos e serenos de bem-te-vi com patas de gato.

Natália Albertini.

Via Láctea.

A cama coberta de laranja teve seu espaço reduzido e o edredon pareceu menor do que nunca. As barrigas subiam e desciam de maneira ritmada e tranqüila, mas um pequeno emaranhado de cabelos negros e pele branca no centro da cama quebrava aquele ritmo.
O pequeno espaço entre os pais era suficiente para proteger o menino dos monstros peludos e de um olho só que o atormentavam na imensidão azul de seu quarto iluminado apenas pela luz amarela recortada e interrompida por dinossauros e estrelas.


Natália Albertini.

Grão.

Sobe e desce. Abre e fecha. Aberta, a máquina deixa passar o jato de água fervente que chia e estala no fundo da porcelana. Fechada, as bolhas minúsculas, beges e melhores amigas se acoplam ao plasma preto com cheiro de grão, e, juntos, pressionam a comporta para que abra novamente e, mais uma vez, tinja outra língua com seu sabor.

Natália Albertini.