sábado, 9 de fevereiro de 2008

Pena e Tinta.

Ewan McGregor & Nicole Kidman - Come What May
<\embed> src="http://www.mp3tube.net/play.swf?id=6a89dfde3cf20020dac8888b15546983" quality="High" width="260" height="60" name="mp3tube" align="middle" allowScriptAccess="sameDomain" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" wmode="transparent" menu="false"

Annemarie tinha os ruivos e cacheados cabelos presos para cima, com exceção de uma fina mexa que escorria-lhe pela nuca propositalmente. Trajava naquele dia um vestido azul celeste, igualmente pomposo aos outros que tinha, porém com alguns diferenciais. O espartilho lhe esmagava o tronco e fazia seus seios praticamente saltarem para fora. A saia era rodada e armada, ao contrário da parte superior do vestido, que, como de costume, era bastante justa.
Estava sentada numa confortável e grande cadeira que era estofada com uma almofada estampada. Sobre a mesa à sua frente, havia um tinteiro, uma pena e uma folha de papel ao lado de um pequeno e amarelado envelope. Preferia escrever a carta a mandar um criado fazê-lo.
Era de uma influente família francesa da Idade Moderna e, assim como todas as damas, tinha um casamento arranjado com o filho de um barão.
Sua união conjugal havia sido arranjada desde que tinha três anos e meio. Se casaria dali a um ano, mais ou menos, uma vez que já havia alcançado seus quatorze anos de idade. Estava a escrever uma de suas cartas para Bernard, seu futuro marido. Haviam habituado-se a trocarem correspondências há uns dois anos, simplesmente por curiosidade de se conhecerem mais.
Bernard dizia que também preferia escrever a mandar um serviçal fazê-lo. Aliás, nenhuma das duas famílias sabia que eles trocavam cartas. Ambos entregavam as correspondências nas mãos de seus criados mais leais e se asseguravam que ninguém saberia de nada.
Annemarie havia sinceramente encantado-se com as sutis e agradáveis palavras do rapaz desde a primeira carta que recebeu. Em meio a palavras, compartilhavam alegrias, tristezas, inseguranças e certezas. Tinha quase certeza de que estava apaixonada por ele, entretanto, não estava tão certa assim. Não sabia explicar, sabia apenas que tinha sérias e profundas dúvidas.
Por um lado, sentia-se deleitada com a personalidade que Bernard demonstrava ter por meio de suas cartas. Poderia quase dizer-se apaixonada. Porém, por outro lado, sabia que sentia-se assim apenas por ele ser o único homem com o qual relacionara-se de maneira mais profunda. O único homem que teria a chance de desposá-la. Não tinha outras opções, logo, seu corpo havia aceitado-o como única alternativa.
Após terminar de escrever, entregou o envelope à criada Charlotte para que fizesse chegar até Bernard. Sentou-se ao parapeito da janela e pôs-se a pensar no encontro deles.
Será que realmente ele era tudo que suas palavras mostravam? Ou será que as palavras apenas serviam para não denunciar algum tipo de personalidade arrogante e bruta?
Será que ele veria na pequena Annemarie uma esposa prendada e desejável? Ou será que mesmo depois de tudo, ela não passaria de um casamento arranjado?
Será que formariam um belo casal? Ou será que apenas os prestigiariam por respeito?
Será que ele seria tão confiante e galanteador quanto suas letras e poesias? Ou será que, na verdade, mandava um serviçal escrever as cartas para que não perdesse tempo de caçada?
Será que algum dia chegariam a trocar votos sinceros de amor eterno? Ou será que só seriam eternos graças à união matrimonial?
Será que se não gostasse de Bernard, poderia usar suas palavras para enforcar-se? Ou será que elas serviriam apenas de cortejo secreto a algum outro cavalheiro respeitoso?
Será que os olhos de ambos brilhariam ao enxergarem as almas um do outro? Ou será que brilhariam apenas pelo reflexo das jóias?
Será que ela algum dia conheceria o que realmente era o famoso amor? Ou será que não passaria do respeito?
Será que algum dia teria menos dúvidas e mais certezas? Ou será que toda sua vida seria de falsos sentimentos, falsos sorrisos, falsas lágrimas e reais decepções?
Será que algum dia serviria para algo mais que apenas estabelecer a paz entre duas famílias influentes?
Será que a tinta de sua pena havia servido como veneno? Ou será que havia servido apenas como anestesia?

Natália Albertini.

2 comentários:

Hobbit disse...

um bom texto como sempre, quase uma escritora proficional xD
=***

Leka disse...

profiCional acho que não, mas talentosa sem dúvida