domingo, 26 de fevereiro de 2012

Suculenta

Ela começou a se vestir: pôs a calcinha e a saia branca de pregas.
Ele a admirou por um tempo, ainda deitado, com os cabelos da nuca encharcados.
Levantou num ímpeto e postou-se de pé, nu, em frente a ela.
Enlaçou-a pela cintura e olhou o reflexo dos corpos dourados colados no espelho à direita deles.
Os cachos compridos e claros cobriam os seios bem definidos dela.
Ela encarou o reflexo dele. Os olhos do rapaz percorriam suas coxas, cintura e seios, ainda faminto. Por fim fixou-os nos olhos dela, acinzentados.
- A gente forma um casal bonito - ele deixou escapar.
A palavra "casal" não lhe causou arrepios como antes.
Sorriu mediante aos desejos dele. Ele jamais a teria, ela era inatingível, e era isso que a tornava tão suculenta.
- Claro que forma - ela respondeu numa voz rouca e em lábios avermelhados e aveludados.
Beijou o queixo robusto e barbado dele.
Os olhos dos dois reflexos não se desgrudavam, vítreos.
Hipnotizado.
Mais um.
Ela engoliu a própria saliva, que, ao escorregar pela garganta, trouxe um pouco mais do gosto do sangue já seco dele.

Natália Albertini.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ensolarados.

A estrada livre à frente do carro.
O cheiro de mato dançando na serra.
O Sol se esparramando pelo painel.
Minhas pernas quase douradas dobradas sobre a mala aos meus pés. Meus cachos, intempestivos, esvoaçando a frente de meus óculos-de-sol.
Ele dirigindo, sibilando a letra da música ao raído, com seus óculos exagerados.
Ela, de cabelos longos, encostada ao banco, tranquila.
Atrás de mim, ele olhava pela janela.
O carro cheio de malas, nos apertando.
Nós quatro voltando para a vida real.
Nós quatro.
Nós.

Ps.: and what I feel for you, my dear friends, does not have a name.
Natália Albertini.

Vitória Régia.

- Quer ir pro mar? - ele perguntou, olhando-a aos olhos.
Ela deu dois passos para trás, em direção às ondas, com um sorriso ao canto dos lábios salgados e fez que sim com a cabeça.
Começou a passar pelas quebradas do mar devagar, de top e calcinha, com o cabelo molhado a lhe tocar a cintura bem definida.
Ele deixou as roupas na areia e entrou silenciosamente na água.
Logo, ela sentiu o corpo atrás do seu, pulsante e firme.
Sorriu para o céu escuro, de olhos fechados.
Abriu-os novamente por causa da pressão que os dedos dele faziam entre suas pernas, sob o mar agitado.
A barba dele lhe arranhava as costas e a nuca, em beijos ofegantes.
Virou-a de frente para si e a pegou no colo, com as pernas envoltas em sua cintura.
Ele a segurou pelas pernas e a fez subir. E depois descer.
A Lua já havia sumido há tempos e o Sol ainda não havia dado as caras.
Eram só as ondas silenciosas, eles e seus sussurros.
Ela segurou-se nele pelos braços fortes, que apoiavam suas pernas douradas, e deitou na água, com os cabelos a formarem uma vitória-régia à sua volta.
O Sol atrasou seu nascer.
A noite foi deles. Só deles.

Natália Albertini.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Pernas.

Ela ficou uns segundos olhando a rua, lá embaixo, que ele havia apontado.
Tentou imaginar que horas eram, sem sucesso.
Se virou em sua direção para dar tchau (dessa vez era de verdade). Ele foi mais rápido.
Sentado na cama alta, tinha as pernas compridas apoiadas no chão. Ela no meio.
A puxou pela cintura pra mais perto.
Sorriram.
O Sol ainda batia de leve em seu rosto. Os olhos cor de mel, os cabelos quase loiros.
Ali, com as pernas encostadas, se sentiu subitamente protegida. E nem sabia do quê.
Com o corpo mais alto que o dele (só naquele momento, claro, tendo em vista que de pé, ele dava umas duas dela), ao abaixar o rosto pra perto do dele, os cachos claros reluziram.
Os lábios se encontraram de mansinho.
Fecharam os olhos lentamente, a claridade vespertina ficando pra trás das pálpebras devagar.
Ele desceu as mãos para as pernas dela.
E depois subiu, claro.

