sábado, 18 de agosto de 2012

Laranja.

O barulho lânguido da água se acalmando e a luminosidade escassa me envolviam.
Acima da superfície, somente meus olhos. Abaixo, o corpo inteiro imerso naquela massa morna e líquida.
Ao longe, o som dos animais notívagos se escondendo em arbustos.
Observei o topo do manto de água balançar devagar.
Afundei e olhei à direita.
Um enorme e majestoso crocodilo me encarava, preguiçoso.
Seus olhos brilhavam arroxeados, e a cauda jazia estática.
À minha esquerda, mais deles se aproximavam, nadando rápido, assustados.
A massa de água me empurrou inevitavelmente para mais perto de onde o primeiro deles deitava. Ao tentar me esquivar, percebi que ele já havia fugido também.
Com toda a rapidez que se pode ter no ambiente submerso, voltei à esquerda.
Das profundezas daquele canto, a água se deslocava ainda mais rápido e mais forte, me empurrando, e dois pontinhos alaranjados, mais brilhantes que o dos crocodilos, se aproximavam numa velocidade nauseante.
Tomei impulso nos azulejos atrás de mim e dei as maiores braçadas da minha vida, batendo os pés com ferocidade.
Por fim, alcancei a borda oposta.
Subi à superfície e respirei, segura.
Olhei a piscina revirada pelo meu nado apressado se estendendo à minha frente.
Ofegava, mas tinha os pés no chão azul e liso.
De volta à realidade, sorri de canto, me considerando tola.
Peguei impulso para retornar aos exercícios.
E eu, por todos os meus fios de cabelo, juro: a cauda daquele crocodilo me roçou a perna esquerda.

Natália Albertini.

domingo, 5 de agosto de 2012

Meu.

O barulho no apartamento era alto demais, o anfitrião talvez até recebesse uma multa por isso.
O ambiente, contudo, era delicioso.
Vozes animadas, clipes na TV e muita comida e bebida à mesa.
Já passavam das três da manhã, e seu organismo que ainda se comportava como o de uma criança clamava por uma cama.
Tinha, entretanto, o melhor travesseiro sob sua cabeça de olhos já fechados: o ombro direito dele.
O ouvido direito dela captava todo o som da festa, animada demais para aquela hora da madrugada na opinião dos vizinhos.
O esquerdo ouvia com carinho as batidas do coração dele sob a polo preta.
De cada lado da cabeça, um extremo: bagunça e tranquilidade.
O corpo que se fazia de cama para ela se mexia um pouco, suas cordas vocais vibravam com um tom divertido. Ao mesmo tempo, o braço direito dele a envolvia, acariciando suas costelas e espáduas.
O mais puro afeto a inundou. Ela o abraçou mais forte.
Sentia que... Não.
Ela sabia que, se quisesse, poderia dormir naquele ombro por todo o sempre, ele continuaria a acariciar suas costas e a protegê-la e, por vezes, beijar com cuidado sua testa.
Mais feliz do que há muito não se sentia, ela cochilou.

Sua,
Natália Albertini.