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Mostrando postagens com o rótulo Coisas de Natá

Um café amargo

     Tomava meu café e, para matar alguns minutos que tinha livres, rolava meu Instagram devagar, lendo algumas postagens e ignorando outras.      Ultimamente, criei o hábito de, a cada foto que vejo, me perguntar se de fato conheço aquela pessoa e se faz alguma diferença saber o que passa em sua vida. Se a resposta é sim, deixo-a ali, até que me questione em algum  outro momento. Se a resposta é não, vou até seu perfil e não só paro de seguir-lhe como a removo dos meus seguidores.     Normalmente, é um processo indolor, porque as respostas costumam ser bem simple: sim ou não.     Contudo, nessa manhã, vi uma foto de Angélica.     Era seu aniversário. A foto a mostrava muito feliz e toda sorrisos,  cantando parabéns atrás de um bolo elaborado. A legenda era um tanto clichê (mas quem de nós é que não é?) e os comentários me pareciam vazios.     Ela fazia 34 anos. Agora tinha o cabelo um pouco mais curto, mas ...

18

Ela olhou no relógio, impaciente, balançando o pé da perna cruzada, enquanto olhava pra TV, sem prestar atenção. Alguns minutos depois, olhou de novo no relógio: dez e meia da noite! Ah, não, agora já era demais. Levantou bruscamente e marchou até o quarto de Ana Paula, abrindo com força a porta: - Ana Paula, pelo amor de Deus! Que horas vamos sair?! São dez e meia, filha! Ana terminou de passar o rímel, correu para desligar a música que tocava alto,  borrifou o perfume, se olhou uma última vez no espelho e enfim olhou pra mãe, sorridente: - Agora, vamos, vamos! Abraçou-a por trás enquanto a empurrava de volta para sala, dançando, brincalhona, mas Regina estava bem impaciente e andou dura até a cozinha, pegou a chave do carro e gritou: - Fernando, estamos indo! - Tchau, pai! - Ana Paula gritou. - Tchau, filha, boa festa! Regina revirou os olhos. Ele deveria reprovar isso tudo! Onde já se viu… Saindo de casa às dez e meia da ...

Atrasada

O dia amanhecia devagar, ainda preguiçoso. Nenhuma nuvem, mas também nenhum Sol no céu por enquanto. O dia ia acordando vagaroso, e a cada bocejo, trazia um pouco mais de movimento ao hotel. Os recepcionistas aos poucos trocavam de lugar: os da manhã começando seu turno e os da noite, indo descansar. Eram 5:30am. Até os passarinhos ainda acordavam aos poucos, sonolentos, mas não Vivi, que já estava pronta para seu longo dia de trabalho. O único ambiente movimentado àquela hora era o restaurante, onde ela tomava seu café preto com um pão na chapa. Ali já tinha gente indo e vindo, pra lá e pra cá, arrumando as mesas e preparando o buffet. Vivi tomava seu café com certa pressa, de vez em quando acenando para seus colegas do hotel - ou melhor, resort (“rí-sór-chy”,  como Vivi tentava ensinar sua mãe a falar), e sempre olhando no relógio. Era o relógio de sua mãe. Nunca o tirava do pulso. - Não importa a hora que o relógio estiver marcando,  estarei pensando em você, minha ...

O lago dela

Respira de leve, quieta. Não tira os olho do horizonte, por cima do lago que se mexe delicado. Se concentra no barulho da água indo e vindo. Aprecia os claros tons de verde daquele Lago d'Orta que conhecia tão bem. Sente a grama fofa sob seus pés descalços. Sente o lago quase beijando seus dedos do pé. Consegue sentir quão frio o lago está, mesmo sem que ele a toque. Respira de novo, profundo. O sol acaricia o gramado com tons laranjas. Já devem passar das sete horas. Como ela ama sentir o verão chegando na Itália. Ouve de longe alguns passarinhos discutindo por comida, e crianças reclamando para os pais que as tiram com força do lago, porque querem ficar mais. Apesar de sentir sentimentos tão doces e leves, tão rosa e branco, ela respira de novo, profundo. O peito afunda. Ela olha para o caderno deixado ao lado. A página em branco. A caneta caída, inútil. Fecha os olhos por um pouco, quieta, só ouvindo o lago indo. E depois vindo. Leve como o ar daquela tarde. "Que...

