terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Costas.

Seu próprio reflexo a encarava do espelho.
Os cabelos caíam mais de um lado.
Ele, com a cabeça abaixada, mordia de leve seu ombro, por detrás dela.
Os corpos pressionavam-se um contra o outro.
Uma das mãos dele apertou-lhe o seio esquerdo com enorme força, fazendo-a fechar os olhos com intensidade e arquear os lábios sobre os caninos.
Quando se recuperou da onda de calor e do arrepio, voltou a olhar para o espelho.
Encontrou os olhos esverdeados dele a fitá-la fixamente.
Tudo o que via no reflexo era seu corpo, até a faixa do umbigo, e, por trás de si, os olhos dele sobre seu ombro, seus braços que passavam por sua frente, beliscando uma ou outra parte de sua cintura, e suas pernas, por fora das suas próprias.
As batidas da bateria e as cordas gritantes de guitarra berravam nas caixas de som.
O quarto era envolvido em penumbra.
Ele ergueu o rosto e mostrou o maxilar bem aberto, de dentes bem formados.
Ela ergueu o cabelo, levou a mão esquerda dele a seu seio e o induziu a apertá-lo com ainda mais força, enquanto sentia as perfurações de seus caninos em seu ombro.
E o sangue a lhe escorrer pelas espáduas, quente e viscoso.
Ele lhe elogiou as costas.

Natália Albertini.

Verme.

O trem metálico deslizava pelos túneis escuros, silencioso.
Eu tinha a cabeça encostada no vidro, séria.
Um cheiro acre me chamou a atenção.
Farejei algo diferente, com certo nojo.
Não precisei correr os olhos pelo vagão, de cara o vi parado no meio do corredor, fixo.
Devia ter por volta de um metro e meio de altura.
Sua pele era translúcida, seus cabelos, pesados e negros, e os olhos verde-escuro, de pupilas dilatadas.
Tinha manchas vermelhas e arroxeadas na região dos cotovelos e da nuca.
Sua aparência era debilitada, doente, embora o sorriso contido não desgrudasse seus lábios desbotados.
Ele não me olhou diretamente, mas eu sabia que havia me visto e era isso que o fazia sorrir.
Endireitei o corpo e senti meus lábios arquearem-se sobre meus caninos em repulsa, despropositadamente.
Um demônio num corpo de um menino.
They were back in town.
Pensei que precisava avisar Andreas o mais rápido possível, mas isso foi só um vislumbre de pensamento, pois o cheiro daquele verme, súdito do verme-mor, me enojava de forma intensa e viscosa.
As portas se abriram e ele se foi.
Só então senti o arrepio desgrudar-se de minha pele e meus dentes serem cobertos pelos lábios não mais escancarados.
Vermes.
Ainda extermino todos eles.
E guardo os corpos como troféus.
Andreas vai gostar disso... É, ele vai.

Natália Albertini.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tsunami

Eu saía da água com o cabelo respingando em minha cintura e a pele úmida.
O Sol lambia a imensidão de areia da praia.
Eu andava de volta para a esteira e a canga. Eles quatro conversavam animados.
Um deles tinha o corpo quase tão úmido quanto eu. Ele se postava de pé, de costas pra mim, mexendo as mãos em seu jeito tão característico. Os ombros morenos e caninos me davam segurança. Eu podia imaginar-lhe os olhos castanho-escuro esquadrinhando os que sentavam-se na esteira, pensando mil coisas num milésimo de segundo.
O segundo enrolava-se numa toalha, com os olhos de fora, fazendo os outros três rirem profundamente. As pernas esticavam-se à areia.
O terceiro rapaz tinha os ombros avermelhados, provavelmente ardidos. Olhava de soslaio para o segundo, expressando toda e qualquer partícula de sentimento e reação às falas por meio de sobrancelhas arqueadas e repuxadas de pescoço.
Ela... Bom, ela tinha na perna um laço cor-de-rosa amarrado e, no braço esquerdo, uma imagem semelhante a de si mesma. No topo da cabeça de cabelos longos e pesadamente escuros, um par de óculos-de-sol. Com seus traços finos e marcados, observava o diálogo em silêncio.
Por fim cheguei ao ponto onde estavam e me cumprimentaram com sorrisos.
Uma grande tsunami atingiu-me pelas costas, me fazendo mergulhar num mar profundo.
Mesmo sem ar, eu conseguia enxergar a luz do sol brilhando sobre a água.
Eu afundava, contudo.
Afundava e afundava, sem conseguir nadar de volta à superfície.
Meus membros não me obedeciam.
A sensação era boa.
Me deixei afogar naquele mar de afeto.

Ps.: para os meus quatro. Obrigada pelo fim de semana.
Natália Albertini.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Colo.

Ela deu dois pequenos passos pra trás e encaixou o corpo nas pernas meio abertas dele, em jeans.
Sua cintura encostou no torso dele, mais baixo, devido à altura de onde ele se sentava.
Eles se olharam e trocaram uma ou outra palavra.
Ela sentou-se em sua perna direita, de lado, cruzando as próprias pernas, com um dos braços passando por seu latente pescoço, revirando-lhe os cabelos de leve.
Ele enlaçou-a com ambos os braços. As mãos iam uma ao joelho mais alto dela e a outra, à coxa não tão coberta pela saia.
Ele falava com um amigo sentado ao lado.
Ela, ajeitada no corpo dele, olhou para frente e deixou-se encantar com as luzes multiplamente coloridas do espaço.
A música batia de leve em suas espáduas, e as mãos dele, em suas pernas.
Sorriu pelo clima da noite, satisfatoriamente ébrio.

Natália Albertini.

domingo, 6 de novembro de 2011

Antebraço.

