domingo, 27 de maio de 2012

Veludo.

Ela corria.
As gotículas daquela chuva morna caíam-lhe ao rosto.
A capa de veludo verde escuro ondulava às suas costas, o capuz tapava-lhe os olhos a cada passada.
Os galhos estalavam a seus pés, as árvores a observavam, serenas e notívagas.
A noite pesada preenchia o bosque.
Ela sentiu o cheiro do rio gelado mais à frente, correndo como ela.
Alargou ainda mais os passos, esquentando o corpo que horas antes tremia de frio.
Alcançou, por fim, a margem daquele corpo lânguido e azul. Escuro. 
Ela agachou, ouvindo os gritos cada vez mais próximos daqueles que a caçavam.
Enfiou a mão no bolso direito com rapidez e segurança, sentindo o toque aveludado do tecido denunciando a chave escondida ao fundo.
Determinada, deixou a chave escorregar de sua mão, mergulhando no rio gélido e imponente.
A chave voltaria para ela, tinha certeza disso, quando mais tarde a procurasse. Para a mão deles, jamais.
Pôs-se de pé, de costas para o rio, de frente para os homens que se escondiam a menos de 10 metros na escuridão aveludada como sua capa.
Puxou de sua cintura o punhal talhado, empunhando-o com firmeza.
Que viessem.
Venham. Venham aqui, incrédulos.
Eles vieram.
E sangue - muito sangue, Senhora - alimentou as raízes das árvores famintas.


Natália Albertini.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Número 1.

A porta se fechou com um baque atrás dele.
O que os olhos castanhos dele viam eram os acinzentados dela. E aí, claro, desciam pelo pescoço delgado e o colo apetitoso num decote generoso.
Jogou as chaves do quarto sem se importar onde cairiam.
Trotou até a cama, arrancando a camisa ferozmente, exibindo os ombros deliciosos.
Pegou-a pelos cabelos da nuca e lambeu-lhe o pescoço, enchendo a boca com as línguas.
A crina escura e pesada dela corria pelas costas.
Ele lhe arrancou a roupa com a velocidade e, principalmente, a fome de um lobo. Os sons emitidos por ambos eram tão animalescos quanto seus movimentos.
A boca esbranquiçada de sede dele percorreu o corpo da criatura espalhada pela cama, sentindo a pele dela queimar-lhe a língua.
A sexta tatuagem dele e a primeira dela movimentavam-se languidamente.
Lamberam-se, morderam-se. Engoliram-se.
Canibalismo viscoso.


Natália Albertini. 

domingo, 6 de maio de 2012

Dancing in the rain.

Ele olhava para a água caindo sobre sua cabeça e espirrando pelos azulejos.
Ela o olhava encantada.
Vidro separava os corpos postados de pé.
Ela abriu a porta de correr, pisou no chão molhado e um pouco escorregadio e voltou a correr a porta para não deixar molhar o resto do cômodo.
Ele sorriu pra ela, enlaçou-a pela cintura com o braço esquerdo e, com a mão direita, segurou a dela.
- Vamos dançar - ele disse.
Ela riu da ideia, mas se deixou levar pelos passos leves, molhando os cabelos enquanto dava as vagarosas piruetas.
O banheiro girava em câmera lenta e a água caía morna.
Seu estômago também rodopiava devagar, mas era uma sensação deliciosa.
Ao fundo, o som da TV ligada no quarto sussurrava.
O sorriso dos dois formavam luas minguantes.
Ela desejou com força que ele a continuasse girando e girando e girando.
Se apaixonou por aquela tontura.

Natália Albertini.