Metade de mim.

5 de janeiro de 2020. 2020... Esse é, mais uma vez, um novo impulso de voltar a escrever. De me revirar a mim mesma e tentar olhar pra dentro. Eu já falei isso tantas vezes, já tentei e já falhei tantas vezes... Acabei de abrir meu próprio blog e percebi que as primeiras postagem datam de 2007. Isso aqui tem 13 anos - exatamente metade da minha vida. Tem no mínimo uns 8 que ninguém além de mim lê nada por aqui. E quem leria, né? Se nem eu mesma me dou ao trabalho de ler e sequer de escrever. Digo que me faz mal reler coisas antigas que eu mesma me escrevi, que me faz reviver sentimentos indesejáveis. Acho que, no fundo, me faz me sentir nostálgica e triste de não ser mais tão jovem nem ter mais o mesmo vigor e a mesma cabeça borbulhante. Acho que me tornei cada vez mais cinza. Porra, 13 anos fazem muita diferença after all. Eu tinha 2 grandes sonhos na vida: morar em Londres e ser uma escritora muito foda. Eu não achei que algum dia fosse realizar nenhum deles. Bom, já ...

Marcela

Tinha um ás, um valete e um quatro de copas em mãos.  Os casais à sua frente riam e jogavam suas cartas, felizes de vinho. Ela sorria junto, mas a mente começava a divagar. - Marcela, joga logo! Eu já falei! - o pai lhe beliscava o cotovelo na poltrona apertada do avião - Ai, pai! Eu não consigo clicar nesse. - Meu Deus do céu, Marcela, eu já falei, porra, é aqui e depois aqui. - Aqui, pai? - É, vai logo. - Tô fazendo certo, papai? Silêncio do pai, olhando pela janela o céu ensolarado. - Mamãe, olha, tô jogando baiaio! - Ai, filha, é BA-RA-LHO. Puta merda... - expirando ar quente, cansada e desatenta. A franjinha de Marcela lhe caía aos olhos. Ela se esforçava o máximo que podia para clicar na carta certa que o celular lhe mostrava, mas os números e cores eram confusos, ela não sabia ao certo qual... E se clicasse errado, papai ia beliscar de novo e de novo, e ela não queria. Tentou cutucar mamãe para pedir ajuda escondido, mas ela tirou a mão quando sentiu os dedinho...

Vá.

A cabeça era um espiral só. Uma névoa tão grande por detrás dos olhos que mal se via no espelho que ficava à sua frente. Sentada na cama, ainda lhe parecia que faltava o chão. Os mesmos questionamentos, todos os dias, pelo milésimo dia consecutivo. Por quê? Pra quê? Pra quem? Até quando? Já não aguentava mais. Pois levantou-se num impulso único, deu seus passos pesados, passou a mão na chave do carro e na jaqueta, e bateu a porta atrás de si. Foi-se.

Outra vez.

Mais uma vez, a morte me pega de sopetão. Numa sexta à noite, quando tudo ia bem, a morte veio pelo telefone, nos deprimir, nos revirar. "Infelizmente, ela não aguentou", foi a mensagem passada. Muita correria, meus pais viajaram na madrugada com meus avós para chegarem até meu tio, lá no Sul. E estamos nos falando por whatsapp por enquanto. Minha mãe diz que está tudo até que bem, sem muito choro... Mais de vinte anos, fazia, que ela teimava com o câncer em deixá-la por aqui mais um pouco. "Foi melhor assim pra ela", a gente tenta se consolar... Foi? Será? É engraçado como a gente tenta achar meios de aliviar a dor. Eu sei, tia, que a gente não se via há um tempão. Mas sei também que o amor era puro. Assim como meus cachos sempre nascem loiros e o seu cabelo sempre nascia tão preto e forte, como você sempre brincava. Isso ai. Outra vez você vem mostrar seus caninos e me derrubar.  Parabéns, você não erra nunca, desgraçada. Espero que um dia se depare...