Natália Albertini.

Vocês se amam? Pra sempre? Jura?

Sou só eu que me sinto plenamente satisfeita quando o relacionamento de um casal termina?
Não, gente, não é maldade, eu não sou fria e calculista e, sim, tenho um órgão bombeador de sangue também.
É só que acho tudo muito interessante.
Não sou adepta do sentimentalismo exagerado. Na verdade, já senti repulsa pelo simples tom sentimental emitido por algumas pessoas. Hoje sou mais tranquila com isso. Mas o exagero e a irrealidade com que esses sentimentos são expostos ainda me incomodam bastante.
E, claro, se pronuncio esse tipo de coisa em voz alta, olhadas tortas e proferição de palavras ruins são expelidas com prontidão.
Entretanto, não mudo minha perspectiva.
Eu não acredito em amor eterno.
Isso não quer dizer que eu seja má, que eu não tenha um pingo de esperança na vida ou que nunca vou encontrar um pra mim, que nunca vou mudar de opinião. Mas por enquanto, não acredito. E nada me faz acreditar. E não tenho vergonha de proclamar.
Ainda acho uma grande besteira quando alguém me fala "esse é pra vida". Como tenho amadurecido, portanto, não sinto mais uma vontade quase incontrolável de estapear o rosto do infeliz que me disse isso. Simplesmente aceno com a cabeça e fico indignada somente por dentro (calma, gente, ainda não tão madura a ponto de simplesmente ignorar).
Já pararam pra reparar nisso? Em como as pessoas se doam mais do que deveriam aos outros? E como elas adoram que o resto do mundo (leia-se por Facebook) saiba?
Se você não é uma dessas pessoas, me perdoe e fique à vontade para se tornar um dos meus melhores amigos, mas a aqueles que o são, sinto muito, acho uma imensa babaquice.
Por quê?
Ora, claro, eu explico.
Depois de alguns meses ou até anos, aparece um "Fulano went from being in a relationship to being single".
Sabe, não consigo evitar que aquele sorrisinho de canto me escape aos lábios.
Porque durante aquele tempo todo, a errada fui eu em falar que nada dura pra sempre. Eu era maluca, lembra?
E agora, olha só, aconteceu justamente o que eu explico aqui.
Que coisa...
E as pessoas ainda teimam em acreditar nesse tal de "pra sempre". Gente apegada, ?
Depois de anos ao lado de alguém, como num casamento por exemplo, não acho que ainda exista amor. Acho que existe, sim, o hábito. E a paixão pelo hábito, pela segurança e estabilidade. Mas amor de verdade?
Sinto muito, não acho que exista.
Por isso, que tal se jogar de cabeça nesse relacionamento que você está prestes a começar ou, quem sabe, já conta com ele?
Isso, se jogue, mesmo.
Faça o que quiser, diga "eu te amo" zilhões ou nenhuma vez, o que melhor lhe aprouver. Tanto faz.
Mas, meu bem, meu benzinho... Doce da minha vida, entenda: não prometa que será pra sempre. Isso só piora as coisas. Para ambos. E além de tudo, é falso.
Ah, outra coisa?
Se vocês realmente se gostam, não há problema nenhum em mostrar isso pra sociedade.
A chateação dos outros vêm do fato de que vocês não mostram isso... Vocês esfregam na cara da sociedade como se sua vida girasse em torno dessa palavra de quatro letras.
Uma simples reflexão gerada por mais um término de namoro afixado na minha timeline.
As coisas acabam, bebês. C'est la vie.
E a graça não é mesmo fazer todas as besteiras com gente nova?

Ps.: fazia tempo que eu não sentava nesse ventinho da minha janela e escrevia sem pretensão alguma. Miss that.
Natália Albertini.