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Contra as leis

Sete horas da manhã. Estação cheia. O fluxo de pessoas vai para São Paulo, é notável, não é preciso perguntar individualmente qual seu destino, afinal, as escolas, universidades, maiores concentrações de emprego, comércio e oportunidades estão lá, no centro, na cidade que não pára. Vê-se o trem chegando, preparam-se, bolsas a frente do corpo, posição de quem vai para a luta. Primeiro desafio do dia: Entrar no trem. Em meio a empurrões, manobras com o corpo, xingamentos, desafiam as leis da física e provam que não só dois, mas sim vários corpos ocupam o mesmo lugar. A porta se fecha e um pensamento vem à mente: “ Constituição da República Federativa do Brasil de 1988” lembra-se, “Artigo 1, A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos... parágrafo 5, a dignidade da pessoa humana.” A dignidade da pessoa humana. Não conseguia encontrá-la em meio ao apert...

A língua.

Silêncio e a mais pura escuridão. Tentou ao máximo calar a respiração que, ofegante, parecia alta demais ali debaixo, poderia denunciá-lo a qualquer momento. O chão poeirento debaixo da cama lhe fazia querer espirrar. Não, agora, não! Torceu o nariz e deixou os olhos, igualmente irritados, bem abertos. Prendeu a respiração por segundos para apurar os ouvidos. As últimas passadas haviam sido há mais de seis segundos. A adrenalina lhe corria as veias desenfreada, ansiosa, comendo-lhe o sangue. Por sorte, quando havia descido do colchão até ali, o edredon havia descido um pouco, cobrindo seu esconderijo - o mais seguro que pode achar em meio ao desespero dos passos pesados no piso ebúrneo . Uma brisa gelada correu pelo vão deixado entre a coberta suspensa e o chão. Seus pulmões congelaram, seus olhos arregalaram-se ainda mais, a respiração cessou por completo. O edredon começou a ser erguido. Um dedo gelado pecourreu -lhe o corpo do fim da coluna até sua nuca, fazendo-o estremecer. O ed...

De ponta-cabeça.

Ele forçava suas pernas para fora. Ela apoiou-se sobre os braços na pia e envergou o pescoço, deixando a cabeça cair pra trás, encarando seu reflexo embaçado de ponta-cabeça. A pressão no meio de suas pernas fazia a parte inferior de sua virilha se esquentar surpreendentemente. Deixou a cabeça cair ainda mais e então o viu. Ela sentia o peito dele roçar sua cintura e seu abdôme. No reflexo, viu aqueles olhos manchados de vermelho e aquela boca com dentes sujos de visco rubro escalando o meio de seus seios. Ele fincou os caninos ali e fez o sangue escorrer por seu corpo desnudo. Ela não conseguia levantar a cabeça. A sensação simultaneamente gelada e quente a dominava, deixando-a mole. Apertou os próprios olhos e ficou vendo o reflexo ensanguentado e de cabeça para baixo comer-lhe. Natália Albertini.

Crazy Diamond.

Sentiu o lençol sob si, o camisetão subindo e deixando a pele da cintura em contato com o algodão do edredon . Remember when you were young ? You shone like the sun . O refrão, melodioso. Afundou o rosto no travesseiro e estralou a parte interna na coxa direita, pondo-se de bruços, numa posição que ninguém além dela acharia confortável. O resto de sol esguio e poeirento se infiltrava no quarto, arrastando-se silenciosamente pelo chão lígneo . Now there 's a look in your eyes , Like black holes in the sky . O refrão, adocicado. Respirou fundo. Deixou as pálpebras se beijarem, os cílios se abraçarem. Entrou no sono. Ps .: já pode fazer isso? x.x Natália Albertini .

Arriverderci.

Eu andava despreocupada pela calçada da larga avenida, sibilando a música que ouvia. Tinha os óculos de sol me protegendo os olhos da claridade infinita e os cachos me caindo em cascata sobre os ombros. Uns dez metros à frente, uma velhinha entrava em meu caminho, vindo em minha direção, vagarosa, com uma bengala, óculos grossos e cabelos adocicadamente avermelhados. - Vamos trocar? - ela me dirigiu a palavra quando passei por ela. Eu a olhei, mais baixa que eu, diminuí o volume, e fiz uma cara interrogativa. Ela prosseguiu: - Eu fico com a sua idade e você, com a minha. Abri um largo e sincero sorriso, olhando-a aos olhos e pondo os óculos no topo da cabeça. - Vamos fazer assim: nós dividimos e ficamos as duas com a mesma idade, que acha? Ela abriu um lindo sorriso de volta, feliz com a sugestão. - Quantos anos você acha que eu tenho? - ela me perguntou. Eu sabia que ela tinha mais de oitenta, mas não era isso que ela queria ouvir, então me curvei à sua expectativa: - Setenta e cinco?...

Sangue ao canto dos lábios.

Três. Ela estava sentada no muro, com as pernas bem abertas, completamente à mostra nos shorts curtos e listrados, e o torso coberto, exceto pelos ombros, com uma camiseta de alguma banda de heavy metal. Seu cabelo estava revirado, abrangente e volumoso. Os lábios, molhados de cerveja, avantajavam-se num vermelho profundo, enquanto que os olhos se acinzentavam. Um de seus braços enlaçava o pescoço de um deles, cuja mão segurava firme e possessivamente sua cintura, com os dedos adentrando a peça listrada. Ele, à direita, tinha um dos joelhos dobrados, mais próximos ao corpo. O cabelo enegrecido contrastava com sua camisa branca. Seu cenho era carregado, seus olhos, avermelhados. Na mão livre, um cigarro fumegante. A fumaça saindo de sua boca. Do outro lado, com uma cerveja na mão, ela tinha o outro apoiado sobre uma de suas coxas. As pernas dos dois perpassavam-se. A mão dele aproximava-se muito da virilha dela, quase ao término dos shorts . Ele tinha os olhos injetados , arroxeado...

Camisa azul.

Levantei do sofá de cores pastéis e comecei a andar pelo corredor, com os pés descalços no chão gelado e claro, devagar. Passei pelo quarto, à esquerda, com a cama de casal e a penteadeira , tão familiares. Passei pelo segundo quarto, também à esquerda, com suas duas camas de solteiro, suas colchas coloridas, a escrivaninha e seu computador e a janela aberta, deixando entrar o sol da tarde. Passei pelo banheiro, à direita, esplendorosamente grande e claro, com um espelho a me refletir a imagem desgrenhada e trêmula . Cheguei à cozinha, onde passamos tantos natais e dias comemorativos , comendo e falando alto, rindo e nos censurando, com sua mesa de madeira e seu respectivo furinho , lascado, à ponta, o qual meu polegar já está cansado de saber how it feels to touch it . A cortina levantou-se um pouquinho com a movimentação do ar, revelando a tesoura escondida no parapeito da janela, e voltou a abaixar-se. Pisei, por fim, na varanda. Naquele granito verde escuro gélido e acolhed...