Ele se escorava à porta do carro, de vidros escuros e intransponíveis, no banco couriáceo traseiro.
No meio de suas pernas abertas, as costas dela escoravam-se em seu peito desnudo.
A cabeça de cabelos longos pousava em seu ombro esquerdo. As mãos dela lhe beliscavam a perna e lhe puxavam os cabelos da nuca.
Ele tinha antebraços fortes e braços mais fortes ainda. Uma de suas mãos apertava o peito esquerdo dela, por baixo da camiseta.
Ela abriu os olhos por alguns instantes. Olhou o volume que a mão dele fazia sob a camiseta. Seus olhos continuaram a descer. Viu seu abdôme desnudo, com um antebraço dourado, de veias visíveis, com um pulso largo e pesado, adentrando-lhe a calça, pressionando-lhe mais abaixo.
Respirou fundo e fechou os olhos novamente.
Ele lhe sussurrou alguma indecência ao pé do ouvido.
Seu peito subiu.
O arrepio desceu.

Ps.: tava faltando uma baixaria aqui, né?
Natália Albertini.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Aterrisagem de emergência.

Respirei fundo.
Cerrei as pálpebras, certa de que um oceano me subiria aos olhos.
Errei.
Não subiu.
Inspirei mais uma vez e soltei o ar devagar.
A consciência de que toda a euforia das últimas semanas foi mera ilusão pesa sobre meus ombros.
Pode ser que amanhã eu acorde e me iluda novamente, pode ser que ache que estava louca hoje, assim como neste momento acho que ontem estava maluca.
Nesse pequeno e novo âmbito da minha vida, o qual me recuso a nomear, as tentativas têm sido em vão, tudo ainda me parece artificial e sempre sinto que o universo não me dá em troca com tanta paixão quanto eu.
É, e mais uma porta se fecha.
Dizem que deve-se tentar todas as portas, afinal, uma delas há de estar aberta.
E se eu não quiser isso?
Acho que por enquanto tenho a simples vontade de continuar nesse corredor imenso sem forçar qualquer maçaneta.
Detesto acima de tudo meus momentos de desilusão e aterrisagem no mundo real como este, mas me são naturais e intrínsecos.
De teimosa que sou, sigo desiludida, de cabeça erguida, olhando sempre à frente, nunca para trás.
De sagitariana intuitiva que sou, sigo com os ouvidos bem abertos. Nunca se sabe quando uma refutação pode surgir...

Ps.: when darkness turns to light, it ends tonight.
Natália Albertini.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Contra as leis

Sete horas da manhã. Estação cheia. O fluxo de pessoas vai para São Paulo, é notável, não é preciso perguntar individualmente qual seu destino, afinal, as escolas, universidades, maiores concentrações de emprego, comércio e oportunidades estão lá, no centro, na cidade que não pára. Vê-se o trem chegando, preparam-se, bolsas a frente do corpo, posição de quem vai para a luta. Primeiro desafio do dia: Entrar no trem. Em meio a empurrões, manobras com o corpo, xingamentos, desafiam as leis da física e provam que não só dois, mas sim vários corpos ocupam o mesmo lugar. A porta se fecha e um pensamento vem à mente:
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988” lembra-se, “Artigo 1, A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos... parágrafo 5, a dignidade da pessoa humana.”
A dignidade da pessoa humana. Não conseguia encontrá-la em meio ao aperto do trem.
E isso se repete diariamente. Para onde foram os R$2,90 que pagaram para entrar ali? Quem tiver curiosidade, encontrará dificuldades para obter a resposta. As empresas vinculadas à Secretaria de Transportes Metropolitanos como CPTM, Metro e EMTU, não disponibilizam esses dados com facilidade, divulgam balanços e demonstrativos com valores aleatórios e de difícil entendimento, mostra-se quantias destinadas a investimentos, porém, resta saber sobre quais investimentos estão falando já que diariamente é possível constatar a precariedade da estrutura dos trens e diante da necessidade do cotidiano, se torna cômodo, todos se acostumam, não há nada que possam fazer a não ser equilibrar-se em meio a muitos outros corpos para manter-se em pé no trem até chegar a seu destino. Atualmente a CPTM atinge 22 municípios e transporta 2,12 milhões de passageiros por dia. Se não é esta uma questão de suma importância para as prioridades de agenda política, é preciso rever conceitos. Não somente a falta de estrutura é incômoda, mas como também acarreta em uma série de outros problemas causados pelo acúmulo de pessoas e falta de espaço e também a falta de respeito. O Metrô registra até cinco casos de assédio sexual por mês dentro de seus trens, ainda uma estatística falha porque na maioria das vezes, as vítimas não registram queixa formalizada. Eis então a realidade da mulher que sai de casa de manhã para trabalhar ou estudar e é desrespeitada de forma repugnante por não ter outra opção de transporte, e não ter estrutura suficiente para acomodar seres humanos a pelo menos 10 centímetros de distância um do outro. A situação é preocupante, mas parece que só se preocupa com isso é quem utiliza o transporte público, e já que nisso não se inclui nossos governantes, nossos prefeitos ou nossa presidenta, não é de lá que virá a solução. Com o mínimo de esperança o trabalhador, o estudante, aquele que não possui um automóvel, vai torcer para que as obras da Copa do Mundo beneficiem indiretamente os usuários dos trens e metrô mesmo sabendo que o que for feito não será para eles, mas sim, só para inglês ver.


Ps.: Pedi um espaço emprestado no blog e a Natália gentilmente me concedeu. Brigada, Ná!
Rebecca Bonaldi.

domingo, 23 de outubro de 2011

A língua.

Silêncio e a mais pura escuridão.
Tentou ao máximo calar a respiração que, ofegante, parecia alta demais ali debaixo, poderia denunciá-lo a qualquer momento.
O chão poeirento debaixo da cama lhe fazia querer espirrar.
Não, agora, não!
Torceu o nariz e deixou os olhos, igualmente irritados, bem abertos.
Prendeu a respiração por segundos para apurar os ouvidos.
As últimas passadas haviam sido há mais de seis segundos.
A adrenalina lhe corria as veias desenfreada, ansiosa, comendo-lhe o sangue.
Por sorte, quando havia descido do colchão até ali, o edredon havia descido um pouco, cobrindo seu esconderijo - o mais seguro que pode achar em meio ao desespero dos passos pesados no piso ebúrneo.
Uma brisa gelada correu pelo vão deixado entre a coberta suspensa e o chão.
Seus pulmões congelaram, seus olhos arregalaram-se ainda mais, a respiração cessou por completo.
O edredon começou a ser erguido.
Um dedo gelado pecourreu-lhe o corpo do fim da coluna até sua nuca, fazendo-o estremecer.
O edredon erguia-se devagar, à medida que o frio adentrava seu esconderijo.
Uma lufada de vento bruta estapeou-lhe o rosto, quase o fazendo fechar os olhos.
Naquela escuridão pesada e palpável, eis que surgiram.
Eles.
Os dois rubis flutuantes, a uma distância mísera de seu rosto.
Ele abriu a boca, mas as cordas vocais demoraram demais a responder.
A luminosidade avermelhada deu lugar ao brilho claro de caninos afiados que abriam espaço para uma língua comprida demais para ser humana.

