quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tato.

Eu ia fazer um texto poético e narrativo, ia me descrever sentada naquela sala de estar tão espaçosa, descalça, sentindo a textura do sofá florido sob meus pés e a cortina batendo bem de leve em minha nuca.
Só que ai eu lembrei que a TV não está mais lá, e foi aí que as lágrimas começaram a saltar de meus olhos mais uma vez.
Sabe, eu suprimo essa dor todo dia, a cada olhar não lacrimenjante e a cada sorriso que forjo. A cada "sim" que respondo pra cada "tudo bem?" que me perguntam.
Mas tem dias que não consigo simplesmente engolir, tenho que vomitar de novo essas vísceras já, infelizmente, familiares.
A chuva que cai agora é fina e incisiva. Tenho vontade de sair no seu quintal e sentir essa água me lavar, queria ter a fé da Evey, queria acreditar que você, vô, pode estar na chuva. Assim, nos tocaríamos mais uma vez.
Fui à sua casa domingo.
Quando chegamos, meu pai foi ao banheiro e me deixou sozinha naquela imensidão da sua casa.
Meus dedos, por vontade própria, foram dedilhando os objetos de que se aproximavam.
Minhas pernas me levaram de cômodo em cômodo, meus olhos me encheram a mente de boas recordações, embora profundamente dolorosas. E o cômodo que mais me prendeu foi o seu quarto. Sem você.
Desculpe, vô, eu não consegui entrar lá. Me desculpe...
Eu sei que me contradigo ao colocar seu nome em meus vocativos, pois você sabe o quão não-espiritualista eu sou, me contradigo ao usar uma conjunção adversativa pra começar um parágrafo, mas, desculpe-me, esse texto não é pra ter um começo e um fim. Até porque não vejo como pôr fim a essa minha dor.
E sabe o que mais me doeu muito no domingo?
Antes de sair de sua casa, vi meu pai parado na soleira da porta do quarto do pai dele, exatamente como eu o fiz, exata e igualmente paralisado pela dor de não te ver ali. E eu não pude abraçá-lo. É, covarde que sou, simplesmente me afastei e disse "vamos".
Meus tios já falam de chamar algum corretor de imóveis para avaliar a casa, a família inteira se mobiliza para tirar móveis antigos, dividir bens etc. Mas eu não quero isso. Eu quero sua casa lá, com tudo lá, com minha memória lá. Com você.
As sensações tácteis que me sobram de você me provocam dia após dia, sinto sua unha quebrada sob meu polegar, sua casquinha de pele sob meu indicador, no hospital. Seu cabelo grisalho entre meus dedos. Sua pele enrugada, suas manchas, seu nariz, seus grossos óculos, seus olhos.
Elas só são substituídas por minhas próprias unhas dilacerando minhas próprias costas. E aí vejo esse sangue sob minhas unhas e só consigo pensar que é, em parte, seu sangue também.
Agora tomo um bom gole de lágrimas para settle down tudo isso.
E, de novo, mentir para meus alunos, dizendo que estou bem, sorrindo para suas gracinhas e fingindo que, nesse instante, eles são minha maior preocupação.
Saudades infindáveis.

Natália Albertini.

2 comentários:

Dayana Sartorio disse...

Como gostaria que você entendesse como entendo agora.
Que existe todo um sentindo para tudo que se passa aqui e acolá. Que o mundo não é essa bola de plástico mas que existe algo extraordinariamente perfeito num mundo paralelo a esse.
E é ligada a essa certeza que hoje não sofro mais, mas espero, pois sei que em breve estaremos juntas novamente eu (muitas pessoas queridas) e aquela que amei com tal imensidão de igual valor ao que se refere neste texto tão verdadeiro e profundo e assim quem sabe você não iria mais fingir e sim viver de maneira livre e feliz sabendo da certeza verdadeira e não fictícia do mundo em que vivemos.
Sempre aqui quando quiser falar sobre isso!

Rafa. disse...

Que belíssimo texto.

Conseguistes retratar no papel de forma perfeita e intacta um sentimento de perda que te fere após determinadas lembranças. Não sou nada espiritualista também, mas de fato poucas coisas se explicam em momentos como esse, só posso te dizer uma coisa que eu tenho certeza: A saudades a gente pode matar e a falta, infelizmente não. As lembranças viram lindas memórias e as lágrimas que doem, com o tempo, tornam-se a lembrança de que aquilo que foi passado... São os momentos mais marcantes da tua vida.