domingo, 3 de julho de 2016

Aos trancos, pro barranco?

O pé ia mais e mais fundo no acelerador.
Trocou de marcha rápido.
Passou a mão esquerda pelo lábio e a viu se encher de sangue.
Puta merda... Puta merda.
Segurou o volante com a mão direita e, com a ensanguentada, rolou a tela do celular.
O carro ia aos trancos pra frente, até desembocar na rodovia.
O jeans rasgado ao joelho direito e mais sangue lhe escorrendo pela têmpora.
Os 130km/hr pareciam não dar conta de deixar aquele pesadelo pra trás.
Ela tinha feito de novo!! Puta que pariu!
Ele meteu o pé no freio e encostou na beira da rodovia, perto de um córrego. O mau cheiro lhe estapeando e a noite ficando mais escura.
Desceu do carro e acabou deixando a porta manchada de sangue ao batê-la.
O sinal do celular não voltava.
VOLTOU!
Ele apertou logo o botão de chamar e aguardou alguns segundos.
Enquanto aguardava, limpou a mão de sangue no jeans e passou o braço da jaqueta na boca e na têmpora, secando o sangue dali.
- PORRA, achei que não fosse atender. Ela... De novo... Não, não... Não, não, não. ELA, porra, tô te falando.
O ar gelado e quase nenhum carro passando à frente. O cabelo encharcado na nuca e a bateria do celular apitando.
- EU SEI! Eu sei, mas ela não apareceu... Só me armou outra.
Ele enfiou a mão no bolso e rodou o pequeno objeto que guardava desde o último quase-encontro.
Rodou-o nos dedos e o deixou, por fim, quieto, ali de volta.
- Tá, tá. Tá, eu sei. Vou praí.
Afundou o celular no outro bolso, bateu a porta do carro e arrancou noite adentro.

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