Na casa ao lado, Melina ouviu um grito que parecia ter a voz de Tim.
Não deve ser nada...
Voltou a dormir e, naquela mesma noite, sonhou com um par de rubis a flutuar perto dela.

Ps.: que saudades de escrever minhas babaquisses aqui! Onde vende TEMPO mesmo?
Natália Albertini.

domingo, 9 de outubro de 2011

De ponta-cabeça.

Ele forçava suas pernas para fora.
Ela apoiou-se sobre os braços na pia e envergou o pescoço, deixando a cabeça cair pra trás, encarando seu reflexo embaçado de ponta-cabeça.
A pressão no meio de suas pernas fazia a parte inferior de sua virilha se esquentar surpreendentemente.
Deixou a cabeça cair ainda mais e então o viu.
Ela sentia o peito dele roçar sua cintura e seu abdôme.
No reflexo, viu aqueles olhos manchados de vermelho e aquela boca com dentes sujos de visco rubro escalando o meio de seus seios.
Ele fincou os caninos ali e fez o sangue escorrer por seu corpo desnudo.
Ela não conseguia levantar a cabeça.
A sensação simultaneamente gelada e quente a dominava, deixando-a mole.
Apertou os próprios olhos e ficou vendo o reflexo ensanguentado e de cabeça para baixo comer-lhe.

Natália Albertini.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Crazy Diamond.

Sentiu o lençol sob si, o camisetão subindo e deixando a pele da cintura em contato com o algodão do edredon.
Remember when you were young?
You shone like the sun.
O refrão, melodioso.
Afundou o rosto no travesseiro e estralou a parte interna na coxa direita, pondo-se de bruços, numa posição que ninguém além dela acharia confortável.
O resto de sol esguio e poeirento se infiltrava no quarto, arrastando-se silenciosamente pelo chão lígneo.
Now there's a look in your eyes,
Like black holes in the sky.
O refrão, adocicado.
Respirou fundo.
Deixou as pálpebras se beijarem, os cílios se abraçarem.
Entrou no sono.

Ps.: já pode fazer isso? x.x
Natália Albertini.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Arriverderci.

Eu andava despreocupada pela calçada da larga avenida, sibilando a música que ouvia.
Tinha os óculos de sol me protegendo os olhos da claridade infinita e os cachos me caindo em cascata sobre os ombros.
Uns dez metros à frente, uma velhinha entrava em meu caminho, vindo em minha direção, vagarosa, com uma bengala, óculos grossos e cabelos adocicadamente avermelhados.
- Vamos trocar? - ela me dirigiu a palavra quando passei por ela.
Eu a olhei, mais baixa que eu, diminuí o volume, e fiz uma cara interrogativa. Ela prosseguiu:
- Eu fico com a sua idade e você, com a minha.
Abri um largo e sincero sorriso, olhando-a aos olhos e pondo os óculos no topo da cabeça.
- Vamos fazer assim: nós dividimos e ficamos as duas com a mesma idade, que acha?
Ela abriu um lindo sorriso de volta, feliz com a sugestão.
- Quantos anos você acha que eu tenho? - ela me perguntou.
Eu sabia que ela tinha mais de oitenta, mas não era isso que ela queria ouvir, então me curvei à sua expectativa:
- Setenta e cinco?
Ela sorriu, plenamente satisfeita, e respondeu:
- Tenho oitenta e oito anos.
Me surpreendi e deixei minhas feições mostrarem isso, o que a alegrou ainda mais. Disse:
- Nossa, mas a senhora está muito bem mesmo! Jamais chutaria essa idade!
- Pois é - seu sorriso não desgrudava-se de seus lábios finos e corados com um batom rosado - eu vim da Itália,
- Não me diga! - eu, sinceramente interessada na história de vida daqueles fios avermelhados e daquela pele docemente enrugada.
- Sim, vim, sim! Já quando era mocinha...
- Parla italiano? - brinquei.
- Si, parlo! E acho tão mais bonito que português, não é?
- Ah, talvez...
- E você? Parla italiano, bambina?
- Não, falar eu não falo. Ma io capito!
Ela riu, alegre.
Um momento de silêncio, nós duas nos encarando.
Completas estranhas admiradas com a plenitude uma da outra.
Começamos a nos afastar, num gesto espelhado.
- Arriverderci! - ela acenou
- Arriverderci! - retribuí e voltei à minha caminhada, assim como ela, à dela.
Antes de eu aumentar o volume de novo, a ouvi falando comigo e me virei, escutando melhor o que ela tinha pra me dizer. E era:
- Você é linda!
Minhas sobrancelhas subiram juntas em afeto e gratidão. Fiz uma reverência, como uma nobre, com um dos pés atrás, e retribuí:
- A senhora também!
Nos sorrimos por mais alguns segundos e então, simultaneamente, nos viramos e voltamos a nossas rotinas.
Mudadas, contudo.
Novas.
E velhas.

Natália Albertini.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sangue ao canto dos lábios.

