domingo, 23 de outubro de 2011

A língua.

Silêncio e a mais pura escuridão.
Tentou ao máximo calar a respiração que, ofegante, parecia alta demais ali debaixo, poderia denunciá-lo a qualquer momento.
O chão poeirento debaixo da cama lhe fazia querer espirrar.
Não, agora, não!
Torceu o nariz e deixou os olhos, igualmente irritados, bem abertos.
Prendeu a respiração por segundos para apurar os ouvidos.
As últimas passadas haviam sido há mais de seis segundos.
A adrenalina lhe corria as veias desenfreada, ansiosa, comendo-lhe o sangue.
Por sorte, quando havia descido do colchão até ali, o edredon havia descido um pouco, cobrindo seu esconderijo - o mais seguro que pode achar em meio ao desespero dos passos pesados no piso ebúrneo.
Uma brisa gelada correu pelo vão deixado entre a coberta suspensa e o chão.
Seus pulmões congelaram, seus olhos arregalaram-se ainda mais, a respiração cessou por completo.
O edredon começou a ser erguido.
Um dedo gelado pecourreu-lhe o corpo do fim da coluna até sua nuca, fazendo-o estremecer.
O edredon erguia-se devagar, à medida que o frio adentrava seu esconderijo.
Uma lufada de vento bruta estapeou-lhe o rosto, quase o fazendo fechar os olhos.
Naquela escuridão pesada e palpável, eis que surgiram.
Eles.
Os dois rubis flutuantes, a uma distância mísera de seu rosto.
Ele abriu a boca, mas as cordas vocais demoraram demais a responder.
A luminosidade avermelhada deu lugar ao brilho claro de caninos afiados que abriam espaço para uma língua comprida demais para ser humana.

Na casa ao lado, Melina ouviu um grito que parecia ter a voz de Tim.
Não deve ser nada...
Voltou a dormir e, naquela mesma noite, sonhou com um par de rubis a flutuar perto dela.

Ps.: que saudades de escrever minhas babaquisses aqui! Onde vende TEMPO mesmo?
Natália Albertini.

Um comentário:

Rebs disse...

Contribuindo pro meu medo de escuro.