sábado, 17 de setembro de 2011

Camisa azul.

Levantei do sofá de cores pastéis e comecei a andar pelo corredor, com os pés descalços no chão gelado e claro, devagar.
Passei pelo quarto, à esquerda, com a cama de casal e a penteadeira, tão familiares.
Passei pelo segundo quarto, também à esquerda, com suas duas camas de solteiro, suas colchas coloridas, a escrivaninha e seu computador e a janela aberta, deixando entrar o sol da tarde.
Passei pelo banheiro, à direita, esplendorosamente grande e claro, com um espelho a me refletir a imagem desgrenhada e trêmula.
Cheguei à cozinha, onde passamos tantos natais e dias comemorativos, comendo e falando alto, rindo e nos censurando, com sua mesa de madeira e seu respectivo furinho, lascado, à ponta, o qual meu polegar já está cansado de saber how it feels to touch it.
A cortina levantou-se um pouquinho com a movimentação do ar, revelando a tesoura escondida no parapeito da janela, e voltou a abaixar-se.
Pisei, por fim, na varanda. Naquele granito verde escuro gélido e acolhedor.
A churrasqueira, a máquina de lavar e os dois tanques me cumprimentaram em silêncio.
Me aproximei da borda do degrau da varanda para o quintal, perto dele.
Ele vestia uma calça social preta, sapatos pretos, e uma camisa azul bem abotoada.
Tinha os olhos de menino por detrás do óculos grossos e o cabelo grisalho, mas cheio, acariciado pela brisa vespertina.
O sol tocava de leve sua pele enrugada e seus cílios, suas mãos italianas manchadas e também as plantas do jardim que eu tanto amava.
Me postei atrás dele e o abracei, envolvendo seus ombros com meus braços e pousando meu queixo em seu ombro.
Ele respirava fundo, com dificuldade, forçando o ar a preencher seus pulmões.
- Por quê? - me ouvi dizer.
- Porque, menina - um golpe em meu estômago ao ouvi-lo me chamar assim - era hora.
Meneei a cabeça.
- Não, ... Por quê?
Ele não respondeu, continuou fitando o vazio, mas então levou uma das mãos a meu braço e me tocou, presente.
Lágrimas frias me escorreram pela face, rolando, desobedientes, enquanto sentia um novo bolo delas me escalar a garganta.
- Menina... - de novo ele me chamando assim, cada vez mais distante.
O chão verde e gelado começou a ceder sob meus pés.
Me agarrei a ele, a aquele homem que era tanto pra mim. Que fora.
Apertei-o com força entre meus braços, mas ele parecia esvair-se.
O bolo de lágrimas subindo e subindo.
Forcei as pálpebras umas contra as outras, senti meus cílios encharcados e abri meus olhos, não só marejados, mas oceânicos.
Meus braços entrelaçavam-se um no outro, minhas pernas esticavam-se, buscando o chão verde, e meu rosto descansava numa fronha molhada, bem como meu corpo, num lençol amarrotado.
De volta pra essa casa, mas sem aquela.
Sem o que um dia foi parte de mim.
Sem ele.
Sem vontade alguma de levantar e continuar.
Contudo, levantei.
A ânsia que tive foi maior, me revirou o estômago.
Despejei no chão o vômito quente e sanguinolento.
Tudo o que dentro de mim se abriga há mais de um ano: falta de você.
E de nós todos.

Natália Albertini.

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