Um novo ano.

Acabei de voltar de Buenos Aires. Passei lá oito dias. Foram oito dias incríveis. Mesmo. Por muitas vezes eu pensei em escrever algo, mas na correria da viagem e no cansaço que me batia ao entrar no quarto do hotel, deixei passar. Eu tinha uma ideia bem boa, tentei ao máximo guardá-la. Posso até revirar as memórias agora e tentar vomitar algo, mas... Não sei... Bem, um novo ano começou. Achei que valia o marco aqui. Um novo ano. Uma nova chance de eu voltar a escrever, de me revirar. Vejamos o que isso me traz...

A Deusa

Eu passei pela porta, escolhi uma das raias e fiquei de pé, na frente dela. Joguei meus óculos na piscina e comecei a me alongar brevemente. Percebi, então, dois pares de olhos logo à minha esquerda, mais abaixo. Eu olhei. Eles congelaram. Eram dois rapazotes, de seus 17 ou 18 anos, provavelmente fazendo uma aula teste na piscina, e dividiam a mesma raia. Eles me olhavam estarrecidos. Eu, de pé, acima deles, os choquei.  O olhar deles, estarrecido, sem palavras, me alimentou, e eu cresci. Tinha meus 1,70m. Depois, 2m, 3, 4, 5, 6 metros de altura. Me tornei imponente. Minha forma física e aura tomaram conta da atenção deles de forma que nenhum outro som era ouvido senão o de admiração deles. Uma admiração sem entendimento. Eles me olhavam sem saber o por quê. Era a Deusa que se mostrava por mim. Quebrei o brilho que me rodeava e mergulhei, nadando como eles nunca viram outra humana nadar. Ficaram completamente estancados, embasbacados.  Eu fui Igraine, Morgause e...

Über?

Eu estava bem irritada, porque havia esperado uma carona e não tinha dado certo, então, além de sair atrasada, ia ter que pagar por um Uber. E tem outra, tava garoando. Aquele clima horrível de fim de tarde em São Bernardo. Ah, foi me irritando também o fato de passarem os minutos e o cara não chegar pra me buscar, o GPS do Uber tava bagunçado, então já viu... Enfim, chegou. Emerson, chamava. Num Honda City bem confortável, por sinal. O caminho do escritório pra minha casa não durava mais que 15min, mesmo. Eu realmente não sei como, mas ele começou a me contar que havia voltado da Alemanha nesse ano. Ele teve um restaurante aqui em São Paulo durante 30 anos. Tinha se casado por aqui e teve até um neném! Quando o bebê tinha por volta de um ano, eles resolveram vender tudo e simplesmente ir morar em Düsseldorf, onde ele abriu um café e eles viveram durante 2 anos. Eles acabaram se separando e ele voltou para "resolver algumas pendências aqui", sobre as quais, claro, eu ...

Mendigos.

Ele era o que chamamos de mendigo. Um dos mais pobres. Sentava numa mureta da esquina, com as roupas maltrapilhas e malcheirosas, rotas. Tinhas a muletas também apoiadas à mureta, enquanto descansava sua única perna. Tinha uma toca à cabeça e cabelos muito ralhos e grisalhos. A vida não lhe tinha sido leve. Tinha o feito sujo, desgraçado e pobre. Muito pobre. À sua frente, contudo, sentava um cachorro. Um vira-lata, assim como ele mesmo. Com o pelo indefinido e até meio grisalho. Se postou ali e ali ficou. Sentado, encarando o mendigo. Encarando. Encantado. Sua admiração crescia e crescia, naqueles pequenos olhinhos cintilantes. Era tão visível que arrancou do mendigo um grande sorriso. O mendigo lhe estendeu a mão. Ele lhe estendeu a patinha direita em retorno. Os dois ficaram se encarando, de mãos dadas, infinitamente. Os dois seres mais ricos do mundo.

Aos trancos, pro barranco?

