segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vidros escuros.

Sentindo as gotas d'água caírem de leve em sua face, ela continuava ali, parada na calçada, esperando.
Xingou o mau tempo algumas vezes, baixinho.
As finas gotículas davam-lhe finos tapas nas pálpebras, nas coxas à mostra e nos braços, idem.
Distribui o peso do saudável corpo em ambos os pés, equilibrando-se felinamente nos saltos altos. Revirou o cabelo, úmido. Ajeitou a bolsa no ombro direito.
Estendeu o pulso esquerdo: 1h20 da manhã na luminosidade do relógio e ela ali, debaixo daquela garoa, esperando.
Ao longe, um carro preto de vidros escuros e som alto virou a esquina.
Ela deixou os xingamentos de lado e sorriu de canto, satisfeita e ansiosa pela noite por vir.
O carro encostou à sua frente.
Ela abriu a porta da frente e se jogou ali, deixando o cabelo e as roupas caírem de uma forma natural, deixando-a espontaneamente bonita.
Sorriu majestosamente e cumprimentou aos três rapazes e à outra moça dentro do carro.
Abriu a bolsa, tirou a mágica garrafa de água e entornou-a, tomando um bom gole, em seguida fazendo uma careta que demonstrava o gosto apetitoso e, simultaneamente, repulsivo, quente.
Passou a garrafa para trás e aumentou o som, fazendo o carro e as ruas estremecerem, tamborilando as mãos no porta-luvas.
Sábado à noite.

Ps.: e não é esse o bom de ainda ser jovem? (:
Natália Albertini.

Agenda 2010.

Me acho uma pessoa normal. Mas é aí que abro minha agenda e encontro uma página com esses tópicos:

This year:

- Learn how to drive.
- Write more.
- Get a good job.
- Get good grades at university.
- Learn how to get attached to people.
- Get thinner.
- Read more.
- Swallow my pride.
- Dance more (for grandpa).

Ai, Natália, só você fica se impondo essas metas impossíveis...
Eu me mereço, mesmo...

Ps.: WTF?!
Natália Albertini.

sábado, 18 de setembro de 2010

Egoísta num quarto escuro.

E eu aqui, nesse quarto escuro, tentando mandar embora essa melancolia que vem se apossar de mim mais uma vez.
Amanhã vamos almoçar todos juntos, talvez até passar na sua casa.
Você não estará lá, o que provavelmente me fará muito mal.
Ver aquela casa vazia é o mesmo que fincar um afiado punhal em meu peito e girá-lo, sentindo a dor excruciante e o sangue me escorrendo corpo abaixo, esvaindo-se.
Não te ouvir cantarolando alto, não te ver arrastando os chinelos pelos azulejos, não te sentir sorrindo atrás dos grossos óculos e cabelos grisalhos. Não você. Não eu.
Me afundo nessa escuridão, engolindo as bolas de mar que se formam em minha garganta, tentando dizer à minha mente que é natural não te ter mais.
O problema é que minha mente já assimilou isso, mas minha alma ainda não quer aceitar, ainda e pra sempre sente sua falta.
Amanhã acordarei com as pálpebras inchadas e, mais uma vez, pintarei meus olhos de preto, para esconder tal inchaço e, quem sabe, demonstrar luto.
Eu sei que as pessoas dizem que assim foi melhor pra você e tudo o mais, mas desculpe, , sou egoísta e quero me reservar o direito de sentir (infinitas) saudades de você.
E eu aqui, nesse quarto escuro.
E eu aqui, nesse escuro.
E eu aqui, escuro.

Natália Albertini.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Escorrendo.

Andreas puxou os curtos cabelos da moça, fazendo-a envergar a cabeça para trás.
Ela gemeu.
Ele grudou o corpo no dela, lambendo-lhe o pescoço de baixo a cima, de olhos bem abertos.
Ela sorria com a dor, divertida.
As mãos corriam pelos corpos despidos, gélidos e ardentes, lisos, acidamente adocicados, alcançando tudo o que viam pela frente. Tocando e arranhando.
Xingamentos e maus nomes ecoavam pela derme de ambos, oleosas.
O rapaz, sorrateiro, arreganhou o maxilar e fincou os dentes pontiagudos no ombro esquerdo dela, ao pé de seu pescoço.
O sangue escorreu frenético e quente. Pastoso, de dar água na boca.
Ele sugou com força e desejo, enquanto ainda a possuía carnalmente.
A língua dele crescia de acordo com sua vontade, exponencial. Seu pescoço se banhava no sangue dela, bem como seu queixo e as pontas de sua crina.
Seus olhos eram escuros e de cílios curtos.
Ela não conseguiu expelir um grito sequer, mas pelo menos aproveitou seus últimos momentos com enorme prazer sanguíneo, hemático.

Ps.: weeeeeeeeird...sorry for that, guys!
Natália Albertini.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Lençóis amarrotados.

A noite estava quente e chuvosa.
O cabelo grudava em sua testa, rosto e nuca.
Retorcia-se na cama, suando frio, com os olhos apertados, sem conseguir abri-los.
As mãos daquele corpo de alma presa em seu próprio subconsciente agarravam os lençóis com força.
A respiração era ofegante e seca. Os lábios se retraíam sobre os caninos pontiagudos.
Começou a expelir gemidos e tosses que lhe arranhavam a garganta.
O pesadelo era demasiado intenso e realista para fazer aquele corpo submeter-se a tamanha agonia.

