domingo, 21 de setembro de 2014

Ninho.

Água.
Tinha água batendo no vidro da janela sem cortinas.
Demorei a perceber que o barulho era real.
Franzi o cenho e me espreguicei, custando a deixar pra trás o sonho cinzento que me envolvia. Estiquei o pescoço e olhei para os vidros agora camuflados de gotas d'água.
A chuva caía grossa, tão silenciosa quanto podia ser numa manhã de domingo. O céu era cinza, tão nublado quanto a atmosfera onírica que teimava em não me largar.
Quase hora de ir embora, pensei, mas logo me encolhi de novo.
A cama que me acolhia era velha conhecida minha. E aqueles braços também.
Aquele peito largo, destemido e quente que agora me servia de travesseiro respirava com tranquilidade. Subia e descia emanando uma paz amarelo claro. Ronronava também.
Ali, escondida naquele ninho macio que eu ousava, por vezes, clamar só meu, o barulho da chuva parecia oco. Eu já não ouvia tão bem as gotas se atirando contra as janelas e escorrendo dramaticamente.
Ali eu só ouvia o ar entrando e saindo, e uma batida constante de algo que vinha de dentro. Uma batida que não só pulsava sangue, como também carinho. E o pulsava direto para as minhas veias.
Aninhada no meio daqueles ombros, debaixo daquele pescoço que eu tão bem conhecia, a chuva calava-se. A tempestada ficava pra fora. Enrolada nele, meus pensamentos não passavam de zunidos abafados. E, meu deus, ele fazia isso tão bem! Tudo parecia tão mais doce e sutil quando ele me tocava.
Devia mesmo ser hora de ir embora, mas, minha nossa, que sono...
O sono me voltava como um mar adocicado, de ondas delicadas, me embalando com aquele cheiro só dele.
Talvez eu possa ficar aqui, quem sabe, só por mais um tempinho...

Ele me engoliu. De novo.

Natália Albertini.