domingo, 26 de dezembro de 2010

Porta anti-ruídos.

Esquálidos e poucos raios de sol entravam pela frestas que a cortina deixava, em feixes.
A manhã beirava as cinco horas.
Os lençóis alaranjados de algodão egípcio se espalhavam pela cama larga, onde, silencioso, um corpo jazia, respirando preguiçosamente, desacordado.
Ela estava sentada aos pés do colchão, com os joelhos dobrados e os braços largados sobre eles. Os olhos fixos no chão, firmes. O cabelo caindo-lhe insistentemente ao rosto.
Uma das mãos alcançou-lhe o semblante, dando apoio ao queixo.
O uniforme bem alinhado dava àquela comissária um ar elegante e aristocrático.
As malas, prontas, esperavam à porta.
Ela se virou, lançando um longo olhar ao rapaz ainda adormecido.
Respirou fundo, inalando a atmosfera sonolenta, tranquila e aconchegante que ele exalava.
Cada extremidade de seu corpo urgia para que ela se jogasse sobre ele, o acordasse e beijasse aqueles lábios tão bem delineados. Urgia para que as quatro mãos se encontrassem, para que as pernas se entrelaçassem e para que os olhares se rendessem novamente.
Ela, contudo, se conteve.
Engoliu o nó de saliva que se fez em sua garganta e, dona de si, levantou-se nos saltos.
Dolorosamente, suas pálpebras se fecharam e seu corpo se impulsionou para a porta.
Sem um último olhar a Fernando, Alberta partiu.
Sem ruídos.
Sem despedidas.
Sem a esperança de voltar.
Sem ele.

Natália Albertini.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Saliva áspera.

Um e-mail novo em minha caixa de entrada.
Leio, com os cotovelos dobrados na mesa e o rosto apoiado nas mãos.
Borboletas ricocheteando, batendo suas leves e macias asinhas no interior de meu estômago.
Estendo os dedos para o teclado, impulsivamente querendo responder de maneira afável.
Fecho os olhos, me concentrando.
Meu lado racional assume.
O gosto acre e áspero do orgulho me volta à boca.
Rainha de mim, respondo o que deve ser respondido de fato.

Natália Albertini.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Wisemen say only fools rush in.

Janelas abertas para a rua.
Azulejos verdes na varanda.
A porta da sala aberta, convidando o raro vento a entrar.
O som melodioso do sussurro silencioso do riacho atrás da casa.
Elvis à vitrola.
Dois corpos enlaçados e adormecidos ao chão lígneo daquela casa dos anos sessenta.

Ps.: Elvis à minha iVitrola. (:
Natália Albertini.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

How I wish, how I wish you were here...


Hoje meus pais e minha irmã me buscaram no serviço e dali fomos direto à Avenida Paulista, dar uma olhada nos enfeites de Natal.
Forcei alguns sorrisos a despontarem em meu rosto.
Entretanto, o que me corroía por dentro era tristeza. E aquele imenso vazio novamente.
Só conseguia pensar no quanto eu não quero que esse Natal chegue, no quanto eu gostaria de voltar aos meus cinco, seis anos de idade, quando o mundo era macio e melodioso.
Engoli a represa.
Minha irmã lembrou:
- Lembra que quando a gente era pequena, levavam a gente numa rua que tinha neve?
- Lembro... - um tom de nostalgia me escapou aos lábios.
Meu pai se adiantou:
- Rua Normandia. A gente vai pra lá agora!
Balancei de leve a cabeça, tentando evitar pensar no pior: que a rua não estivesse enfeitada como antes, que a neve não caísse mais, que não houvesse mais tantas crianças quanto antes.
Meu pai guiou o carro por entre as ruas do Ibirapuera. Passamos em frente ao Hospital Alvorada, onde te vi pela última vez...
Chegamos à tal Rua Normandia, não sem antes passar pela Bem-te-vi e pela Cotovia.
Pois é... Nada de enfeites grandiosos.
Só tristes luzinhas e pipoqueiros espalhados por ali.
Nada de turistas.
Nada de crianças.
Depois disso, não consigo parar de pensar no portão da sua casa com a placa de VENDE-SE.
E o trecho de Pink Floyd 'how I wish, how I wish you were here...' não desgruda da minha cabeça.
Meu peito afunda em oceanos escuros e teima em não voltar. Minha respiração falha e meus olhos incham. Meu canal de lágrimas já encontra-se obstruído.
Vou ter que fazer minha santa mãe me levar até sua casa um dia desses.
E, , perdoe-me, mas eu sei que vou chorar minhas vísceras ao ver a casa vazia.
Eu só sinto tanto a sua falta. Ela me mata todos os dias desde que você nos deixou.
Todos os dias eu sinto esse punhal perfurando meu adbôme, fazendo o sangue jorrar pra fora. Sinto a lâmina girar dentro de mim, arrastando com ela meus órgãos e minhas forças.

Ps.: só postei essa coisa escrota hoje porque estou chorando há dias. Meus olhos só pediram gentilmente para que meus dedos dividissem a dor com eles na noite de hoje, pois o peso já é grande demais para tão raros cílios.
Da sempre sua,
Natália Albertini.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Veludo adocicado.

Ele fez um sinal com o indicador, mandando-a se aproximar.
Ela obedeceu. De lingerie preta e rendada. De gatinhas.
Ele abriu mais as pernas, ouvindo a calça de couro estalar.
Ela chegou até ele, apoiou as mãos sujas em seus joelhos e se pôs de pé com alguma dificuldade.
Embora tivesse uma das maçãs do rosto dilacerada, sorria de maneira felina e sensual, com olhos de pantera.
Ajeitou-se e sentou em seu colo.
Enquanto ele sussurrava um vocabulário barato e imundo, ela lhe dava a melhor lapdance de sua vida.
Rebolava de forma a encaixar os quadris e passava as unhas afiadas por seu tronco desnudo e esbranquiçado.
Os dois sorriam enquanto faziam as línguas se entrelaçarem.
As unhas dele eram tão pontiagudas quanto as dela.
Assim, partículas de pele eram arrancadas das costas, dos ombros e dos peitos de ambos.
A escuridão dava espaço para seus corpos avermelhados, cheios de apetite.
Ele ergueu a mão e puxou violentamente os cabelos dela, fazendo-a envergar o delgado pescoço para trás, em dor, embora ainda sorrindo.
Ele lambeu a região e desceu por entre os seios dela, sentindo o gosto de pele lhe lamber a língua.
Em sincronia, atacaram-se.
Enfiaram as unhas um no outro até sentirem o fluido vital pulsar para fora do corpo, esmaltando as unhas de vermelho.
Morderam-se.
Arrancaram nacos de pele das cinturas, dos ombros, dos pescoços, dos rostos e das barrigas.
A carne na boca era esponjosa, suculenta, mouth-watering. O sangue seco em algumas partes dava o tempero agridoce, picante.
As gengivas vibravam por mais e mais.
Ajudavam as próprias línguas a empurrarem os nacos de carne pra baixo da garganta com boas goladas do melhor visco.
Aquele ainda morno e grosso, que enche a boca e nada nas gengivas e bochechas, que escorrega pela garganta, rubro, aveludado, doce e pesado.

