Postagens

Metade de mim.

5 de janeiro de 2020. 2020... Esse é, mais uma vez, um novo impulso de voltar a escrever. De me revirar a mim mesma e tentar olhar pra dentro. Eu já falei isso tantas vezes, já tentei e já falhei tantas vezes... Acabei de abrir meu próprio blog e percebi que as primeiras postagem datam de 2007. Isso aqui tem 13 anos - exatamente metade da minha vida. Tem no mínimo uns 8 que ninguém além de mim lê nada por aqui. E quem leria, né? Se nem eu mesma me dou ao trabalho de ler e sequer de escrever. Digo que me faz mal reler coisas antigas que eu mesma me escrevi, que me faz reviver sentimentos indesejáveis. Acho que, no fundo, me faz me sentir nostálgica e triste de não ser mais tão jovem nem ter mais o mesmo vigor e a mesma cabeça borbulhante. Acho que me tornei cada vez mais cinza. Porra, 13 anos fazem muita diferença after all. Eu tinha 2 grandes sonhos na vida: morar em Londres e ser uma escritora muito foda. Eu não achei que algum dia fosse realizar nenhum deles. Bom, já ...

Marcela

Tinha um ás, um valete e um quatro de copas em mãos.  Os casais à sua frente riam e jogavam suas cartas, felizes de vinho. Ela sorria junto, mas a mente começava a divagar. - Marcela, joga logo! Eu já falei! - o pai lhe beliscava o cotovelo na poltrona apertada do avião - Ai, pai! Eu não consigo clicar nesse. - Meu Deus do céu, Marcela, eu já falei, porra, é aqui e depois aqui. - Aqui, pai? - É, vai logo. - Tô fazendo certo, papai? Silêncio do pai, olhando pela janela o céu ensolarado. - Mamãe, olha, tô jogando baiaio! - Ai, filha, é BA-RA-LHO. Puta merda... - expirando ar quente, cansada e desatenta. A franjinha de Marcela lhe caía aos olhos. Ela se esforçava o máximo que podia para clicar na carta certa que o celular lhe mostrava, mas os números e cores eram confusos, ela não sabia ao certo qual... E se clicasse errado, papai ia beliscar de novo e de novo, e ela não queria. Tentou cutucar mamãe para pedir ajuda escondido, mas ela tirou a mão quando sentiu os dedinho...

Saudades da Bahia

O barulho do mar já ia longe, quase não se ouvia. Ele abriu o portãozinho, que rangeu lhe dando boas-vindas. Arrastou o pé com as chinelas já gastas pelo ladrilho do quintal comprido, se esgueirando para passar no corredor estreito sem derrubar os chapéus e redes que tinha na mão. Lá do fundo da casa, veio correndo Preta, com as patas sujas e o pelo desgrenhado. - Ôh, Pretinha, cheguei, minha flô - acariciando a cabeça da cadela. Ela latiu, pulou e se jogou com a barriga para cima, com fome. - Hoje vai sê o mesmo pão de ontem, visse. Não vendi um chapéu que fosse, Preta. Sílvio apoiou os badulaques ao chão, com cuidado, e olhou para o céu. Fechou os olhos que tanto lacrimejavam, cansados da areia. Abriu os ouvidos e ouviu distante um forró animado, com "ooohs" e "aaaahs" de gente feliz. Quase conseguiu sentir o calor emanando dos casais ouriçados e cheios de cerveja. Sorriu pequeno e inspirou. Que saudades da Bahia.

Ela

TumtumtumtumtTUMTUM TUM Ssssssssssssssssssssssssssss TumtumtumtumTUMTUM TUM As janelas tremiam, quase se soltando. O vento não derrubava a casa por pouco. A caneca fumegava café e afogava todas as ideias. As mãos com caminhos falhos deitavam sobre o teclado, imóveis. A tela brilhava mais para o azul, e o documento continuava limpo. De novo, ele tomou um gole do café tão amargo que fizera. Olhou pela janela. TumtumtumtumtTUMTUM TUM Uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuhhh O vento uivava para ele com desdém, reduzindo-o a sua insignificância e incapacidade de escrever uma página sequer. Ele voltou o olhar à tela em branco. Inspirou profundamente, passou os dedos uns nos outros e expirou, desapontado. Já passava do 2º ano agora e ainda não havia saído do título. Só o que tinha encabeçando a página e a si mesmo era esse maldito título: Ela. Ssssssssssssssssssssssssss

Clareia

Leve abrir dos olhos. Gosto de cerveja ainda na boca. Inspira. Expira. O dia já vai claro, mas a noite de ontem ainda parece próxima. Rasa tontura Ele respira também, profundo. Seu peito sobe, e desce, junto com minha cabeça. Abro mais um pouquinho os olhos. Meu nariz encosta seu queixo. Inspiro mais uma vez. Beijo seu ombro, me aninho melhor, beijo seu pescoço. Não há melhor manhã que essa.

Vá.

A cabeça era um espiral só. Uma névoa tão grande por detrás dos olhos que mal se via no espelho que ficava à sua frente. Sentada na cama, ainda lhe parecia que faltava o chão. Os mesmos questionamentos, todos os dias, pelo milésimo dia consecutivo. Por quê? Pra quê? Pra quem? Até quando? Já não aguentava mais. Pois levantou-se num impulso único, deu seus passos pesados, passou a mão na chave do carro e na jaqueta, e bateu a porta atrás de si. Foi-se.

Outra vez.

Mais uma vez, a morte me pega de sopetão. Numa sexta à noite, quando tudo ia bem, a morte veio pelo telefone, nos deprimir, nos revirar. "Infelizmente, ela não aguentou", foi a mensagem passada. Muita correria, meus pais viajaram na madrugada com meus avós para chegarem até meu tio, lá no Sul. E estamos nos falando por whatsapp por enquanto. Minha mãe diz que está tudo até que bem, sem muito choro... Mais de vinte anos, fazia, que ela teimava com o câncer em deixá-la por aqui mais um pouco. "Foi melhor assim pra ela", a gente tenta se consolar... Foi? Será? É engraçado como a gente tenta achar meios de aliviar a dor. Eu sei, tia, que a gente não se via há um tempão. Mas sei também que o amor era puro. Assim como meus cachos sempre nascem loiros e o seu cabelo sempre nascia tão preto e forte, como você sempre brincava. Isso ai. Outra vez você vem mostrar seus caninos e me derrubar.  Parabéns, você não erra nunca, desgraçada. Espero que um dia se depare...