Três.
Ela estava sentada no muro, com as pernas bem abertas, completamente à mostra nos shorts curtos e listrados, e o torso coberto, exceto pelos ombros, com uma camiseta de alguma banda de heavy metal.
Seu cabelo estava revirado, abrangente e volumoso. Os lábios, molhados de cerveja, avantajavam-se num vermelho profundo, enquanto que os olhos se acinzentavam.
Um de seus braços enlaçava o pescoço de um deles, cuja mão segurava firme e possessivamente sua cintura, com os dedos adentrando a peça listrada.
Ele, à direita, tinha um dos joelhos dobrados, mais próximos ao corpo.
O cabelo enegrecido contrastava com sua camisa branca. Seu cenho era carregado, seus olhos, avermelhados. Na mão livre, um cigarro fumegante. A fumaça saindo de sua boca.
Do outro lado, com uma cerveja na mão, ela tinha o outro apoiado sobre uma de suas coxas.
As pernas dos dois perpassavam-se.
A mão dele aproximava-se muito da virilha dela, quase ao término dos shorts.
Ele tinha os olhos injetados, arroxeados, e os lábios arreganhados num sorriso de escárnio. Os ombros iam largos, e a cerveja na mão escorria, suada.
Três demônios.
Eles três.
Nós três.

Ps.: for you, guys. (: Thanks for all the nights!
Natália Albertini.

sábado, 17 de setembro de 2011

Camisa azul.

Levantei do sofá de cores pastéis e comecei a andar pelo corredor, com os pés descalços no chão gelado e claro, devagar.
Passei pelo quarto, à esquerda, com a cama de casal e a penteadeira, tão familiares.
Passei pelo segundo quarto, também à esquerda, com suas duas camas de solteiro, suas colchas coloridas, a escrivaninha e seu computador e a janela aberta, deixando entrar o sol da tarde.
Passei pelo banheiro, à direita, esplendorosamente grande e claro, com um espelho a me refletir a imagem desgrenhada e trêmula.
Cheguei à cozinha, onde passamos tantos natais e dias comemorativos, comendo e falando alto, rindo e nos censurando, com sua mesa de madeira e seu respectivo furinho, lascado, à ponta, o qual meu polegar já está cansado de saber how it feels to touch it.
A cortina levantou-se um pouquinho com a movimentação do ar, revelando a tesoura escondida no parapeito da janela, e voltou a abaixar-se.
Pisei, por fim, na varanda. Naquele granito verde escuro gélido e acolhedor.
A churrasqueira, a máquina de lavar e os dois tanques me cumprimentaram em silêncio.
Me aproximei da borda do degrau da varanda para o quintal, perto dele.
Ele vestia uma calça social preta, sapatos pretos, e uma camisa azul bem abotoada.
Tinha os olhos de menino por detrás do óculos grossos e o cabelo grisalho, mas cheio, acariciado pela brisa vespertina.
O sol tocava de leve sua pele enrugada e seus cílios, suas mãos italianas manchadas e também as plantas do jardim que eu tanto amava.
Me postei atrás dele e o abracei, envolvendo seus ombros com meus braços e pousando meu queixo em seu ombro.
Ele respirava fundo, com dificuldade, forçando o ar a preencher seus pulmões.
- Por quê? - me ouvi dizer.
- Porque, menina - um golpe em meu estômago ao ouvi-lo me chamar assim - era hora.
Meneei a cabeça.
- Não, ... Por quê?
Ele não respondeu, continuou fitando o vazio, mas então levou uma das mãos a meu braço e me tocou, presente.
Lágrimas frias me escorreram pela face, rolando, desobedientes, enquanto sentia um novo bolo delas me escalar a garganta.
- Menina... - de novo ele me chamando assim, cada vez mais distante.
O chão verde e gelado começou a ceder sob meus pés.
Me agarrei a ele, a aquele homem que era tanto pra mim. Que fora.
Apertei-o com força entre meus braços, mas ele parecia esvair-se.
O bolo de lágrimas subindo e subindo.
Forcei as pálpebras umas contra as outras, senti meus cílios encharcados e abri meus olhos, não só marejados, mas oceânicos.
Meus braços entrelaçavam-se um no outro, minhas pernas esticavam-se, buscando o chão verde, e meu rosto descansava numa fronha molhada, bem como meu corpo, num lençol amarrotado.
De volta pra essa casa, mas sem aquela.
Sem o que um dia foi parte de mim.
Sem ele.
Sem vontade alguma de levantar e continuar.
Contudo, levantei.
A ânsia que tive foi maior, me revirou o estômago.
Despejei no chão o vômito quente e sanguinolento.
Tudo o que dentro de mim se abriga há mais de um ano: falta de você.
E de nós todos.

Natália Albertini.

domingo, 11 de setembro de 2011

Rock. And. Roll.

O barulho da multidão era espalhafatoso, ouriçado.
Ele pulou com um pé de cada vez e olhou para o palco, ali detrás dos panos, pronto, esperando para sua entrada triunfal.
O instrumento vibrou, tão ansioso quanto o público.
Chacoalhou a cabeça com os olhos apertados.
Virou pra trás e viu os colegas relaxando o corpo, se alongando e respirando mais fundo, o de sempre.
Voltou a olhar a iluminação do palco, sentiu na pele a ansiedade das quarenta mil pessoas ali, próximas, e fez uma das cordas da guitarra vibrar.
A multidão foi ao delírio.
Olhou para os companheiros, esperando a confirmação de cabeça de cada um.
Todos pronto.
Respirou fundo.
Outra vez.
Disparou para o palco, onde quase não ouvia o som da própria guitarra, mediante aos gritos de clamor daquela multidão.
Rock and roll.

Ps.: Whitesnake foi! *-* VEM, SYSTEM!
Natália Albertini.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cama.

Deitei e puxei o edredon, sentindo o camisetão se levantar até minha cintura.
Não me importei.
Afundei os cachos no travesseiro e me virei pro lado direito, com o corpo virado pra baixo, na intenção de estalar a parte interna da coxa esquerda.
Clac.
Respirei fundo e ouvi atenta o silêncio do apartamento.
Forcei as pálpebras, entrelacei os cílios.
Quatro horas para dormir e recomeçar a semana.
Minhas ancas e pernas numa dor latente.
Cansaço pré-semanal.
Sorri com aaaaahhh...que sono, acho que vou...

Natália Albertini.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

My tears don't dry on their own.