E pela manhã, por entre as cortinas negras, corpos sujos, ensanguentados e cansados, ofegantes, jogados ao carpete vermelho.

Ps.: ouvir Manson a uma hora dessas dá nisso.
Natália Albertini.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Um bom desaniversário!

Mon Dieeeeeeeeeeeeu!
Hoje é meu birthday, seus limdos!
Tô turning 18 years old!
Que cute, né? ><'
Então um viva pra mim.
E outros dois pra Clarice Lispector, aquela limda! :D
Sry, too excited to post!
Hahahha.

Depois escrevo sobre today! [x

Beiguinhos!

Natália Albertini.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Café.

Sentada no balcão da cozinha, com as pernas meio abertas, tomando café numa caneca verde.
O cabelo bagunçado.
A roupa de dormir amarrotada.
Uma fresta de cintura descoberta, o Sol matutino lambendo aquele pedaço de pele, revelando acres marcas roxas.
Em contraposição, penumbra cobrindo as sutis dentadas tatuadas no pescoço.
Ela sorriu de canto para o café, para sua pele e para si mesma.
Partículas macias de memória da noite passada.

Natália Albertini.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Não-dor.

"Nada se esquece tão depressa quanto a dor. No momento em que se vai, toda a agonia termina, e sua lembrança já não pode nos causar nenhuma perturbação. Então nós mesmos não podemos mais participar da ansiedade e angústia que antes havíamos concebido." - Adam Smith.

Ah, é mesmo?
Então o nome disso que sinto não é dor, senhor Smith.

Natália Albertini.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cortes abertos.

Por míseros instantes, poupei meus pés de outro pulo consecutivo.
Senti a música fazendo minhas veias vibrarem, insanamente alta.
Senti as pessoas de ambos os meus lados saltando e gritando, chicoteando suas cordas vocais.
Senti cabeças balançando e mãos aplaudindo.
Senti a energia do cantor épico se esparramar por toda aquela multidão.
Senti as teclas de seu piano me baterem, causando-me espamos. Dos bons.
Senti o chão da arquibancada tremer, senti meus pés procurando se acalmar, espantar o medo.
Senti as luzes me cortarem a pele.
Por míseros instantes, senti.
E então voltei a pular e gritar, ao ritmo da canção.

Ps.: Ai, meus novembros, hein? [; Dia 27/11 do ano passado e dia 21/11 desse ano, quem diria!
Natália Albertini.

Pulmões sonolentos.

A persiana branca abaixada.
Rasas partículas de ar entrando naquele quarto lilás.
Um caderno aberto sobre o criado-mudo, uma de suas páginas preguiçosamente tentando se virar.
Sobre a cama, lençóis amarrotados.
Um corpo jogado, embaraçado.
Pernas alongadas, um joelho à altura do peito, quadril desencaixado. Boxer branca e top vermelho. Braços entrelaçados e dedos emaranhados.
Cachos perdidos nas profundezas daquele travesseiro de fronha amarela.
Lábios relaxados, semi-abertos.
Cílios alongados, selando os olhos.
O peito secretamente levantando e afundando, roubando oxigênio para os pulmões sonolentos.
Um ser adormecido e cansado.
Minha não-rotina.

Natália Albertini.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pele sob unhas.

Tinha os cabelos avolumados e meio molhados de suor.
As pernas cruzavam-se, bem delineadas. Os pés encaixavam-se belamente nos altíssimos saltos. As unhas dos pés estavam pintadas de preto.
Os olhos estavam num tom de cobre, agora inertes, mas que demonstravam atividade recente.
A roupa bagunçada e meio suja mostrava sua não vontade de levantar-se e trocar-se.
Ela tinha o laptop no colo. Digitava aqui e ali. Clicava agora e então.
As unhas douradas e brilhosas moviam-se elegantemente pelas pequenas teclas.
Uma janela de mensagens instantâneas subiu ao canto inferior direito da tela.
Axl says:
Hey, baby, sup?
Jenny says:
Hey. Nthg much, there?
Axl says:
Nthg much, Thought we could hang out some time.
Jenny says:
Sure.
Axl says:
What bout now? R u busy?
Ela olhou para o relógio do computador: duas e meia da manhã.
Jenny says:
Well, no, but u c, it's almost three in the morning.
Axl says:
I know, but do u have anything better to do right now?
Jenny says:
Well, no...
Axl says:
So there you go, i'll get there in half an hour.
Jenny says:
Oh, well...ok...
Dois na mesma noite não seria nada mal.
Axl says:
Dress up that lace lingerie of urs you promised me.
Jenny says:
Ok.
Axl says:
And prepare your weapons, darling, i'll eat you alive tonight! lol
Jenny says:
Right backatcha.
Olhou para o lado e, na rara luminosidade da sala de estar, viu o corpo jogado, ensanguentado e aberto, devorado.
Lambeu os lábios, divertida com o gosto acre de visco ainda grudado em suas gengivas.
Sorriu de canto, fechou o laptop e advertiu a si mesma que, embora tivesse só meia hora, deveria deixar a casa o mais limpa possível.
O que mais a atraía era sujá-la inteirinha novamente.
Com sangue fresco.

Natália Albertini.

domingo, 7 de novembro de 2010

Caninos ruminantes.

