sábado, 8 de janeiro de 2011

Bandeira vermelha.

No ônibus, estava sentada a um banco ao lado da porta de trás.
Vestia uma saia que lhe ia até o meio das canelas, preta, meio enrugada, que lhe avolumava os quadris e ressaltava-lhe as pernas. Um sapato de meio-salto e uma regata vermelha. Nada às mãos, exceto alguns anéis e pulseiras.
Os olhos longínquos miravam o sol.
Do primeiro banco, levantou-se ele. Caminhou até a porta traseira.
Era alto, vestia calça risca de giz, cinza, e camisa meio aberta, preta. Os ombros cresciam largos, e os antebraços deixavam veias à mostra, bem como pulsos brutos. O pescoço subia rude, rasamente barbado. O maxilar ia largo, quadrado, e os olhos...
Bem, os olhos prenderam-se nela por alguns instantes, sem fazê-lo perder o equilíbrio, contudo.
Ela tomou consciência da figura altiva, e fez com que os olhos se resvalassem, faiscando, propositadamente.
Por cima do ombro direito, ela percebia que ele a olhava incessantemente de soslaio. Ela, satisfeita, sorria de canto, sem lhe dirigir outro olhar, orgulhosa.
Pouco antes de sua parada, ela se levantou.
Ficaram ali, lado a lado, esperando o ônibus parar.
A atmosfera pesada de desejo e orgulho. Um não se atrevia a olhar o outro, mas o mísero toque dos braços os despertavam.
O veículo parou enfim.
Ele se precipitou em descer os degraus.
Quando ela segurou a barra da saia para fazer o mesmo, ele virou para encará-la e lhe estendeu a mão para que descesse em segurança.
Os olhos se acenderam de novo.
Ela cedeu-lhe a mão.
Ele então a puxou com brutalidade, colando os corpos.
Olhos.
A mão dele, à sua cintura. A dela, a seu ombro.
Ele a empurrou, ela deu um passo para trás.
Um gancho.
Um ocho.
Ela subiu a perna pela dele, deixando a saia mostrar uma das coxas.
Dançaram um tango arrogante, orgulhoso, bruto, violento, travado e sangrento.
Era quase como se se espancassem.
Ele a guiava, imponente.
Ela o obedecia, furiosa.
O tango foi interrompido, assim como começou, brutamente.
Ele, com um truque de mãos, fez aparecer uma rosa, e a colocou sobre a orelha dela, como que num ato de paz. Um aceno de bandeira branca.
Se foi.
Ela tomou a caminhada para seu destino.
Sorriu de canto ao lembrar do acontecido e pensou ter vivido um devaneio, uma ilusão.
Foi quando, ao ajeitar ao cabelo, deu-se por conta da rosa ainda presente, mais vermelha do que nunca.

Ps.: ao som de Gotan, é claro.
Ps2.: qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência! [;
Natália Albertini.

Um comentário:

Rafa. disse...

Qualquer sensação que os leitores do teu blog tenham de que teus textos são reais... Não é mera coincidência.