Eu estava ao sofá de couro, entre meus avós maternos: ela, à minha direita, ele, à minha esquerda.
Eram meus únicos, os paternos haviam me deixado.
Meu tinha a atenção voltada para a tevê e a mão direita apoiada em meu joelho esquerdo, amigavelmente. Minha mão sobre a dele.
Minha apertava os olhinhos por detrás dos óculos e minha mão direita por dentro da esquerda dela.
- Olha só o que eu lendo - e ela se esticou para pegar um livrinho denominado 'Feliz Aniversário!' que me parecia estranhamente familiar.
- Era do seu avô.
Ah... Por isso eu o reconhecia. Era do Germano, pai do meu pai. Aquele que fechou os olhos em agosto do ano passado. E meu Deus do céu, já faz um ano, embora a dor ainda se alargue dia após dia.
- E olha só o que eu achei no meio dele.
Ela soltou minha mão, o que me doeu muito, quase fechei os dedos em torno do pulso dela, para que ela jamais me soltasse, mas manti a postura e cerrei o maxilar. Passou a folhear o pequeno livro com os dedos gordinhos e marcados.
A consciência da mão magra e fina do meu Osvaldo sobre meu joelho era pesada, nítida.
Minha avó parou as páginas e tirou do meio das poesias um pedaço de papel, entregando-me e dizendo:
- Olha!
Demorei a entender o que era, até que comecei a desvendá-lo.
Era papel em formato de um cachimbo. Na boca dele, estava escrito 'Papai'. Abri aquela forma e me deparei com os seguintes dizeres, gravados numa caligrafia infantil:
'Papai,
Com muito amor.
De seu filho,
Sérgio'.
Lágrimas gordas me brotaram aos olhos, respirei fundo.
Não sei se o que mais me doeu foi saber que aquilo era da infância do meu tio e algo tão particular que talvez ninguém devesse ter sequer posto os olhos, ou entender que meu havia guardado aquilo ali, escondido naquelas preciosidades, no meio de letras, por todos aqueles anos, provavelmente vendo-o toda vez que folheava o livro.
Remeteu-me à ocasião em que, um ano antes, minha tia, logo após a morte de meu avô, achara sobre o guarda-roupa dele uma caixinha com pertences de minha avó, falecida há dez anos.
Tive vontade de chorar pela falta que ele me faz.
E pela miséria em que vivo por não poder ter sua casa mais uma vez para me acalmar.
Acho, entretanto, que acima de tudo, tive vontade de chorar pelo esplendor daquilo tudo, pela capacidade que um ser tem de se recordar com afeto de outros, a despeito de qualquer discussão ou esquecimento figurado.
Apertei bem as mãos de meus avós ainda presentes e me obriguei a engolir o pranto.
Disse que tinha que estudar e vim logo embora, não suportei ficar mais nem um minuto na presença deles.
Não sabendo que ela me será privada um dia.
E essa dor já se faz dura, palpável.

Again and always missing you,
Natália Albertini.

domingo, 21 de agosto de 2011

Haven't Met You Yet.

A garoa caía fina na estrada.
O interior do carro era aconchegante e habitado apenas pelas melodias cantaroladas de Michael Bublé.
Ele dirigia com uma mão só, enquanto que com a outra, ao trocar de marchas, sutilmente acariciava a perna esquerda dela, em profunda afeição, sem precisar lhe olhar às íris.
Ela tinha a cabeça encostada ao banco, virada para a direita, olhando a via bem pavimentada, os carros a serem ultrapassados por ele, sibilando a letra das músicas.
A água batia de leve aos vidros.
O trânsito parou.
Ele diminui a marcha e freou levemente.
Cada um olhava para um lado da estrada.
Quem os visse de fora diria que estavam brigados, que não se falavam naquela noite chuvosa.
Por dentro, contudo, a mão dele sobre a coxa dela.
E a mão dela sobre a dele.
Natália Albertini.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Cheshire.

A bolsa me pesava no ombro esquerdo, jogada para trás.
Os pés já pediam descanso, as pernas caminhavam duras, sérias.
The Corrs aos meus ouvidos.
Cachos presos ao topo da cabeça.
Olhos semi-cerrados de cansaço.
Então uma luminosidade alta me chamou atenção. Olhei.
Era ela, gibosa e prateada, sorrindo pra mim.
Sorri de canto de volta para ela.
Continuei meu andar sem tirar os olhos daquele brilho tão reconfortante.
Esperei, em vão, o gato de Cheshire aparecer e me confundir com caminhos diferentes.
Então, me confundi por mim mesma.

Natália Albertini.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Cevada

Abriu a lata de cerveja: infortúnio.
A maldita estourou em suas mãos, esparramando aquela espuma ansiosa pelo chão, sujando-lhe os dedos, melecando-os.
Os amigos zombaram dela e ela, despreocupadamente, riu junto.
Colocou a lata no banco ao lado, pedindo para que jogassem fora, e foi ao banheiro lavar as mãos agora lambuzadas.
Empurrou a porta do estreito e mal iluminado metro quadrado que se tinha a pachorra de ser chamado de banheiro ali, à procura da pia.
Antes que conseguisse enfiar-se dentro do pequeno local, outro corpo colou-se ao seu e a empurrou, fechando a porta atrás de si.
Ela foi prensada contra a bancada da pia, seus ossos à cintura, do quadril, pressionados contra a pedra fria, seu rosto de frente para o espelho, ao lado do dele.
Ele era mais alto e mais forte. Com uma das mãos lhe segurava pelos cabelos e com a outra, trancava a porta.
Ela sorria, os olhos já semi-cerrados devido ao álcool.
Ele tinha os dele completamente fechados, envolto na atmosfera dela.
Ela observava seus reflexos, divertidas com o prazer dele em sentir o cheiro de seus cabelos, bagunçando-os com uma das pesadas mãos, enquanto que, com a outra, vasculhava-lhe as pernas, quase subindo por dentro do vestido.
Ela balançou a cabeça e ajeitou o corpo, encaixando-se melhor, de trás, no dele, enquanto ele ainda lhe pressionava contra a pia.
Ela esqueceu de lavar as mãos.
A imundíssie era uma boa companheira nessas horas.
Jogou um dos braços pra trás e puxou-lhe os cabelos da nuca.
Ele gemeu e a xingou, o que a divertiu.
Ajudou o rapaz a apertar-lhe com imensa força um dos peitos, lambendo os lábios, ainda encarando o próprio reflexo, vendo a língua dele perder-se em sua nuca e em sua orelha.
A mão dele beliscou-lhe uma das coxas, por dentro, quase à virilha.
E aí subiu.
E apertou, com um dos dedos mais levantado que os outros.
Ela revirou os olhos e jogou a cabeça para trás, ao ombro dele, quase arrancando-lhe cabelo.
A cerveja esparramada.

