domingo, 27 de maio de 2012

Veludo.

Ela corria.
As gotículas daquela chuva morna caíam-lhe ao rosto.
A capa de veludo verde escuro ondulava às suas costas, o capuz tapava-lhe os olhos a cada passada.
Os galhos estalavam a seus pés, as árvores a observavam, serenas e notívagas.
A noite pesada preenchia o bosque.
Ela sentiu o cheiro do rio gelado mais à frente, correndo como ela.
Alargou ainda mais os passos, esquentando o corpo que horas antes tremia de frio.
Alcançou, por fim, a margem daquele corpo lânguido e azul. Escuro. 
Ela agachou, ouvindo os gritos cada vez mais próximos daqueles que a caçavam.
Enfiou a mão no bolso direito com rapidez e segurança, sentindo o toque aveludado do tecido denunciando a chave escondida ao fundo.
Determinada, deixou a chave escorregar de sua mão, mergulhando no rio gélido e imponente.
A chave voltaria para ela, tinha certeza disso, quando mais tarde a procurasse. Para a mão deles, jamais.
Pôs-se de pé, de costas para o rio, de frente para os homens que se escondiam a menos de 10 metros na escuridão aveludada como sua capa.
Puxou de sua cintura o punhal talhado, empunhando-o com firmeza.
Que viessem.
Venham. Venham aqui, incrédulos.
Eles vieram.
E sangue - muito sangue, Senhora - alimentou as raízes das árvores famintas.


Natália Albertini.

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