segunda-feira, 26 de maio de 2008

Eu não demoro.

Sentou-se no banco frio de pedra escura com os dois pés no chão e os joelhos flexionados. Com a mão esquerda tirou o velho chapéu marrom que tinha o mesmo tom da calça e era um pouco mais escuro que a camisa. Após ter deixado o acessório a seu lado no banco, passou a mesma mão pelo cabelo, ajeitando os fios que, apesar de terem sido fixados com gel, haviam levantado. Seu cabelo era grisalho e liso, sempre penteado para trás, longo apenas o suficiente para alcançar-lhe a nuca.
A grama, que, a propósito, era mais verde ali que em qualquer outra parte do grande espaço, podia sentir o cuidadoso toque do solado do sapato marrom escuro do ancião. A grande árvore que envolvia aquela pequena região em sombra era capaz de sentir o sutil cheiro de muito escasso suor que brotava na raiz do algodão. O homem não suava de calor, mas, sim, de nervoso. Apesar de tantos anos juntos, sempre ficava apreensivo quando ia falar com a mulher.
Suspirou de forma completamente profunda e passou as mãos pelas pernas até pousá-las nos joelhos. Enfim esboçou um resquício de voz:
- Oi, querida.
- Olá, meu bem - respondeu ela numa voz baixa e vacilante.
- Como você está hoje?
- Estou bem. Demorou a vir me ver.
- Sim, me desculpe por isso, houve um imprevisto.
- Que houve?
- Helena teve um surto.
- Um surto?! - a terra subiu e desceu nem tão delicadamente com a surpresa.
- Sim, um surto.
- Mas por quê? Como? Quando?
- Calma, eu explico. Você sabe que todos esses anos têm sido muito difíceis para todos nós, mas Helena sempre foi a menos resistente...
- Sim, eu sei, mas esses surtos estavam menos frequentes ultimamente, não?
- Estavam, sim. Mas a psicóloga disse que este último ataque não foi tão preocupante quanto aqueles dois primeiros.
- E como aconteceu?
- Isso é mesmo relevante? - ele apertou os dedos no joelho direito, visivelmente nervoso.
- Não, tudo bem...
- Por que você não... – e interrompeu o discurso, guardando o que quer que fosse para si mesmo.
- Por que eu não o quê?
- Nada.
- Diz, querido.
- Por que você não volta pra casa? – ainda receoso.
- Lá vem você... Já não conversamos sobre isso?
- Sim, mas não me convenci de que isso não pode ser colocado em prática.
- Já se passou tanto tempo, todos se desacostumaram a me ter em casa. Não sei se voltariam a falar comigo.
- Claro que sim. O mais improvável era eu voltar a falar com você, mas, veja, eu o fiz! Antes eu não tinha crença alguma, era completamente cético, mas então, com um pouco de esforço, me surpreendi.
- E sou-lhe imensamente grata por isso. Simplesmente não sabia o que fazer quando você não acreditava que eu queria retomar contato.
- Mas você tem que entender que é difícil, tem de compreender meu lado da história...
- Eu compreendo e não discuto mais com você por este motivo. Apenas lhe agradeço.
Ele respirou de maneira profunda ao mesmo tempo que ela. E então:
- Acho melhor eu ir embora. Helena pode estar precisando de mim.
- Sim. Mas não demore a voltar, por favor.
- Você sabe que eu não demoro.
O homem jogou o corpo para frente e caiu de joelhos, logo dobrando o dorso, apoiado sobre as mãos. Abaixou a face e beijou delicada e afetuosamente os lábios finos e ainda rosados da mulher.
- Você sabe que eu não demoro... – repetiu em forma da sussurro.
Então postou-se de pé, bateu as mãos na camisa e na calça para ajeitá-la e pôs o chapéu de volta na cabeça. Olhou uma última vez ao chão e, limpando os próprios lábios para livrar-se do gosto de terra, enfim partiu.

Natália Albertini.

Um comentário:

Gustavo Fialho disse...

muito bom, fiquei impressionado.