Natália Albertini.

domingo, 7 de agosto de 2011

To go away on a summer's day never seemed so clear

Sábado à tarde.
Sol iluminando a área da churrasqueira.
Sentada ao banco de concreto, com as pernas esticadas. No pé, chinelos; no corpo, saia leve e azul e regata branca; no rosto, óculos escuros; na cabeça, coque; nas mãos, uma cerveja.
Ao redor, conversas paralelas, cordas de violão sendo acariciadas.
Um vento sutil a lhe mostrar pedacinhos de pernas, atrevido, levantando-lhe a saia. Ela, com pudor, tentando abaixá-la, sem muita preocupação, contudo.
Um sorriso se fixava ao canto de seus lábios, insistente.
O clima quase quente daquela tarde a agradava mais que tudo.
Esqueceu-se de qualquer dor que was supposed to feel.

Natália Albertini.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Cicatrizes de fogo.

Eu corria as fast as I could.
Minhas coxas levavam chibatadas, quase não aguentavam mais.
Eu corria, corria, corria.
O suor me brotava na nuca, gelado de cansaço.

E de medo.
Eles estavam atrás de mim. DE MIM!
E gargalhavam à minha volta, invisíveis no escuro denso.

Meus pés começaram a falhar, mas a inércia ainda não era forte o suficiente para fazê-los parar. Forcei-os mais.
As gargalhadas endemoniadas enchiam o ambiente invisível. Era como se eu estivesse vendada e eles rissem ao pé de meus ouvidos, muito próximos, me puxando pelos pulsos, me ordenando que eu ficasse.

Os toques e puxões que eu recebia nos pulsos pareciam me queimar a pele.
Meus olhos estavam arregalados, meu peito, arfante.

Meu corpo pedia descanso, embora a corrente de adrenalina fosse gigante.
Me perdia em desespero, pressa, agonia.
ELES ESTAVAM EM VOLTA DE MIM, PRESTES A ME PEGAR.
Um calor insuportável se alastrava, meu corpo parecia em chamas.
Aquela temperatura altíssima e muito vermelha se espalhava pelo meu pobre corpo, exausto e desesperado.
Eu forcei os olhos, tentando enxergar algo, tentando escapar daquele escuro implacável.
Tossi, trazendo um pouco de vômito à garganta.
Abri os olhos de sopetão, assustada. Tinha grande dificuldade de respirar, o ar não parecia querer adentrar meu corpo, como se lá dentro fosse encontrar algo desagradável demais.
Rodei a cabeça no travesseiro encharcado de suor.
Percebi-me em meu quarto, arfante, espantada e amedrontada, mas num escuro menos denso e perigoso que antes.
Suspirei em alívio, enxuguei a nuca com o lençol e tentei voltar a dormir, em vão.
De manhã, logo pelas primeiras horas, quando me levantei, vi meus pulsos e tornozelos em carne viva, envoltos por machucados semi-cicatrizados e sangue mal-seco.
E eles ardiam.
Não, não.
Eles queimavam como se alguém estivesse bem ali ateando fogo a eles.

Ps.: meus pulsos aos olhos de Rebecca Bonaldi. Esse foi pra você, baby! :D
Natália Albertini.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Energyless

Ela andava despreocupadamente, com seu gingado habitual, balanço os lisos e curtos cabelos escuros.
Sibilava a letra da música que ouvia.
Chegou ao terminal de ônibus.
Escuridão.
Ela arqueou as sobrancelhas e diminuiu o passo, colocando a bolsa mais à frente do corpo.
Logo entendeu que a região encontrava-se sem energia.
Esquadrinhou o ambiente, apertando os olhos, adaptando-os ao escuro.
A claridade do dia já se esvaía por entre as nuvens, mas ainda ajudava a dissipar - ainda que minimamente - o preto generalizado.
Os vultos iam e vinham, andando com cuidado para não se esbarrarem.
Ela apertou o passo de novo e começou a atravessar o escuro, em busca da outra extremidade, onde a luz do dia, ainda que rala, a ajudaria.
Uma voz feminina vindo dos fones sussurrou low battery e desapareceu. Até seu próprio iPod a abandonou.
Ela passou a andar ainda mais rápido.
Mantinha os olhos à frente, como se usasse o próprio cabelo de cabresto, não ousava olhar para os lados. O escuro ainda era o que mais a amedrontava. Ou melhor, o que podia haver nele.
Algo, contudo, chamou sua atenção à direita.
Não teve tempo de controlar o corpo e dizer a ele que não virasse, seus reflexos foram mais rápidos.
O que viu foi nada menos que dois pequenos e brilhantes pontinhos vermelhos a flutuarem, a alguns pés de distância dela.
Suas sobrancelhas se arquearam de novo e seus ombros se ergueram em grande surpresa. Começou a suar frio
Mais à frente, outro par avermelhado também a encarava.
Outro susto.
Mais pressa aos pés.
Vamos, vamos, vocês podem fazer mais do que isso sem necessariamente correr.
Um hálito gelado em sua nuca.
Desatou a correr, segurando a bolsa perto do corpo.
Os olhos arregalados, o cabelo bagunçado, o peito arfante, as mãos trêmulas e os pés confusos.
Tão confusos que (AI, MEU DEUS, NÃO, POR FAVOR) se embaraçaram e arremessaram o corpo ao chão.
Ela caiu estatelada, naquele escuro desolador.
Tratou de recuperar a bolsa e o equilíbrio, mas ao se virar para trás, involuntariamente, os pares de olhos vermelhos, que agora pareciam centenas, não, MILHARES, já a haviam alcançado, incrivelmente ágeis.
Foi arremessada brutalmente ao chão novamente.
Ao tentar gritar, algo tapou-lhe a boca.
O completo escuro, antes dissipado pela vermelhidão, voltou a alastrar-se por todo o seu corpo.
Preto.