Suas roupas estavam encardidas de vermelho, enquanto ele já nem mais as tinha.
Ele estava deitado no chão, preso em posição desconfortável, amarrado pelas mãos e pelos pés.
Ela percorria-lhe o corpo, faminta.
Enfiava a mão de unhas roídas pela boca dele para facilitar o ato de lhe arrancar outro pedaço de língua.
Sentava-se a seu lado como uma primata, mastigando aquele naco, satisfeita. Sentindo aquele gosto esponjoso esparramar-se por suas gengivas, emitindo o mesmo som de um leão que mastiga um veado.
Voltava a agachar-se sobre aquele corpo já tão mutilado, reabrindo os cortes e enfiando a língua nos músculos já devorados.
Seu pescoço, seus ombros, suas mãos e seus antebraços inteiros tinham aquele visco rubro escuro já seco. Ela por vezes lambia os próprios dedos.
Ele tinha os olhos fechados, em profunda agonia, e o corpo berrando em derme aberta
Ela já tinha ruminado boa parte de seu corpo e adorava sua expressão de sofrimento.
Tomava mais visco numa taça longa. O sangue passava, quente, por seu céu-da-boca e sua língua, morno, escorregando devagar por sua garganta, grosso.

Foi quando o ouviu balbuciar com a língua frouxa:
- Não se esques do - deu um tempo, tentando dominar o músculo falhado - mmmmmmeu coras...
Ela abriu um sorriso largo e felino, com os dentes sujos de pele e sangue.

Ps.: thks to Cannibal, from Kesha, of course! :D
Natália Albertini.

sábado, 6 de novembro de 2010

Constante Sorriso.

Ela prendeu os largos cabelos num coque, no topo da cabeça.
Vestiu os coturnos e amarrou-os.
Não seu olhou ao espelho.
O mundo a conheceria naquele dia.
E talvez depois não fosse o mesmo. Essa era a intenção.
Só abaixou a máscara de Fawkes sobre o rosto, abriu a porta e saiu recitando os versos daquele cinco de novembro.

Ps.: Dezembro já, já chega. Se estiverem sem ideias, aceito uma máscara do Fawkes como presente de bday! :D
Natália Albertini.

O Punhal.

Tenho levado meus dias em razoável bom humor. Sorrindo e cantarolando, por vezes.
Mas e aí que vejo um velhinho beirando os oitenta anos perto de mim, com o maxilar empurrado pra frente, os cabelos brancos, a pele enrugada e manchada, e a camisa listrada.
Que saudades que me dá...
Que vontade de despejar meus oceanos ali mesmo, sem esperar até chegar em casa.
Lembro de novo que sua casa está acenando pra mim.
Que a areia se esvai por entre meus dedos e eu não consigo segurá-la.
Essa dor excruciante em meu peito outra vez, me dando um alô, tão familiar.
Entrelaço os cílios before my glasses e esmigalho meu maxilar.
Espero até chegar em casa e aí desabo.
Que saudades que me dá...

Natália Albertini.

Cabelos brancos.

Eu lia um livro sobre a Starbucks para descobrir um pouco mais sobre sua estratégia. Lia sobre o Green Apron Book e já formulava mentalmente algumas frases que colocaria em meus slides mais tarde.
Ao mesmo tempo, eu mexia os lábios, acompanhando um bom Pink Floyd.
Foi quando um velhinho, aparentemente beirando os setenta anos, sentado no banco preferencial à minha frente, deu dois leves tapinhas amistosos em meu joelho.
Levantei os olhos a ele e tirei um dos fones.
- Desculpe te interromper, menina - disse ele - mas preciso te dizer algo.
A moça sentada a meu lado era sua acompanhante, talvez uma filha. Olhou-o com tanta curiosidade quanto eu.
- Sem problemas, senhor.
- Eu fico admirado - ele prosseguiu - em como você consegue ler e se concentrar tanto num livro dentro do metrô.
- Ah, é o hábito.
- Você vê, eu leio muito.
- Ele lê muito mesmo - acrescentou a moça - e ele lê aqueles livros desse tamanho - fazendo um gesto para indicar a grossura dos livros.
Eu sorri. Ele emendou:
- Pois é. Eu leio, mesmo. Mas não consigo ler assim, no metrô, no ônibus, no carro...
- Ah, mas antes eu também não conseguia, me sentia enjoada.
- Iiisso, a gente se sente assim, mesmo - os dois concordaram.
- Então, só que eu faço esse caminho de ida e volta todo dia, e dura tanto tempo que eu não gosto de simplesmente desperdiçar assim. Aí acabei me acostumando a ler, agora não sinto mais náuseas.
- Oh, que interessante... - ele disse - Talvez eu tente.
Retribuí-lhe com um largo sorriso.
- Bom, desculpe ter te atrapalhado! - ele disse, e os dois sorriram de volta.
- Ah, imagine!
Os três ficaram ali, amigavelmente sorrindo.
Logo eles dois voltaram a falar sobre algo que não me convinha, então coloquei de volta meu fone e voltei a ler.
Duas ou três estações depois, percebi que ela já havia descido e que ele se levantava para deixar o trem metálico.
Bateu suavemente em meu ombro e acenou:
- Tchau, mocinha!
- Tchau, senhor! Muito prazer!
Nós acenamos um para o outro e sorrimos.
Eu vi ele saindo e as portas se fechando.
Me vi sozinha.

Natália Albertini.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Bulletproof

We are told to remember the idea and not the man. But you cannot kiss an idea, cannot touch it or hold it.
Ideas do not bleed. They do not feel pain. They do not love.
And it's not an idea that I miss.
It is a man.

Remember, remember the fifth of november
The gunpowder treason and plot
I know of no reason why the gunpowder treason
Should ever be forgot.

Creedy: Why don't you die?!
V: Because behind this mask there's more than bones and muscles, Mr. Creedy. Behind this mask there's an idea. And ideas are bulletproof.

Ps.: sorry, but i have really no time to write something myself right now. I promise I'll do it asap, ok? I'm just running outta time to finish up some papers here. Mwack.
Pps.: hip hip Fawkes!
Natália Albertini.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

BIC

O computador ligado, quinhentas páginas de internet abertas em diferentes sites relacionados a diferentes assuntos.
Livros da biblioteca e comprados abertos sobre a mesa.
Papéis espalhados.
Caneta azul imprimindo letras gordinhas no caderno.
Cachos em reviravoltas e óculos no topo da cabeça.
Meia-noite e meia.

