sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Poliglota

Os cabelos lhe caíam ao rosto, desembaraçados e insistentes.
A coluna não tinha boa postura: se inclinava para que as mãos pudessem trabalhar melhor.
Concentrava-se de forma pesada na foto que começava a aparecer no papel gelatinado imerso na bacia de revelador.
O cronômetro batia os primeiros dez segundos da leve agitação que ainda devia ser levada até um minuto e vinte a mais.
Ela tinha o corpo envolto pelo ambiente rasamente iluminado por alguns spots de luz vermelha.
Sentiu, então, outro corpo pressionar-lhe contra a bancada. Outro pescoço pressionar-lhe o seu.
Ele inalou o ar com força, enquanto ela arfou.
Ambos sorriram.
As mãos dele eram voluptuosas e rápidas. Acharam logo o caminho de sua cintura e, então, por dentro de suas pernas, beliscando-as bruscamente.
Ela jogou um dos braços para trás e puxou-lhe com força os cabelos da nuca.
Antes do cronômetro alcançar os nove minutos, os corpos já se enroscavam felinamente, rasos, vermelhos. Madrugada a dentro.


Muitas vezes depois de reiniciado o cronômetro, a vermelhidão luminosa parecia nascer das paredes, brotar do chão.
Contudo, seu aspecto não era lá muito imaterial. Era, au reverse, viscoso, de dar água na boca.
O corpo dela fora varrido dali, mas, como recordação, ele deixou, boiando junto ao papel encharcado de química, a língua dela.

Ps.: sorry pela ausência, mas semana corrida, finally! *-*
Natália Albertini.

4 comentários:

Bebê disse...

LOUCA!

Rafa. disse...

Texto forte, objetivo de uma forma diferente e que retrata um momento ou quem sabe algum episódio que acontece várias vezes de um jeito particular. Gosto disso.

Consigo levar o teu post como uma analogia para a vida. De que forma? Da forma subjetiva que cada um tem de observar o cotidiano.

Beijo!

Letícia disse...

sempre tenho paciencia pros seus textos... Vc é tipo um king 2

Kedley disse...

"Quando tocada por traz com o deslize firme das mãos, surgiu nela um aperto no peito paralisando sua respiração. Aquilo correu para o baixo ventre dela se transformando em um aperto prazeroso que acendia e aos poucos ia queimando-a por dentro"

Consigo assistir seus textos Honey, liked your stuff!