Natália Albertini.

domingo, 17 de julho de 2011

Sardas.

Saia de cintura alta, camiseta de manga três quartos, botinas e jaqueta de couro, bolsa tamanho exagerado, óculos escuros, fones de ouvido brancos e livro numa das mãos.
Eu ouvia Vampire Weekend, entretida.
Olhos.
Olhos à minha cintura.
Detectei-os à minha esquerda.
Com os pés fixos ao chão do metrô em movimento e uma das mãos segurando firmemente um apoio, virei o rosto para a fonte dos olhos.
Nada.
Ninguém me olhava.
Os olhares pareciam ter vindo de um corpo masculino bem formado aos ombros e ao (hmmm, e que) pescoço e de um rosto incógnito, já que a cabeça estava abaixada, ocupada em ler um livro com figuras de arte barroca. Vi somente uma boina cinza encobrindo a cabeça indecifrável.
Dei de ombros.
Voltei a encarar as janelas do metrô.
Olhos.
Olhos à minha cintura.
Desta vez, fui mais rápida.
Virei o rosto novamente.
Choque.
Ele me encarava.
E era lindo.
Tinha a pele muito clara, com algumas poucas sardas, cabelos alaranjados, bem como os cílios, e olhos adocicadamente verdes. Seus lábios eram pouco rosados e, durante o choque das cores frias, me deram um sorriso de canto.
Suas sobrancelhas não se curvaram.
Nos encaramos, famintos.
Virei o corpo de frente, ele me olhou dos pés à cabeça, abrindo o sorriso e fechando o livro.
Trotei, segura, até ele, no fim do vagão.
Os corpos se colaram.
Minhas mãos acharam sozinhas os cabelos e o pescoço dele. Minhas unhas não tardaram a fincar aquela pele tão suculenta.
O entrelaçamento das línguas foi acridoce.
Ele me beliscava a cintura e as coxas, me puxando o cabelo para baixo.
Olhos fechados e mentes abertas.
Bem abertas.
O condutor anunciou a chegada à minha estação.
Pisquei.
Ainda ouvia a Vampire Weekend e ainda estava no mesmo lugar de antes, parada, com a cabeça torta, encarando aquele pedacinho laranja de felicidade matutina, imóvel.
Ele ainda sorria pra mim, com o interesse no livro perdido há muito tempo.
Eu não sorri. Jamais sorriria. Not that easy.
Me deleitou, porém, o agrado dele em me observar.
Saí confiante do trem, sem sua saliva e pele sob minhas unhas, mas com os olhos dele ainda me queimando as costas e, você sabe, um pouco mais abaixo disso.

Natália Albertini.

terça-feira, 5 de julho de 2011

A e B.

Apoiada sobre as botas de cano alto, eu conversava educadamente com minha mãe e um de seus colegas de trabalho.
Um outro conhecido falou com seu bebê:
- Ai, João, chega! Papai não aguenta mais te segurar assim!
Ouvindo isso, os três que conversavam, olharam para o pai e seu filho, loiro como Peter Pan, e se ofereceram para segurar a criança um pouco.
O pai, baixinho e meio careca, impulsionou a criança para frente, entregando-o ao colega de trabalho que conversava com minha mãe e comigo.
O bebê se esquivou, esboçando um não com as palavras.
Foi impulsionado de novo, mas agora em direção à minha mãe. A reação da criança foi a mesma.
Por último, foi içado para frente, mas desta vez, em minha direção.
E, desta vez, o rosto do bebê se iluminou num sorriso banguela, fazendo os olhinhos verdes brilharem. Ele estendeu as maozinhas gorduchas e branquinhas, como paezinhos, para mim, radiante.
Fui contagiada, naturalmente estendi um amplo sorriso, retribuindo-lhe.
Coube perfeitamente nos meus braços, ficou a brincar com meus cachos, muito entretido com minhas caretas e jogadelas ao ar.
A sensação de tê-lo ali, aninhado a mim, foi de uma paz gigantesca.
Ao visualizar meu Bernardo e minha Alice a brincar perto de mim, adentrados uns quinze anos no futuro, a paz cresceu ainda mais.
Aguardo-os com ansiedade.

Ps.: essa minha mania de me ver como mãe perfeita. Claro, só depois dos trinta... (:
Natália Albertini.

domingo, 3 de julho de 2011

Encaixe

- Então... Vamos mesmo fazer isso? - ela o encarou aos olhos.
- Sim.
- Não vai voltar atrás?
- Não mesmo.
Ela sorriu.
Ele, idem.
A esse ponto, as borboletas de cores pasteis já estavam calmas, embora ainda uma ou outra farfalhasse as asinhas por dentro daqueles estômagos, fazendo cócegas.
- Então está bem - como sempre, ela tinha dificuldades em parar de falar e em deixá-lo.
Ele assentiu com a cabeça, ainda a olhando com aqueles lânguidos e macios olhos verdes-mar, sorrindo com o canto dos lábios.
Ela baixou seus cílios, olhando com os seus azuis-turquesa para o chão.
Olharam-se de novo, como se aquela separação fosse durar uma eternidade, como se fosse a coisa mais difícil de se fazer. Não precisavam se tocar, os olhos por si só se prendiam.
Ela deu um passo pra trás, enfraquecendo o feitiço.
Ele não se moveu, não deixou de fitá-la por um segundo sequer.
Ela se virou, não tão pronta quanto pretendia, para partir.
Deu dois passos na direção oposta da dele, já de costas.
Todavia, algo a deteve. Algo que urgia para que os olhos se encontrassem uma última vez.
Virou-se, mas virou-se na certeza de que ele já havia desviado o olhar, de que ele já enxergava outros horizontes, de que seu corpo já havia saído do eixo de antes.
Erro.
As borboletas eriçaram-se e levantaram voo, desorganizadas, trombando umas nas outras e nas paredes gástricas dela.
Ele ainda a olhava, com a mesma ternura de antes e com uma pitada de dor, já que ela estava a partir.
Um de seus braços se estendia na direção dela que partia sem um último toque.
Havia feito tal movimento inconscientemente. Seu corpo buscava o dela sem a percepção do cérebro, sem racionalidade.
Ao vê-lo ali, parado, estendendo o braço para ela, já sentindo sua falta como ela já sentia a dele, desatou a andar de volta.
Os corpos se encontraram, ela segurou seu braço, antes estendido, e fez com que os lábios se chocassem.
Aqueles lábios, privados uns dos outros por um tempo demasiado longo, encontraram-se com a mesma sintonia de antes, provaram que em nenhum momento o esquecimento havia os tocado, a memória era sempre presente. Eram perfeitos.
Ele a enlaçou pela cintura, aproximando ainda mais os corpos. O dela ainda se encaixava no dele de maneira perceptivelmente harmônica. Confirmavam o que os lábios já haviam silenciosamente dito.
As borboletas rodopiavam, caíam e levantavam voo novamente, se multiplicavam e mudavam de cor.
O encontro das cinturas, dos braços, dos lábios, dos corpos e daquelas duas almas foi amarelo claro com uma pitada de verde no fim.