Ps.: ebaaa, adoro acordar com olheiras! *-* E isso não é ironia!
Natália Albertini.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Azulejos.

A rasa luz prateada da meia-noite lambia os azulejos da cozinha.
Ela tinha os olhos injetados, vermelhos, os cabelos revirados e os dedos tamborilando a mesa.
Levantou de súbito e abriu a primeira gaveta do balcão de forma violenta e descuidada, fazendo todos os talheres e a própria gaveta caírem ao chão, embaralhados.
Com mãos trêmulas, ela achou a maior e mais afiada das facas.
Com as costas na parede, sem parar pra repensar sobre aquilo, ela levou a lâmina à altura do queixo e, sem conseguir fechar os olhos, rasgou o pescoço da esquerda à direita num movimento brusco só.
Os membros enfraqueceram, o corpo tremeu convulsivamente até cair sentado desconfortavelmente no chão branco, agora tingido com aquele visco rubro-negro.
O luar dava um brilho poético e apetitoso para a cena suicida.

Ps.: dica de música pra acompanhar esse texto: Internal Primates Forever, do Mudvayne.
Ps2.: cansei de brincar de amigdalite, comofäs//
Natália Albertini.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Marshmallow.

Eu aqui, sentada nessa cadeira de rodinhas, digitando nesse laptop sobre essa mesa improvisada nesse meu quarto lilás.
Esse meu iTunes seleciona Sparks, desse meu Coldplay tão conhecido.
Sou arremessada de volta ao ano passado, nesse mesmo período de outubro, quando me preocupava tanto com vestibulares e provas por vir.
E eu achava que aquela era uma das épocas mais difíceis da minha vida...
Esse cheiro de marshmallow e essa maciez do meu travesseiro invadem meus dois sentidos favoritos.

Ps.: "every step that you take could be your biggest mistake (...) that's the risk that you take".
Natália Albertini.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tato.

Eu ia fazer um texto poético e narrativo, ia me descrever sentada naquela sala de estar tão espaçosa, descalça, sentindo a textura do sofá florido sob meus pés e a cortina batendo bem de leve em minha nuca.
Só que ai eu lembrei que a TV não está mais lá, e foi aí que as lágrimas começaram a saltar de meus olhos mais uma vez.
Sabe, eu suprimo essa dor todo dia, a cada olhar não lacrimenjante e a cada sorriso que forjo. A cada "sim" que respondo pra cada "tudo bem?" que me perguntam.
Mas tem dias que não consigo simplesmente engolir, tenho que vomitar de novo essas vísceras já, infelizmente, familiares.
A chuva que cai agora é fina e incisiva. Tenho vontade de sair no seu quintal e sentir essa água me lavar, queria ter a fé da Evey, queria acreditar que você, vô, pode estar na chuva. Assim, nos tocaríamos mais uma vez.
Fui à sua casa domingo.
Quando chegamos, meu pai foi ao banheiro e me deixou sozinha naquela imensidão da sua casa.
Meus dedos, por vontade própria, foram dedilhando os objetos de que se aproximavam.
Minhas pernas me levaram de cômodo em cômodo, meus olhos me encheram a mente de boas recordações, embora profundamente dolorosas. E o cômodo que mais me prendeu foi o seu quarto. Sem você.
Desculpe, vô, eu não consegui entrar lá. Me desculpe...
Eu sei que me contradigo ao colocar seu nome em meus vocativos, pois você sabe o quão não-espiritualista eu sou, me contradigo ao usar uma conjunção adversativa pra começar um parágrafo, mas, desculpe-me, esse texto não é pra ter um começo e um fim. Até porque não vejo como pôr fim a essa minha dor.
E sabe o que mais me doeu muito no domingo?
Antes de sair de sua casa, vi meu pai parado na soleira da porta do quarto do pai dele, exatamente como eu o fiz, exata e igualmente paralisado pela dor de não te ver ali. E eu não pude abraçá-lo. É, covarde que sou, simplesmente me afastei e disse "vamos".
Meus tios já falam de chamar algum corretor de imóveis para avaliar a casa, a família inteira se mobiliza para tirar móveis antigos, dividir bens etc. Mas eu não quero isso. Eu quero sua casa lá, com tudo lá, com minha memória lá. Com você.
As sensações tácteis que me sobram de você me provocam dia após dia, sinto sua unha quebrada sob meu polegar, sua casquinha de pele sob meu indicador, no hospital. Seu cabelo grisalho entre meus dedos. Sua pele enrugada, suas manchas, seu nariz, seus grossos óculos, seus olhos.
Elas só são substituídas por minhas próprias unhas dilacerando minhas próprias costas. E aí vejo esse sangue sob minhas unhas e só consigo pensar que é, em parte, seu sangue também.
Agora tomo um bom gole de lágrimas para settle down tudo isso.
E, de novo, mentir para meus alunos, dizendo que estou bem, sorrindo para suas gracinhas e fingindo que, nesse instante, eles são minha maior preocupação.
Saudades infindáveis.

Natália Albertini.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Poliglota

Os cabelos lhe caíam ao rosto, desembaraçados e insistentes.
A coluna não tinha boa postura: se inclinava para que as mãos pudessem trabalhar melhor.
Concentrava-se de forma pesada na foto que começava a aparecer no papel gelatinado imerso na bacia de revelador.
O cronômetro batia os primeiros dez segundos da leve agitação que ainda devia ser levada até um minuto e vinte a mais.
Ela tinha o corpo envolto pelo ambiente rasamente iluminado por alguns spots de luz vermelha.
Sentiu, então, outro corpo pressionar-lhe contra a bancada. Outro pescoço pressionar-lhe o seu.
Ele inalou o ar com força, enquanto ela arfou.
Ambos sorriram.
As mãos dele eram voluptuosas e rápidas. Acharam logo o caminho de sua cintura e, então, por dentro de suas pernas, beliscando-as bruscamente.
Ela jogou um dos braços para trás e puxou-lhe com força os cabelos da nuca.
Antes do cronômetro alcançar os nove minutos, os corpos já se enroscavam felinamente, rasos, vermelhos. Madrugada a dentro.


