segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Lupo.

Era sempre naquele mesmo horário, quando a luz já quase sumiu do céu, e você não sabe ao certo se o seu dia já está acabando ou se ainda está sonhando, que eu, todos os dias, trocava olhares com ele.
Ele quase sempre me correspondia. E quando não o fazia, ah... Que dor... Meu dia acabava ali mesmo.
Ele tinha pra ele um quintal sujo e escuro, um portão já bastante enferrujado, e quase nenhuma atenção. Exceto talvez a minha, que ultrapassava o limite de qualquer outro pedestre que por ali passava, aposto.
Eu atravessava a rua e andava por aquela calçada ansiosa por vê-lo, ansiosa por brincar de quem desvia o olhar primeiro (eu sempre perdia). E quando eu chegava ao portão daquela casa... Mal sei explicar o sentimento que me acometia.
Meu amigo era bastante grande e muito peludo. Os pelos eram escuros, e o fucinho, bem longo. Se assemelhava muito mais aos seus parentes lupinos que a outros cães. 
Os olhos, contudo, assemelhavam-se aos de humanos. Cheios de significados ocultos. Oblíquos, mas não dissimulados.
Tragavam-me vez após vez, sem falhar.
Palavra, jamais trocamos. 
Gostaria, contudo, que ele soubesse o tamanho da minha vontade de afagar-lhe os pelos. De fazer-lhe carinho. E de tê-lo me esperando ali no final de cada dia, pra todo o sempre.
Sempre me olhando, silenciosamente me respeitando e, no fundo, também aguardando por aquele momento.

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