sexta-feira, 24 de junho de 2011

Semi.

Ele recostava-se ao balcão, com uma cerveja em mãos, olhando o mundo do topo, já que era suficientemente alto para tanto.
Não movia-se muito, só analisava as mortais que dançavam.
Flitching glimpse.
Uma semi-deusa à sua esquerda.
Ele, sem perder a compostura, encarou-a passando logo à frente.
Ela era mais baixa que ele, tinha os ombros e as pernas, voluptuosos, à mostra, convidativos.
Seus olhos a percorreram de cima a baixo.
Ela percebeu, mas não mostrou qualquer reação, a não ser esbarrar nele de modo fingidamente ocasional, fazendo os corpos se tocarem por milésimos, faiscando.
Ele a seguiu com os olhos até ela sumir na multidão.
Balançou a cabeça de leve, recuperando-se, voltando a seu patamar.
Entretanto, nenhuma outra dali era tão interessante quanto aquela. É claro, porém, que suas expressões não demonstravam nem vislumbres do conflito interno.
Foi quando, de súbito, ela voltou e se postou à sua frente, muito próxima, furiosa.
Eles sustentaram um olhar flamejante, sangue e fogo lhes escorriam dos olhos.
Seus cenhos franzidos, seus maxilares trincados, seus ombros, duros.
Rudes, grossos e mal-educados.
Ela começou a dançar, agressiva, revirando os cabelos, os olhos, escorrendo as mãos pelo próprio corpo, fazendo-o salivar. Suas pernas quase encaixavam uma dele. Não se deixou ser tocada, entretanto.
A excitação era a do quase.
Quase se tocavam, quase se beijavam, quase se tinham.
Ele não conseguia desgrudar os olhos dela, contudo era bruto ainda, o que a enlouquecia, fazia sua pele avermelhar-se e seus lábios avolumarem-se. Ele movimentava-se de leve, com total auto-controle, embora fizesse a maior força do mundo para manter-se fixo.
Encarava as coxas dela em volta da sua, a cintura que por vezes se descobria, a blusa caindo que quase lhe mostrava o topo de um dos seios, com imensa gula. Poderia lamber, mastigar, devorar aquele corpo a noite toda, até o sol lhes negarem mais prazer. Poderia arrancar-lhe a roupa do corpo, fazê-la obedecer e puxar seus cabelos até ela gritar, como se domasse um cavalo selvagem.
Ela ainda dançava.
Ele ainda se mantinha.
Ele não aguentou, foi fraco, e deu-lhe uma mordiscada no pescoço.
Ela abriu o sorriso mais estonteante da face da Terra.
Ele se sentiu desnorteado, percebeu a gravidade do que fazia, então sorriu de volta pra ela, como um "nos vemos por aí", e saiu de perto.
Ela foi deixada ao balcão, sozinha, parada. Olhou para o chão e sorriu para si mesma, satisfeita ainda assim.
Fechou o zíper.

Ps.: he. :)
Natália Albertini.

Queima.

Saiu do prédio em direção à rua, com a blusa meio caída ao ombro esquerdo. No outro, a bolsa pendurada, aberta, de onde ela tirava o celular com mãos frescas.
Uma mulher menos corpulenta e juvenil que ela a parou:
- Por favor!
Atenciosa, levantou os óculos-de-sol, fazendo com eles uma tiara aos curtos mas pesados cabelos alaranjados.
- Pois não? - sua voz era adocicada e prestativa.
- Qual é o número do apartamento da síndica?
- 12, se não me engano, senhora - os cílios pôr-do-sol.
A mulher de meia idade sorriu, singelamente agradecida, e completou:
- Que Deus te abençoe!
Já se afastando, o pequeno raio de Sol engoliu aquelas quatro palavras como se fogo lhe descendo a garganta.
Os olhos flamejaram e teve uma comichão nos braços, quase deixando a subpele vermelha subir à tona.
Malditos. Malditos fossem!
Jogando suas bênçãos aos ventos, a aqueles que mais as desprezavam e odiavam.
Fez os olhos saírem do vinho e voltarem ao cinza, indiferentes, gélidos.
Voltou-se a seu propósito maior.
Eles que se afundassem na própria fé.

Ps.: I know it doesn't seem to make any fucking sense, buuuuut...
Natália Albertini.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Florida

She had her back on the wall. She was sitting on the bed, which was covered in white.
Her legs were long and naked. The hot Florida air made her wear nothing but panties and one of his big baseball shirts.
He was almost falling asleep on her lap, his eyes were light green and his eyelashes, deeply blonde.
She had a book in one of her hands, while the other one had its fingers on his yellow and straight hair.
He stretched his body, half naked as hers, but on the top part of it, and found a new and better position for his head above her soft legs.
Almost voiceless by the tiring hot weather and the sleeping atmosphere, seconds before falling asleep, he whispered, unconsciously:
- Don't let me go.
She heard.
She laid down the book, smiled with affection and got down, putting her face right in front his, almost gathering their lips.
She whispered back to his sleeping ears:
- I won't. Ever.
Then she kissed him softly, taking care not to wake him up. And she knew that she never would.
And she didn't.

Natália Albertini.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Cintura.