Muitas vezes depois de reiniciado o cronômetro, a vermelhidão luminosa parecia nascer das paredes, brotar do chão.
Contudo, seu aspecto não era lá muito imaterial. Era, au reverse, viscoso, de dar água na boca.
O corpo dela fora varrido dali, mas, como recordação, ele deixou, boiando junto ao papel encharcado de química, a língua dela.

Ps.: sorry pela ausência, mas semana corrida, finally! *-*
Natália Albertini.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vidros escuros.

Sentindo as gotas d'água caírem de leve em sua face, ela continuava ali, parada na calçada, esperando.
Xingou o mau tempo algumas vezes, baixinho.
As finas gotículas davam-lhe finos tapas nas pálpebras, nas coxas à mostra e nos braços, idem.
Distribui o peso do saudável corpo em ambos os pés, equilibrando-se felinamente nos saltos altos. Revirou o cabelo, úmido. Ajeitou a bolsa no ombro direito.
Estendeu o pulso esquerdo: 1h20 da manhã na luminosidade do relógio e ela ali, debaixo daquela garoa, esperando.
Ao longe, um carro preto de vidros escuros e som alto virou a esquina.
Ela deixou os xingamentos de lado e sorriu de canto, satisfeita e ansiosa pela noite por vir.
O carro encostou à sua frente.
Ela abriu a porta da frente e se jogou ali, deixando o cabelo e as roupas caírem de uma forma natural, deixando-a espontaneamente bonita.
Sorriu majestosamente e cumprimentou aos três rapazes e à outra moça dentro do carro.
Abriu a bolsa, tirou a mágica garrafa de água e entornou-a, tomando um bom gole, em seguida fazendo uma careta que demonstrava o gosto apetitoso e, simultaneamente, repulsivo, quente.
Passou a garrafa para trás e aumentou o som, fazendo o carro e as ruas estremecerem, tamborilando as mãos no porta-luvas.
Sábado à noite.

Ps.: e não é esse o bom de ainda ser jovem? (:
Natália Albertini.

Agenda 2010.

Me acho uma pessoa normal. Mas é aí que abro minha agenda e encontro uma página com esses tópicos:

This year:

- Learn how to drive.
- Write more.
- Get a good job.
- Get good grades at university.
- Learn how to get attached to people.
- Get thinner.
- Read more.
- Swallow my pride.
- Dance more (for grandpa).

Ai, Natália, só você fica se impondo essas metas impossíveis...
Eu me mereço, mesmo...

Ps.: WTF?!
Natália Albertini.

sábado, 18 de setembro de 2010

Egoísta num quarto escuro.

E eu aqui, nesse quarto escuro, tentando mandar embora essa melancolia que vem se apossar de mim mais uma vez.
Amanhã vamos almoçar todos juntos, talvez até passar na sua casa.
Você não estará lá, o que provavelmente me fará muito mal.
Ver aquela casa vazia é o mesmo que fincar um afiado punhal em meu peito e girá-lo, sentindo a dor excruciante e o sangue me escorrendo corpo abaixo, esvaindo-se.
Não te ouvir cantarolando alto, não te ver arrastando os chinelos pelos azulejos, não te sentir sorrindo atrás dos grossos óculos e cabelos grisalhos. Não você. Não eu.
Me afundo nessa escuridão, engolindo as bolas de mar que se formam em minha garganta, tentando dizer à minha mente que é natural não te ter mais.
O problema é que minha mente já assimilou isso, mas minha alma ainda não quer aceitar, ainda e pra sempre sente sua falta.
Amanhã acordarei com as pálpebras inchadas e, mais uma vez, pintarei meus olhos de preto, para esconder tal inchaço e, quem sabe, demonstrar luto.
Eu sei que as pessoas dizem que assim foi melhor pra você e tudo o mais, mas desculpe, , sou egoísta e quero me reservar o direito de sentir (infinitas) saudades de você.
E eu aqui, nesse quarto escuro.
E eu aqui, nesse escuro.
E eu aqui, escuro.

Natália Albertini.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Escorrendo.

Andreas puxou os curtos cabelos da moça, fazendo-a envergar a cabeça para trás.
Ela gemeu.
Ele grudou o corpo no dela, lambendo-lhe o pescoço de baixo a cima, de olhos bem abertos.
Ela sorria com a dor, divertida.
As mãos corriam pelos corpos despidos, gélidos e ardentes, lisos, acidamente adocicados, alcançando tudo o que viam pela frente. Tocando e arranhando.
Xingamentos e maus nomes ecoavam pela derme de ambos, oleosas.
O rapaz, sorrateiro, arreganhou o maxilar e fincou os dentes pontiagudos no ombro esquerdo dela, ao pé de seu pescoço.
O sangue escorreu frenético e quente. Pastoso, de dar água na boca.
Ele sugou com força e desejo, enquanto ainda a possuía carnalmente.
A língua dele crescia de acordo com sua vontade, exponencial. Seu pescoço se banhava no sangue dela, bem como seu queixo e as pontas de sua crina.
Seus olhos eram escuros e de cílios curtos.
Ela não conseguiu expelir um grito sequer, mas pelo menos aproveitou seus últimos momentos com enorme prazer sanguíneo, hemático.

Ps.: weeeeeeeeird...sorry for that, guys!
Natália Albertini.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Lençóis amarrotados.

A noite estava quente e chuvosa.
O cabelo grudava em sua testa, rosto e nuca.
Retorcia-se na cama, suando frio, com os olhos apertados, sem conseguir abri-los.
As mãos daquele corpo de alma presa em seu próprio subconsciente agarravam os lençóis com força.
A respiração era ofegante e seca. Os lábios se retraíam sobre os caninos pontiagudos.
Começou a expelir gemidos e tosses que lhe arranhavam a garganta.
O pesadelo era demasiado intenso e realista para fazer aquele corpo submeter-se a tamanha agonia.

Homens corriam e invadiam a casa. Sua irmã jazia no chão, inconsciente.
Ela corria atrás deles com o telefone em mãos, tentando digitar o número do pronto atendimento policial.
A sequência numérica 190 lhe vinha à mente, mas os dedos escorregavam no aparelho. Embaralhavam-se e tropeçavam, sem conseguir digitar corretamente.

As unhas fincadas nas palmas da mão, aflitas.

Correu ao quintal com uma arma empunhada, surgida de sabe-se lá onde.
Alcançou os invasores, mas a este ponto a arma já tinha sumido.
Foi à churrasqueira e de lá puxou um grande espeto, apressando-se em fincá-lo na porção central do peito de todos os invasores, que agora se personificavam em um só homem.