Natália Albertini.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Semi.

Ele recostava-se ao balcão, com uma cerveja em mãos, olhando o mundo do topo, já que era suficientemente alto para tanto.
Não movia-se muito, só analisava as mortais que dançavam.
Flitching glimpse.
Uma semi-deusa à sua esquerda.
Ele, sem perder a compostura, encarou-a passando logo à frente.
Ela era mais baixa que ele, tinha os ombros e as pernas, voluptuosos, à mostra, convidativos.
Seus olhos a percorreram de cima a baixo.
Ela percebeu, mas não mostrou qualquer reação, a não ser esbarrar nele de modo fingidamente ocasional, fazendo os corpos se tocarem por milésimos, faiscando.
Ele a seguiu com os olhos até ela sumir na multidão.
Balançou a cabeça de leve, recuperando-se, voltando a seu patamar.
Entretanto, nenhuma outra dali era tão interessante quanto aquela. É claro, porém, que suas expressões não demonstravam nem vislumbres do conflito interno.
Foi quando, de súbito, ela voltou e se postou à sua frente, muito próxima, furiosa.
Eles sustentaram um olhar flamejante, sangue e fogo lhes escorriam dos olhos.
Seus cenhos franzidos, seus maxilares trincados, seus ombros, duros.
Rudes, grossos e mal-educados.
Ela começou a dançar, agressiva, revirando os cabelos, os olhos, escorrendo as mãos pelo próprio corpo, fazendo-o salivar. Suas pernas quase encaixavam uma dele. Não se deixou ser tocada, entretanto.
A excitação era a do quase.
Quase se tocavam, quase se beijavam, quase se tinham.
Ele não conseguia desgrudar os olhos dela, contudo era bruto ainda, o que a enlouquecia, fazia sua pele avermelhar-se e seus lábios avolumarem-se. Ele movimentava-se de leve, com total auto-controle, embora fizesse a maior força do mundo para manter-se fixo.
Encarava as coxas dela em volta da sua, a cintura que por vezes se descobria, a blusa caindo que quase lhe mostrava o topo de um dos seios, com imensa gula. Poderia lamber, mastigar, devorar aquele corpo a noite toda, até o sol lhes negarem mais prazer. Poderia arrancar-lhe a roupa do corpo, fazê-la obedecer e puxar seus cabelos até ela gritar, como se domasse um cavalo selvagem.
Ela ainda dançava.
Ele ainda se mantinha.
Ele não aguentou, foi fraco, e deu-lhe uma mordiscada no pescoço.
Ela abriu o sorriso mais estonteante da face da Terra.
Ele se sentiu desnorteado, percebeu a gravidade do que fazia, então sorriu de volta pra ela, como um "nos vemos por aí", e saiu de perto.
Ela foi deixada ao balcão, sozinha, parada. Olhou para o chão e sorriu para si mesma, satisfeita ainda assim.
Fechou o zíper.

Ps.: he. :)
Natália Albertini.

Queima.

Saiu do prédio em direção à rua, com a blusa meio caída ao ombro esquerdo. No outro, a bolsa pendurada, aberta, de onde ela tirava o celular com mãos frescas.
Uma mulher menos corpulenta e juvenil que ela a parou:
- Por favor!
Atenciosa, levantou os óculos-de-sol, fazendo com eles uma tiara aos curtos mas pesados cabelos alaranjados.
- Pois não? - sua voz era adocicada e prestativa.
- Qual é o número do apartamento da síndica?
- 12, se não me engano, senhora - os cílios pôr-do-sol.
A mulher de meia idade sorriu, singelamente agradecida, e completou:
- Que Deus te abençoe!
Já se afastando, o pequeno raio de Sol engoliu aquelas quatro palavras como se fogo lhe descendo a garganta.
Os olhos flamejaram e teve uma comichão nos braços, quase deixando a subpele vermelha subir à tona.
Malditos. Malditos fossem!
Jogando suas bênçãos aos ventos, a aqueles que mais as desprezavam e odiavam.
Fez os olhos saírem do vinho e voltarem ao cinza, indiferentes, gélidos.
Voltou-se a seu propósito maior.
Eles que se afundassem na própria fé.

Ps.: I know it doesn't seem to make any fucking sense, buuuuut...
Natália Albertini.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Florida

She had her back on the wall. She was sitting on the bed, which was covered in white.
Her legs were long and naked. The hot Florida air made her wear nothing but panties and one of his big baseball shirts.
He was almost falling asleep on her lap, his eyes were light green and his eyelashes, deeply blonde.
She had a book in one of her hands, while the other one had its fingers on his yellow and straight hair.
He stretched his body, half naked as hers, but on the top part of it, and found a new and better position for his head above her soft legs.
Almost voiceless by the tiring hot weather and the sleeping atmosphere, seconds before falling asleep, he whispered, unconsciously:
- Don't let me go.
She heard.
She laid down the book, smiled with affection and got down, putting her face right in front his, almost gathering their lips.
She whispered back to his sleeping ears:
- I won't. Ever.
Then she kissed him softly, taking care not to wake him up. And she knew that she never would.
And she didn't.

Natália Albertini.