Homens corriam e invadiam a casa. Sua irmã jazia no chão, inconsciente.
Ela corria atrás deles com o telefone em mãos, tentando digitar o número do pronto atendimento policial.
A sequência numérica 190 lhe vinha à mente, mas os dedos escorregavam no aparelho. Embaralhavam-se e tropeçavam, sem conseguir digitar corretamente.

As unhas fincadas nas palmas da mão, aflitas.

Correu ao quintal com uma arma empunhada, surgida de sabe-se lá onde.
Alcançou os invasores, mas a este ponto a arma já tinha sumido.
Foi à churrasqueira e de lá puxou um grande espeto, apressando-se em fincá-lo na porção central do peito de todos os invasores, que agora se personificavam em um só homem.

Reclamou em alto tom de voz.
Sentiu alguém chacoalhando seu corpo e por fim acordou, sobressaltada.
Deu-se por conta de onde, como e quando estava.
Sentiu o travesseiro encharcado, o lençol retorcido, o edredom amontoado em seus pés e o cabelo emaranhado.
Viu o corpo deitado ao lado do seu, já retornando a um sono profundo após tê-la salvado de tamanha situação aflitiva.
Revirou-se na cama e vasculhou o quarto escuro e desconhecido ao redor de si, sentindo o mal-estar apossar-se de seu corpo e mente.
Pegou num sono levíssimo, ainda suando frio cada vez que acordava e via, na penumbra, a imagem do homem esfaqueado a fitando com olhos cintilantes.

Natália Albertini.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Keep a straight face.

Me pego outra vez derramando mares, enxarcando essas palavras aristotélicas que lia há pouco, sob mim.
Tudo isso porque tirei o telefone do gancho, disquei os números de sua casa e só depois do terceiro toque percebi a gravidade do que estava fazendo.
A imagem da casa vazia, escura e fria me molha a mente. Aquele silêncio imperial sendo quebrado pelo toque estridente do telefone, minha voz te chamando desesperadamente.
Trêmula, ponho o telefone de volta no receptor.
Meu peito se afunda, sob uma pressão absurda; meu abdôme se contrai; meus lábios se curvam pra baixo e meus olhos expelem todo esse Oceano Atlântico.
Sabe, tenho levado minha vida numa maré de indiferença cinza.
Por vezes umas pinceladas de amarelo claro, conforto da minha cama, outras de rosa claro, meus alunos rindo, e até mesmo certo laranja claro, minha irmã sorrindo pra mim e me chamando de idiota.
Entretanto, isso é tudo. Pois é, estou toda tons pastéis.
E, claro, preta e branca.
Essa dor e essa ausência.
Sorrio, sim. Rio e converso.
Passo bem o dia, vestindo sua blusa para ir à faculdade, com a gola da camisa pra fora, cheirando as mangas de lã de vez em quando.
Dou minhas aulas, ajudo alguns, divirto outros.
Mas é só chegar em casa, e essas ondas batem em meus rochedos de novo.
Não tenho levado uma vida emocionante, de braços levantados numa montanha-russa, como adoro. Não tenho muitos amigos, se considerada a verdadeira definição disso pra mim. Alguns bons colegas, vá lá, mas não amigos.
E talvez por minha culpa, mesmo. Tenho me afastado de tudo e todos, tenho me isolado aqui, só com as lembranças de você e de sua casa.
De sua unha rachada no polegar esquerdo, de sua garrafa de água sempre presente, de seus grossos óculos cobrindo sues olhos de guri, de você me chamando de menina, de você.
Não tenho grandes motivações para acordar no dia seguinte, nem pra sequer ir deitar.
Só de pensar que amanhã terei de passar quinze horas fora de casa, forçando essas pobres pernas a me carregarem e esses pobres lábios a forjarem sorrisos e palavras que não deveriam ser produzidos, perco a vontade de ir dormir.
Me encontro ainda caindo naquele abismo, esticando meus braços, tentando encontrar onde me agarrar, em vão.
Não consigo ser inteira, minha lua não brilha em cada lago.
Os conflitos alheios me parecem tão míseros e desprezíveis no momento. As pessoas me falam coisas e eu finjo me importar, sendo que dentro, tudo o que me passa pelas pálpebras são lembranças suas e dessa dor incessante.
Ontem, via internet, meu pai me perguntou como eu estava e eu disse "bem".
Tive um forte impulso de meter a cabeça na parede, pegar um ônibus e ir até lá para abraçá-lo, órfão. De dizer que não, que não está nada bem, mas que eu continuo aqui, as usual.
E então de fazer o mesmo com meus três tios.
De dessa vez, eu ser o porto-seguro deles.
Mas vô, cadê você pra me ensinar como fazer isso?

Ps.: e todo dia acordo com essas pálpebras inchadas. E quando me perguntam, tenho a pachorra de dizer que é algum tipo de alergia...
Ps2.: Thks to Pessoa.
Natália Albertini.