Reclamou em alto tom de voz.
Sentiu alguém chacoalhando seu corpo e por fim acordou, sobressaltada.
Deu-se por conta de onde, como e quando estava.
Sentiu o travesseiro encharcado, o lençol retorcido, o edredom amontoado em seus pés e o cabelo emaranhado.
Viu o corpo deitado ao lado do seu, já retornando a um sono profundo após tê-la salvado de tamanha situação aflitiva.
Revirou-se na cama e vasculhou o quarto escuro e desconhecido ao redor de si, sentindo o mal-estar apossar-se de seu corpo e mente.
Pegou num sono levíssimo, ainda suando frio cada vez que acordava e via, na penumbra, a imagem do homem esfaqueado a fitando com olhos cintilantes.

Natália Albertini.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Keep a straight face.

Me pego outra vez derramando mares, enxarcando essas palavras aristotélicas que lia há pouco, sob mim.
Tudo isso porque tirei o telefone do gancho, disquei os números de sua casa e só depois do terceiro toque percebi a gravidade do que estava fazendo.
A imagem da casa vazia, escura e fria me molha a mente. Aquele silêncio imperial sendo quebrado pelo toque estridente do telefone, minha voz te chamando desesperadamente.
Trêmula, ponho o telefone de volta no receptor.
Meu peito se afunda, sob uma pressão absurda; meu abdôme se contrai; meus lábios se curvam pra baixo e meus olhos expelem todo esse Oceano Atlântico.
Sabe, tenho levado minha vida numa maré de indiferença cinza.
Por vezes umas pinceladas de amarelo claro, conforto da minha cama, outras de rosa claro, meus alunos rindo, e até mesmo certo laranja claro, minha irmã sorrindo pra mim e me chamando de idiota.
Entretanto, isso é tudo. Pois é, estou toda tons pastéis.
E, claro, preta e branca.
Essa dor e essa ausência.
Sorrio, sim. Rio e converso.
Passo bem o dia, vestindo sua blusa para ir à faculdade, com a gola da camisa pra fora, cheirando as mangas de lã de vez em quando.
Dou minhas aulas, ajudo alguns, divirto outros.
Mas é só chegar em casa, e essas ondas batem em meus rochedos de novo.
Não tenho levado uma vida emocionante, de braços levantados numa montanha-russa, como adoro. Não tenho muitos amigos, se considerada a verdadeira definição disso pra mim. Alguns bons colegas, vá lá, mas não amigos.
E talvez por minha culpa, mesmo. Tenho me afastado de tudo e todos, tenho me isolado aqui, só com as lembranças de você e de sua casa.
De sua unha rachada no polegar esquerdo, de sua garrafa de água sempre presente, de seus grossos óculos cobrindo sues olhos de guri, de você me chamando de menina, de você.
Não tenho grandes motivações para acordar no dia seguinte, nem pra sequer ir deitar.
Só de pensar que amanhã terei de passar quinze horas fora de casa, forçando essas pobres pernas a me carregarem e esses pobres lábios a forjarem sorrisos e palavras que não deveriam ser produzidos, perco a vontade de ir dormir.
Me encontro ainda caindo naquele abismo, esticando meus braços, tentando encontrar onde me agarrar, em vão.
Não consigo ser inteira, minha lua não brilha em cada lago.
Os conflitos alheios me parecem tão míseros e desprezíveis no momento. As pessoas me falam coisas e eu finjo me importar, sendo que dentro, tudo o que me passa pelas pálpebras são lembranças suas e dessa dor incessante.
Ontem, via internet, meu pai me perguntou como eu estava e eu disse "bem".
Tive um forte impulso de meter a cabeça na parede, pegar um ônibus e ir até lá para abraçá-lo, órfão. De dizer que não, que não está nada bem, mas que eu continuo aqui, as usual.
E então de fazer o mesmo com meus três tios.
De dessa vez, eu ser o porto-seguro deles.
Mas vô, cadê você pra me ensinar como fazer isso?

Ps.: e todo dia acordo com essas pálpebras inchadas. E quando me perguntam, tenho a pachorra de dizer que é algum tipo de alergia...
Ps2.: Thks to Pessoa.
Natália Albertini.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Untitled.

I miss you so freaking-damn-fucking much.
Once again.
And forever.

Ps.: Centenas de textos se formaram em minha mente, pensei em escrever muito e pouco sobre coisas várias, mas há sempre uma mesma inquietação que fica aqui, me cutucando. Portanto, esta é uma noite inútil. Não escrevo, não leio, não canto, não me mexo, não te esqueço.
Ps2.: And I keep wondering why, keep forbidding my lips to say goodbye.
Natália Albertini.

sábado, 28 de agosto de 2010

Lost wings.

Eu aqui passando as fotos do dia de hoje, clicando vagarosamente nas setas do teclado.
Abro a pasta de todas as fotos depositadas na câmera, decido ver as do último Natal, já que a primeira delas parece tão feliz.
De repente, um murro em minha cara, me enchendo a boca de sangue.
Uma foto da tia ao seu lado.
Você, atrás dos seus óculos, com sua camisa listrada e sua blusa de lã por cima, sentado no seu lugar de patriarca da casa tão costumeiro.
E a tia ali, ao seu lado, como sempre.
Você sorri com os olhos e com os lábios, e tem as mãos entrelaçadas, como bem as lembro.
Um chute em minhas costas, me empurrando abismo abaixo.
Recordações e pesares rodando em minha mente.
Eu caindo.
Inconformada, tento entender que você, nunca mais. Que sua casa, talvez, nunca mais. Mas nada disso faz sentido, nada disso tem a ousadia de tomar forma em minha mente.
Nada.
Nunca.
Eu caindo.
Vontade de pegar o cortador de unhas, te fazer sentar à varanda, tirar seus chinelos e lhe cortar as longas unhas.
Vontade de passar meu indicador sobre sua unha rachada do polegar esquerdo.
Vontade de você aqui mais uma vez.
Pra sempre.
Meu maxilar esfarelado, meus olhos mutilados.
E eu caindo nesse abismo pleonasticamente infinito.
E sua luz ficando cada vez mais e mais longe.
E eu caindo nesse abismo, sem saber como voar sem você pra ser minhas asas.
E esse monstrinho dentro de mim, de unhas compridas e dentes afiados, que me rasga lentamente de dentro pra fora, sugando meu sangue e minhas forças.
E eu vendo a ponta de uma de suas unhas cutucando minha barriga.
E eu caindo nesse abismo.

