quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Açúcar Refinado.

As persianas balançavam levemente e batiam de maneira cautelosa contra o vidro da janela. Havia uma razoável claridade banhando o quarto, mas nada em exagero. O silêncio na casa era grande, uma vez que o almoço um tanto quanto pesado colaborou com o hábito de dormir da família dele. A refeição tinha sido uma delícia, muita variedade e um ótimo tempero. Mas, ainda assim, o que mais a alegrava não era a refeição e sim o fato de estar namorando aquele menino havia alguns anos e de que a cada ano eles melhoravam, amadureciam e cresciam juntos. A simpatia de toda a família dele por ela a enchia de satisfação e gratidão. Quando menor, sempre imaginava se algum dia teria um namorado que valesse a pena, que conhecesse toda a família dela e ela, a sua; que tivesse uma relação madura etc. E nessas ocasiões, percebia que sonhos viram, sim, realidade. A satisfação de ter realizado aquele desejo era imensa, mal podia ser compreendida pela menina. Entretanto, havia uma felicidade e uma satisfação ainda maiores - se é que era possível. Sentia-se extasiada todas as vezes que lembrava que tinha aquele namorado. Sentia-se demasiadamente deleitada ao saber que tinha ele, ninguém menos, ninguém mais, ninguém a não ser ele.
Enquanto perdia-se em reflexões e gratidão, ele respirou mais fundo e a abraçou inconscientemente, ainda dormindo, como que adivinhando-lhe os pensamentos. Ela não conseguiu evitar o sorriso que veio á tona. Respirou profundamente e, a partir daí, sua respiração entrou no mesmo ritmo da respiração dele, como sempre acontecia quando estavam em perfeita harmonia. Ah, Deus, como era bom ter aquele menino com ela. Como ela queria eternizar aquele momento. Como ele conseguia fazê-la ter a absoluta certeza de que o sentimento era recíproco? Ele era mágico, só podia ser isso...
- Não consegue dormir, meu amor?
Ela sobressaltou-se, não esperava ouvir a voz dele. Entretanto, voltou a sorrir, sentindo ainda mais aquela sensação de bem estar percorrer seu corpo todo.
- Achei que você estivesse dormindo.
- Eu não estou?
- Uhn?
- É que toda vez que me dou por conta que você está do meu lado, demoro a acreditar que é realidade, não um sonho.
Ela não teve outra reação senão a de expulsar sal e água pelos olhos, virar o corpo e beijar-lhe a ponta do nariz.
- Dorme...
- Tá.
Só depois de alguns segundos de silêncio a voz dele ressoou novamente e, daquela vez, pela última vez nas próximas quatro horas:
- Eu te amo.
A língua da garota enrolou-se, a garganta apertou e as borboletas eriçaram-se em seu estômago quando ela respondeu com a maior sinceridade do mundo que também o amava. E, desta vez, a água não era só salgada. Na verdade, tinham muito mais gosto de marshmallow do que de carne assada.


Ps.: obrigada pela foto, Má e Fê. Adoro vocês e desejo tudo de bom. Beijo enorme.
Natália Albertini.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Luz

- Por favor, não me deixa. Não agora.
- Se fosse em qualquer outro momento, eu poderia?
- Não. Não... Não me deixa, não me deixa.
- Não posso mais olhar para você.
- Pelo amor de Deus! Claro que pode! Olha, eu estou bem aqui!
- Você está sumindo da minha vida.
- Por Deus, não me deixa! Fala comigo! Fica aqui! Não me deixa!
- Não tenho mais forças...
- Oh, Deus, oh, Deus, Deus, Deus!
- Não me acompanha, os...
A carne amoleceu-se, o plasma esfriou e as duas últimas borboletas se libertaram.

E aos fundos podia-se ouvir alguém gritando "chamem uma ambulância!". Não sabiam ao certo se era uma ou duas vidas em questão.

Um curtinha pra vocês,
Natália Albertini.