O pé ia mais e mais fundo no acelerador. Trocou de marcha rápido. Passou a mão esquerda pelo lábio e a viu se encher de sangue. Puta merda... Puta merda. Segurou o volante com a mão direita e, com a ensanguentada, rolou a tela do celular. O carro ia aos trancos pra frente, até desembocar na rodovia. O jeans rasgado ao joelho direito e mais sangue lhe escorrendo pela têmpora. Os 130km/hr pareciam não dar conta de deixar aquele pesadelo pra trás. Ela tinha feito de novo!! Puta que pariu! Ele meteu o pé no freio e encostou na beira da rodovia, perto de um córrego. O mau cheiro lhe estapeando e a noite ficando mais escura. Desceu do carro e acabou deixando a porta manchada de sangue ao batê-la. O sinal do celular não voltava. VOLTOU! Ele apertou logo o botão de chamar e aguardou alguns segundos. Enquanto aguardava, limpou a mão de sangue no jeans e passou o braço da jaqueta na boca e na têmpora, secando o sangue dali. - PORRA, achei que não fosse atender. Ela... De novo... N...

Delorean

O céu estava azul claro, quase cinzento, mas com a promessa de alguns raios de sol, como há muito não prometia. O vento beijava de leve a janela do espaçoso e tranquilo apartamento. Ela apoiou as duas mãos no parapeito daquela janela, que servia de apoio pra algumas almofadas e já tinha servido de cantinho da leitura. A cidade se estendia à sua frente, meio cinza, mas com muitas árvores. Ela girou a cabeça devagar num sentido e depois, no outro. Bocejou e se esticou, ainda despertando. O cheiro de café lhe aquecia. A cidade continuava se estendendo, bem como seus pensamentos. Inspirou devagar e sorriu de canto... Pensar que, há alguns anos, achava que aquilo jamais aconteceria, que ela nunca nunquinha estaria ali... Riu de leve, sozinha, e bocejou mais uma vez, desdenhando da própria inocência. Com achou que não conseguiria? Mais cheiro de café. Passos leves, descalços, com um leve arrastar de moletom pelo chão lígneo. Ela sentiu os braços fortes e quentes a envolverem por ...

Lupo.

Era sempre naquele mesmo horário, quando a luz já quase sumiu do céu, e você não sabe ao certo se o seu dia já está acabando ou se ainda está sonhando, que eu, todos os dias, trocava olhares com ele. Ele quase sempre me correspondia. E quando não o fazia, ah... Que dor... Meu dia acabava ali mesmo. Ele tinha pra ele um quintal sujo e escuro, um portão já bastante enferrujado, e quase nenhuma atenção. Exceto talvez a minha, que ultrapassava o limite de qualquer outro pedestre que por ali passava, aposto. Eu atravessava a rua e andava por aquela calçada ansiosa por vê-lo, ansiosa por brincar de quem desvia o olhar primeiro (eu sempre perdia). E quando eu chegava ao portão daquela casa... Mal sei explicar o sentimento que me acometia. Meu amigo era bastante grande e muito peludo. Os pelos eram escuros, e o fucinho, bem longo. Se assemelhava muito mais aos seus parentes lupinos que a outros cães.  Os olhos, contudo, assemelhavam-se aos de humanos. Cheios de significados ocultos. Oblíqu...

De novo, o ombro.

Estávamos na fila do caixa de um restaurante novo pra ele. Eu ia à frente dele. E ai, no meio da conversa, ele, por trás de mim, passou um braço pela minha cintura e ventre. O braço. O ombro onde apoiei a cabeça. O pescoço. E o cheiro... O cheiro. Ele inteiro me segurava como se eu pudesse ser envolvida por inteiro, como se assim me dissesse que me protegeria de tudo.  E ainda bem! Ainda bem... Porque, se ele não me segurasse daquele jeito, naquele abraço, meus joelhos me trairiam. A velocidade da Terra girando ia ser incrivelmente maior do que a minha capacidade de absorver tudo. Ele. Todo. Como se as almas não estivessem juntas há mais de ano, ele me fazia sentir sempre nova. Sempre novos. Sempre.