Ps.: I'm so sorry, I swore I'd write this without sharing a tear, but it's just impossible. I miss you so fucking much...
Natália Albertini.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Mente indisciplinada.

O grupo postou-se à frente da sala em função da apresentação do trabalho.
Uma das garotas começou com:
- Então, nós vamos falar sobre...
Meu cenho se franziu. Divaguei.
Tá, eu sei que é informalidade, mas ué, mas ela ainda não tinha falado nada. Como é que fez uso duma conjunção conclusiva se ainda não tinha nada para concluir, muito pelo contrário, ia ainda iniciar?!
Ela prosseguiu:
- O anúncio é muito claro e possui algumas ambiguidades.
Não, calma... Ela opôs duas ideias, certo? Então a conjunção não deve ser aditiva, mas sim adverstiva, já que ela propôs uma antítese. Não, um paradoxo. Não! Um oxímoro!
Ai, credo, Natália, chega. Você já passou no vestibular.
É, chega, chega! CHEGA!
- O anunciante também faz uso de metáforas...
Metáfora! Figuras de linguagem, ...

Ps.: dedico este à Bebê! :D
Natália Albertini.

domingo, 22 de agosto de 2010

Meus lânguidos azulejos.

O astro-rei lambia languidamente os azulejos vermelhos do chão.
As quatro meninas sentavam-se ali, rodeadas por sorrisos e memórias poeirentas.
Uma de óculos e anel, outra de rasteirinha e regata branca, outra de chinelo e franja abrangente, e uma outra de unhas douradas e bermuda.
A névoa de domingo à tarde as rondava.
A parede imperfeita servia de apoio para aquelas colunas ainda não inteiramente estruturadas.
Falavam e riam, calavam e sorriam.
Externa e internamente.
Sorrisos de almas velhas em corpos jovens.
Memórias de almas jovens em corpos velhos.
Não precisavam sequer se tocarem para se darem por conta da conexão ali presente, tão palpável.
Mais um domingo à tarde, depois do almoço.
Mais um.
Mais.
E mais.

Natália Albertini.

domingo, 15 de agosto de 2010

Mouth-watering.

Belas e longas pernas cruzavam-se, realçadas pela saia curta, preta.
Nos pés, botas de altos saltos e cadarços de veludo.
Grosso e charmoso coque no topo da cabeça.
Nas mãos, um dry martini.
Nos olhos, o outro sofá.
Os sofás eram ainda mais escuros à rara iluminação do local, baseada principalmente em vermelho e roxo.
As batidas da música faziam tremer as paredes, arrancando pequenos pedaços de reboco.
Seus olhos eram fixos nele.
O rapaz conversava com um dos amigos.
Ele tinha os jeans meio rasgados, os tênis de couro, a camisa xadrez meio aberta e aquele pescoço tão lascerante aparecendo, sustentando um dos mais belos rostos já vistos, um maxilar invejável.
Ela o encarava, sem sequer tomar outro gole do copo.
Ele a viu, encarou-a de volta, enquanto entornou a garrafa de cerveja naqueles lábios tão carnudos.
Seu olhar ainda era fixo.
Fixo naquela carne cervical que latejava em calor e sangue.
Um sorriso beirava o canto de seus lábios, tão úmidos quanto os dele.
Os ombros dele esticavam a camisa, cujas mangas dobradas que qualquer forma revelavam braços pesados e violentos.
Ela descruzou as pernas e juntos os joelhos, separando as botas.
Tomou o drinque todo num só gole, colocou a taça no chão e se pôs de pé, chamando a atenção do rapaz.
She was stunning.
Ela deu dois passos e parou.
Como se fosse o ato mais normal e esperado de todos, encaixou o quadril no dele e sentou-se em seu colo, atacando sua boca com a língua.
Ele, embora espantado, correspondeu instantânea e satisfeitamente.
Tratou de levar a mão livre a uma das nádegas da moça e apertá-la com força.
Fez questão de dar a garrafa de cerveja ao amigo ao lado para que pudessa agarrá-la sem restrições.
Ela desceu os lábios àquele pescoço tão vibrante e apetitoso, primeiramente acariciando-o.
Arreganhou a boca e com caninos vorazes perfurou as três camadas de pele, chegando a uma das artérias, sugando com força aquele visco tão quente e libidinoso.
Rebolou de leve os quadris, se alimentando prazerosamente.
E a expressão de tesão daqueles olhos azuis dele tornaram-se logo em desespero e agonia enquanto sentia as perfurações dos dentes no pescoço e as ungueais nas costas, sentindo seu rubro-negro escorrer, morno, por sua pele.

Ps.: é, adoro gory vampires in tha clubs, so sorry.
Natália Albertini.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Eterno véu.

Ainda tenho na ponta dos dedos a memória de sua unha rachada ao meio, no polegar esquerdo.
Você com aquele rosto limpo e lívido, de olhos fechados e lábios selados.
Aquele estúpido véu te cobrindo.
Aquelas velas.
Aquelas pessoas.
Toda aquela solenidade.
Toda a minha vontade de arrancar esse estúpido véu e agarrar seu corpo, gélido, com força. Te segurar aqui comigo.
Pra sempre.
E então aquela mulher chegou e se apresentou como sua amiga, logo dizendo:
- Ele falava tanto de vocês, netas dele... Quando ia chegando perto do aniversário de vocês, ele se corroía em indecisão, falava que não sabia o que dar, que ia acabar dando dinheiro, mesmo...
Minhas pernas fraquejando.
Minha visão embaçando.
Meu peito se contraindo em oceanos.
Esse véu nos separando.
Pra sempre.

Ps.: por quê?
Natália Albertini.

sábado, 7 de agosto de 2010

"The tears come stream and down your face, when you lose something you can't replace, when you love someone but it goes to waste. Could it be worse?"