O sol matutino cutucou-lhe as costas descobertas.
Ela franziu o cenho e mexeu a boca, passando a língua pelos lábios, tentando fazer com que aquele insistente e meloso sono desgrudasse dela.
Espreguiçou-se e murmurou um baixo "já vou" para o sol que se esparramava pelas costas.
Barulho da televisão do lado de fora da porta fechada do quarto.
Esticou o corpo esbelto, forçando braços e pernas para cima, mas então deixou-se cair de novo sobre o travesseiro e o lençol amarrotado.
Engoliu saliva seca, ainda cheirando a rum.
Franziu o cenho de novo, sentindo os cílios se embaraçarem sobre pálpebras pesadas e dorminhocas.
Forçou o pescoço para baixo, encostando o queixo no peito, e, com a camiseta levantada até as costelas e a boxer um pouco abaixada, enxergou sua cintura, esverdeada em um ponto e arroxeada em outro.
Levou uma das mãos até ali e tocou os hematomas.
Dor.
Vislumbres da noite passada.
Sorriso largo e olhos fechados de satisfação.
Virou para o outro lado, encolheu-se de novo, deixando o outro lado do corpo à mostra - esse marcado no pescoço e ombro - e se permitiu envolver-se no sono das dez da manhã.

Ps.: e esses são os melhores domingos, não? (:
Natália Albertini.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A represa.

Sentada numa cadeira escura, numa posição confortável, com os joelhos altos e os braços cruzados sobre eles, vestia um simples vestido azul e branco.
Conversava de maneira animada com os amigos.
Falou-se alguma besteira, causando gargalhadas.
Ela mesma riu, distraída.
Todavia, olhou para um deles enquanto terminava a risada com um largo sorriso. O rapaz tinha os olhos fechados e jogava a cabeça para trás, rindo.
Aquilo a levou para um outro tempo, com um outro alguém, de gestos idênticos a aqueles.
Seu sorriso diminuiu vagarosamente.
Ela se lembrou daquela outra pessoa, lembrou-se de que a havia esquecido por vontade própria. E de fato não se arrependia daquilo, mas as lembranças lhe encharcaram a mente, tickling.
Grudou os olhos ao chão, já séria, enquanto os colegas se perdiam em uivos de risadas.
Lembrou-se também de uma outra pessoa, deixada para trás por vontade da cruel vida, e não por ela mesma. Lembrou-se de sua casa e da infância passada ali.
Recordou-se de todas as cicatrizes que tinha, de todos cortes ainda abertos, escondidos sob o tecido fino do vestido, de toda a represa de água salgada que estava sempre encarcerada em seu peito, a que ela havia aprendido a domar, porém nunca esquecer.
Deu-se por conta naquela tarde, como sempre se fazia ao menos uma vez ao dia, do quanto havia mudado. E de como havia ficado boa em fingir que não, em fingir que a vida lhe era sempre afável. Lembrou do quão cansada estava de forçar sorrisos e palavras, quando tudo o que lhe preenchia por dentro era silêncio.
Não conseguiu voltar a sorrir naquele dia, pelo menos não sinceramente.
E nem no dia seguinte. Nem no outro.
Oblíqua.
Dissimulada.

Natália Albertini.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Nós.

Sentado ao sofá, admirando a TV como sempre faz, com o controle numa das mãos, ele fica ali, meio boquiaberto, incomodado com a própria respiração.
Calça um par de tênis, veste um par de jeans, uma polo amarela e uma blusa de lã de seu pai.
Admiro-o por isntantes curtos, para que o momento não seja perturbado, para que eu tenha tempo de fotografar aquilo mentalmente antes que ele se mexa.
Os óculos grossos escondem olhos castanhos extremamente bondosos. O cabelo ralo evidencia a inteligência. Os pulsos incrivelmente largos me remetem aos meus próprios.
Ele enfim me vê, me dá um oi desanimado.
E eu sei porquê.
Todos sabemos porquê.
Eu estou desanimada também, e amanhã, reunidos, todos ainda estaremos.
Sem você.
Ele sente isso.
Eu sinto isso, sinto o quanto ele é abalado por isso, mas não tenho a coragem de abraçá-lo e dizer em voz alta que compartilho de seu sofrimento. Afinal, é esse meu caráter que me torna mais filha dele.
Agora, meus ossos são pesados demais para que ele me carregue fisicamente em seus ombros como fazia quando eu tinha cinco ou seis anos. Figurativamente, contudo, ele o faz. E sempre o fará.
Mais tarde, surpreendo-o (nos) com um abraço.
Eu o enlacei em meus braços por um instante e me aninhei. Ele retribuiu, sem dizer palavras.
Do nosso jeito, ambos sabemos que isso significa transmissão de forças e sentimentos, sem ser necessário abrir a boca.
Se eu pudesse, ficaria aqui para sempre, aninhada nesses ombros largos e braços fortes que me seguram agora. Mas não posso.
É simpelsmente injusto.
Eu ficar aninhada a meu pai assim, enquanto ele não pode fazer o mesmo. Órfão.
Solto-o e me afasto para chorar em silêncio, escondida, como faço todos os dias desde agosto do ano passado.
Não suporto a ideia de que ele envelhece. De que algum dia eu o perderei também. Jamais serei forte para aguentar tal dor.
E então a lembrança do pai dele, e da casa onde ele e seus irmãos cresceram, onde eu e minha prima e minha irmã crescemos, me volta aos olhos, e o pranto se faz mais presente, mais grosso na garganta, virando e revirando-se em bolas de água salgada. O oceano de novo.
Socos no estômago de novo.
Tenho certeza de que se eu levantar a blusa, hematomas gigantes estarão à mostra em minha barriga por causa deles.
No espelho, meu semblante demonstra um corpo enfermo e uma alma machucada. Acho que daqui pra frente, esse é meu novo rosto.
De novo eu jorro esse sangue, essas vísceras, essa aflição, essas saudades.
Por mim e por ele.
E dele.
Já.

Ps.: foi só um jorro de palavras que tive que escrever...foi vindo e saindo.
Natália Albertini.