domingo, 22 de abril de 2012

613.

O quarto estava pacificamente escuro, as cortinas pesadas cobrindo a vista noturna.
As únicas vozes que quebravam o silêncio eram baixas e falavam num outro idioma, vinham da TV, que também emitia uma luminosidade preguiçosa.
Os lençóis grossos cobriam desordenadamente as pernas.
Ela estava sem a camiseta, com o cabelo lhe cobrindo o sutiã. Os shorts ainda vestidos. Uma cerveja apoiada na cama.
Ele só tinha a boxer no corpo e uma lata na mão. Seus olhos iam semicerrados, cansados de tanto ver a estrada pela frente; as costas sem postura, provavelmente reclamando da cama de hotel desconfortável. O sono o alcançava.
Ela o admirou por um tempo, encantada mesmo depois de 2.800KM rodados naquela caminhoneta que haviam carinhosamente apelidado de Sophie.
- Eu dirijo amanhã - ela sussurrou.
Tarde demais, ele já dormia longe dali, nebulosamente sonhando.
Ela sorriu e colocou as duas latinhas no criado-mudo de madeira escura, desligando a TV.
Beijou-lhe a testa e o ajeitou na cama. Não o cobriu, pois sabia que ele arrancaria as cobertas em menos de três minutos.
Deitou de costas para ele, aninhando-se.
Ele reclamou alguma coisa inaudível e enlaçou-a com braços sonolentos.
Ela sorriu.
Lá fora, os caminhões rodando na estrada.
Lá dentro, o sono os arrastando para terras distantes.
 
Natália Albertini.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

11.

- Pode chorar, eu estou aqui com você - ele sussurrou.
Um par de faróis passou pela rua escura e deserta, iluminando o interior do carro dele.
Ele a tinha em seu colo. Seu cabelo ia revolto, os olhos marejados e o lábio inferior protuberante como uma criança fazendo bico.
Ele encarava suas feições agoniadas e iminentemente chorosas.
- Pode usar minha camisa - ele insistiu - para enxugar as lágrimas.
O pranto expeliu os olhos claros dela, sem maiores cerimônias, incapaz de ser contido.
Ela não conseguia abrir a boca pra sequer explicar que era a pior pessoa do mundo em lidar com sentimentos. Eles eram naturalmente incompatíveis com sua forma física, não cabiam dentro dela. Sua única forma de reação a eles era exeplir água salgada pelos olhos e ficar com a cara inchada.
Chorar.
Chorar e chorar.
Ela era do avesso e sabia. No caso dela, chorar significava algo bom. Temia, contudo, que ele se assustasse com aquilo e não entendesse que as lágrimas por si só revelavam um dos sentimentos mais intensos que já tivera, indizíveis em palavras.
Ele enxugou as pitadas salgadas das bochechas altas dela, ajeitando-a em seu colo, sorrindo de canto. Então ele disse:
- Essa foi a forma mais linda que alguém já usou pra expressar o que sentia por mim. Obrigada.
O pranto subiu à garganta dela numa bola grossa e pesada, afundando seu peito, expelindo ainda mais lágrimas.
Por fim, ela conseguiu expelir as simples palavras, que traduziam parte daquele sentimento caleidoscópico e novo:
- Que ódio de você!

Da sua,
Natália Albertini.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Chantilly.

- Só um pouco, tá?
- Tá - ela disse, risonha.
Ele trocou de marcha e abriu a boca, com a atenção ainda voltada para os carros à frente.
Ela chacoalhou a embalagem cilíndrica que tinha em mãos, sorrindo, e a aproximou dele.
Pressionou a válvula e encheu a boca do rapaz de chantilly ao ponto de ele não conseguir falar.
Jogou a cabeça pra trás, rindo, deleitada com a brincadeira.
Ele não conseguia engolir o leite batido de tanto que ria com ela.
Seus olhos eram escuros, e ele os apertava quando ria. O sorriso dele era tão doce e espontâneo que a dava ainda mais vontade de continuar rindo.
E de continuar ali, naquele carro, fazendo-o rir por muito tempo, até que os abdômes e os maxilares começassem a doer. E até que não houvesse mais asfalto para cobrirem.
E até que não houvesse mais nada.
Só eles e suas bocas cheias de chantilly.

Natália Albertini.