Enquanto tento escrever algo que de mim não quer sair, sinto meu avô aqui ao meu lado, inclinado sobre mim, tentando ler a tela do computador, me perguntando sobre os sites e como consigo digitar tão rápido.
Sorrio de canto e olho, por debaixo de seu corpo, para o corredor, à esquerda.
Vejo meus primos e eu, pequenos, correndo e rindo.
Em seguida eles passam pela janela deste quarto, à minha direita, fazendo a cortina balançar sutilmente.
Memórias desprendidas dos acolchoados da sala, floridos. Dos porta-retratos na estante, da TV ligada, do tapete e da mesa de centro que sempre deixa ser posto sobre si um um vaso de belas orquídeas ou margaridas.
Lembranças do espelho de corpo inteiro do corredor, do enorme e branco banheiro com a abertura escura e sombria para o telhado.
Recordações dolorosas e coloridas da cozinha que, tão grande, sempre acolhe a família em datas comemorativas, da tesoura escondida atrás da cortina, da geladeira sempre cheia de guloseimas, iogurtes, dos armários, dos pratos e dos copos, da dispensa ladeada por comidas e materiais de papelaria, do quartinho com a tábua de passar e o grande armário que abriga tudo.
Memórias do piso gelado e escuro da varanda, do balanço, do quintal marcado pela tinta que certas netas uma vez passaram, da pequena orquidaria e das árvores tão floridas, do portão de vidro, agora de alumínio graças a meu pequeno incidente quando criança, que dá pra garagem de duas vagas.
Lembranças escuras e poeirentas da passagem secreta para o pequeno quarto de ferramentas.
Volto a mente para este quarto, esta escrivaninha, este teclado, este corpo postado aqui tentando pôr em palavras que não, meu vô não estava aqui, foi só uma armadilha de minha mente.
Ele ainda está lá, sendo velado.
Mas vô, não se preocupe, já peguei o DVD de bolero que você me pediu pra pegar... Vou cuidar bem dele, pode deixar.

Ps.: And sometimes it seems that this is just a terrible nightmare and i'm going to wake up anytime...
Ps2.: New life for me now. And not always new is good. Right now, it's terrible, because it means 'without you'.
Natália Albertini.

domingo, 1 de agosto de 2010

Arranca esse anel

De ombros largos e cabelo claro e bagunçado.
De olhos claros e dedos compridos.
De costas longas e de boa postura.
De sorriso avassalador e tênis de couro.
De aliança.
De me dar vontade de jogar essas maçãs carameladas nas suas costas e...

Ps.: Why tha fuck every single time I got to Outback I fall in love?! x.x'
Natália Albertini.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Arranha-me.

A vitrola arranhando o vinil de Smith.
Corpos mornos e lânguidos entre as mesas, movimentando-se melodiosamente.
Cervejas não tão geladas em copos gordos, pedaços de porco frigindo nas panelas.
Cadeiras e mesas rústicas, lígneas, firmes, bem como as pernas de muitas das moças dali que expunham os belos corpos em curtos shorts.
Cabelos longos e molhados de suor.
Rapazes sentados com as pernas abertas. Moços erradamente abotoados.
Cabeças no ritmo da canção.
Chapéus abanando os pescoços delgados e escorregadios.
Sorrisos felinos.
Noite estalada, quente.
Corpos abusadamente carnais.

Ps.: WTF?!
Ps.: Baby, It's You, from Smith.
Natália Albertini.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Rosto rasgado.

Abri os olhos, esfreguei-os com mãos sonolentas.
Ouvi a voz de minha mãe ao telefone, sozinha e com toques alegres.
Franzi o cenho e me livrei das cobertas.
Levantei da cama e deixei o quarto.
A sala estava clara, com as luzes acesas.
Estranhei.
Assim que ela me viu, abriu-me um belo sorriso com seus dentes pequenos e perfeitinhos. Os olhos se encheram, os cílios se iluminaram.
Ainda ensonada, não conseguia distinguir bem com quem e o que ela falava, mas não pude conter que meus lábios fossem dedilhados por um sorrisinho de canto, embalado pelo dela.
Desligou o telefone.
Com o cabelo revirado e o cenho ainda franzido, interroguei-a com um gesto de cabeça.
- Seu vô melhorou, Ná! Ele tá ótimo! A gente vai lá na casa dele agora!
Olhei no aparelho de DVD na estante. A fluorescência azul indicava três e vinte e cinco da manhã.
- Agora? - indaguei.
- Sim!
- É, filha, agora! - a voz de meu pai vinda da cozinha.
Desnorteada, mas surpresa de uma ótima forma, me contentei.
Meu corpo tratou logo de vestir uma outra roupa qualquer que não meu pijama.
Fomos até a casa de meu vô.
Ao chegar lá, muitos membros de família. Primos, tios e tios-avôs.
Uma grande festa estava acontecendo ali.
Não podia deixar de achar tudo aquilo muito insano, mas ao mesmo tempo, meu ser jamais sentira tamanha felicidade.
Entre guarnições e vinhos sendo servido às quatro da manhã, sai em busca de meu avô.
Achei a porta de seu quarto fechada.
Bati suavemente e entrei.
- Ô, menina! Como chama? - ele demorou alguns segundos - É... Natália!
Rasguei minha boca num sorriso maior que o mundo.
Ele estava com sua calça social, seus chinelos, sua camisa listrada e sua blusa de lã.
Tossiu uma ou duas vezes, levando uma das mãos à boca.
Foi então que vi que ele tinha em mãos aquela caixa, à qual minha tia anteriormente havia se referido como "umas coisas da mãe de que ele morre de ciúmes". Aquela que continha um relógio, uma correntinha e um par de brincos de pérolas de minha avó.
- Abre essa gaveta aí - ele apontou a primeira gaveta da cômoda.
Obedeci.
Encontrei ali um DVD de forró.
Retirei-o de lá e me aproximei de meu vô com aquilo em mãos.
Ele me disse:
- Eu comprei outro dia! Precisava treinar, né, menina? - e deu aquela sua risada de menino, que lhe fazia os olhos se apertarem nos cantos e abarcarem o mundo com olhar de criança.
- Sim, vô, fez bem! - ainda sorrindo.
Me sentei na cama ao lado dele e o abracei como jamais abracei qualquer outro em toda a minha existência.

Acordei no meio da noite abraçando meu travesseiro salgadamente enxarcado.

Da mais agoniada e temerosa que nunca, entretanto, sempre sua,
Natália Albertini.